Letícia
O vento soprava leve naquela noite. A brisa fria do alto do morro me arrepiava os braços, mas eu não me mexia. Estava sentada numa velha cadeira de plástico, perdida nos próprios pensamentos. Acima de mim, o céu limpo revelava os contornos da lua com uma clareza quase mágica. Por um instante, deixei que aquilo me embalasse. Quase esqueci da dor. Quase.
— Eu vou sobreviver... — sussurrei para o vazio. — Por você, filho. Eu juro.
Foi quando ouvi.
Crac.
Um som seco, abafado, vindo da lateral da laje. Como o estalo de uma telha solta ou de metal sendo encostado com descuido. Meus músculos enrijeceram. O instinto me alertou antes mesmo da razão entender.
Girei lentamente a cabeça, os olhos varrendo a escuridão. Tentei me convencer de que era só o vento, mas meu corpo sabia. Não era.
Mais um estalo. Mais próximo.
Minha respiração ficou rasa. Me levantei devagar, cada movimento estudado, como se qualquer passo em falso fosse me entregar. A mão instintivamente repousou sobre a barriga. A proteção não era só por mim agora.
— Tem alguém aí? — minha voz saiu baixa, controlada. Por fora, eu soava firme. Por dentro, eu tremia como uma folha.
O silêncio respondeu.
Só o som distante de uma moto subindo a viela, a batida abafada de música eletrônica ecoando de uma das casas e meu coração martelando no peito como um tambor de guerra.
Dei alguns passos hesitantes em direção ao canto da laje. O muro improvisado me impedia de ver muito. Me estiquei e olhei por cima.
Nada.
Mas antes que o alívio pudesse chegar… uma sombra se moveu.
— Letícia?
Arregalei os olhos. A voz veio baixa, como um sussurro abafado, mas eu conhecia aquele tom.
Me afastei num salto.
— Quem tá aí?!
— Sou eu... Luca. — A figura saiu da penumbra, as mãos levantadas, o rosto parcialmente iluminado pela luz da lua. — Fica calma.
Demorei um segundo pra registrar.
Luca. O filho do braço direito do meu pai. Crescemos juntos. Sempre na dele, quieto, observador. Ele via tudo, falava pouco. E desapareceu por um tempo. Agora estava ali, de volta, como se tivesse saído direto das lembranças da infância.
— O que você tá fazendo aqui? — minha voz carregava desconfiança.
— Te procurando. — respondeu, direto, como sempre. — O Caio já tá atrás de você. Ele tem gente no morro. Já perguntaram pelo seu nome em dois becos diferentes.
O chão pareceu balançar sob meus pés.
— Como você sabe disso?
— Tenho escuta nos canais dele. Trabalho pros dois lados agora. — Luca olhou pros lados, depois pra mim. — Mas com você... eu sou leal. Sempre fui. Caio não vai parar, Letícia. Você sabe como ele é.
— Eu não vou fugir mais. — disse, sentindo a firmeza nascer na voz. — Não dessa vez.
Luca me olhou com atenção. Como se analisasse cada rachadura do meu rosto, cada linha da minha dor. Seus olhos não tinham pena. Tinham respeito.
— Então vai ter que se preparar. Vai ter que confiar em mim.
— Confiança é um luxo, Luca. E eu... — engoli em seco. — Eu já perdi tudo que me dava algum.
Ele não rebateu. Só respirou fundo, tirou algo do bolso e estendeu.
Um celular simples. Modelo velho. Sem rastreador, sem câmera. Coisa de quem conhece os riscos.
— Se mudar de ideia... me liga. Tô com você.
Peguei o aparelho com a mão hesitante. Era pequeno, leve. Mas o peso daquela escolha era imenso.
Luca deu um passo pra trás, depois mais outro. Mergulhou de novo na escuridão da laje como se fosse parte dela. Sumiu como um fantasma do passado… ou talvez a única chance de futuro que ainda me restava.
Fiquei parada ali, com o vento brincando com meus cabelos, os olhos fixos no horizonte. A cidade parecia viva de novo. E, pela primeira vez desde que perdi Benício, não senti só dor.
Senti raiva.
Senti o corpo latejando com um tipo de energia que eu tinha esquecido que existia.
Senti vontade de lutar.
Por mim.
Pelo bebê.
Pelo que me restava.
Porque se o Caio vinha atrás de mim... ele que viesse.
Agora, eu não era mais só uma mulher fugindo.
Eu era uma mãe. Uma filha. Uma sobrevivente.
E eu ia até o fim.