O avião já cortava o céu noturno, com as luzes da cidade ficando pequenas e distantes sob as nuvens. O interior da aeronave estava silencioso, envolto no zumbido constante dos motores e no tom abafado das conversas. A classe executiva estava lotada, mas Dante havia feito questão de reservar dois assentos juntos, com os demais ao redor estrategicamente vazios — cortesia do sobrenome que carregava.
Isadora ajeitou o cinto e observou pela janela o nada escuro do céu. O vinho que tomara pouco antes de embarcar já começava a aquecer seu corpo, relaxando seus ombros tensos.
Dante ao lado mantinha a postura relaxada, uma mão repousada no apoio entre eles, a outra folheando um relatório no tablet, mais por hábito do que por necessidade. Mas seus olhos, discretos, voltavam para ela com frequência.
— Cansada? — ele perguntou, sem encará-la diretamente.
— Um pouco. Mas vai passar. — respondeu, girando levemente o pescoço, como se espantasse o peso do dia.
Dante sorriu de lado.
— Você lida bem com pressão. Quase sempre parece no controle.
Isa cruzou as pernas, ajeitando-se na poltrona mais larga. Não respondeu de imediato.
— A gente aprende. — disse, finalmente, com um tom ambíguo.
O silêncio entre eles se alongou, mas não era desconfortável. Era tenso. Quente. Denso.
Quando as luzes da cabine foram suavemente apagadas e o serviço de bordo finalizado, Dante se inclinou um pouco para ela, o rosto mais próximo do que o necessário.
— Se eu estiver passando do limite, me avisa — murmurou, o tom tão baixo que parecia deslizar direto para a pele dela.
Isa apenas o encarou. Não disse sim. Não disse não.
Foi o suficiente.
Com calma, ele deslizou a mão até o cobertor fino sobre o colo dela e, sob a proteção do tecido e da penumbra, encontrou o caminho entre suas pernas cruzadas. Ela permaneceu imóvel, sentindo o coração acelerar, mas não fez menção de impedi-lo.
Os dedos dele se moveram com precisão e cuidado, como se conhecessem os limites do silêncio, o tempo de um voo longo e o corpo dela. Isa mordeu o lábio inferior, tentando conter qualquer som, enquanto seu quadril se arqueava levemente, quase imperceptível.
O toque era íntimo. Lento. Provocante.
E errado — o suficiente para torná-lo viciante.
Ela fechou os olhos por um instante, respirando fundo, tentando manter a compostura, enquanto sentia o prazer crescer sob seus músculos tensos. O mundo lá fora era nuvens e oceano. Ali, entre eles, só existia calor e tensão.
Depois de alguns minutos, ele retirou a mão, discretamente, como se nada tivesse acontecido. Pegou o tablet de novo, como um executivo em sua rotina.
Isadora continuou olhando para frente, ainda sentindo os ecos do toque dele nas coxas.
O jogo estava lançado — e não havia volta.
O voo aterrissou em Nova York por volta das 20h. O céu estava escuro, salpicado de luzes da cidade que nunca dorme. Do lado de fora do aeroporto, o frio era mais intenso do que Isadora esperava, e ela apertou o casaco contra o corpo ao sair. Dante, ao seu lado, mantinha a postura elegante de sempre, como se nada o afetasse — nem o cansaço da viagem, nem o vento cortante.
O carro já os aguardava e, durante o trajeto até o hotel, ambos permaneceram em silêncio, imersos em pensamentos. A tensão entre eles era sutil, mas presente. Uma mistura de lembranças do voo e do que ainda pairava entre os dois.
Chegaram a um hotel imponente no centro de Manhattan. O saguão era sofisticado, com iluminação aconchegante e um aroma discreto de baunilha e madeira. Enquanto o recepcionista finalizava o check-in, Dante falou baixo, com naturalidade:
— Dois quartos, como combinamos. Um ao lado do outro.
Ele entregou a ela o cartão magnético.
— O seu é o 1806. Eu fico no 1807. Qualquer coisa... — ele fez um gesto com a mão, deixando a frase no ar.
— Entendi — respondeu Isa, pegando a chave sem levantar os olhos.
No elevador, ficaram em silêncio, lado a lado. Não havia necessidade de palavras naquele momento.
Ao chegar no corredor do 18º andar, Dante a acompanhou até a porta.
— Boa noite, Mendes.
— Boa noite, Dante.
Entrou no quarto e trancou a porta atrás de si, soltando o ar devagar. Estava exausta — física e emocionalmente. O quarto era elegante, com cama grande, cortinas espessas e uma vista parcial das luzes de Manhattan. Colocou a mala próxima à poltrona, tirou os sapatos e foi até a janela, observando a cidade abaixo.
