Com muita sorte conseguimos sobreviver à aquela semana. Todos tinham os ânimos muito alterados pela ansiedade em relação à eleição que se aproximava e além disso, os garotos do football já preparavam-se para o segundo jogo, que conforme Spencer era o mais importante da temporada, e tudo isso, ainda somava-se aos professores que passavam por uma avaliação da comissão federal de educação, o que tornou a todos eles ainda mais chatos, exigentes e intolerantes à toda e qualquer transgressão, por menos que ela pudesse ser.
Acabamos por conviver a semana toda com alunos tendo crises de choro e professores dando gritos histéricos e tomando atitudes exageradas, como McMilan, professora de literatura do último ano, que expulsou da sala um garoto que havia esquecido de levar o livro, ela tomou aquilo como uma ofensa e acabou despachando o rapaz para a diretoria, que chamou os pais e no intervalo do almoço, um rapaz que nunca houvera gerado nenhum tipo de problema estava sendo tratado como um verdadeiro e perigoso delinquente juvenil.
- Argh - Lindsey estava a beira de um colapso nervoso - se esses professores não se acalmarem, eles vão acabar me fazendo surtar - ela largou seu almoço sobre a mesa - acredita que o Beans pediu outro resumo? - ela encarava Spencer e Peter que estavam na mesa conosco - E quando o Oliver, aquele que é super dedicado e que nunca diz nada, perguntou "para quando?", o professor teve um ataque, e disse que era para a próxima semana, mas pelo desaforo, seria para enviar na plataforma até a noite de sexta feira... Esse povo não tem vida?
- Calma - Spencer ria - você não tem ideia....
- Não me diga - Lindsey colocava as mãos no rosto para logo depois dar um t**a na mesa - não me diga que o próximo ano vai ser pior, que eu juro que desisto disso tudo - ela suspirou - não aguento mais.
- Tudo bem - Justin sentou-se ao lado dela e a abraçou - vai passar, certo? É só muita pressão... Logo esses estranhos da comissão vão embora e tudo volta ao normal...
- Como sabe disso? - Ming perguntou curioso.
- Conversei com um deles mais cedo - ele deu ombros - sai para tomar um ar e o cara estava fumando um cigarro, trocamos uma ideia.
- Uhm - ajeitei-me para começar a comer ao lado de Spencer que já começava a roubar tomatinhos do meu pote - e soube o que eles estão fazendo aqui?
- Claro - Justin sorriu - é uma avaliação dos professores, nada a ver conosco, ele inclusive disse sentir muito sobre isso ser feito durante o período letivo.
- Que legal - Lindsey de repente tinha um brilho nos olhos - você sempre conhece pessoas legais.
- Sim - o garoto sorria para ela - ele inclusive me deu o contato dele e me passou umas dicas interessantes sobre faculdade, principalmente quando ele soube que eu queria fazer licenciatura...
- O cara é um avião - gritou Spencer rindo - ei, saiu pra tomar um ar e conseguiu...
- ... uma possível indicação pra Stanford - ele disse orgulhoso - o cara ainda perguntou várias coisas sobre o nosso plano de ação no conselho - ele abaixou o tom - e a melhor parte: disse que somente por estarmos envolvidos e com esse tipo de pauta, já tínhamos um upgrade nas chances.
- Sensacional - Ming respondeu - então é isso, trabalharemos para aumentar mais ainda.
- Mariah - Spencer perguntou-me - você falou com Meredith?
- Ainda não - suspirei - achei que deveríamos, sei lá, esperar pelo resultado da eleição.
- Uhm, pode ser - ele deu ombros - só acho que é um bom contato.
- Claro que sim - disse Lindsey - talvez você pudesse conversar com ela e verificar quais seriam os pontos mais carentes de ajuda no hospital, entende? Para parecermos bem interessados.
- Perfeito - sorri - vou telefonar para ela e marcar uma reunião.
- Reunião? - Phil chegava atrasado - Onde? Quero ir...
- St.Marry's - respondi - para o trabalho voluntário.
- Ótimo, conta comigo, vou com você... - ele começou a comer rapidamente.
