Capítulo 01

1666 Words
Letícia Desde pequena, me diziam que eu vivia numa redoma. Mas ninguém entende como essa redoma pode ser feita de ouro por fora e grades por dentro. Sou filha do Ferraz, o homem mais temido do morro — e também o mais respeitado. Pra muitos, ele é um rei. Pra mim, ele sempre foi só… meu pai. Cresci cercada de tudo o que o dinheiro podia comprar, menos liberdade. Os meninos da quebrada passavam longe de mim. “É a filha do patrão”, sussurravam. E eu fingia que não ouvia. Fingir sempre foi meu forte. Eu sonhava. Sonhava com outra vida, outra cidade, outro nome até. Um lugar onde eu não fosse só “a filha do dono”. Onde eu pudesse ser só… eu. Foi numa tarde quente que vi ele pela primeira vez. Caio. Um dos policiais da operação que invadiu o morro naquele dia. Tinha cheiro de perigo e olhar de guerra, mas, quando nossos olhos se cruzaram, juro que vi algo diferente. Vi silêncio. Alívio. Paz. E burra que sou, achei que fosse real. Ele me olhou por um segundo a mais do que devia. Foi o suficiente. O suficiente pra plantar uma semente. E dias depois, como se o universo tivesse gostado da ideia, encontrei ele de novo. Fora do morro. Na farmácia. E dessa vez, ele falou. — Você devia estar em outro lugar. Eu ri, sem saber o que responder. Mas naquele momento, eu acreditei que ele podia me tirar daqui. Me mostrar um mundo novo. E a cada encontro secreto, eu mergulhava mais fundo. Cada mentira contada ao meu pai, cada desculpa inventada pra descer o morro, me afastava do que eu era — e me aproximava dele. Do Caio que dizia que me amava. Que me chamava de "minha princesa", como se eu nunca tivesse sido de um trono de armas e silêncio. Eu fui. Fugi com ele. E naquela noite, olhando as luzes da cidade lá de baixo, achei que estava livre. Mal sabia eu que estava entrando numa prisão muito pior. Nos primeiros dias, eu achei que tinha vencido. Era como se o mundo inteiro tivesse ficado pra trás — o morro, meu pai, os olhares desconfiados. Tudo parecia distante. Irreal. Caio me levou pra um apartamento pequeno, longe da favela. As paredes eram vazias, mas ele dizia que a gente ia preencher tudo juntos. Me chamava de “meu amor”, “minha mulher”, “a única coisa boa da minha vida”. E eu acreditava. Eu me agarrava a essas palavras como quem se agarra à borda de um penhasco. Acordávamos tarde. Fazíamos café juntos. E por algumas horas por dia, eu me enganava achando que aquilo era felicidade. Mas não demorou pra realidade bater na porta — e não foi de forma delicada. Na primeira semana, ele começou a se incomodar com pequenas coisas. O volume da TV. O tempo que eu passava no banho. O jeito que eu penteava o cabelo. — Tá tentando se arrumar pra quem? — ele perguntou uma vez, com o cenho franzido e a mandíbula trincada. Eu ri, achando que era brincadeira. Mas não era. As saídas viraram um assunto proibido. Se eu dizia que queria ir à padaria, ele me olhava como se eu estivesse pedindo pra fugir. — Aqui fora é perigoso. Não quero te perder, entendeu? E eu, boba, achava que era cuidado. Só depois percebi que era posse. As brigas começaram pequenas. Resmungos, portas batendo, silêncios longos. E sempre vinha aquele olhar frio, que me fazia gelar por dentro. Às vezes, ele sumia por horas. Voltava com cheiro de álcool, olhos vermelhos, e um humor que mudava de um segundo pro outro. Era como viver com um estranho dentro da mesma casa. Um dia, sem querer, deixei o celular destravado. Ele viu uma mensagem da minha prima — nada demais, só um “como você tá?”. Mas bastou. — Tá com saudade da vida boa lá no morro, né? Quer voltar pra casa do papai? E então, veio o primeiro empurrão. Não foi forte. Nem me machucou de verdade. Mas doeu. Doeu como se algo dentro de mim tivesse quebrado. A ilusão. O sonho. A menina que achava que amor era fuga. Naquela noite, deitada no sofá enquanto ele roncava no quarto, eu chorei baixinho. Pela primeira vez, desejei voltar. Voltar pro lugar que eu achava ser prisão… e que agora parecia tão seguro comparado a isso aqui. E foi ali que entendi: não tinha fugido com um herói. Tinha corrido direto pros braços do meu próprio inimigo. O tempo começou a escorrer entre meus dedos, e eu parei de contar os dias. Era como se eu tivesse deixado de existir. Como se a Letícia que fugiu cheia de sonhos tivesse ficado em algum ponto da estrada, e no lugar dela restou uma sombra: silenciosa, apagada, assustada. Caio não era mais o mesmo. Ou talvez fosse, e eu é que não quis ver desde