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1580 Words
Dante não pensou duas vezes. Assim que viu Isa sumindo pelos corredores do hotel, ele se levantou, passou direto pelos olhares curiosos ao redor e saiu atrás dela. Seu coração batia rápido — não de desejo, dessa vez, mas por preocupação. Encontrou-a no saguão, próximo à saída, tentando chamar um carro pelo celular com as mãos trêmulas. — Isa! — chamou, ao se aproximar. — Espera. Você não pode sair assim. Ela nem olhou pra ele. — Já pedi um carro. — Eu te levo. — ele disse, firme. Ela virou lentamente o rosto em direção a ele. Os olhos estavam marejados, mas ela mantinha o queixo erguido, como se quisesse segurar a dignidade em cada fibra do corpo. — Não precisa. — Eu insisto. — ele deu um passo à frente, mais calmo. — Você não está em condições de voltar sozinha. Isa hesitou por um segundo, então cedeu com um aceno breve. Eles saíram lado a lado, em silêncio, e entraram no carro de Dante. Durante o trajeto, só o som da cidade preenchia o espaço entre eles. Até que ela falou, com a voz baixa: — Eu vi ele. Rodrigo. Com outra. Dante olhou de relance para ela, sem dizer nada. — Não é sobre ciúmes, se é isso que pensa. — ela continuou. — É só... O lugar. O momento. Eu... não esperava. Ele apertou o volante, concentrado na rua à frente. — Você não precisa se explicar. — disse, depois de um tempo. — Mas por que aquilo te abalou tanto? Ela respirou fundo, apoiando o cotovelo na janela. — Porque ele sempre fingiu ser o tipo certo, sabe? O cara sério. Que desprezava esse tipo de coisa. Que dizia que mulher que se valorizava não se misturava. — Ela soltou uma risada amarga. — E olha ele lá. Na ala do swing, como se fosse natural. Dante permaneceu em silêncio, respeitando o desabafo. — Ver ele ali... — ela continuou, com os olhos fixos no vidro. — Me fez sentir como se tudo tivesse sido uma mentira. Como se eu tivesse sido i****a duas vezes: por acreditar nele, e por deixar você me tocar ali, daquele jeito. Dante encostou o carro próximo ao prédio dela. Virou-se um pouco no banco, a encarando. — Você não foi i****a. Nem por um segundo. — disse, firme. — Eu nunca faria nada que você não quisesse. Ela o olhou nos olhos por um breve momento, vulnerável, mas ainda fechada. — Boa noite, Dante. Isa desceu do carro sem esperar resposta e entrou em seu prédio sem olhar para trás. Dante ficou ali por alguns segundos, observando a porta se fechar, antes de soltar um longo suspiro e ligar o carro de novo. O celular de Isa vibrou em cima da mesa enquanto ela organizava alguns papéis no escritório. Ainda estava cedo e a ressaca emocional da noite anterior persistia como um peso em seus ombros. Ao ver o nome de Dante na tela, hesitou por alguns segundos antes de atender. — Alô? — Bom dia, Mendes. — a voz dele soou baixa, quase cautelosa. — Tudo bem? Ela manteve o tom neutro. — Bom dia. Estou bem, sim. Dante fez uma breve pausa, como se considerasse suas palavras. — Preciso que você arrume sua agenda. Vamos viajar amanhã. Isa franziu o cenho. — Viajar? — Sim. Negócios. — respondeu, objetivo. — Tenho reuniões em Nova York com investidores e representantes de uma empresa com quem vamos fechar uma parceria estratégica. Eles exigiram que alguém da parte financeira esteja presente. Confio mais em você do que em qualquer outro. Ela se recostou na cadeira, surpresa. — Amanhã? — Já está tudo organizado. O voo é às 13h. Vamos passar três dias por lá. Hotel, transporte, alimentação, tudo resolvido. Isa apertou os lábios. — Você tem certeza que é uma boa ideia? — Absoluta. — ele disse, firme. — E não se preocupe, Isa. A viagem é a trabalho. Prometo manter tudo profissional. A decisão é sua, claro. Mas preciso de você nisso. Ela ficou em silêncio por um momento. Parte dela queria negar. Fingir que nada mais existia além da sua mesa e seus relatórios. Mas outra parte — a mais desafiadora — sentia o frio na barriga que só Dante conseguia provocar. — Tudo bem. — respondeu, por fim. — Eu vou. Ele pareceu sorrir do outro lado. — Ótimo. Te mando os detalhes por e-mail ainda hoje. — Ok. — Isa... — ele chamou, antes que ela desligasse. — O quê? — Obrigado por confiar em mim, mesmo quando eu faço tudo pra te afastar. Ela não respondeu, apenas desligou. E ficou encarando o celular por longos segundos, tentando entender por que aquela viagem soava tão perigosa quanto irresistível. O dia passou mais devagar do que o normal. Isa evitou Dante o quanto pôde, focando em deixar tudo organizado antes de sair para a viagem. Quando finalmente o relógio marcou o fim do expediente, ela pegou sua bolsa e foi até a recepção, onde Júlia já a esperava. — Bora? — Júlia perguntou, se levantando do sofá onde estava sentada. — Bora. — Isa respondeu, cansada, mas com os olhos carregando algo que a amiga notou de cara. No elevador, Júlia a encarou de lado. — Tá com uma cara de quem vai me contar algo que eu não vou acreditar. Isa soltou um suspiro. — Dante me chamou pra uma viagem de negócios. — Viagem? Que tipo de viagem? — Estados Unidos. Amanhã. Vai ter reunião com uma empresa gringa, ele quer que eu vá pra cuidar da parte financeira. Júlia arregalou os olhos, claramente empolgada. — EUA? Que chique! Mas... e depois daquilo ontem? Vocês nem se falaram? — Ele foi bem direto. Disse que é trabalho. E eu aceitei. — Isa respondeu, dando de ombros, tentando parecer mais indiferente do que realmente se sentia. Júlia riu baixo. — Você é mais corajosa do que eu, amiga. Mas... boa sorte com esse "profissionalismo". Isa balançou a cabeça, tentando disfarçar o nervosismo. — Só quero ir, fazer meu trabalho e voltar. Nada além disso. --- Mais tarde, em casa, Isa terminou de arrumar sua mala. Separou roupas sóbrias, pastas, e o mínimo de itens pessoais. Estava prestes a desligar o notebook quando resolveu verificar o e-mail — apenas para garantir que nada ficasse pendente. No topo da caixa de entrada, uma nova mensagem de Rafaela Figueiredo – Advocacia Familiar piscava com um título nada agradável: Rodrigo deseja conversar. Ela clicou, o coração batendo num ritmo mais irritado do que nervoso. "Isadora, boa noite. Conforme alinhado, enviei os papéis da separação ao Rodrigo, mas ele pediu que antes de assinar, tenha uma conversa com você. Disse que precisa esclarecer algumas coisas pessoalmente. Aguardo seu retorno para agendarmos esse encontro, caso aceite." Isa fechou os olhos, respirou fundo, e digitou uma resposta rápida: "Boa noite, Rafaela. Agradeço o retorno, mas estarei fora do país nos próximos dias por motivos de trabalho. Assim que retornar, entro em contato para conversarmos sobre a melhor forma de lidar com isso. Att., Isadora Mendes." Ela clicou em "Enviar" e fechou o notebook, encostando-se na cadeira com o olhar preso no teto. Rodrigo queria conversar. Mas agora, mais do que nunca, ela sabia que havia coisas que ele não tinha mais o direito de pedir. O aeroporto de Guarulhos fervilhava de vozes, malas rodando apressadas e anúncios ecoando pelos alto-falantes. Isadora chegou pontualmente ao terminal, com uma mala de mão e sua pasta de documentos. Estava elegante, discreta, com um blazer bege claro, calça de alfaiataria preta e um coque baixo — o típico visual de alguém que queria transmitir seriedade e controle. Por dentro, no entanto, o nervosismo borbulhava. Dante já a esperava próximo ao portão de embarque. Usava um terno escuro, sem gravata, e segurava um café em uma das mãos. Quando a viu, seus olhos percorreram rapidamente o corpo dela, antes de lhe oferecer um leve sorriso. — Pontual. Gosto disso. — Achei melhor chegar cedo. — Isa respondeu, mantendo o tom neutro. — Já despachou as malas? — Só trouxe uma. O essencial. — ele ergue o copo. — Quer um café? — Aceito. — disse, sem conseguir disfarçar o cansaço leve na voz. Ele indicou uma cafeteria próxima e foram juntos até lá. Enquanto esperavam na fila, Dante a observava de lado, como se a estudasse. — Tá tudo bem com você? — Tá. Só... trabalho e outras burocracias. — ela respondeu, sem entrar em detalhes. Ele não insistiu, o que a surpreendeu. Café em mãos, voltaram ao portão. O voo ainda levaria alguns minutos para começar o embarque, então se sentaram em uma das poltronas próximas. — Como está se sentindo? — ele perguntou, olhando em frente. — Sobre a viagem? — Sobre tudo. Isa hesitou. Ele não parecia provocativo ou invasivo. Era só uma pergunta genuína. — Me sinto... em movimento. Como se eu estivesse finalmente saindo de um lugar onde fiquei tempo demais. — ela respondeu, encarando a pista pela janela. Dante assentiu lentamente, e por um momento, ambos ficaram em silêncio. Pouco depois, o embarque foi anunciado. Eles levantaram juntos, e Isa sentiu o estômago revirar. Parte era ansiedade, parte era a proximidade de Dante. Parte era a ideia de estar prestes a cruzar o oceano ao lado de um homem que provocava nela tudo que ela evitava sentir. Mas era trabalho. Era só trabalho. Pelo menos, era nisso que ela precisava acreditar.
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