Terminamos nosso almoço em meio ao ruído de sempre: muitos falando, poucos ouvindo, alguns cantando, outros batendo coisas, o refeitório ficava morno e barulhento no final do intervalo do almoço, e aos poucos, esvaziava-se. Nós éramos quase sempre os últimos a sair, o zelador normalmente pedia educadamente, aos berros "já não tá na hora de estudar?" apenas para que o deixássemos fazer o trabalho dele, naquele dia, quando ele gritou, não pude deixar de pensar no quanto sentiria falta da escola, até mesmo dos gritos dele.
O restante da semana foi passando lentamente, ou éramos nós que estávamos todos ansiosos demais, mas as manhãs se arrastavam e as tardes pareciam não ter fim, a chuva que havia iniciado na segunda, permaneceu como companheira até o fim da tarde de quinta, quando, em nossa última reunião antes da eleição, no Santa Barbara's, um sol tímido surgiu se pondo no horizonte, e nossa "foto oficial de chapa concorrente ao conselho estudantil" era um aglomerado sorridente com um pôr-do-sol laranja escuro logo abaixo de linhas pesadas formadas pelas nuvens que aos poucos, iam se dissipando.
As aulas da sexta-feira haviam sido reduzidas: os períodos de 50 minutos, tinham passado a ser de 25, todos os treinos e atividades extras, eram cancelados e os alunos eram convidados a permanecer na escola para acompanhar o processo eleitoral: votar, acompanhar a apuração e ouvir o resultado. Parecia bobo, mas era "um exercício de democracia e representava um momento onde nossa voz era ouvida e nossa opinião considerada" nas palavras do diretor Sanderson.
A votação encerrou-se após o almoço. Ming foi designado para acompanhar a apuração, e sinceramente, nenhum de nós conseguia segurar a ansiedade, m*l havíamos conseguido almoçar, era como se nosso estômago estivesse embrulhado desde a hora que havíamos chegado na escola. Perto das dezoito horas, quando todos estavam cansados demais até mesmo para reclamar da demora na apuração dos votos, o sistema de som da escola anunciou que, os alunos deveriam encaminhar-se para o ginásio, que em vinte minutos o resultado da eleição seria anunciado.
Encaminhamo-nos para o ginásio e sentamos perto da quadra. Ming estava ao lado do diretor, assim como o candidato da outra chapa que acompanhara a apuração, tinha a expressão neutra.
- Boa tarde à todos - o diretor pigarreou - alunos, professores e pais - ele sorriu - e também aos nossos colegas da comissão federal de educação que se fizeram presente e acompanharam, além de nossas últimas semanas de aulas, a realização deste pleito - todos gritaram "vivas" - enfim, é com imensa alegria que estou aqui neste momento, depois de um processo de campanhas e debates tão civilizados, chapas com propostas tão coerentes e necessárias - ele suspirou - mas nossa festa democrática chegou ao fim.
- Que drama - Lindsey revirou os olhos e riu.
- E então – diretor Sanderson não costumava fazer muito suspense – estamos aqui reunidos para comunicar os resultados da eleição do conselho estudantil do Highland Hall... – ele pausou para que o pessoal parasse de gritar e assoviar – e como todos sabem, esse grupo, eleito Conselho Estudantil, trabalhará por dois anos, juntamente à equipe de gestão, levando as demandas dos alunos, auxiliando na elaboração e divulgação de eventos que sejam realmente pensados para vocês, alunos – outra gritaria – e bem, não gosto de me alongar muito, anunciarei o vendedor, para que todos respirem aliviados ou não, mas preciso que ouçam uma importante mensagem depois – todos concordaram com a cabeça – tudo bem, vencedores da eleição do conselho – ele abria um envelope de forma atrapalhada – a chapa vencedora é... – tirou a folha de dentro – a chapa 02, presidente Lindsey Kane!
Estávamos extasiadas – chorando e rindo, emocionadas de verdade, não pela vitória, mas por saber, que de algum modo, havíamos transmitido a nossa mensagem e aquilo soava muito, muito importante e de fato era.
