Isadora desceu para o café do hotel antes do horário combinado. Estava com o cabelo preso em um coque improvisado, uma calça jeans escura e uma camisa social branca levemente amarrotada. Tinha dormido pouco, mas se recusava a demonstrar qualquer coisa. Precisava manter o controle. Profissionalismo acima de tudo.
Escolheu uma mesa discreta perto da janela e serviu café preto, sem açúcar. m*l tinha dado o primeiro gole quando sentiu a presença dele.
— Bom dia, Isa. — a voz grave de Dante chegou por trás dela, com aquele tom arrastado que parecia propositalmente calculado para mexer com ela.
Ela levantou os olhos e encontrou o olhar dele. Tinha olheiras discretas, como se também não tivesse dormido bem. Usava uma calça social escura, camisa azul dobrada nos antebraços e blazer jogado no braço. O cabelo ainda úmido, como se tivesse saído do banho minutos antes.
— Bom dia — respondeu, tentando soar natural, mas a lembrança da noite anterior lhe deu um calor estranho nas bochechas.
Dante sentou-se à frente dela, como se aquele fosse o lugar mais óbvio do mundo. Serviu-se de café também, em silêncio por alguns segundos. Depois ergueu os olhos.
— Dormiu bem?
Ela deu de ombros, evitando encará-lo diretamente.
— O suficiente pra estar acordada agora.
Ele sorriu de leve. Não provocativo, mas... perceptivo. Como se soubesse exatamente o que aquela resposta escondia.
— Eu também tive uma noite agitada — comentou, casual. E então levou a xícara aos lábios, os olhos cravados nela. — Coisas demais na cabeça.
Ela fingiu não entender. Mexeu distraidamente no guardanapo, mantendo o tom neutro:
— Hoje temos a reunião às dez com os representantes da Atlas. Eu revisei os números e preparei os pontos principais que você pode destacar.
Dante assentiu devagar.
— Ótimo. Depois disso, o resto do dia está mais livre. Se der tudo certo, quero que aproveite a cidade. É sua primeira vez nos EUA?
Ela assentiu.
— Primeira vez saindo do país, na verdade.
— Então é obrigação aproveitarmos. Você merece.
Isadora se forçou a sorrir. Uma parte dela queria manter a distância. Outra, bem mais impulsiva, só conseguia lembrar das mãos dele em sua pele, dos sussurros no avião, e do modo como ele a fazia esquecer de tudo — até do próprio nome.
O celular dela vibrou em cima da mesa. Um e-mail. Ela deu uma olhada rápida e então voltou a atenção para Dante.
— Melhor irmos nos arrumar pra reunião.
— Sim. — Ele se levantou com calma e disse, antes de se afastar — A gente ainda tem muito tempo... pra conversar.
Isadora ficou sentada por mais um instante, respirando fundo. Ele era perigoso. Ela sabia disso. Mas, naquele momento, a maior ameaça parecia vir de si mesma.
A sala de reuniões da Atlas Inc. era ampla, com janelas que revelavam o skyline de Nova York ao fundo. O ambiente moderno contrastava com o nervosismo sutil que pairava sobre a mesa de vidro, onde quatro executivos americanos aguardavam.
Dante entrou com postura impecável, seguro, como sempre. Isadora Mendes vinha logo atrás, discreta, mas elegante em seu blazer preto e cabelo preso em um r**o de cavalo baixo. Carregava uma pasta com documentos e uma expressão serena que disfarçava o frio no estômago.
— Mr. Montenegro, welcome — disse o CEO da Atlas, levantando-se para apertar a mão de Dante. — And this must be your financial advisor?
Antes que Dante pudesse responder, Isadora estendeu a mão com firmeza.
— Isadora Mendes. Prazer. Sou analista sênior responsável pela revisão estratégica e projeções fiscais da empresa.
O CEO assentiu, surpreso com o português claro, mas bem posicionado. Dante apenas sorriu, satisfeito com a desenvoltura dela.
A reunião começou com os americanos apresentando seus números. A proposta era clara: uma colaboração entre as empresas para expandir operações no Brasil, principalmente em tecnologia sustentável e automação industrial.
Dante escutava com atenção, mas era Isadora quem fazia anotações detalhadas e, vez ou outra, se inclinava para cochichar alguma observação no ouvido dele. Em um dos momentos, ela pediu a palavra.
