Meu nome é Gabriela, mas todo mundo me chama de Gabi, tenho 19 anos e um cansaço que às vezes parece ter o dobro da minha idade. Enquanto minha prima enxerga o mundo através de um filtro cor-de-rosa, eu vejo as coisas como elas são: cruas, diretas e, na maioria das vezes, perigosas.
Deus tem um senso de humor interessante. Ele pegou as características da nossa avó e dividiu entre a gente como se estivesse separando cartas em um jogo. A Lívia ficou com o ruivo aceso; eu fiquei com os olhos verdes, aquele tom de folha seca que brilha no meio do meu rosto. Sou morena clara, de cabelos pretos e lisos que batem no meio das costas, e tenho 1,62m — dois centímetros a mais que a ruiva, o que me dá a ilusão de que sou a "irmã mais velha" protetora, mesmo que a gente tenha nascido com meses de diferença.
Nós somos as duas faces da mesma moeda que o destino jogou no chão naquele acidente de carro. Quando nossos pais se foram naquela curva maldita no interior, a Lívia decidiu que precisava amar todo mundo para preencher o vazio. Eu decidi o contrário: se eu não tiver nada, eu não tenho o que perder.
Mudar para o Rio de Janeiro, para a cidade grande, foi a decisão mais corajosa e aterrorizante da minha vida. Eu não confio em sombras, que dirá em pessoas. Diferente da Lívia, que dá "bom dia" até para poste, eu mantenho o rosto sério e o olhar baixo. Ser reservada é a minha armadura.
Desde que enterramos nossos pais, eu desenvolvi esse medo da perda. É uma sensação física, um aperto no peito que diz que, a qualquer momento, o que é bom vai ser tirado de mim. Por isso, às vezes eu me pego sabotando minhas próprias vontades. Se eu começo a gostar muito de uma roupa, eu guardo no fundo do armário. Se algum cara olha demais pra mim na rua, eu fecho a cara e procuro um defeito nele. Eu sei que é errado, sei que a vida é feita para ser vivida, mas o trauma é um medo c***l que me ensinou que o preço do apego é a dor da ausência.
No nosso salãozinho embaixo da kitnet, eu sou a "Gabi das Unhas". Enquanto a Lívia faz o barulho do secador e conta piada, eu fico ali, concentrada em milímetros de cutícula e esmalte. O salão é o meu porto seguro porque ali eu tenho o controle. Ali, nada sai do lugar sem que eu queira.
Amo a arte de pintar unhas porque é uma das poucas coisas na vida que eu posso consertar se der errado. Borrou? A gente apaga e faz de novo. Quem dera a vida tivesse removedor de esmalte para as tragédias que a gente viveu.
Mas morar na cidade exige um tipo de pé no chão que a Lívia simplesmente não tem. Ela acha que a cidade é só um lugar bonito da janela. Mas eu sei onde a gente está pisando. Eu sei que a paz é um equilíbrio frágil, e eu vivo em estado de alerta, esperando o momento em que o caminhão vai desgovernar de novo na nossa vida.
Minha rotina é vigiar. Vigio o caixa do salão para não faltar o aluguel, vigio a Lívia para ela não contar a nossa vida inteira para qualquer desconhecida que senta na cadeira dela, e vigio o meu próprio coração para não deixar ninguém entrar.
A esquina onde a gente trabalha é movimentada, barulhenta e cheia de vida. Mas para mim, é um tabuleiro de xadrez.
Eu sei quem é cada vapor, sei qual cliente não gosta de outra e sei que o lixo acumulado ali perto é o menor dos nossos problemas. O lixo a gente limpa; o que me preocupa é a sujeira que o mundo pode trazer para cima de duas meninas sozinhas que só têm uma a outra.
Às vezes, à noite, quando a Lívia já está roncando baixinho na cama ao lado, eu fico olhando para o teto da kitnet. O verde dos meus olhos fica escuro na penumbra. Eu sinto uma solidão profunda, um desejo de me soltar, de rir das bobagens dela sem me preocupar com o amanhã. Mas aí eu lembro do barulho das ferragens do carro, do cheiro de gasolina e do silêncio que ficou depois.
Aí eu me fecho de novo. Prefiro o vazio do que o risco da perda. Prefiro ser a Gabi séria, a morena de olhos frios que ninguém ousa encarar por muito tempo. Porque enquanto eu não tiver nada que o mundo queira me tirar, eu estarei segura. Ou pelo menos é nisso que eu tento acreditar, enquanto o barulho das pessoas lá fora me lembra que, em qualquer lugar, ninguém está realmente seguro por muito tempo.
Principalmente quando você tem uma prima ruiva que não sabe a hora de parar de sorrir para o perigo.