CAPÍTULO 7_ A LINHA QUE NÃO EXISTE

787 Words
Isabela O cheiro de sangue ainda parecia impregnado no ar quando acordei. Não era real — eu sabia —, mas meu corpo não. A imagem de Dimitri entrando no quarto, o olhar frio, o casaco manchado, repetia-se como um eco dentro da minha cabeça. Ele tinha matado por mim. Não em um impulso. Não por acidente. Por escolha. Desci as escadas cedo, incapaz de ficar sozinha com meus pensamentos. Encontrei a cozinha vazia, silenciosa demais para uma casa que abrigava tantos segredos. Peguei uma xícara de café e minhas mãos ainda tremiam quando ouvi a voz dele atrás de mim. — Você não deveria estar acordada tão cedo. Virei devagar. Dimitri estava impecável, como se a noite anterior não tivesse existido. Terno escuro. Postura perfeita. Só os olhos denunciavam algo diferente — mais tensos, mais atentos. — Você dormiu? — perguntei. — Pouco. — Eu também. O silêncio entre nós carregava mais coisas do que qualquer conversa. Apoiei a xícara na bancada com força um pouco maior do que o necessário. — Quantas pessoas você já matou? — perguntei, direta. Ele não pareceu surpreso. — O suficiente. — E você dorme bem com isso? Dimitri me encarou por longos segundos antes de responder. — Eu durmo porque era isso ou morrer. — Ou se tornar isso — rebati. A mandíbula dele se contraiu. — Você acha que eu gosto? — Acho que você se acostumou. Ele deu um passo à frente. — Você acha que eu tinha escolha? Meu peito apertou. Não era uma defesa. Era um fato. — E eu? — perguntei. — Eu tenho escolha aqui? O olhar dele suavizou por um instante. Quase imperceptível. Quase humano. — Não — respondeu. — Mas eu não vou te machucar. — Você já machucou — falei baixo. — Só não foi no corpo. Ele fechou os olhos por um segundo, como se minhas palavras tivessem atingido um lugar que ninguém mais alcançava. — Eu tentei manter você fora disso — disse. — Falhei. — Não — corrigi. — Você me puxou pra dentro. O ar ficou denso. Próximo demais. Forte demais. — Então me empurra pra fora — desafiei. Ele riu sem humor. — Se fosse possível, eu já teria feito. Dimitri Ela era uma ameaça maior do que qualquer inimigo. Não porque fosse fraca — mas porque via demais. Sentia demais. Isabela não aceitava minhas respostas prontas, meus silêncios, minhas justificativas. Ela me forçava a encarar tudo o que eu havia enterrado. — Há pessoas observando — eu disse, mudando o tom. — O que aconteceu com Viktor não passou despercebido. — Quem? — ela perguntou. — Um grupo antigo. Eles não gostam de mudanças. Nem de fraquezas. — E eu sou a fraqueza — concluiu. — Você é o motivo — corrigi. Ela respirou fundo. — Então me ensina a sobreviver aqui. Aquilo me pegou desprevenido. — O quê? — Se eu vou ficar — disse firme —, não vou ser um alvo fácil. Não vou ser a mulher escondida atrás de você. Aproximei-me devagar. — Isso significa perigo. — Minha vida inteira foi isso — respondeu. — A diferença é que agora eu sei de onde vem. Observei-a com atenção. Não havia medo nos olhos dela. Havia decisão. — Começamos hoje — eu disse. — Mas você vai me obedecer. — Não confunda aprendizado com submissão — ela retrucou. Um canto da minha boca se ergueu. — Gosto quando você esquece quem manda. — Gosto quando você lembra que eu escolho ficar. A distância entre nós desapareceu. Não houve toque. Não houve beijo. Mas a tensão era quase física, como se o ar estivesse prestes a romper. — Eles virão — avisei. — E quando vierem, vão tentar te usar contra mim. — Então quebrem a cara — ela respondeu. Isabela Mais tarde, sozinha no quarto, tentei organizar meus pensamentos. Eu estava presa a um homem perigoso. Um homem que matava sem hesitar. E ainda assim… ele me ouvia. Me protegia. Me desafiava. Isso não era amor. Mas também não era apenas medo. Quando ouvi passos no corredor novamente, meu corpo reagiu antes da razão. Dimitri parou à porta. — A partir de hoje — disse —, você não é mais só uma garantia. — O que eu sou então? Ele me encarou como se aquela fosse a pergunta mais difícil que já lhe fizeram. — Você é a única coisa que pode me destruir. E saiu. Fiquei ali, o coração acelerado, entendendo finalmente a verdade mais perigosa de todas: Eu já não queria ir embora. _______________________________________ 🔥 Cliffhanger: Isabela decide aprender o jogo de Moscou. E os inimigos de Dimitri começam a se mover — agora com um alvo definido.
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