Prólogo
Um brinde!
Um brinde ao desespero.
Essa é a terceira dose de uísque que eu tomo essa noite. Eu me encontrava perdido em um mar de cúmulos. Os meus pensamentos pareciam penas jogadas ao vento, em que cada uma delas seguia em uma direção.
Em meio aos meus pensamentos, eu me perguntava:
E se eu tivesse feito uma escolha diferente? Será que todo o resultado final seria conivente com a minha escolha?
Como sempre, eu me permitia experimentar a sensação da duvida. Será que eu era uma péssima pessoa e tudo isso era reflexo da minha má conduta? Às vezes acredito que sim, em outros momentos que não. Acredito que nossas ações estão de uma forma interligada, e isso torna tudo surpreendente.
Eu não conseguia parar de tamborilar os dedos na mesa.
Isso era preocupante.
Estar nessa situação era preocupante.
Eu não conseguia parar de olhar para a porta do apartamento. Eu desejava com toda a minha alma que o Arthur entrasse arrebatando tudo.
Ele sempre arrebatava com tudo.
Eu me perguntava se um dia as coisas não iriam ficar calmas. Eu me perguntava por que eu? Será que isso nunca iria ter fim?
Eram tantas as perguntas. É tão difícil pensar que num dia você está feliz com a sua família e o amor da sua vida, e no outro, tudo está terrivelmente acabado. Eu me sentia em um enredo de história de terror interminável.
São três e quinze da manhã. Estou praticamente bêbado.
Sobre a mesa, a tela do celular acende. Encaro por alguns segundos o aparelho. Existia uma grande pressão dentro de mim, e tudo isso aliado ao medo. Resolvi ver do que se tratava. Olhei para a tela do celular e pude mais uma vez ver outra mensagem. Essa seria a décima terceira mensagem recebida em menos de vinte e quatro horas.
“Você precisa fazer uma escolha, Vitinho.”
“Escolha quem é o mais importante para você.”
Merda!
Arremessei o copo contra a parede. Todo o líquido do copo foi ao encontro do chão. Eu estava perdendo o controle. Definitivamente, eu não sabia o que escolher. Não sabia como proceder nessa loucura toda em que eu estava metido.
Eu sentia raiva. Eu sentia medo. Eu podia até ouvir as batidas do meu coração.
Eu sentia dor.
Ela era a minha única aliada nesse momento. O mais engraçado, é que, mesmo sendo terrível essa sensação, eu ainda preferia sentir dor a não sentir nada. A vida havia pregado uma peça em mim novamente, e de certa forma, isso havia sido c***l. Eu tentava procurar uma solução para finalizar todo esse sofrimento.
Apenas uma solução.
Desde que resolvi sair do Sul, que minha vida virou de ponta a cabeça. Eu fui do céu ao inferno em questão de semanas. Logo em seguida, eu pude experimentar a sensação de estar no paraíso. Muitos ainda me enxergam como aquele garotinho que saiu do Sul para fazer faculdade em uma cidade grande e acabou cometendo os piores erros que alguém poderia cometer. Eu sabia que no passado eu havia feito m***a. Eu havia fodido com tudo. Tudo isso entrelaçado ao desespero de amar alguém.
Mas eu já não posso ser o mesmo de cinco anos atrás.
Encarei o aparelho celular, e o coloquei em meu bolso. Caminhei lentamente até a sacada do apartamento. Tudo estava escuro. Olhei para o céu na esperança de que alguma ideia surgisse em minha cabeça. Enquanto encarava o céu escuro e as poucas estrelas que ali estavam, eu pude sentir o ar frio ir de encontro à minha pele. A cada vez que isso acontecia, era como se uma faca estivesse sendo cravada em mim.
O silêncio era algo perturbador.
Olhei para o lado e deparei-me com o meu reflexo na piscina. Aproximei-me lentamente e sentei-me em sua borda. Contemplei a minha feição refletida na água. Tudo o que eu conseguia ver, era uma pessoa perdida. Uma voz ecoava em minha cabeça.
“Você é fraco, Victor”.
E juntamente com essa voz, veio a lembrança da última mensagem recebida. Ela ecoava em minha cabeça.
“O mais importante para você.”
Definitivamente, eu não estava preparado para fazer uma escolha que iria impactar em minha vida, ou melhor, em vidas. Retirei o celular do bolso e o brilho da tela iluminou o meu rosto. Falta pouco menos de duas horas para eu dar a resposta.
Respirei fundo e levantei-me. Peguei a chave do carro e desci para o estacionamento. Pensei se eu deveria mesmo dirigir no meu atual estado.
Foda-se!
Liguei o carro e dei a partida.
