Arthur
Eu estava nervoso.
Eu estava terrivelmente nervoso.
A última vez em que eu me atrevi a conhecer os pais de alguém, foi em outra condição. Tratava-se dos pais da Gabriela. Eles praticamente me colocaram em um pedestal. A mãe da Gabriela até mais do que o pai. No fundo, eu sabia do que se tratava.
Interesse.
Acredito até que, uma parte da personalidade da Gabriela fosse justamente o reflexo do que a mãe era para ela. Já o pai, era um pouco mais "tranquilo". Lembro-me do dia em que o conheci. Ele sorria de maneira espontânea, enquanto a mãe da Gabriela sorria de qualquer coisa que eu ousasse dizer.
Dessa vez era diferente. Mesmo sabendo que o Victor havia sido criado pelos tios, a sua educação era algo que estava firmemente em suas atitudes. E certamente seus pais o haviam ensinado como ser uma boa pessoa. E ele era. Victor nunca demonstrou interesse pelo meu dinheiro, muito menos por tudo o que eu exibia. Isso era encantador. Pela primeira vez, eu me vi cercado por alguém que olhava para mim e não para o que eu tinha.
−Arthur?−Ouvi a voz do Victor.
−Oi.
−Vamos entrar?
Respirei fundo.
−Vamos.
Era o típico "vamos" que não demonstrava entusiasmo algum.
Olhei para trás e acenei para o motorista. Ele viria nos pegar mais tarde, caso fosse necessário. Victor me encarou e sorriu. Para a minha surpresa, logo em seguida ele segurou a minha mão direita. Ele sabia que aquele gesto me tranquilizava.
−Vai dar tudo certo. −Ele disse encarando-me.
Alguns segundos após ter dito isso, seguimos até a entrada da casa, que por sinal, era muito linda.
Victor apertou a campainha. Aguardamos alguns segundos, até que pude ver a maçaneta rolar para o lado.
Meu coração acelerou.
A porta fora aberta. E aos poucos, pude ver uma mulher com feições finas. Seus cabelos estavam soltos. Eram cabelos longos, negros. Ao encará-la, automaticamente lembrei-me do Victor. Seus olhos, sua boca, tudo lembrava ele.
Puta que pariu!
Era a minha sogra.
Por incrível que pareça, o meu nervosismo pareceu sumir por completo. Dando lugar a alegria de finalmente poder conhecer a mãe do meu namorado.
−Filho! −Exclamou a mulher. − Indo ao encontro do Victor e dando-lhe um abraço amistoso.
Seus olhos exibiam uma felicidade descomunal. Olhei para o Victor que retribuía o abraço. Ambos choravam. Talvez pelo fato de terem ficado longos anos sem se verem.
−Mãe! − Victor dizia tateando o rosto da sua mãe. −Como a senhora está linda.
−São seus olhos, meu filho.
A mãe do Victor era modesta.
De fato, ela era uma mulher muito linda.
Victor olhou em minha direção.
−Mãe, quero te apresentar o meu... −A mãe do Victor o interrompeu.
− Seu namorado.−Disse encarando-me.
Corei.
−Noivo. −Retificou o Victor sorrindo.
−Noivo? −A mãe do Victor me encarava incrédula. -Como assim vocês estão noivos e nem me contaram?
−Foi para isso que viemos, Senhora Drummond. −Experimentei falar.
Ela sorriu.
Sorri de volta. Um sorriso tímido.
−Isso mesmo, mãe. −Disse o Victor. -Esse é o Arthur Cornier.
A mãe do Victor veio em minha direção, e sem que eu pudesse esperar, ela me abraçou.
Meu coração palpitava. De imediato, eu a abracei.
Victor observava toda a cena.
−Vamos entrar. −Disse a mãe do Victor puxando-me pela mão.
−Já estão assim, é?−Victor disse logo atrás.
Ao entrarmos, examinei indo recinto.A luz se infiltra pelas janelas, fazendo sombras recaírem inclinadas sobre o piso de madeira, parecia acácia. A mobília parecia antiga, remodelada e surpreendentemente bem ordenada. As poltronas e o sofá são de vários tons em azul. Uma pequena mesa de centro, e algumas fotografias espalhadas por toda a sala. Tudo estava organizado, o que dava uma sensação marcante de acolhimento. Notei também uma lareira que estava posicionada em frente ao sofá.
−A sua casa é surpreendente. −Disse olhando na direção da mãe do Victor.
Ela sorri.
−É simples, mas bem arrumadinha.
Sorri de volta.
−Sente-se, querido. −Disse a mãe do Victor.
Ela retirou algumas almofadas para que eu ficasse mais a vontade.
−Obrigado, senhora..?
Eu ainda não sabia o nome da mãe do Victor.
−Isabel.−Completou.
−Senhora Isabel. −Disse sorrindo.
Confesso que fiquei um pouco envergonhado. Como alguém vai conhecer a sogra e não sabe ao menos o nome dela.
Victor sentou-se ao meu lado.
−Mãe, onde está o pai?
−Ele deu uma saída, mas deve já está voltando. −Disse indo até a cozinha.
Observei o Victor sorrindo para mim.
−Como estou me saindo? −Perguntei.
−Bem melhor do que eu esperava. −Respondeu.
Ufa!
Pude relaxar.
A mãe do Victor voltou com uma bandeja em mãos, a colocou sobre a mesa.
−Gosta de chocolate quente e bolo de cenoura, Arthur?
−Claro, senhora Drummond.
−Drummond não, Isabel. Não precisamos de formalidades. −Disse sorrindo.
Logo em seguida, ela nos serviu.
−Fique a vontade, e caso queira mais, é só pegar. −Disse sentando-se ao de frente para mim.
− Já vi que vou engordar aqui. −Falei.
−Essa é a intenção. −Respondeu Victor.
Todos rimos.
O chocolate tinha um toque de canela, e o bolo, estava maravilhoso.
−Então, Arthur. O que faz da vida?
Olhei para a Isabel. Ela me observava, assim como o Victor.
−Eu administro a empresa dos meus pais, juntamente com a minha irmã.
Com um movimento curto, ela deposita a xícara sobre a mesinha de centro.
−Que tipo de empresa ?
−Construção Civil.
−Promissor. −Respondeu-me.
Eu sentia que apesar do medo das perguntas que poderiam vir, não era como um interrogatório. É a atitude típica de uma mãe que se preocupa com o namorado do seu filho.
−Quem pediu quem em noivado? −Ela lançou seu olhar em minha direção. Mas eu sabia que a pergunta não estava sendo direcionada para mim.
−Eu o pedi. −Respondi tocando a mão direita do Victor.
−Eu imaginei. −Isabel disse sorrindo. −Eu conheço meu filho, sei que ele não teria essa coragem toda. Mas confesso que estou surpresa, você parece ser um excelente rapaz.
−Mãe! −Resmungou o Victor. −Assim a senhora me coloca numa péssima situação.
Não contive a risada.
−Eu gosto da forma como o Victor se porta. −Respondi.
Antes que a mãe do Victor falasse algo, a porta se abriu. Todos olharam em direção a porta. Em questão de segundos, meu coração bateu mais forte. Um homem alto, forte, com cabelos pretos, corpo robusto e olhos expressivos me encarava.
−Pai! −Disse o Victor levantando-se e indo sem sua direção.
Caralho!
Esse é o meu sogro.
−Filho! −Respondeu o homem.
Ambos se abraçaram. Apenas observei toda a cena.
−Pai, esse é o...
−Arthur Cornier. −Respondeu o pai do Victor.
Surpreendendo à todos.
Ele já me conhecia?
−Pai, o senhor já o conhece?
O pai do Victor aproximou -se um pouco mais de mim. Levantei- me para cumprimentá-lo.
−O rosto dele está estampado em alguns jornais que eu costumo ler. −Respondeu.
Apesar de não conhecê-lo, eu tive a impressão de que ele não estava familiarizado com a minha presença.
−Prazer, senhor..?
−Olavo. −Disse estendendo a mão para me cumprimentar.
−Senhor Olavo.
Ele apertou a minha mão com bastante firmeza.
−Quer uma xícara de chocolate quente, amor? −Isabel perguntou-lhe.
−Quero sim. Na verdade, quero poder aproveitar a visita inesperada do meu filho, e a ilustre presença do herdeiro das maiores empresas da área de construção civil.
Senti o impacto de suas palavras. Pelo visto, ele sabia mais de mim do que eu esperava. Tentei disfarçar o incômodo.
−Vamos nos sentar. −Sugeriu a Isabel.
Após alguns segundos de silêncio, Victor resolveu "quebrar" o gelo.
−Pai, Arthur e eu viemos aqui para tratarmos do nosso noivado.
Os olhos do Olavo arregalaram-se em surpresa.
−Noivado? Você e o Arthur Cornier?
Espero que o tom em sua voz seja de surpresa, e não reprovação.
−Sim. −Respondi −Eu pretendo me casar com seu filho, senhor Olavo. Claro, se não for um empecilho pra vocês.
Disse tentando amenizar a minha frase, para não parecer prepotente. Embora, em outra ocasião, eu estivesse afirmando.
Sua expressão ilegível. Espero que ele não critique a nossa decisão. Eu não saberia o que fazer.
−Como tudo isso aconteceu? Quando começaram a namorar? Aliás, como se conheceram? E por que o Victor?
Olavo desliza sua mão pela boca e pelo queixo. Ele estava tentando me intimidar.
Eu não posso falhar.
−Pai...
−Shhh, filho. Deixe que o Arthur Cornier responda. Se ele vai ser da nossa família, que comece a partir de agora a ser claro e direto em suas reais intenções.
Engoli a seco.
Se essa era a forma de me intimidar.
Ele havia conseguido.