Capítulo 04

1036 Words
HELENA A cada passo que eu dava guiada por tio Robertão pelas vielas do morro, sentia o peso da história que deixei para trás me alcançar de novo. As casas eram as mesmas, as vozes nas janelas, os cheiros... mas eu não era mais a mesma menina que saiu daqui anos atrás, batendo a porta com raiva, jurando nunca mais voltar. E agora estava voltando em frangalhos. — Ele tá lá em cima, na sala. — disse, sem me encarar. — Desde que soube do que aconteceu contigo, tá diferente. Mais calado. Mais frio. Assenti em silêncio. Era difícil imaginar aquele homem — o mais temido do morro — como alguém fragilizado. Mas ele era, antes de tudo, meu pai. E eu... ainda era a filha dele. Mesmo depois de tudo. Subi os degraus com as pernas trêmulas. A casa era grande, mais fortificada do que antes. Homens armados, olhares duros. Mas ninguém ousava me impedir. Quando passei pela porta da sala, o tempo parou. Meu pai estava de pé, de costas pra mim, encarando a janela aberta. Ele sempre fez isso quando precisava pensar — era o jeito dele de fugir, sem sair do lugar. — Pai... — minha voz saiu baixa, quase um sussurro. Ele virou devagar. Os olhos escuros encontraram os meus. E pela primeira vez em muitos anos... eu vi neles algo além de dureza. Vi dor. Raiva. E um carinho amassado pelo tempo e pela distância. Ele não disse nada. Só me olhou. Caminhou devagar até mim. E quando parou bem na minha frente, parecia medir o tamanho da tragédia pelo meu rosto. — O menino... — ele perguntou, com a voz rouca, já sabendo a resposta. Meus olhos encheram. — O Benício morreu, pai. Ele morreu... — minha voz quebrou, e as lágrimas desceram. Meu pai fechou os olhos. A mandíbula trincada, as mãos fechadas em punho. Ele balançou a cabeça, como se quisesse expulsar a dor à força. — Eu devia ter feito alguma coisa. Eu devia ter protegido vocês. — Ele deu um passo pra trás, tentando respirar. — Aquele desgraçado... — Eu não vim pedir vingança, pai. Eu vim pedir proteção. — respirei fundo. — Tô grávida. De novo. E ele não pode saber. Não pode me achar. Eu não aguento mais viver com medo. Preciso de um lugar seguro. Só isso. Ele me encarou. Um silêncio longo, pesado, cheio de memórias e decisões. Depois, respirou fundo. A raiva ainda fervia sob a pele dele. Mas havia algo mais forte ali agora: a vontade de consertar, de me manter viva. — Então você vai ficar. E ninguém vai encostar um dedo em você aqui dentro. Eu juro por Deus, Letícia... dessa vez, quem tentar te machucar... vai pagar caro. O tio Robertão observava de longe. E por um momento, eu me permiti sentir o que não sentia há tempos: segurança. Meus joelhos fraquejaram. Meu pai me segurou antes que eu caísse. E foi ali, no colo do homem mais temido da favela, que eu voltei a ser apenas filha. Uma filha machucada, cansada... mas que, pela primeira vez em muito tempo, não estava sozinha. Faz três dias que estou de volta. Três dias dormindo no mesmo quarto onde cresci. Com as paredes descascadas, os adesivos antigos colados no guarda-roupa e o cheiro da casa da minha infância impregnado no travesseiro. Era como se o tempo tivesse parado... mas eu, não. Eu tinha envelhecido uns dez anos em três semanas. E agora carregava dois corações dentro de mim: um que batia fraco de dor e outro que crescia sem entender o caos ao redor. No morro, todo mundo sabe de tudo. Os boatos correm mais rápido que tiro. E eu, grávida, viúva de um filho, filha do chefe... não demorou pra virarem o rosto, cochicharem, julgarem. Mas também não demorou pra alguns estenderem a mão. — Que bom que você voltou, Letícia. Seu pai não dizia, mas morria de saudade. — falou dona Jurema, a vizinha da laje de cima, enquanto me entregava um pote de canjica. — Obrigada. — respondi, tentando sorrir. Na cozinha, papai falava ao telefone, como sempre. Dava ordens, cuidava dos negócios que mantinham o morro “protegido”, como ele dizia. Eu fingia não ouvir, mas cada frase que escapava da boca dele me lembrava por que fugi dali um dia. Mas hoje, era o único lugar onde eu podia respirar sem medo de ser encontrada por Caio. Ele ainda não sabia. Mas logo descobriria. E quando isso acontecesse... — Letícia? — a voz dele me despertou. Meu pai entrou no quarto com um envelope na mão. — Fiz o que você pediu. Peguei o envelope. Dentro, documentos falsos, um nome novo, identidade nova, um novo CPF. A mulher da foto parecia comigo, mas não era mais a mesma. — Com isso, você pode sumir se quiser. Mas... — ele se sentou na ponta da cama — eu quero que pense bem. Ficar também é uma opção. Aqui, você tem proteção. Tem família. Assenti, sem conseguir responder. Tudo dentro de mim estava embaralhado. — Eu não sei o que fazer, pai. Eu tô com medo. De tudo. Até de mim. Ele me olhou com olhos que, pela primeira vez, não eram os de um chefe... mas os de um pai. — Você é mais forte do que pensa. E esse bebê aí dentro? — ele apontou pra minha barriga com um gesto sutil. — Vai te mostrar isso. Fiquei em silêncio. Só encostei a mão sobre o ventre e respirei fundo. À noite, fui até a laje. O céu estava limpo, cheio de estrelas. Lá de cima, o morro parecia respirar junto comigo. O som dos funk’s ao longe, o cheiro de churrasco subindo pelas vielas, a vida acontecendo... apesar de toda a dor. — Benício... — sussurrei. — Se você estiver aí, meu amor... manda um sinal. Qualquer um. Fechei os olhos. E então, uma brisa leve passou por mim. Quente, suave, como um abraço invisível. Sorri com os olhos cheios d’água. — Eu te prometo, filho. Eu vou sobreviver. Por você. Por esse bebê. E um dia... eu vou sorrir de novo. Mas primeiro... Eu vou estar pronta pra guerra.
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