Lá fora, tudo parecia distante. Mas dentro dela, tudo estava agitado.
Eles estavam em outro país, em outra realidade. Mas a confusão interna continuava do mesmo jeito.
Isadora saiu do banho com a pele quente e os cabelos ainda úmidos. Vestira um short leve de algodão e uma regata fina, o pijama mais confortável que havia colocado na mala. A cama do hotel era imensa, com lençóis brancos impecáveis e travesseiros fofos demais para uma noite tão agitada por dentro.
Ela deitou-se, tentando relaxar, mas o sono não vinha.
O quarto estava silencioso, exceto pelo zumbido discreto do ar-condicionado e o som distante dos carros na rua. Isadora virou de lado, depois de costas, mexendo no travesseiro, buscando qualquer posição que aliviasse a tensão do corpo — mas não era física, era outra.
A mente insistia em levá-la para lugares que ela tentava evitar. Para Dante.
Para os toques dele, o jeito como ele sabia exatamente onde e como provocá-la. O voo veio à mente, o jeito contido e seguro com que ele invadiu o espaço dela, como se tivesse todo o tempo e toda a certeza. Depois, a lembrança da festa — os corpos à volta, os gemidos abafados, o calor, a tensão, e a forma como ele a tocava ali, como se fosse só deles aquele momento, mesmo diante de olhos desconhecidos.
Ela fechou os olhos com força, tentando afastar aquilo.
Mas o corpo já estava reagindo.
Os dedos escorregaram pela barriga de forma hesitante, como se estivessem traçando um caminho conhecido. Seu toque era mais leve do que o dele, mas o efeito era o mesmo. Cada lembrança, cada respiração ofegante de um passado recente, a deixava mais entregue.
Se ouviu arfar baixinho, chamando por ele em um sussurro quase envergonhado:
— Dante...
As pernas se apertaram uma contra a outra, os movimentos ficando mais intensos à medida que o prazer crescia, descompassado, inevitável. Ela se entregou ao que o corpo pedia, sem pensar, sem tentar conter.
O orgasmo veio rápido, quase como um soluço de prazer preso na garganta. Um tremor silencioso atravessou o corpo dela, e ela mordeu o lábio para não fazer barulho. Quando terminou, ficou ali, ofegante, o braço estendido sobre os olhos.
O silêncio voltou, mas agora havia um peso diferente sobre o peito. Não era arrependimento. Era um reconhecimento incômodo.
Ela queria Dante.
Mesmo quando não devia.
Mesmo quando jurava que ainda estava no controle.
Dante estava deitado, olhos abertos fitando o teto escuro do quarto. A cama era confortável, o quarto silencioso, mas o sono não dava nem sinal de que apareceria.
Ele passou a mão pelos cabelos, soltando um suspiro longo. Não era comum perder o sono assim. Estava acostumado a viagens, mudanças de fuso horário, reuniões importantes... Mas naquela noite, algo o tirava do eixo.
Isadora.
Ele não parava de pensar nela desde que entraram no avião. A forma como ela o olhava sem realmente encará-lo, os sussurros entre um café e outro, e principalmente a maneira como o corpo dela reagia ao dele — mesmo quando ela tentava esconder.
Dante lembrava do que sentiu ao tocá-la ali, no voo. O modo como ela se entregava em silêncio, com o corpo arqueando de leve, como se estivesse entre o prazer e o receio. Era um vício crescendo, uma atração que já passava do físico.
Virou de lado, impaciente.
Ele sabia que era imprudente. Sabia que havia uma linha sendo cruzada a cada nova aproximação — e ele não era do tipo que cruzava linhas sem propósito. Mas Isadora tinha esse efeito. Fazia o autocontrole dele vacilar.
Estava prestes a se levantar para talvez beber algo ou checar os e-mails, quando ouviu... um som abafado.
Baixinho.
Inconfundível.
Ele se sentou na cama, em silêncio, os olhos presos na parede que separava os quartos. Talvez tivesse imaginado. Talvez... não.
O peito dele subiu em uma respiração contida. A mente preencheu o resto — o que ela poderia estar fazendo. O que ele desejava estar fazendo com ela naquele instante.
Dante apoiou os cotovelos nos joelhos, passando as mãos pelo rosto com força. Sentia o corpo latejar, e não só de desejo — mas da urgência estranha de querer mais. Não apenas o toque, não apenas o controle.
Ele queria entender por que aquela mulher fazia tanto barulho dentro dele, mesmo em silêncio.