- Como disse – ele continuou seu discurso – preciso de alguns minutos da atenção de vocês – ele aguardou o silêncio para seguir falando – neste ano, importante ano, histórico – ele pigarreou – meu décimo quinto ano como diretor desta instituição, professor aqui por mais de vinte e dois anos, e apenas neste ano, eu digo, com orgulho, que eu vejo a nossa comunidade escolar tomar uma posição política e social forte e coerente. Não existe mais espaços para bullying, não existe mais espaço para nenhum tipo de preconceitos, somos uma instituição histórica que por fim, moderniza-se, que por fim, encara a realidade com responsabilidade e coerência e isso me enche de orgulho, como ex aluno, como professor e como pessoa.
Os momentos seguintes foram de muitos aplausos e muitas felicitações. Professor Rogers estava visivelmente feliz, nós estávamos muito empolgados e sabíamos que as semanas seguintes seriam de muito trabalho, mas que valeria a pena, pois estávamos causando impactos e comoção social dentro da comunidade escolar, e aquilo era o tipo de coisa que os avaliadores das universidades adoravam. Telefonei para minha mãe que não conteve um gritinho de alegria, mesmo estando no escritório, e depois para Donna e Jonathan, e para Peter e Mia, e todos pareciam contentes e orgulhosos da nossa conquista.
Apenas quando, por fim eu cheguei em casa, depois de jantar com o pessoal, percebi que eu não havia ligado para o meu pai, e isso me fez pensar que eu não havia contado para ele que eu estava me envolvendo com o conselho estudantil, e eu senti um pouco de culpa, mas depois justifiquei - para mim mesma - que papai não deveria ter tempo para essas coisas ultimamente.
Quando fui para o East Garden naquele fim de semana, contei para o meu pai sobre o conselho e ele ficou orgulhoso, mas não deixou de perguntar porque eu não havia contado nada, e eu respondi apenas "acho que eu esqueci de contar, estava tão empolgada com a minha irmã..." mas na verdade, eu não havia encontrado, em momento algum, um tempo para conversar com ele em paz.
- Isso é importante - ele disse sorrindo - pela faculdade, sabe como é essas coisas...
- Sim - suspirei, papai não havia feito faculdade, por ser o mais velho, ele foi logo trabalhar e ajudar em casa, meus tios sim, haviam estudado - preciso me empenhar nisso.
- Mas está se empenhando - ele beijou minha testa - estou orgulhoso de você...
Conversamos ainda sobre a faculdade, papai questionou se Direito era o que eu realmente queria fazer, no que eu queria trabalhar e tudo mais, e eu já tinha um semi-plano de vida: faculdade de direito, especializações e carreira acadêmica ou promotoria de justiça, simples assim, ou nem tanto, mas eu sinceramente me via dando aulas... E pensei sobre isso o fim de semana inteiro, inclusive quando visitei a vovó no domingo, achei que deveria compartilhar com ela meus planos, e ela pareceu feliz e orgulhosa, então, eu já tinha garantido aprovação geral.
E mais uma vez estávamos na fatídica semana do jogo, e essa era ainda mais complicada, aquele era o segundo jogo da temporada... Era o jogo que os recrutadores gostavam de ver, era o jogo que todos precisavam superar as expectativas e dar o seu melhor. Spencer estava em uma semana difícil: entre treinos e muito estudo para os exames que se aproximavam, nos m*l nos víamos:
- Vai me ver hoje a noite? – ele disse quando conseguiu se aproximar no almoço.
- Mas é claro que eu vou – pendurei-me em seu pescoço e o beijei – não perderia por nada.
- Eu sei que não – ele me abraçou – você me dá sorte.
- Se você diz – eu ri – boa sorte, e eu vou estar lá por você.
Eu havia combinado com Lindsey – mesmo que ela não namorasse mais um cara do football, me acompanharia – conforme ela, tudo pela amizade, mas nós duas sabíamos bem que os uniformes ajustados dos meninos eram um excelente plus para quem estava nas arquibancadas. Terminamos as aulas daquele dia e ficamos na biblioteca para conseguir concluir as tarefas da semana, tomamos um café no Santa Bárbara com o restante do conselho estudantil, com excessão de Spencer, para discutir detalhes do Dia da Fantasia e do Baile, que seriam no mesmo dia, e nesse momento, percebi Lindsey agitada escrevendo alguma coisa em um post-it e colando-o em seu planner pessoal.
