Isabela
O primeiro tiro não foi alto.
Foi seco. Preciso. Calculado.
O vidro atrás de Morozov estilhaçou antes que qualquer um reagisse. O som explodiu dentro do clube como um aviso tardio.
Dimitri me puxou pelo braço, o corpo dele se colocando à minha frente num reflexo que não pediu permissão.
— Agora! — ele gritou.
O caos se instalou em segundos.
Homens correram, mesas viraram abrigo improvisado, gritos se misturaram ao som de disparos abafados. Eu não pensei. Agi. Me abaixei, senti o chão frio contra as mãos, o coração disparado não por medo, mas por foco.
— À direita! — avisei, vendo uma sombra se mover perto da saída lateral.
Dimitri respondeu sem olhar, um tiro certeiro que fez o homem cair antes de completar o movimento.
Não havia romantização ali.
Era sobrevivência pura.
Morozov desapareceu no meio da confusão. Óbvio. Ele nunca ficava até o fim. Gostava de começar incêndios, não de apagar.
— Ele fugiu — eu disse, ofegante.
— Como sempre — Dimitri respondeu, o olhar duro. — Vamos sair.
Dois dos homens de Dimitri cobriam a retaguarda enquanto avançávamos. Um deles caiu. Não morto. Ferido. O sangue espalhado no chão me fez engolir em seco.
— Não pare — Dimitri ordenou, percebendo meu olhar.
Obedeci. Não por frieza. Por entender que parar ali significava morrer depois.
Quando finalmente entramos no carro, o silêncio foi ensurdecedor. O motorista arrancou em alta velocidade. Só então senti o tremor nas mãos.
— Você está machucada? — Dimitri perguntou, virando-se para mim.
Balancei a cabeça.
— Não. Você?
Ele assentiu, indicando o ombro. Um corte superficial. Sangue escuro manchava a camisa.
— Nada sério — disse.
Eu estendi a mão sem pensar, tocando o tecido encharcado.
— Você sangra como qualquer outro homem — murmurei.
Ele segurou meu pulso.
— Não confunda isso com fraqueza.
— Não confundo — respondi. —
Confundo com humanidade.
Os olhos dele ficaram presos nos meus por um segundo longo demais.
Dimitri
Aquele encontro não foi sobre território.
Foi sobre mensagem.
Morozov queria provar que podia me atingir sem me destruir. Ainda.
De volta à mansão, o médico cuidou do ferimento. Isabela ficou ali. Não saiu. Não desviou o olhar. Observava tudo com atenção silenciosa.
— Você devia descansar — eu disse.
— Não agora — respondeu. — Agora você precisa pensar.
Ela estava certa.
— Ele não queria me matar hoje — continuei. — Queria me forçar a escolher.
— E você escolheu — ela disse.
— Sim.
— O quê?
Olhei para ela.
— Que não vou mais reagir. Vou antecipar.
Ela se aproximou.
— Então pare de me tratar como dano colateral — disse. — Se ele me usa como arma… eu também posso ser.
— Isso te coloca em risco direto.
— Eu já estou nele.
O silêncio entre nós era carregado de algo novo. Não era só desejo. Era cumplicidade forjada no fogo.
— Você não recuou — eu disse. — Nem quando tudo desmoronou.
— Eu disse que não sou fraca.
— Não — corrigi. — Você é perigosa.
O olhar dela não vacilou.
— Então use isso.
A mão dela tocou meu peito, perto demais do ferimento. O toque não foi sedutor. Foi real. Íntimo demais para ignorar.
— Se algo tivesse acontecido com você…
— ela começou.
— Mas não aconteceu — interrompi. —
Porque você estava ao meu lado.
Ela respirou fundo.
— Então não me afaste quando ficar pior.
— Vai ficar pior — avisei.
— Ótimo — respondeu. — Eu detesto finais fáceis.
Algo dentro de mim se ajustou naquele instante. Uma decisão silenciosa.
— A partir de agora — disse —, você não é mais variável.
— O que eu sou, então?
Aproximei-me, baixo o suficiente para que só ela ouvisse.
— Você é o centro.
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🔥 Cliffhanger:
O primeiro confronto termina sem vencedor.
Morozov recua para atacar melhor.
E Dimitri decide transformar Isabela de alvo… em estratégia.