Capítulo 02

1749 Words
Naquela noite, o vento estava estranho. O tipo de vento que parece sussurrar no ouvido: vai. Eu senti. No meu peito, no meu estômago, nos olhos do meu filho enquanto ele me ajudava, em silêncio, a arrumar a mochila. Benício sabia. Só tinha cinco anos, mas sabia. Crianças sentem o que o mundo adulto tenta esconder. — Mamãe, a gente vai fugir? — ele sussurrou, os dedinhos apertando os meus. Eu apenas assenti. Um aceno pequeno, contido. E disse, com a voz mais firme que consegui reunir: — A gente vai ficar bem, tá? Prometo. Só fica pertinho de mim. Esperei Caio sair pra beber — como fazia toda sexta. Esperei a porta bater. Esperei o silêncio tomar conta da casa. E então, fui até o fundo, peguei a mochila com o dinheiro escondido e puxei Benício pela mão. Mas eu devia ter sabido. Devia ter desconfiado da facilidade. Caio nunca era tão previsível. O som da chave girando na porta congelou meu corpo. Benício me olhou com os olhos arregalados. Eu tentei correr. Tentei. Mas ele entrou rápido demais. — VOCÊ ACHA MESMO QUE IA ME PASSAR PRA TRÁS? — ele gritou, já sacando a arma do cós da calça. Benício se encolheu atrás de mim. Eu abri os braços, desesperada. — Por favor, Caio! É só a gente indo embora! Você não precisa...! Ele veio pra cima de mim como um furacão. Me empurrou contra a parede. Eu bati com o ombro e caí. O mundo girou. Benício gritou. — NÃO ENCOSTA NELA! — ele berrou, com a voz fraca e corajosa, correndo na direção do pai. Foi tudo tão rápido. Um clarão. Um barulho seco. Um estalo que ecoou na minha alma. E então, o silêncio mais c***l da minha vida. Benício caiu no chão. Os olhinhos arregalados. O sangue manchando a camiseta do super-herói que ele tanto amava. — Não… não, meu Deus… BENÍCIO! — meu grito rasgou a noite. Caio recuou. Ficou branco. Mas não correu. Não tentou ajudar. Ficou ali, parado. Frio. Como se tivesse derrubado um copo e não uma criança. Eu me arrastei até meu filho, tremendo. Peguei o corpinho nos braços, implorando: — Fica comigo, amor… a mamãe tá aqui… por favor, fica… Ele ainda respirava. Fraco. Mas estava vivo. E ali, naquele chão sujo, com meu filho sangrando nos meus braços, eu soube: isso não ia terminar assim. Ele não ia tirar tudo de mim. E dessa vez, eu não ia fugir. Eu ia lutar. O carro tremia na estrada. Eu dirigia como uma louca, o rosto coberto de lágrimas, o coração pulando no peito como se quisesse fugir de mim. Benício estava no banco de trás, deitado, pálido, lutando pra manter os olhos abertos. — Fica comigo, meu amor… só mais um pouco… a mamãe tá aqui… — eu repetia, sem parar, como se as palavras pudessem manter ele vivo. Cada farol era uma eternidade. Cada curva, um grito preso. Eu via o sangue escorrendo pelo banco, escutava os gemidos dele… e sentia o mundo desabar de novo, centímetro por centímetro. Cheguei no hospital buzinando, gritando, correndo com ele nos braços. — ELE FOI BALEADO! É MEU FILHO! PELO AMOR DE DEUS! Os enfermeiros vieram rápido, tomaram ele de mim. E quando a porta da emergência se fechou, algo em mim quebrou de vez. Me joguei na parede, o corpo mole, o choro rasgando tudo. Só me dei conta que estava suja de sangue quando uma enfermeira tentou me ajudar. Tremendo, sentei no banco e só conseguia repetir: — Por favor, salva ele… só isso… salva ele... Mas o que eu não esperava… era ele. Caio. Ele apareceu no hospital menos de vinte minutos depois. De boné, casaco preto, olhando ao redor com aqueles olhos frios e atentos. Me viu sentada no canto, sozinha, e veio na minha direção como um predador. — Tá achando que vai ferrar com a minha vida, é? — ele sussurrou entre os dentes, ajoelhando-se na minha frente. O rosto perto demais. A mão firme demais no meu joelho. — Foi você quem atirou nele… — minha voz saiu fraca, trêmula. Ele sorriu. Um riso torto, nojento. — E quem vai acreditar em você? Hein? Vai dizer que fugiu com um policial e agora quer fazer de vítima? Ninguém vai te ouvir, Letícia. Mas eu… eu vou saber. E se abrir essa boca pra alguém, nem Deus vai te proteger. Entendeu? Meus olhos se encheram de lágrimas, mas eu não chorei. Não na frente dele. Eu só encarei. E por dentro, jurei: Eu vou acabar com você. Nem que isso me custe tudo. Antes que alguém visse, ele sumiu. Como um fantasma. Como a ameaça que pairava sobre mim desde o dia em que me envolvi com ele. Naquela noite, eu fiquei sentada no banco do hospital, abraçada em mim mesma, esperando alguma notícia de Benício. E pensando que, se ele sobrevivesse… eu não ia mais fugir. Eu ia lutar. E dessa vez, não ia ser sozinha. A médica segurava uma prancheta nas mãos, mas parecia que era meu coração que ela carregava. Eu vi o olhar dela mudar antes mesmo das palavras saírem. E ali, no meio daquele hospital gelado e barulhento, eu soube: estava