- Fantasias – ela me disse assim que todos saíram do café – precisamos pensar em fantasias...
- Verdade – suspirei – quase havia me esquecido.
- Não que eu tenha um acompanhante...
- Ainda tem tempo – eu sorri.
- Eu sei disso – ela sorriu de volta, parecia já ter alguma coisa em mente.
Passei pela minha casa vazia apenas para tomar banho e trocar de roupas: minha mãe estava fora de novo, ninguém aguentava isso, nem Bud, nem eu, mas essa era a nossa dura e c***l realidade. Vesti jeans e uma camiseta da escola, depois do uniforme do Murray, nunca mais havia colocado as camisas do football, e ainda guardava aquela com carinho, era uma coisa especial minha e dele, e lembrei-me que mesmo com treinos e jogos, Michael sempre encontrava tempo para mim, e aquilo fez meu peito apertar um pouco.
Busquei Lindsey em casa e chegamos juntas ao campo, era mais um evento normal, mas um grande grupo de homens sentava-se bem perto do campo em um espaço reservado. Eu sabia que Spencer iria bem, tinha certeza de que ele tinha um grande potencial e que daria tudo certo, ele acenou para mim e indicou a grade, eu prontamente encontrei-o lá:
- Obrigada – ele sorriu animado.
- Sabe que eu não perderia por nada – sorri de volta.
- Meu beijo de boa sorte? – ele tirou o capacete e colou o rosto na grade esperando o beijo.
- Boa sorte, seu bobão – beijei-o.
- Agora sim – ele gritou – sou o cara mais sortudo do mundo.
O jogo começou muito tenso, com muitas faltas, pensei que Spencer havia se machucado logo no segundo lance, mas havia sido somente um susto, Lindsey estava nervosa também, segundo ela, pensar que alguns lances com uma bola mudavam a vida de alguns garotos, era uma coisa bem estressante, e isso ainda me fez pensar que talvez, ganhar uma bolsa por ser um bom atleta não era tão fácil como parecia ser...
Aos poucos nosso time conseguiu abrir uma vantagem. A atuação de Spencer era impecável e todos pareciam estar muito envolvidos e concentrados, dedicando-se cem por cento ao grupo na busca do resultado, e quando o jogo terminou – exatamente no minuto final – meu pai telefonou dizendo que Lorena estava indo para o hospital, com Guadalupe, que não estava bem... Me despedi de Lindsey que voltou de carona com Amanda Lang – que agora namorava um cara do football, desde o fim do seu lance com Phil, e enviei mensagens para Spencer explicando que estava indo para o hospital, e pedindo, que se ele pudesse, me encontrasse lá.
Isso não aconteceu. Na verdade, eu corri para encarar paredes brancas e vazias por horas a fio, para saber, perto da meia noite, que minha irmã tinha tido uma pequena parada respiratória e que exames diversos estavam sendo feitos. Spencer não havia me retornado, nem mesmo havia atendido a ligação que eu havia feito e eu me sentia triste com isso. Meu pai andava de um lado para o outro, nervoso e acredito que quando ele cansou, sentou-se ao meu lado para encarar as paredes brancas, Spencer entrou na sala de espera às duas e vinte.
- Sinto muito – ele disse com os olhos vermelhos e cheirando a cerveja – queria ter vindo antes, mas a mamãe preparou uma pequena comemoração após o jogo...
- Tudo bem – respondi, era compreensível – o importante é que você está aqui.
- Queria que você estivesse lá – ele me disse muito sério – todos perguntaram sobre minha namorada...
- Sinto muito – beijei-o levemente – tem coisas que não conseguimos evitar.
- Certo – ele abraçou-me – tudo bem.
Passamos juntos o tempo todo, ele buscou café para nós, e quando a bateria de exames terminou, o médico achou melhor manter ela em observação até a manhã seguinte, mas que aparentemente, havia sido apenas um episódio isolado, de toda forma, manteve internados e resolveu aguardar os resultados dos exames.
