Há coisas que não podem ser evitadas. O m*l tempo, por exemplo. De repente, sem sabermos, o tempo se torna intempestivo. Pode estar na previsão do tempo que fara um dia lindo, com um sol maravilhoso, sem possibilidade de chuva. Então, como se algo ou alguém lá em cima estivesse rindo da nossa cara, a chuva cai sem cessar. Ao que parecia nosso passeio foi destruído por causa do m*l tempo. Talvez, fosse meu humor caustico, pois queria ter passado o fim de semana com Edgar, que parecia chateado por eu alegar um compromisso. Havia enviado uma mensagem, assim que começamos a viagem, para avisa-lo que teríamos que deixar para depois o passeio. Ele me pediu para encontra-lo depois do trabalho, na segunda-feira. Como se isso fosse possível, com um chefe maluco como o meu, que me fazia trabalhar além do horário.
A viagem dentro do carro foi tranquila, apesar do meu m*l humor. Nicolas era divertido e fazia piadas. Que somente eu entendia, por ele falar em inglês. Mamãe apenas franzia o cenho, sem entender e ele tentava explicar para ela, com seu parco português, mas era sofrível. Eu precisava interferir, mesmo não querendo estabelecer uma conversa com ele, muito menos incentivar minha mãe, mas ela estava tão feliz e calma, que não poderia jogar um balde de água fria no seu dia.
Quando chegamos à fazenda dele, já passava do meio dia e havia empregados esperando Nicolas chegar. Havia uma senhora simpática que nos atendeu com entusiasmo. E ela estava acompanhada de um senhor que caminhava de forma lenta. Nicolas nos apresentou e informou que eles eram os caseiros da fazenda. E que ali basicamente se produzia soja. Era um dos investimentos que ele fez e que acreditou ser lucrativo.
Entramos na casa, que era grande, com dois andares, com arquitetura colonial. As portas e janelas eram grandes e o pé direito era alto. Havia uma sacada na parte superior e podia ver quatro janelas em arco, todos interligados pela sacada frontal. O tom da casa era azul claro e estava com uma aparência conservada. Entrei e já senti o cheiro maravilhoso de feijoada sendo preparada.
A caseira, dona Flor, disse que ia servir o almoço na sala de jantar. E nos guiou para nossos quartos no andar de cima. Ao todo, havia oito quartos. O corredor era madeira polida e tratada. Dona Flor me mostrou meu quarto, com cama de casal e lençóis brancos. A sacada estava aberta e o vento morno tocou minha pele. A parede ali era verde claro, deixando o ambiente aconchegante. Havia um armário de madeira antigo do lado da porta e uma poltrona de couro envelhecida no cômodo. Dona Flor me deixou ali, para que eu pudesse deixar minha bolsa.
Fiquei confusa pensando que Nicolas queria estender sua estadia ali na fazenda. O que era impossível. Eu havia me planejado para um dia apenas. Iria conversar com ele naquele instante. Sai do quarto, deixando a bolsa sobre a cama e procurei Nicolas pela casa. Seu Joaquim, o caseiro e esposo da dona Flor disse que ele havia saído para inspecionar a fazenda e já voltava.
- Tá bom, seu Joaquim, obrigada – agradeci, tentando controlar meu temperamento.
- De nada, moça. A Flor vai fazer suco de melancia. Quer tomar? Ela vai servir na sala – ele disse, com um sorriso amigável.
- Ah, vou querer sim. Obrigada.
Fui para a sala de estar que era grande e espaço, com varanda. Dava visão para um gramado extenso, bem aparado e ao longe podia se ver as árvores. Sentei-me no sofá, com aquela visão maravilhosa diante de mim e observei o céu azul. Lá fora, minha mãe caminhava com Lauren. Ela pulava alegremente. Seus cabelos loiros em tom dourados caiam em cascata sobre seus ombros pequenos.
- Aqui está o suco – Dona Flor disse, entrando no cômodo e deixou uma bandeja copos e com uma jarra de vidro, com o suco sobre a mesa de centro.
- Obrigada, dona Flor – respondi, sorrindo para ela.
A senhora de cabelos grisalhados me fitou, com curiosidade.
- Você é namorada do senhor Nicolas? – ela perguntou.
- Ah, não, não – Neguei, pensando em como explicar minha relação com ele – A gente é amigo.
É claro que não era o caso, mas não queria explicar que ele era meu chefe e que estava me perseguindo.
- Claro – ela disse, piscando para mim – É que faz tempo que o patrão não vem pra fazenda. Às vezes ele trazia a menina Lauren e sua mãe. Aquela mulher é m*l amada – ela disse com desgosto – O pai dele, que Deus o tenha, era muito gentil. São gente gringa, sabe? Gente que tem que tratar com o tapete vermelho. Mas o senhor Nicolas e o pai dele eram pessoas boas.