O trânsito na Avenida Paulista esse horário estava tranquilo. Pela janela, eu podia ver poucas pessoas caminharem em sentidos aleatórios. Acelerei mais ainda o carro. Há essa altura, eu não estava preocupado com a velocidade em que o carro estava. Na verdade, eu estava ignorando todo e qualquer aviso que eu dava a mim mesmo sobre os perigos das minhas escolhas. Se por um lado a minha imprudência me trouxe até aqui, eu preciso que ela me leve a outro lugar. Um lugar em que eu possa tomar uma decisão da qual não impacte terceiros. Mesmo sabendo que as coisas poderão não ser mais como antes, eu tinha que fazer uma escolha.
Após estacionar o carro em uma rua pouco movimentada, olhei na direção do que seria um galpão abandonado.
Respirei fundo.
Desci do carro e segui até a porta principal. Dei dois toques e ao abrir a porta, pude ver dois caras altos e fortes parados me encarando. Eles me reconheceram e sem rodeios permitiram a minha entrada. Segui escoltado por um deles até o final de um corredor cheio de portas. E pude experimentar novamente aquele sentimento de raiva.
−Vitinho, chegou cedo. –Disse o Rodrigo sorrindo. –Como você está?
Que pergunta inútil.
Não o respondi.
−Pela sua cara, não muito bem. –Desdenhou.
−Vamos acabar logo com isso. –Falei rispidamente.
−Calma ae, Vitinho. Não quer conversar um pouco mais?
“Vitinho”.
Pude relembrar todas as vezes que o Rodrigo me chamou dessa forma. Meu estômago se revirou com as tais recordações.
−Eu não vir aqui para conversar.
Rodrigo sorriu.
−Por que você não aceita logo a minha proposta e acaba logo com isso, Victor?
Eu me mantive calado.
−Victor, me responda! –Ordenou-me.
Eu arfei.
−Você quer saber mesmo o motivo de eu não aceitar a sua proposta ridícula? Olha só onde nós estamos. Olha só o que você está fazendo comigo novamente.
Ele permaneceu me encarando. Seus olhos azuis estavam ainda mais brilhantes. Ele não mudara nada.
O filho da p**a continuava bonito. Pena que sua beleza não valha de nada.
Ele aproximou-se de mim.
−Eu quero você. Você tem que ser meu. –Existia uma confiança em tudo que acabara de dizer.
−Mas eu não o amo. –Falei encarando-o.
−Mas eu o amo. –Ele disse ajoelhando-se em minha frente.
Que cena patética.
−Isso não é amor. –Rebati.
−Como você pode dizer algo sobre mim? Esse é o meu sentimento. –Rodrigo me encarava.
−Não é difícil distinguir isso. Passaram-se cinco anos desde o nosso primeiro encontro e você ainda mantém essa obsessão por mim. Você paralisou a sua vida com esse pensamento. Isso se tornou repetitivo e você não consegue seguir em frente. –Disse encarando-o friamente.
−Isso não é obsessão. –Ele gritou. –Você não me entende. Você nunca vai entender. Você está cego pelo Arthur. Nós sabemos o quanto ele é rico, mas eu conheço você, Victor. Sei que não está com ele pelo dinheiro. Mas o que ele tem, além disso, que eu não tenho?
Nesse momento eu percebi o quanto ele estava obcecado. Eu entendi naquele momento, que ele parecia um pedaço de árvore lançado ao mar como se fosse um naufrago em potencial. Ele estava se afundando numa dor que eu desconhecia. Eu agora entendia que a obsessão dele, na verdade era uma espécie de mecanismo de defesa própria, e que ele possuía uma ferida ainda não cicatrizada.
Mas por que eu?
−Ele tem algo que você não desenvolveu por mim.– Disse encarando-o. –Ele me ama. – As palavras foram expulsas sem qualquer medo do que poderia vir depois de serem ditas. Ele começou a andar de um lado para o outro. Suas mãos estavam posicionadas em sua cabeça.
−Eu não queria que fosse dessa forma, Victor. Mas você não está me dando outra saída.
Rodrigo deslocou-se até o outro lado do galpão. Eu não estava entendendo o que ele pretendia fazer, até que ele puxou uma cortina preta, que eu nem havia notado. No momento em que a cortina caiu, meu coração acelerou. A cena a seguir me pegou de surpresa. Arthur e Marcelo sentados em uma cadeira. Ambos estavam sem camisa e amordaçados. Seus corpos exibiam marcas, era como se o Rodrigo tivesse feito algo com eles.
Arthur e Marcelo. Um de frente para o outro.
Rodrigo ficou entre os dois. Logo em seguida, sacou uma arma.
Meu coração tomou um ritmo acelerado.
−Você não meu deu outra escolha. E então, Victor. Qual dos dois você escolhe...?