Ficamos no hospital ainda, para ver Lorena e para convencer meu pai de que nada poderia ser feito ou era necessário, e que ele deveria ir para casa, tomar um banho, comer e dormir. E assim que concluímos essa missão, foi o que nós fizemos: fomos para a casa de praia, comemos, tomamos banho e dormimos.
Não aparecemos na escola naquele dia, e Sanderson telefonou para a minha mãe que estava em Chicago, fazendo-a me telefonar também exigindo explicações, mas pareceu satisfeita em compreender o que estava acontecendo e apenas disse “tudo bem, mas trate de não acumular faltas” o que certamente eu não faria porque tinha planos de não perder mais nenhuma aula. Ouvi Spencer no telefone discutindo com a mãe dele e realmente as coisas pareciam um tanto fora de controle:
- Minha mãe está furiosa – ele disse – perdi a aula e sai ontem depois de ter bebido.
- Eu imagino que esteja – encarei ele – me desculpa, eu não sabia...
- Não tinha como saber – ele abraçou-me – acho que precisamos todos lidar com as nossas frustrações, não é?
- Provavelmente – respondi e aninhei-me no abraço dele – mas poderíamos ter sido mais responsáveis, não acha?
- Com toda a certeza, sim – ele riu – por falar nisso, a Maggie e o Phil estão trabalhando bastante nas coisas do Halloween...
- Sim, super responsáveis – eu comentei.
- Ele a convidou para o Baile – Spencer disse.
- Não acredito – eu estava impressionada.
- Sim, mais impressionante, ela o aceitou – Spencer sorriu – e parece bem empolgada.
- Nossa – eu ri – isso é legal.
- E nossas fantasias? – ele perguntou – O que vamos fazer?
- Não pensei ainda...
- Ah, você sempre tem que ter alguma ideia, mulher – ele gritou em tom de brincadeira.
- Eu sei – revirei os olhos – mas dessa vez está complicado.
- A Bela e a Fera? – ele gritou – Claro, perfeito...
- Spencer, eu não faço o estilo princesinha...
- Ah, seria impressionante – ele sorria.
- Se eu não pensar em outra coisa – dei ombros – e para o dia?
- Minnie e Mickey com certeza – ele riu.
- Spencer, você é sempre tão óbvio? – eu ria.
- Não, eu sou assim só porque você é super criativa...
Ele foi para casa perto das três e eu aproveitei para terminar tarefas da escola e copiar o conteúdo perdido, que Lindsey tinha feito a gentileza de enviar para mim pelo w******p. Quando cheguei na escola na manhã seguinte, fui chamada à sala do diretor para explicar o que tinha acontecido, o engraçado é que todos perceberam minha falta e chocaram-se com isso, mas ninguém ligou para a ausência do Spencer, e isso não era de todo r**m.
Minha mãe voltaria na tarde de sábado, e eu havia resolvido que não trabalharia na loja durante aquela tarde, e sim, em home office. Na verdade, eu queria um bom motivo para ficar em casa, de pijamas e sem bebês e acordei cedo para curtir esse momento, mas fui surpreendida com Lindsey que parecia verdadeiramente desesperada na manhã de sábado quando me telefonou aos prantos e acabou me assustando a ponto de quase derrubar meu café sobre o notebook onde eu estava trabalhando.
- Ele não me convidou – ela chorava – eu esperei que ele fizesse...
- Calma, amiga – tentei em vão – quem...?
- Justin – ela gritou – tinha certeza que me convidaria, e ele foi lá – ela fungou – e chamou Louise, do primeiro ano.
- Mas Lindsey... - eu disse confusa - eu não sabia que você...
- Eu tenho um par – ela gritou – o Covey!
- Lindsey, eu... - ela novamente me interrompeu.
- Ele foi convidado pela escola, e me ligou – ela dizia chorosa – dizendo que se... - ela fungou - dizendo que viria se eu aceitasse ir com ele.
- Então, amiga, qual é o problema? – eu no fundo, sabia qual era.
