FARAÓ - ROTINA

1441 Words
O sol m*l aparece na janela e eu já estou de pé. Existe um silêncio muito calmo aqui no alto, uma paz que só quem é dono do chão conhece. É o único momento do dia em que o rádio não chia, o fuzil não pesa e o vulgo "Faraó" dá lugar ao Felipe. Minha casa é o meu castelo, mas não é um castelo de cristal. É um refúgio de paz, de calma. Caminho descalço pelo quarto, sentindo o piso frio, e observo cada detalhe. Tons de marrom, bege e outras que nem sei o nome - foi minha coroa quem decorou tudo, peça por peça, antes de o meu velho decidir que já tinha trocado tiro o suficiente e levá-la para o sossego de Angra. Ela queria que eu tivesse um lugar que não tivesse cara de "bunker". Para a favela, isso aqui é o ápice do luxo, a mansão do patrão. Para mim, é só o abraço que minha mãe deixou registrado nas paredes. Ela sempre dizia que um homem precisa de um lugar calmo para pensar, porque quem decide a vida dos outros com a mente barulhenta acaba decidindo errado. Sigo para o banheiro principal. É enorme, revestido em granito escuro. No canto, uma banheira, mas eu olho para ela como se fosse um objeto de museu. Nunca liguei aquela torneira. Coisa de quem tem tempo sobrando, de quem pode se dar ao luxo de ficar de molho enquanto o mundo gira. Eu prefiro o chuveiro, entro debaixo da água forte, gelada o suficiente para chocar o corpo e acordar a alma. É ali, debaixo do jato, que eu lavo o suor da noite anterior e o cansaço das decisões que nunca param de chegar. A água escorre pelas tatuagens e eu fecho os olhos por um minuto, agradecendo por mais um dia de vida. No nosso mundo, cada amanhecer é um luxo o que a gente não sabe quando vai perder. Saio do banho e o ritual começa. Não sou de ostentação gratuita, mas prezo pela qualidade. Visto uma bermuda cargo de tecido caro e uma camiseta preta básica, daquelas que vestem bem sem precisar de logo gigante no peito. No pescoço, coloco o meu maior tesouro: uma corrente de ouro fina, meu amuleto. No pulso, o relógio marca o tempo que eu não posso perder. E, finalmente, o toque final. Pego a minha Glock em cima da mesa de cabeceira. O metal está frio. Verifico o carregador, o golpe seco do ferrolho ecoa no quarto vazio. Ela entra na cintura, encaixada com a naturalidade de quem usa uma peça de roupa. Sem ela, eu sou o Felipe; com ela, eu sou a lei. Saio de casa e o ar fresco da manhã bate no rosto. Minha moto, uma XT 660 preta, está ali me esperando. Dou a partida e o ronco grave do motor é o meu "bom dia" para a vizinhança. Capacete? Esquece. No Morro da Pedra Clara, eu quero que todos vejam quem está passando. Quero olhar no olho do morador, sentir o clima do dia. Vou descendo a ladeira devagar, mantendo a moto no torque, sem pressa. — Salve, Seu Benedito! O joelho tá melhor? — grito para o senhor que varre a calçada. — Tá indo, Faraó! Deus te guarde! — ele responde com um aceno respeitoso. Vou parando de metro em metro. Uma brincadeira com o pivete que está indo para a escola, um sinal de cabeça para a dona de casa que estende a roupa no varal. Eu não sou o bicho-papão dessa gente; eu sou o escudo. Minha parada obrigatória é na padaria do Seu Arnaldo, bem no meio da descida principal. O lugar cheira a pão fresco e café coado no pano. Estaciono a moto e nem preciso pedir. O Seu Arnaldo me viu crescer. Ele lembra de quando eu corria de pé no chão, com o nariz escorrendo, fugindo das chineladas da minha mãe. Ele sabe quem eu era antes do vulgo e quem eu me tornei depois da coroa. O café preto, forte e sem açúcar, já está me esperando no copo de vidro americano. Ao lado, o pão na chapa, prensado até ficar com aquela casquinha dourada e crocante. É um café simples, o mesmo que qualquer trabalhador ali come, mas para mim tem gosto de infância. É