Eu não sabia o que responder, depois de ouvir o que ela disse sobre Nicolas. Era falta de educação falar sobre seus chefes para terceiros, mesmo que eles fossem pessoas horríveis. Mas, eu não iria repreendê-la. Já fiz isso tantas vezes com meus chefes antigos, mas somente com meus colegas de trabalho.
Não precisei me esforçar para responder ela, porque Lauren entrou na sala, agitada. Ela abraçou a dona Flor pelas pernas, como se fosse uma grande amiga sua. A senhora sorriu, tendo seu semblante iluminado.
- A menina tem que parar de ficar corrido - Dona Flor ralhou, mas não parecia realmente brava.
Mamãe andava devagar, vindo em direção a entrada da sala, apenas apreciando a paisagem.
- Eu gosto...de...correr - Enquanto ela falava, dava pulinhos, batendo os pés no chão.
Eu dei risada. Ela era tão inocente e cheia de energia. Dona Flor balançou a cabeça e revirou os olhos, mas escondia um sorriso.
- Senta ai, menina. Vai tomar seu suco - ela disse, servido um copo para Lauren.
Lauren sentou ao meu lado, com um sorriso enorme e pegou o copo que dona Flor ofereceu. Mamãe chegou em seguida para se reunir a nós. Tomamos o suco e dona Flor ficou conversando com minha mãe, com a maior naturalidade. Depois disso, fomos convidadas a ir até a sala de jantar e almoçar. Nicolas apareceu em seguida. O tempo começa a mudar do lado de fora, conforme eu via pelas grandes janelas da sala de estar. O céu estava nublado e isso me deixou um pouco desanimada. Eu pensava em explorar o local, mas pelo visto ficaria confinada naquela casa, se chovesse.
Nicolas sentou ao meu lado. A mesa era enorme, para doze pessoas, mas ele fez questão de ficar bem ao meu lado. Quanto a Lauren, ela ficou do outro lado da mesa, com minha mãe. O almoço foi servido com uma travessa de feijoada, arroz, brócolis refogado na manteiga, couve refogada, salada de alface e tomate e uma jarra de suco de laranja.
Nós comemos em um silêncio reconfortante, mas mamãe quebrou o silêncio perguntando como Nicolas conseguia administrar aquela fazenda, além de cuidar de uma empresa multinacional.
- É simples - ele respondeu, em português, deixando o copo de suco de lado - Eu tenho pessoas que trabalham para mim e me enviam relatórios por e-mail. Não posso estar em todos os lugares ao mesmo tempo e preciso confiar naqueles que estão ao meu lado.
Eu pensei que seria um perigo grande para ele estar confiando sua vida nas pessoas. As vezes poderíamos ser traídos ser perceber e isso me fez simpatizar com ele. Nicolas parecia estar tentando seu melhor, mesmo que fosse um chefe insuportável no trabalho.
- O senhor tem muita coragem - minha mãe parecia ter tirado as palavras da minha boca - Espero que tenha empregados de confiança.
- Eu sempre tento encontrar pessoas que possa confiar. Por isso, confio muito em Endrika - ele olhou para mim de forma intensa e eu abaixei a cabeça para fitar o meu prato de comida.
Quando ele me olhava daquele jeito me sentia estranha, incomodada. Eu não sabia se ele estava flertando ou outra coisa.
- Endrika é muito confiável - minha mãe disse, com orgulho - Ela nunca faltou um dia no trabalho, sempre chega no horário e sabe trabalhar.
- Realmente eu fico feliz por ter encontrado alguém que se compromete - ele disse, não parecendo debochar de mim. Olhei para frente e vi que Lauren estava brincando com a comida e cutucando com o dedo o feijão - Querida, não faça isso com a comida, por favor. Estamos a mesa.
Ela fitou o pai com certa magoa e me fitou com os olhos expectantes. Eu nem sabia o que dizer a ela, pois Lauren não era minha filha ou parente, para eu dizer qualquer coisa.
- A comida está boa. Dona Flor vai ficar feliz se você comer tudo - falei, pois eu sabia que Lauren tinha um carinho especial por dona Flor.
Ela assentiu e começou a comer. Apesar de não saber segurar muito bem o garfo, ela conseguiu dar conta. O mais interessante é que dona Flor parecia ter se preocupada com a altura de Lauren e colocou uma cadeira alta, para criança, com trava e o garfo era pequeno, para tamanho dela.
Olhei para o lado e percebi que Nicolas me olhava um pouco surpreso. Sua boca estava levemente aberta. Ele percebeu que eu estava olhando e deu um sorriso.
- Não posso acreditar que você dobrou Lauren - ele disse.
- Ei - Lauren protestou, mirando o pai magoada.