- Eu não queria ir com o Covey, ele não é o cara com que eu queria ir... - ela chorava.
- Eu sei amiga – eu disse com sinceridade - mas vocês dois sempre se divertem tanto...
- Sim - ela disse - mas sabe, eu nunca vou poder ser uma garota que vai ao baile com quem ela realmente quer ir?
- Ainda temos alguns bailes pela frente - eu respondi - e se isso é tão importante para você, poderia considerar convidar...
- Sim - ela suspirou - mas não dessa vez...
- Ah, o Covey não é tão r**m assim Lindsey... - tentei animar ela um pouco.
- Verdade – ela parou de repente – alguém que está disposto a viajar quilômetros apenas para me acompanhar em um baile... – ela suspirou – Argh, Justin é um i*****l!
Encerramos a conversa com ela dizendo que chamaria Covey e aceitaria o convite, primeiro porque ele era uma companhia excelente e segundo, porque Justin sentiria ciúmes, e nós sabíamos disso, então, minha amiga quietinha, vingar-se-ia e eu ficaria satisfeita com isso também, de qualquer forma. Era engraçado pensar no convite despretensioso do garoto mais tímido do football do ano anterior, e nesse momento, pensar em Covey atravessando o país para ir com Lindsey ao Baile era algo que me fazia sorrir: eles não eram lá bem um casal de apaixonados, mas sabiam curtir todos os bons momentos juntos, e sim, eram a melhor dupla de bailes, porque dançavam e se divertiam como se não houvesse amanhã.
Quando Spencer apareceu no fim do dia, resolvemos que precisávamos encarar a questão das fantasias ou iríamos sem roupas. Comentei que Covey viria para o Baile com Lindsey e ele disse que então passaríamos o dia da fantasia com ela, para que ela não se sentisse sozinha - e eu achei isso muito legal da parte dele - e resolvemos que faríamos algo bem óbvio e simples, eu e ela iríamos de bruxas e ele, de vampiro... Estávamos tão atolados de coisas para fazer que não poderíamos nos dar ao luxo de inventar muito, e quando consultei minha amiga por mensagem, ela disse ter achado ótimo. Lembrei de verificar com Mia se ela participaria e ela iria, então sugerimos a mesma fantasia e seríamos um grande grupo de bruxas, dessa forma, mataríamos a charada.
- E o Baile? - Spencer lembrou - Nós temos pouco mais de uma semana, amor...
- Eu sei - revirei os olhos - não pensei em nada.
- Então vai ser a Bela e a Fera - ele disse decidido - vou comprar uma fantasia no ebay, mas precisa me ajudar com uma maquiagem...
- De monstro? - eu o encarei, não queria ir ao baile com a Fera.
- Meio a meio - ele riu - vi um tutorial muito legal...
Depois de assistir o vídeo onde ensinavam a fazer uma maquiagem meio príncipe, meio Fera, acreditei que realmente Spencer ficaria ótimo com ela me animei um pouco.
- Vestido amarelo - eu disse para mim mesma.
- Ah - ele riu - eu vi uma coisa para vender em um brechó...
- Tá brincando que tem uma fantasia...
- Não - ele riu - não tem, mas tem um vestido amarelo, com luvas amarelas...
- Sério? - eu o encarei incrédula.
- Sim - ele disse - segunda levo você lá, o dono falou que era figurino de um filme.
- Se eu soubesse que você já tinha até meu figurino, não teria nem tentado pensar em outra coisa - eu ri.
- Vai precisar de adaptações...
Fiz uma pequena lista de coisas que eu precisava resolver na segunda feira e quando saí para a escola, deixei avisado para mamãe que acabaria chegando tarde, Lindsey parecia conformada com seu par de Baile e combinamos não contar para ninguém quem ele seria, até ele chegar. Ela e ele haviam combinado que ela seria a Sereia Ariel e ele, o Príncipe Eric, nos divertimos pensando nas princesas e no fim, Mia que nem mesmo pensava em ir ao Baile, acabou topando Jasmine e Alladin com Peter, pelo menos por um tempinho, para algumas fotos e novamente seríamos um grupo animado de fantasias combinando.