Capítulo 02

1419 Words
Arthur Eu estava nervoso. Eu estava terrivelmente nervoso. A última vez em que eu me atrevi a conhecer os pais de alguém, foi em outra condição. Tratava-se dos pais da Gabriela. Eles praticamente me colocaram em um pedestal. A mãe da Gabriela até mais do que o pai. No fundo, eu sabia do que se tratava. Interesse. Acredito até que, uma parte da personalidade da Gabriela fosse justamente o reflexo do que a mãe era para ela. Já o pai, era um pouco mais "tranquilo". Lembro-me do dia em que o conheci. Ele sorria de maneira espontânea, enquanto a mãe da Gabriela sorria de qualquer coisa que eu ousasse dizer. Dessa vez era diferente. Mesmo sabendo que o Victor havia sido criado pelos tios, a sua educação era algo que estava firmemente em suas atitudes. E certamente seus pais o haviam ensinado como ser uma boa pessoa. E ele era. Victor nunca demonstrou interesse pelo meu dinheiro, muito menos por tudo o que eu exibia. Isso era encantador. Pela primeira vez, eu me vi cercado por alguém que olhava para mim e não para o que eu tinha. −Arthur?−Ouvi a voz do Victor. −Oi. −Vamos entrar? Respirei fundo. −Vamos. Era o típico "vamos" que não demonstrava entusiasmo algum. Olhei para trás e acenei para o motorista. Ele viria nos pegar mais tarde, caso fosse necessário. Victor me encarou e sorriu. Para a minha surpresa, logo em seguida ele segurou a minha mão direita. Ele sabia que aquele gesto me tranquilizava. −Vai dar tudo certo. −Ele disse encarando-me. Alguns segundos após ter dito isso, seguimos até a entrada da casa, que por sinal, era muito linda. Victor apertou a campainha. Aguardamos alguns segundos, até que pude ver a maçaneta rolar para o lado. Meu coração acelerou. A porta fora aberta. E aos poucos, pude ver uma mulher com feições finas. Seus cabelos estavam soltos. Eram cabelos longos, negros. Ao encará-la, automaticamente lembrei-me do Victor. Seus olhos, sua boca, tudo lembrava ele. Puta que pariu! Era a minha sogra. Por incrível que pareça, o meu nervosismo pareceu sumir por completo. Dando lugar a alegria de finalmente poder conhecer a mãe do meu namorado. −Filho! −Exclamou a mulher. − Indo ao encontro do Victor e dando-lhe um abraço amistoso. Seus olhos exibiam uma felicidade descomunal. Olhei para o Victor que retribuía o abraço. Ambos choravam. Talvez pelo fato de terem ficado longos anos sem se verem. −Mãe! − Victor dizia tateando o rosto da sua mãe. −Como a senhora está linda. −São seus olhos, meu filho. A mãe do Victor era modesta. De fato, ela era uma mulher muito linda. Victor olhou em minha direção. −Mãe, quero te apresentar o meu... −A mãe do Victor o interrompeu. − Seu namorado.−Disse encarando-me. Corei. −Noivo. −Retificou o Victor sorrindo. −Noivo? −A mãe do Victor me encarava incrédula. -Como assim vocês estão noivos e nem me contaram? −Foi para isso que viemos, Senhora Drummond. −Experimentei falar. Ela sorriu. Sorri de volta. Um sorriso tímido. −Isso mesmo, mãe. −Disse o Victor. -Esse é o Arthur Cornier. A mãe do Victor veio em minha direção, e sem que eu pudesse esperar, ela me abraçou. Meu coração palpitava. De imediato, eu a abracei. Victor observava toda a cena. −Vamos entrar. −Disse a mãe do Victor puxando-me pela mão. −Já estão assim, é?−Victor disse logo atrás. Ao entrarmos, examinei indo recinto.A luz se infiltra pelas janelas, fazendo sombras recaírem inclinadas sobre o piso de madeira, parecia acácia. A mobília parecia antiga, remodelada e surpreendentemente bem ordenada. As poltronas e o sofá são de vários tons em azul. Uma pequena mesa de centro, e algumas fotografias espalhadas por toda a sala. Tudo estava organizado, o que dava uma sensação marcante de acolhimento. Notei também uma lareira que estava posicionada em frente ao sofá. −A sua casa é surpreendente. −Disse olhando na direção da mãe do Victor. Ela sorri. −É simples, mas bem arrumadinha. Sorri de volta. −Sente-se, querido. −Disse a mãe do Victor. Ela retirou algumas almofadas para que eu ficasse mais a vontade. −Obrigado, senhora..? Eu ainda não sabia o nome da mãe do Victor. −Isabel.