- Ora, mas você sempre brinca com a comida - ele parecia bem humorado, enquanto falava com a filha.
- Eu não brinco - ela disse, fazendo biquinho e parando de comer.
Talvez, Nicolas fosse mais criança que a própria filha, por ter falado com ela daquele jeito e dar um um sorriso zombeteiro a ela que mostrou a língua. Ele fez o mesmo. Acabei rindo daquela situação e ele abriu o sorriso ainda mais para mim. E fez algo que eu não esperava, colocou a mão na minha perna, por baixo da mesa. Bati o joelho, com o susto e quase que meu prato caiu no chão. Levantei-me rapidamente, pedindo licença.
Não olhei para trás, com o coração batendo forte. Quando encontrei a porta de entrada da casa, saí, sem rumo. O vento soprava forte contra meu rosto e as árvores. Eu sabia que viria tempestade, mas estava precisando respirar. Eu não sabia o que sentir quando estava perto de Nicolas. Por um momento era raiva, em outro era admiração. Apesar disso, aquele momento na mesa se tornou intimo demais. Por que ele tinha que ter tocado minha perna? Qual era o problema dele? Contudo, eu estava confusa com relação ao que eu deveria sentir com aquilo. Eu deveria estar ultrajada, mas a única coisa que senti foi atração. Eu estava com algum problema na minha cabeça, só podia ser isso.
Continuei caminhando, até entrar na trilha por entre as árvores. Estava frio e me arrependi completamente de ter saído de casa e sem um casaco. Resolvi que voltaria, mas escutei passos rápidos atrás de mim. Me virei e pude ver mais afastado Nicolas. Engoli a seco, não querendo ver ele, mas se eu continuasse a andar pela trilha, com certeza iria encontrar a chuva. O único caminho era voltar e passar por ele, mas não estava com coragem de enfrenta-lo. Contudo, ele decidiu isso por nós, apressando mais o passo. Quando chegou perto de mim, disse com um olhar severo
- Por que veio para fora? Quer que um raio caia sobre sua cabeça?
- Eu só queria andar - respondi, um pouco ofendida por sua rispidez.
Iria passar por ele e sair da trilha, mas ele segurou meu braço. Nossos olhares se encontraram, naquele momento e pude sentir algo diferente. Ele parecia preocupado e algo muito mais profundo. Parecia agoniado.
- Vamos voltar - ele pediu, soltando meu braço e ficou ao meu lado.
Eu não disse nada, pois não havia o que dizer sobre sua forma de se preocupar comigo. Assim que saímos da trilha e seguíamos em direção a casa, a chuva começou a cair de forma fraca, mas em segundos parecia ter ficado mais forte. Começamos a correr, em sincronia e paramos em baixo da marquise da casa, encharcados. O vento soprava ainda, trazendo a chuva para nosso abrigo, mas eu somente conseguia sentir meu coração disparado, devido a corrida e por outro sentimento estranho em relação a Nicolas.
- Por que você se preocupa comigo? - perguntei a ele.
- Porque você é minha convidada - ele respondeu, com a voz entrecortada e ofegante - Se acontecesse algo com a senhorita, não poderia me perdoar.
- Pare de me chamar de senhorita - pedi, irritada e olhei para ele. Seus cabelos loiros estavam emplastados, em volta do seu rosto de nariz afilado - Não estamos no trabalho e isso não é costume do nosso país.
Ele deu um sorriso zombeteiro para mim.
- É como eu deveria chama-la? - ele perguntou, em tom provocativo.
- Só Endrika. E não é Indrika.
Sua expressão murchou ao ouvir minha resposta.
- Me desculpe, eu não sabia que falei errado seu nome - Ele parecia genuinamente envergonhado com seu erro.
- Está tudo bem - eu disse, acenando com a mão, como um gesto para que esquecemos isso - Acho que se entrarmos agora, dona Flor vai nos matar?
Ele riu e me fitou com seus grandes olhos azuis, tão parecidos com os de Lauren, mesmo sendo um tom mais vibrante do que os dela. E eu não conseguia parar de olha-lo. Estávamos há pelo menos trinta centímetros um longe do outro, recostados a parede. Mas, parecia que ele estava próximo demais a mim, quase colado. Ele levantou a mão, afastando meus cachos do meu rosto e tocou minha bochecha. Senti minha pele queimar ao seu toque e minha respiração se tornou errática. Ele não olhava em meus olhos, mas em meus lábios. E eu estava quase me aproximando mais dele, quando a porta da frente foi aberta e nos afastamos, abruptamente.
- O que o patrão faz ai? - Dona Flor perguntou, olhando para ele e depois para mim. Seu olhar era repreensivo, mas era maternal - Vão, entrem logo, antes que peguem uma pneumonia.
Eu não pensei duas vezes e entrei na casa, sem olhar para trás.