o início. Os olhos que antes me diziam promessas agora só lançavam acusações. O toque que já foi carinho virou controle. Ele mexia nas minhas coisas, no meu celular, nas minhas lembranças. — Tá chorando por quê? Não te dou tudo o que precisa? — ele disse uma vez, quando me pegou soluçando no banheiro. Me encarou como se o meu sofrimento fosse uma ofensa pessoal. Como se não fosse ele o motivo de cada lágrima. E quando eu ficava em silêncio, era pior. Porque ele queria reação. Queria gritar, queria desespero, queria ver que eu ainda reagia — pra poder me esmagar de novo. Comecei a ter enjoos. Achei que era o estresse. Ou a ansiedade, que me consumia noite após noite. Mas algo dentro de mim já sabia. Como se meu corpo gritasse por mim quando eu não tinha mais forças pra falar. Comprei o teste escondida, com o pouco dinheiro que ele deixava na gaveta. Fiz sozinha. Tremendo. E quando vi as duas linhas vermelhas, meu coração parou. Grávida. Fiquei ali, sentada no chão frio do banheiro, por horas. Eu tremia, mas não era de medo. Era de desespero. Porque em algum lugar do meu peito, eu ainda tinha a esperança de que isso o mudaria. Que talvez um filho trouxesse de volta o homem que eu achei ter conhecido. Mas não trouxe. Quando contei, ele não me abraçou. Não sorriu. Só ficou em silêncio. Um silêncio que me cortou como faca. — Sério isso, Letícia? Um filho? Logo agora? Depois disso, ele ficou mais frio. Mais distante. Sumia por dois, três dias. Voltava fedendo a cigarro, com os olhos cheios de raiva do mundo — e de mim. Dizia que eu estraguei tudo. Que agora ele tava preso, que eu era um peso. “Você se agarrou em mim como uma maluca”, ele gritava. Mas eu lembrava bem quem estendeu a mão primeiro. Comecei a esconder o rosto. A me odiar por ter caído tão fácil. A repetir as palavras que meu pai dizia quando me olhava com desconfiança: “Esse tipo de cara não ama ninguém. Só quer poder.” E agora ele tinha. Tinha meu medo. Meu corpo. Meu filho. Mas não teria minha alma. Ainda não. Cinco anos. Cinco anos se passaram desde aquele teste de farmácia, desde o dia em que descobri que havia uma vida dentro de mim. E tudo mudou. Ou melhor, tudo desabou de vez. Meu filho, Benício, é a única luz que existe nesse lugar escuro que eu chamo de casa. Ele tem os olhos puxados como os meus e o jeito doce que Caio nunca teve. Eu me pergunto todos os dias como um amor tão puro pode ter nascido do inferno. Caio nunca aceitou a ideia de ser pai. Nunca tentou. Desde o início, agia como se o Benício fosse um intruso — um lembrete constante de tudo o que ele dizia ter perdido. De vez em quando, forçava um sorriso falso na frente dos outros, mas em casa… em casa era diferente. — Cala a boca com esse moleque gritando! — ele berrava do sofá, quando Benício ria alto assistindo desenho. Eu pegava o menino no colo, apertava contra o peito e murmurava: — Shhh, amor… vamos brincar no quarto, tá bom? Benício não entendia. Mas já tinha aprendido a ter medo. Ele me puxava pela mão e cochichava: — Mamãe, o papai tá bravo de novo? E eu sorria. Sorria. Porque se eu mostrasse medo, ele ia perceber. E se ele percebesse, ia carregar esse medo dentro dele pro resto da vida. E eu… eu não ia deixar. As agressões comigo pioraram depois do parto. Era como se eu tivesse deixado de ser mulher aos olhos de Caio. Eu era só mais uma boca pra alimentar, mais um corpo pra mandar. Começaram os tapas no rosto. Os puxões de cabelo. Os empurrões na frente do Benício. A primeira vez que ele viu, gritou tão alto que Caio parou. Ficou em choque. E depois… riu. — Olha só o valentão, já quer proteger a mamãezinha? E eu, chorando com o rosto ardendo, só implorava: — Por favor, não na frente dele… por favor. Mas pedir não adiantava nada. Eu era só uma sombra dentro daquela casa. Uma mãe feita de culpa. Uma mulher feita de medo. Nos últimos meses, comecei a esconder dinheiro. Moedinhas, trocos esquecidos nos bolsos dele. Pegava e escondia numa costura aberta da mochila do Benício. Eu sabia que um dia iria precisar fugir. De novo. Só que dessa vez, não era por amor. Era sobrevivência. Eu assistia ele dormir — meu filho — e pensava: "Você não vai crescer achando que isso é normal. Você não vai achar que amor é grito, dor e medo." E naquele silêncio da madrugada, com meu filho respirando baixinho ao meu lado, jurei que ia tirá-lo dali. Custe o que custar. Porque agora não era mais sobre mim. Era sobre ele.
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