— Com licença — começou em inglês fluente —, mas acredito que podemos revisar o modelo de rentabilidade sugerido. Analisando os relatórios de vocês e os nossos dados internos, essa estimativa de retorno em 18 meses pode, na verdade, ser reduzida para 14, se aplicarmos o modelo tributário específico para importação tecnológica no Brasil.
Ela passou os dados impressos para os executivos, que começaram a folhear com atenção.
Um dos gerentes ergueu os olhos, surpreso.
— You're right. That law was updated last quarter. I didn't notice it applied here.
Dante sorriu, confiante.
— É por isso que a Isadora está aqui comigo.
A reunião prosseguiu por mais uma hora, com Isadora conduzindo os números com clareza e segurança. Ao final, os representantes da Atlas pareciam satisfeitos.
— Mr. Montenegro, consider the deal closed — disse o CEO, apertando a mão de Dante. — Your team is impressive.
Quando saíram da sala, já no corredor, Dante virou-se para ela.
— Você foi brilhante. Aquele detalhe da tributação... nem eu tinha pensado nisso.
Ela deu de ombros, contida, mas satisfeita.
— É meu trabalho. E... eu gosto de números.
Ele riu baixo.
— Ainda bem. Porque agora somos oficialmente parceiros da Atlas Inc. E você tem uma boa parte nisso.
Isadora soltou um leve sorriso, sem dizer mais nada. Mas, por dentro, sentia algo raro: orgulho. Não apenas por ter feito bem seu papel, mas por ter mostrado, em um país estrangeiro, que sua voz tinha peso.
E, claro... por ter impressionado Dante de forma diferente. Não com seu corpo — mas com sua mente.
O restaurante escolhido pelos empresários da Atlas ficava no alto de um edifício elegante no centro de Manhattan, com vista panorâmica da cidade iluminada. As luzes lá fora misturavam-se ao brilho discreto das taças de vinho e dos talheres de prata. A noite era formal, mas com clima descontraído o bastante para que os negócios ficassem um pouco de lado.
Dante estava impecável em seu blazer azul-marinho, e Isadora — agora de vestido preto midi e cabelos soltos — chamava atenção pela elegância silenciosa.
— Espero que gostem do lugar — comentou Thomas, o CEO da Atlas. — É um dos meus preferidos quando queremos impressionar nossos parceiros.
— Conseguiu — respondeu Dante, cordial. — A vista é incrível.
Isadora sorriu, discreta, ao observar o ambiente e notar como todos estavam relaxados depois da reunião bem-sucedida. Sentaram-se em uma mesa redonda, com Dante ao lado dela e dois executivos da empresa à frente.
Os pedidos foram feitos, os vinhos escolhidos com cuidado, e logo a conversa girava em torno de viagens, diferenças culturais e algumas piadas sobre burocracias corporativas.
— Isadora — disse um dos diretores, erguendo a taça —, confesso que fiquei impressionado com a sua leitura fiscal. Quantos anos você tem?
Ela sorriu com leveza.
— Trinta. Mas trabalho na área há dez anos. Comecei cedo.
Dante olhou de lado, observando-a com um leve orgulho no olhar. Era nítido como ela conseguia equilibrar firmeza e discrição.
— Ela tem um talento raro — comentou ele, sem exageros. — Não é à toa que está nessa viagem comigo.
Isadora desviou o olhar, um pouco tímida, mas grata. Depois da tensão dos últimos dias, o reconhecimento ali, diante de estrangeiros, parecia uma pequena vitória.
Após o jantar, eles foram levados até a entrada por um dos funcionários do restaurante. O motorista que os aguardava abriu a porta do carro preto que os levaria de volta ao hotel.
No banco de trás, com os empresários conversando animadamente entre si, Dante se inclinou discretamente em direção a Isadora.
— Você roubou a cena hoje, Mendes.
— Só fiz meu trabalho — murmurou ela, com um meio sorriso.
— Nem tente fingir modéstia. A Atlas fechou com a gente por causa dos seus números.
Ela soltou uma risada baixa e, por um breve momento, os olhares se encontraram. Não havia palavras sobre o que haviam vivido até ali. Mas havia tensão. Da mais silenciosa e perigosa.