prestes a ouvir a pior frase da minha vida. — Letícia… os estilhaços da bala perfuraram o estômago do Benício… a hemorragia foi intensa. Nós conseguimos conter por um tempo, mas... — ela respirou fundo. — Um dos fragmentos atingiu a coluna. E foi grave. Irreversível. Meu corpo tremia. — Ele... vai conseguir andar? Ela abaixou os olhos. — Não. E… não só isso. Os órgãos estão falhando. O corpinho dele não está mais respondendo como deveria. Não há mais o que possamos fazer. Sinto muito. Fechei os olhos. Pela primeira vez em muito tempo, desejei que tudo fosse apenas um sonho. Mas não era. Fui conduzida até o quarto onde meu filho estava — com a pele pálida, os olhinhos cansados, mas ainda me esperando. Meu menino. Meu guerreirinho. Sentei ao lado da cama e segurei sua mãozinha gelada. — Oi, meu amor... a mamãe tá aqui. Ele sorriu. Fraco, mas doce. — Eu sabia que você vinha... — Claro que sim. Sempre. — Mamãe... o Papai do Céu falou comigo... Meu coração se apertou. — Falou? — Aham... Ele disse que já tá quase na minha hora... que Ele tá me esperando pra brincar com os anjinhos. As lágrimas escorriam sem pedir permissão. — E você quer ir? — Eu... tô cansadinho, mamãe. Mas... eu não quero que você fique triste. — Eu vou ficar. Vou sentir sua falta todos os dias. Mas... se você tiver que ir, meu amor, pode ir. A mamãe vai te amar pra sempre. Onde quer que você esteja. Ele apertou minha mão com a pouca força que tinha e sorriu de novo. — Mas... um dia, quando você for lá pro céu... posso voltar a ser seu filhinho? De novo? Meu peito se quebrou. — Sempre. Você vai ser meu filho em todas as vidas. Em todos os mundos. Benício fechou os olhos. — Eu amo você, mamãe... — Eu amo você, meu anjo... mais do que tudo. E então... ele parou de respirar. A máquina fez um som contínuo. A enfermeira correu. O médico entrou. Tentaram reanimar. Mas eu sabia. Ele se foi. Naquele quarto, uma parte de mim morreu junto com ele. Mas no lugar dela, ficou uma certeza. Caio tirou meu filho de mim. E agora... não vai mais ter onde ele se esconder. Tudo ficou escuro depois que os olhos do meu filho se fecharam. Benício se foi... e levou um pedaço de mim com ele. Lembro da sensação exata quando ele sussurrou com aquela vozinha fraca, o rosto pálido e os olhinhos fundos: "O Papai do Céu falou que tem que me levar... mas depois eu volto pra ser seu filhinho de novo, tá bom, mamãe?" E então... ele foi. O monitor apitou. O tempo parou. Não gritei. Não chorei. Só senti um silêncio cortante me invadir. Meu corpo desligou. Um vazio tão profundo que nem o ar parecia caber nos meus pulmões. Foi quando tudo escureceu. Acordei num quarto branco. O mesmo cheiro de hospital, as mesmas paredes que viram meu filho morrer. Meus olhos ainda ardiam de tanto chorar — ou talvez eu nem tivesse mais lágrimas. Tentei me mexer, mas uma tontura me acertou como uma maré pesada. — Calma, dona Letícia. — disse uma voz doce ao meu lado. Era a enfermeira de antes. — Você teve um desmaio forte. Seu corpo tá exausto. Exausto... Não. Meu corpo tava morto por dentro. Minha alma, em pedaços. — Eu quero ver meu filho. — murmurei, rouca. Ela me olhou com um misto de compaixão e dor. — Eu sinto muito. Mas... antes, a senhora precisa saber de uma coisa. Fechei os olhos com força. Não, por favor. Chega de dor. Eu não aguento mais. — Nos exames que fizemos... descobrimos que a senhora está grávida. Meu coração parou. — O quê? — sussurrei. — Você tá grávida, Letícia. Poucas semanas. Provavelmente nem sabia ainda. E foi como levar outro tiro. Mas dessa vez, direto no meio da alma. Grávida... de Caio. Depois de tudo. Depois de perder Benício. De novo. — Isso não pode estar acontecendo... — minha voz saiu embargada, a garganta fechando com o choro contido. — Eu... não quero isso. Eu não posso. Eu m*l consegui proteger meu filho. — Calma. — a enfermeira apertou minha mão. — Respira. Eu tô aqui, tá bom? Mas você precisa decidir o que vai fazer. Porque, se aquele homem descobrir... — Ele não pode saber. — a interrompi, sentando na maca, sentindo o corpo pesar. — Caio não pode saber. Ele vai querer me controlar de novo. E esse bebê... ele vai usar isso pra me manter presa. — Então vamos dar um jeito. — ela falou baixo, decidida. — Mas se você quiser fugir, vai ter que ser agora. Enquanto ele ainda não sabe onde você tá. Assenti, engolindo o medo. Não era só por mim. Era pela promessa que Benício me fez antes de partir. Se ele voltasse... eu precisava estar viva. Forte. Livre. — Me ajuda a sair daqui. Me ajuda a voltar pro único lugar onde eu ainda posso ter alguma proteção. — Você quer voltar pra onde? — ela perguntou. Olhei pro teto branco, vazio, sufocante. E respondi sem hesitar: — Quero voltar pro meu pai.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD