Capítulo 8

1310 Words
Acordei sobressaltada, sentindo o coração disparado. Não havia como não acordar daquela maneira, depois de um ano da morte do meu pai. E como foi perturbadora sua morte. Se mamãe tinha sérios problemas com o falecimento abrupto dele, eu também tinha e não sabia como lidar. Contudo, eu não contava a ela, nem a ninguém. Talvez, eu precisasse frequentar o psicólogo, mas eu não queria ser analisada e descobrir algo que já sabia que estava traumatizada pela morte violenta do meu pai. Era muito óbvio isso e sabia que o psicólogo não poderia me ajudar. Ele me escutaria, contudo não acreditava na eficácia do tratamento, afinal, eu não estava tão m*l assim, como mamãe. Eu poderia lidar sozinha com aquele problema. Levantei da cama, com o corpo transpirando, devido ao calor que fazia, além do pesadelo que tive. Rex estava do meu lado, encolhido feito uma bola de pelos. Ele levantou a cabeça, assim que me mexi da cama, para me levantar e me olhou com os olhos escuros e dengosos. Acariciei sua cabeça peluda. Depois, sai da cama e rumei direto para a cozinha. No corredor, escutei uma voz masculina e a de minha mãe. Nem fui trocar meu pijama, que era um conjunto de shorts de seda preta, com uma blusa de alça, na mesma cor. Quando entrei na cozinha, vi as costas de Nicolas e ele estava sentado à mesa. Seus cabelos dourados batiam no pescoço, em cachos, o deixando ainda mais interessante. Ele vestia roupas comuns aquele dia. Um blazer preto, calça jeans escuro e tênis de lona preta. E para minha surpresa, Lauren estava ali, sentada e quando me viu, correu para mim, abraçando minhas pernas nuas. - Tia Indrika – ela falou, me olhando com doçura. Engoli seco. Como eu ficaria brava com uma menina dessas? Ela era como o Rex, amável, gentil e dengosa. - Olá, pequena – eu disse, pegando-a no colo. Minha mãe e Nicolas me encararam. Mamãe estava ao lado da pia, passando o café coado em uma térmica. E Nicolas me olhou de cima abaixo. Pude até mesmo ver suas bochechas ficando vermelhas. E a mancha rosada estava descendo até seu pescoço. Bom, quem o mandou vir a minha casa àquela hora da manhã? Eu não estava mesmo apresentável. - Senhorita Endrika, bom dia – ele disse, com a voz rouca e pigarreou. Dei um sorrisinho cínico para ele. Nicolas me encarou com os olhos estreitos – Tomei a liberdade de vir busca-las cedo, para que possamos chegar a um bom horário na fazenda. - Eu não...- tentei dizer. - Vai ser ótimo, Drika – minha mãe interrompeu, com um olhar esperançoso e isso me faz calar – Faz tanto tempo que não saio para nada. Era verdade. Mamãe evitava sair. Somente saia de casa quando necessário. E sempre saia, checava se as portas estavam fechadas e se o portão estava com o cadeado. Nosso portão era automático, mas mamãe colocou dois cadeados, um em cima e outro embaixo, para deixar mais difícil um ladrão entrar. Contudo, eu não disse a ela que por mais que trancássemos tudo, alguém ainda poderia mixar a fechadura e usar pé de c***a para arrombar a porta. Ela não precisava entrar em pânico, não é? - Ah, é verdade – eu disse, com a voz fraca. E Nicolas me encarou surpreso. Talvez, ele acreditasse que teríamos uma discussão feia. E teríamos se não fosse pelo fato de minha mãe confiar nele. Eu não sabia como ele havia feito isso – Vamos ir sim. Só vou me trocar – Coloquei Lauren no chão e disse a ela – Já volta tá? Vou colocar uma roupa para sairmos. - Posso ir junto? – ela perguntou. Eu iria responder, mas Nicolas disse: - Não, filha. Fique aqui. Deixe à senhorita Indrika se arrumar – ele disse tudo isso em português, com a voz arrastada. Estava se esforçando de alguma forma a falar meu idioma, talvez, por causa de