−Completou. −Senhora Isabel. −Disse sorrindo. Confesso que fiquei um pouco envergonhado. Como alguém vai conhecer a sogra e não sabe ao menos o nome dela. Victor sentou-se ao meu lado. −Mãe, onde está o pai? −Ele deu uma saída, mas deve já está voltando. −Disse indo até a cozinha. Observei o Victor sorrindo para mim. −Como estou me saindo? −Perguntei. −Bem melhor do que eu esperava. −Respondeu. Ufa! Pude relaxar. A mãe do Victor voltou com uma bandeja em mãos, a colocou sobre a mesa. −Gosta de chocolate quente e bolo de cenoura, Arthur? −Claro, senhora Drummond. −Drummond não, Isabel. Não precisamos de formalidades. −Disse sorrindo. Logo em seguida, ela nos serviu. −Fique a vontade, e caso queira mais, é só pegar. −Disse sentando-se ao de frente para mim. − Já vi que vou engordar aqui. −Falei. −Essa é a intenção. −Respondeu Victor. Todos rimos. O chocolate tinha um toque de canela, e o bolo, estava maravilhoso. −Então, Arthur. O que faz da vida? Olhei para a Isabel. Ela me observava, assim como o Victor. −Eu administro a empresa dos meus pais, juntamente com a minha irmã. Com um movimento curto, ela deposita a xícara sobre a mesinha de centro. −Que tipo de empresa ? −Construção Civil. −Promissor. −Respondeu-me. Eu sentia que apesar do medo das perguntas que poderiam vir, não era como um interrogatório. É a atitude típica de uma mãe que se preocupa com o namorado do seu filho. −Quem pediu quem em noivado? −Ela lançou seu olhar em minha direção. Mas eu sabia que a pergunta não estava sendo direcionada para mim. −Eu o pedi. −Respondi tocando a mão direita do Victor. −Eu imaginei. −Isabel disse sorrindo. −Eu conheço meu filho, sei que ele não teria essa coragem toda. Mas confesso que estou surpresa, você parece ser um excelente rapaz. −Mãe! −Resmungou o Victor. −Assim a senhora me coloca numa péssima situação. Não contive a risada. −Eu gosto da forma como o Victor se porta. −Respondi. Antes que a mãe do Victor falasse algo, a porta se abriu. Todos olharam em direção a porta. Em questão de segundos, meu coração bateu mais forte. Um homem alto, forte, com cabelos pretos, corpo robusto e olhos expressivos me encarava. −Pai! −Disse o Victor levantando-se e indo sem sua direção. Caralho! Esse é o meu sogro. −Filho! −Respondeu o homem. Ambos se abraçaram. Apenas observei toda a cena. −Pai, esse é o... −Arthur Cornier. −Respondeu o pai do Victor. Surpreendendo à todos. Ele já me conhecia? −Pai, o senhor já o conhece? O pai do Victor aproximou -se um pouco mais de mim. Levantei- me para cumprimentá-lo. −O rosto dele está estampado em alguns jornais que eu costumo ler. −Respondeu. Apesar de não conhecê-lo, eu tive a impressão de que ele não estava familiarizado com a minha presença. −Prazer, senhor..? −Olavo. −Disse estendendo a mão para me cumprimentar. −Senhor Olavo. Ele apertou a minha mão com bastante firmeza. −Quer uma xícara de chocolate quente, amor? −Isabel perguntou-lhe. −Quero sim. Na verdade, quero poder aproveitar a visita inesperada do meu filho, e a ilustre presença do herdeiro das maiores empresas da área de construção civil. Senti o impacto de suas palavras. Pelo visto, ele sabia mais de mim do que eu esperava. Tentei disfarçar o incômodo. −Vamos nos sentar. −Sugeriu a Isabel. Após alguns segundos de silêncio, Victor resolveu "quebrar" o gelo. −Pai, Arthur e eu viemos aqui para tratarmos do nosso noivado. Os olhos do Olavo arregalaram-se em surpresa. −Noivado? Você e o Arthur Cornier? Espero que o tom em sua voz seja de surpresa, e não reprovação. −Sim. −Respondi −Eu pretendo me casar com seu filho, senhor Olavo. Claro, se não for um empecilho pra vocês. Disse tentando amenizar a minha frase, para não parecer prepotente. Embora, em outra ocasião, eu estivesse afirmando. Sua expressão ilegível. Espero que ele não critique a nossa decisão. Eu não saberia o que fazer. −Como tudo isso aconteceu? Quando começaram a namorar? Aliás, como se conheceram? E por que o Victor? Olavo desliza sua mão pela boca e pelo queixo. Ele estava tentando me intimidar. Eu não posso falhar. −Pai... −Shhh, filho. Deixe que o Arthur Cornier responda. Se ele vai ser da nossa família, que comece a partir de agora a ser claro e direto em suas reais intenções. Engoli a seco. Se essa era a forma de me intimidar. Ele havia conseguido.
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