O sol da cidade grande é diferente do sol do interior. Aqui ele parece que tem pressa, que queima com um barulho de buzina no fundo, mas eu não reclamo. Toda vez que abro a janela da nossa kitnet e vejo o Morro da Pedra Clara - acho a imagem bonita, acolhedora - a entrada do morro ficava na avenida de cima.
Eu respiro fundo e agradeço.
Meu nome é Lívia, tenho 19 anos de pura confusão, 1,60m de altura — o que meu pai chamava de "tamanho ideal para caber num abraço" — e uma cabeleira ruiva que herdadei da minha avó e que insiste em ter vida própria. Meus cachos são indomáveis, igualzinho à minha vontade de fazer a vida dar certo.
Moro com a Gabriela, minha prima, minha irmã de alma e minha sócia oficial no "Espaço Divas". A gente divide tudo: o aluguel apertado, o miojo de fim de noite e a dor que a gente guarda num cantinho do peito desde que o mundo capotou para nós duas.
Nós viemos de uma cidadezinha pacata do interior do Rio, daquelas onde todo mundo sabe quem comprou pão na padaria às sete da manhã. Nossa vida era simples, doce, cheia de planos pequenos que pareciam gigantes. Mas tudo mudou há dois anos. Eu tinha 17, a Gabi também. Era noite de festa típica, o céu estava cheio de estrelas, com uma lua bonita e o carro estava cheio de risadas. Meus pais na frente, os tios (pais dela) atrás.
A gente ficou em casa terminando de se arrumar, rindo de alguma bobagem, esperando eles passarem para buscar a gente num segundo turno. Eles nunca chegaram. Um caminhão, uma curva m*l feita, um silêncio que dura até hoje. Perdemos os quatro de uma vez. O chão sumiu, e a gente sobrou uma para a outra, com um luto pesado demais para duas meninas que m*l tinham aprendido a votar.
Viemos para a capital com a cara, a coragem e duas malas descosturadas. A gente precisava fugir daquele silêncio que as casas vazias faziam no interior. E foi aqui, no centro do RJ, que a gente achou nosso lugar.
Nossa rotina é uma loucura gostosa. A gente mora numa kitnet que é basicamente um quarto com crise de identidade, mas embaixo dela... ah, embaixo dela é onde o milagre acontece! Alugamos um salãozinho minúsculo, bem na esquina estratégica da rua principal. Eu cuido dos cabelos — sou a louca dos cremes, das hidratações e de transformar vassoura em seda — e a Gabi é a rainha das unhas, faz uns desenhos que parecem obra de arte de museu.
O salão é a nossa vida. Ele tem cheiro de acetona, xampu de morango e muita fofoca boa. Eu sou aquela pessoa que confia em todo mundo. Se você sentar na minha cadeira e me contar que é uma princesa disfarçada fugindo de um dragão, eu vou acreditar, pedir detalhes e ainda oferecer um café. A Gabi vive me dando bronca: "Lívia, deixa de ser boba, o mundo não é um filme da Disney!", ela diz, enquanto lixa a unha de alguma cliente. Eu só dou risada. Prefiro acreditar no melhor das pessoas; a vida já foi dura demais comigo para eu ainda ser amarga.
Meu dia começa cedo. Acordo e ainda na cama, consigo ouvir o barulho das motos subindo a ladeira — parece que os motores aqui cantam um ópera de adrenalina. Levanto, tomo banho e coloco um vestidinho leve, prendo meu cabelo ruivo num coque abacaxi que nunca fica reto e desço para abrir o salão.
Nossa esquina é o coração do movimento. Tem de tudo: o cheiro do pão na chapa da padaria ali perto, as crianças correndo com uniforme da escola e, logo ali do lado, o ponto onde todo mundo junta o lixo para o caminhão passar. Parece um detalhe bobo, né? Mas é ali que eu vejo a vida acontecer. Vejo quem joga fora o que não presta mais, vejo os cachorros fazendo festa e vejo o movimento dos "meninos" que cuidam da segurança do morro.
Eu sou alegre por teimosia. Mesmo quando o dinheiro do aluguel aperta ou quando a saudade dos meus pais aperta mais ainda, eu coloco um batom cor-de-boca, abro um sorriso de orelha a orelha e ligo o secador. Meus olhos castanhos claros brilham quando vejo uma cliente se olhar no espelho e se sentir bonita. Acho que é porque, no fundo, eu sei o que é ter o mundo desmoronando e precisar de um motivo para sorrir de novo.
Aqui na rua, a gente ouve falar muito do morro. Principalmente sobre o Faraó. Dizem que ele é o rei, que manda em tudo, que é um homem de 1,90m de altura que impõe respeito só de olhar. Eu, sinceramente? Nunca parei para prestar muita atenção, nunca nem fomos no morro.
Às vezes, quando o caminhão do lixo demora a passar e o cheiro começa a incomodar as clientes, eu saio na porta com minha vassoura, brava que só eu, e começo a organizar os sacos ali perto. A Gabi morre de medo. "Lívia, entra, deixa isso aí, não vai arrumar confusão na rua!". E eu respondo: "Confusão nada, Gabi!"
Eu sou assim: um pouco ingênua, um tanto quanto atrapalhada, mas com um coração que não cabe no peito. Confio que cada pessoa que passa pela porta do meu salão tem uma história que merece ser ouvida. E entre um corte e outro, eu vou costurando a minha própria história, tentando colorir o cinza do asfalto com o laranja do meu cabelo e a alegria de quem descobriu que, mesmo depois do pior acidente do mundo, o sol ainda insiste em nascer.
Hoje a agenda está cheia. A Gabi já está com a mesa de manicure montada e eu estou aqui, separando as toalhas brancas, pronta para mais um dia. O morro está barulhento, vivo, pulsante. E eu? Eu estou exatamente onde deveria estar, acreditando que o melhor ainda está por vir, mesmo que eu ainda não saiba que o "melhor" pode estar descendo a ladeira em cima de uma XT 660 preta.