o ritual que me mantém pé no chão. — Bom dia, Seu Arnaldo. A Dona Cida tá por aí? — pergunto enquanto mordo o pão. — Tá lá nos fundos, meu filho. Ô Cida! O Faraó chegou! A esposa dele aparece limpando as mãos no avental, com aquele sorriso de tia que conforta. Eles sabem meu nome de batismo, mas me chamam pelo vulgo pelo respeito, pelo carinho, mesmo eu dizendo que pode chamar de Felipe. — Bença, tia Cida — digo, baixando a cabeça genuinamente. — Deus te abençoe e te proteja de todo m*l, meu menino — ela responde, tocando meu ombro com carinho. Essa bênção vale mais que o blindado da minha Land Rover. Saio de lá com a alma renovada e sigo a descida. Passo pelos primeiros pontos de venda, onde o movimento da manhã já começa a esquentar. Dou um salve nos vapores, aperto a mão dos moleques da contenção. — Visão, família! Atividade total, hein? — aviso, recebendo de volta o sinal de respeito. Mas quando chego na central, o clima muda. O corredor que dá para a minha sala parece mais estreito hoje. Antes mesmo de entrar, ouço a voz estridente e carregada de ódio do Magrão. O som de um tapa estalado ecoa nas paredes, seguido pelo barulho de alguém caindo. Acelero o passo e vejo a cena. Um vapor novo, um moleque que entrou na semana passada, está caído no chão, com a mão no rosto e os olhos arregalados de terror. O Magrão está em cima dele, as veias do pescoço saltadas, o rosto transformado por aquela frieza assassina que ele carrega. — Você é burro ou o quê, seu verme? — o Magrão ruge. — Se eu te dei a ordem, era pra ter cumprido ontem! Se eu te pegar moscando de novo, eu não vou te bater. Eu vou te apagar e jogar teu corpo pra servir de aviso! O moleque tenta balbuciar uma desculpa, mas o Magrão faz menção de chutar o rosto dele. É aí que eu entro. — Já deu, Magrão. Deixa o menor ir — minha voz sai calma, mas com o peso da autoridade que não precisa gritar. O Magrão para o movimento no ar. Ele vira o pescoço devagar, como se fosse me devorar. O olhar dele é um abismo. Ele encara o moleque e faz um sinal de descaso. O vapor levanta trêmulo e sai correndo pelo corredor sem olhar para trás. Encosto no batente da porta, cruzando os braços. — Precisava mesmo disso tudo, primo? O moleque é novo, tá aprendendo. Tu deixou ele pelo menos explicar o que aconteceu? O Magrão dá uma risada seca, desprovida de qualquer humor. Ele caminha até a mesa, pega um cigarro e acende, soprando a fumaça na minha direção com um deboche que faz o sangue de qualquer um ferver. — Explicar, primo? O crime não tem chance pra erro, não. Ou faz certo, ou paga o preço. Papo reto... às vezes eu acho que tu parece mulher, agindo desse jeito. "Ai, deixa o menor se explicar" — ele imita uma voz fina, rindo logo em seguida. — Desse jeito, com essa tua mão de seda, jaja esses vapores vão estar montando em cima de tu. Vão perder o respeito e tu nem vai ver o golpe vindo. Tu acha que governa com carinho, mas é o ferro que mantém o morro em pé. Eu respiro fundo. Conheço o veneno do Magrão, conheço a revolta que ele guarda desde que o tio morreu. Eu dou uma risada curta, tentando quebrar aquela tensão que ameaça explodir a qualquer momento. — Tu é muito louco, Magrão. Papo reto, tu é completamente alucinado. O dia que a gente parar de tratar as pessoas como gente, a gente vira bicho. E bicho a gente caça e abate. Agora senta aí, limpa essa cara de enterro e vamos falar do que interessa. Tem carga chegando e eu quero o progresso andando, não vapor com a cara inchada. Ele se senta, mas o olhar continua lá, fixo em mim. Um olhar que diz que, para ele, a minha diplomacia é fraqueza. E eu sei, no fundo da minha mente, que esse gelo que ele carrega ainda vai queimar muita gente — e talvez, ele mesmo.
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