mamãe. Aquela atitude me conquistou, mesmo eu não desejando simpatizar com ele. - Mas pai – ela protestou, fazendo beicinho. Nicolas a fitou em advertência. Ele parecia ser severo com ela e eu não iria tirar a autoridade de pai dele. - Lauren, eu volto bem rápido – prometi. Ela assentiu, mas estava com os bracinhos cruzados. Nicolas me fitou agradecido, mas não fiz questão de dar atenção a ele, afinal, ele invadiu minha casa pela manhã. Em plena manhã de sábado. Corri para meu quarto, procurando uma roupa confortável para viajar. Encontrei um vestido florido, com fundo branco e flores amarelas com vermelho. Era com alças. Resolvi coloca-lo e peguei minhas sandálias plataforma, com tiras pretas. Amarrei os cabelos escuros em um r**o de cavalo e fiz uma maquiagem leve em frente ao espelho. Peguei minha bolsa e coloquei uma jaqueta jeans dentro, para caso fizesse frio e chinelos dentro. Olhei para a cama desarrumada e vi que Rex não estava mais deitado. Não havia sinal dele. Dei de ombros e sai do quarto, fechando a porta, me deparando com Nicolas. Seu olhar era intenso e ele parecia me avaliar. Engoli a seco, sem saber lidar com seu exame minucioso. - Está pronta? – ele perguntou, com a voz baixa. - Aham – eu respondi com a voz tremula, mas me forcei a ter controle das minhas emoções – Só quero que saiba que o senhor foi invasivo ao entrar na minha casa e me forçar a essa viagem. E eu poderia denuncia-lo por isso, pelo fato de o senhor ser meu chefe. Ele sorriu de canto, sem o menor remorso. Sua atitude me deixou fervendo por dentro. - É apenas um passeio inocente, Indrika – ele disse, colocando as mãos dentro do bolso da calça, parecendo casual – E sua mãe adorou a sugestão. Além do mais, prometi que Lauren iria ver vê-la esse fim de semana. Como posso negar esse desejo a ela? Ele estava dando aqueles motivos apenas para desviar do foco e do fato que ele parecia um perseguidor de marcação cerrada sobre a minha pessoa. E não havia como negar mais o fato de que havia segundas intenções na forma que ele vinha se aproximando de mim. Mas, eu não era nenhuma garota fácil. E não iria ser envolvida por ele, de jeito nenhum! - Não sei qual é seu jogo, Nicolas – eu disse entredentes – Mas, não vai funcionar! Ele piscou algumas vezes, parecendo atônito. Eu resolvi não acreditar em sua inocência e passei por ele. Sua presença me enervava. Rumei para a cozinha, tomando meu café da manhã, sem muita fome. Nicolas sentou ao meu lado, tentando entabular uma conversa, contudo, somente minha mãe o respondia. Quando terminamos o café, rumamos para seu carro, que estava estacionado dentro da minha casa. É claro, demoramos um tempo para sair porque minha mãe verificou toda a casa, para ver se não deixou nada aberto. Nicolas fitou a cena com o cenho franzido e se ele tivesse aberto a boca para falar algo, aquela viagem iria acabar antes de começar. Depois, para minha consternação, mamãe sentou do lado de Lauren, parecendo muito intimida da menina. E apenas me sobrou o banco do passageiro, ao lado de Nicolas. Aquilo era brincadeira, só podia ser. Olhei para ele, que estava sentado no banco do motorista, esperando eu embarcar. - Não vai entrar? – ele perguntou, com a sobrancelha arqueada. Mordi os lábios, com força e não respondi. Olhei para minha mãe, que parecia entretida com um joguinho de celular, ao lado de Lauren. - Mãe, não quer trocar comigo? – perguntei. - Ah, não filha. Aqui tá bom – ela respondeu, sem se dignar a me olhar. E tinha certeza que Nicolas estava escondendo um sorriso. Bufei, irritada e entrei no carro, fechando a porta com força demais. Aquela viagem seria longa, muito longa.
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