Capítulo 03

902 Words
Caio O celular tocava sem parar. Uma, duas, cinco chamadas. Todas do mesmo número: hospital. O tipo de insistência que só carrega uma notícia. Atendi na terceira tentativa. — Alô? — Senhor Caio? Aqui é do hospital São Miguel... precisamos informar que a senhora Letícia teve alta médica. — Como assim, teve alta? — minha voz saiu baixa, firme. — Ela estava em observação. Sob vigilância. Quem autorizou? Houve um silêncio desconfortável do outro lado. — Ela saiu acompanhada por uma profissional de enfermagem. Disseram que era uma transferência autorizada pela família. Tivemos documentação assinada... Fechei os olhos. Respirei fundo. — Vocês deixaram ela fugir. — falei, sem elevar o tom. A calma é sempre mais assustadora. — Vocês simplesmente... deixaram. Desliguei. O celular escorregou da minha mão. Caiu no chão e se partiu ao meio. Um estrago pequeno diante da bagunça que aquela mulher acabara de causar. Letícia. Acha que pode sair por aquela porta e simplesmente desaparecer? Caminhei até minha gaveta. Peguei uma foto. Era do Benício. Estava no colo da mãe, rindo. Um menino bonito. Saudável. Frágil. — Fraqueza. — murmurei, encarando a imagem. Benício tinha o sangue dela. Aquela doçura inútil. Aquela sensibilidade que transforma homens em presas. Ele não herdou o que devia. Não herdou o necessário. Pena. Mas previsível. Não derramei uma lágrima. Perder o menino era lamentável... mas nada que não pudesse ser corrigido. Letícia, por outro lado, ainda tinha algo que me pertencia. Algo que talvez estivesse crescendo dentro dela agora mesmo. Peguei o telefone reserva. — Fala, chefe. — a voz do segurança respondeu do outro lado. — Quero a Letícia. Hoje. Vivos. Ela e o que estiver dentro dela. — Você acha que ela tá...? — Se ela fugiu, não foi só por medo. Foi por algo maior. E se for isso... ela carrega o que me pertence. — E o velho? Se ela estiver com o pai? — Se ele levantar a voz... derruba. Mas sem pressa. Quero ela viva. O resto é negociável. Fechei o telefone e encarei a janela da cobertura. Lá embaixo, a cidade se movia como um formigueiro. Tanta gente acreditando que tem controle sobre a própria vida. Letícia achava que podia escolher. Mas ninguém foge de mim. Ninguém me desafia. E sai impune. Ela vai voltar. Nem que seja algemada. E se estiver grávida... melhor ainda. Dessa vez, eu vou ensinar o que significa ser minha. HELENA A enfermeira assentiu, compreendendo mais do que qualquer palavra poderia dizer. Ela não insistiu, não perguntou, não julgou. Apenas me ajudou a levantar, com aquele cuidado de quem entende que certos corpos estão mais quebrados por dentro do que por fora. Fui guiada por corredores que pareciam infinitos. Cada passo era um esforço, mas minha cabeça já estava longe, acelerada, criando um plano. Um destino. Uma fuga. Na saída dos fundos do hospital, um carro nos esperava. Um táxi velho, daqueles que ninguém desconfia. A enfermeira entregou um papel com um endereço rabiscado e algum dinheiro escondido numa bolsinha de pano. — Não é muito, mas vai te levar até lá. — Ela me olhou nos olhos. — Cuida de você. E do seu bebê. Por favor, Letícia... vive. Engoli o choro. Apenas assenti. Entrei no carro e não olhei pra trás. O morro apareceu no horizonte como um velho conhecido. O contraste entre as cores vivas das casas e a dureza da realidade dali sempre foi algo que me perseguiu. Mas agora... era minha única chance. O carro parou na entrada. Desci com as pernas bambas, a mochila leve nas costas e o coração pesado no peito. — Tá procurando alguém? — perguntou um garoto de boné, encostado na moto, com olhar desconfiado. — Tô. Preciso falar com o Robertão. — minha voz saiu firme, mesmo que por dentro eu estivesse tremendo. Ele me olhou de cima a baixo, tentando entender quem eu era. Provavelmente me reconheceu depois de alguns segundos. — Você é a filha do chefe... a Letícia? Assenti. Ele fez um sinal com a cabeça e pegou o celular. — Espera aqui. Fiquei ali, parada, sentindo os olhares pesarem sobre mim. O morro tem memória. Gente que volta sempre carrega um rastro. Alguns minutos depois, ouvi passos. E então o vi. O tio Robertão. Mais velho. Mais calejado. Os olhos mais duros. Mas ainda era ele. Quando me viu, parou no meio do caminho. Ficou me encarando como se não acreditasse. — Letícia? — Oi, tio... Ele se aproximou devagar. Os olhos varrendo meu rosto como se procurasse alguma explicação que eu ainda não tinha forças pra dar. — O que aconteceu? Engoli em seco. — Eu... perdi o Benício. Ele morreu. E... tô grávida de novo. Do Caio. Os olhos dele endureceram na hora. Um músculo no maxilar dele pulsou. — Ele te machucou? — Mais do que eu posso explicar. — minha voz vacilou. — Eu não tenho pra onde ir, tio. E... eu preciso da proteção do meu pai. Preciso ficar viva. Por mim. E por esse bebê. Ele respirou fundo, como se estivesse absorvendo o peso de tudo aquilo. — Então você veio pro lugar certo. — Ele estendeu a mão. — Vem. Eu te levo até ele. Segurei. Pela primeira vez em muito tempo, alguém me segurava de volta. E foi ali, naquele aperto de mão silencioso, que eu entendi: a guerra ainda não tinha acabado. Mas eu também não.
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