Os colegas de Jack ficaram preocupados com a situação. Mas por dentro, todos os alunos ficaram um tanto quanto alegres por verem alguém enfrentar Conrado até as últimas consequências. E só depois de verem a briga até o final, é que foram chamar a coordenação, que acudiu Conrado e Jack, levando os dois para a enfermaria.
Uma hora depois, os pais deles foram chamados até a escola e discutiram muito, pois a coordenação queria dar uma transferência da escola para Jack, mas não queria punir Conrado, alegando que Jack tinha começado tudo:
— Seu filho senhor Sullivan, além de não respeitar a nossa instituição escolar por ser bolsista, é um arruaceiro e um brigão. Ele deixou o filho do senhor Albuquerque em um estado deplorável! — dizia a coordenadora.
— Não tenho culpa se não ensinaram a esse menino a ter boas maneiras. Conheço meu filho, ele sabe muito bem que só se entra numa briga quando não existe mais nenhum outro recurso. E ele só briga pra se defender. O Jack não é de sair do espaço dele pra invadir o espaço dos outros! — defendia o pai de Jack: um homem branco, de estatura média, forte, cabelos pretos, bigode e vestido com uma roupa social de motorista.
— Fique o senhor sabendo que o Conrado não é de briga. Ele é bem tranquilo em casa, faz os deveres nas horas certas e nunca ouvi reclamação alguma desde que ele foi matriculado aqui dentro! — Dizia o desembargador Albuquerque, pai de Conrado: um homem moreno, baixinho, olhos castanhos, cabelos escuros e crespos, e usava um terno bem caro.
— Pois devia observar melhor o comportamento do seu filho. — dizia o pai de Jack. — Jack me fala muitas coisas que ele faz aqui nessa escola. E as pessoas por medo do seu status social escondem e mascaram todas as traquinagens dele.
— Você está dizendo que meu filho é um valentão de escola? — Esbravejou o pai de Conrado. — Ele em casa, ou quando sai com a gente pra algum lugar, nunca dá trabalho.
— Não importa se Conrado é um valentão ou não, o que importa é que Jack começou a briga, e a transferência dele já está pronta para o senhor assinar, senhor Sullivan — falava calmamente a coordenadora da escola, mais uma vez sendo conivente com as atitudes de Conrado.
Alguns alunos que estavam de castigo na sala da coordenação, ao ouvirem a discussão dos pais de Jack e Conrado, começaram a fazer um imenso telefone sem fio. E todos começaram então a repassar a notícia de que Jack iria ser expulso por uma briga que Conrado havia começado.
— Isso não pode ficar assim! Jack não pode ser expulso por causa da ousadia de Conrado. A gente tem que fazer alguma coisa! — disse um dos meninos do quinto ano, ao receber a notícia sobre a expulsão de Jack — Vamos lá, na sala dele avisar aos outros!
Quando a notícia chegou aos ouvidos de Jonas e Andreas, os dois mobilizaram toda a escola num protesto coletivo, a favor de Jack. Eles juntaram quase todos os alunos do ensino fundamental e começaram a ir até a sala da coordenação. Era inacreditável de se ver: mais de cinquenta alunos querendo entrar na sala dos coordenadores.
— Mas o que é isso? Todo mundo já pra sala! — Dizia uma das coordenadoras.
— Ninguém vai sair daqui da frente da porta! — Disse Andreas — A gente ficou sabendo que Jack vai ser expulso e que mais uma vez, Conrado vai sair do meio desse tumulto que ele mesmo começou, bem tranquilo. Por isso resolvemos vir aqui avisar que se Jack for expulso, vamos pedir aos nossos pais pra transferirem a gente pra outras escolas.
Quando souberam disso, os outros alunos do ensino médio também se agruparam na porta da sala da coordenação, e ameaçaram o diretor e os coordenadores da escola dizendo que se Jack fosse expulso, todo mundo ia pedir aos pais para ser transferido também. A mobilização deixou a coordenação sem ação, e os pais de Jack e Conrado ficaram tão admirados com a atitude dos alunos, que nem discutiram mais sobre nada: pediram desculpas um ao outro, apertaram as mãos e resolveram levar os filhos pra casa.
Enquanto o tumulto acontecia na sala dos coordenadores, na enfermaria, Jack estava sentado numa cadeira, sendo cuidado pela enfermeira da escola, e Conrado estava deitado em uma maca, com uma bolsa de gelo no rosto. Ambos estavam com um ar de esgotados.
Assim que a enfermeira saiu da sala pra pegar mais curativos, um enorme silêncio tomou conta do ambiente. Só se ouvia o som do ventilador de teto. Nenhum dos dois meninos ousava abrir a boca pra falar algo. Foi quando um deles quebrou o gelo:
— Cara... Você bate bem, e até bate forte pra um magrelo. Onde você aprendeu a brigar desse jeito? — Perguntou Conrado, olhando para o teto.
— Faço muitas coisas quando passo as férias no sítio do avô do... Do meu avô. E lutar é uma delas. Só que eu não luto por lutar: luto pra me defender. Mas por você tratar as pessoas como você trata, eu entrei nessa briga em nome de todo mundo da escola — Respondeu Jack, como se olhasse para o horizonte.
— Sabe Jack, eu não gosto de falar pras pessoas isso o que eu vou te dizer agora. Mas não gosto dessa minha vida certinha demais. Meus pais me cercam de mimos e me cobram coisas que eu nem sei se vou conseguir alcançar!
— Já tentou falar com eles? — Perguntou Jack.
— E falar adianta alguma coisa? Eu só tenho quinze anos, e meu pai já fala que eu vou ser advogado. Só que eu não sei se é isso o que eu quero. — Respondeu Conrado.
— Andei observando você aqui na escola: seu comportamento, seu dia-a-dia... Deve ser difícil viver a sua vida meu amigo.
— Você me chamou de que Jack?
— De amigo. — Disse Jack, estendendo a mão para Conrado, que a apertou bem firme.
— Puxa... Você é o primeiro que me chamou de amigo de verdade aqui nessa escola. Muitos meninos que andam comigo nunca me chamaram disso. — Falou Conrado ainda olhando pro teto, deitado na maca e segurando a mão de Jack.
— Se você mudar seu comportamento, você vai ouvir essa palavra de muita gente. O avô do... Digo... Meu avô me ensinou que a gente conhece as pessoas de verdade, olhando dentro delas. E você não é esse valentão que você tenta passar pras pessoas — Falou o Davi que derrubou o Golias.
Nisso Conrado se senta na maca, e os meninos se olham durante alguns segundos em silêncio. Os rostos foram mudando automaticamente, e uma gargalhada bem alta foi dada ao mesmo tempo pelos dois:
— Você parece que foi atropelado por um caminhão! — Disse Conrado quase chorando de rir.
— E você? Parece que passaram um trem por cima de você! — Falou Jack, rindo alto — Trégua?
— Trégua! Mas na próxima se prepare magrelo! — disse Conrado apertando a mão de Jack, com a firmeza que os bons amigos se cumprimentam.
— Você vai envelhecer e nunca vai conseguir me superar riquinho — disse Jack, ainda falando como se fosse outra pessoa — mas gostei de você. Apesar de viver no luxo, você tem fibra e tem caráter.
Quando foram buscar os dois na enfermaria da escola, todos ficaram espantados! Jack e Conrado estavam rindo um da cara do outro e achando graça no que um tinha feito no outro e como eles pareciam que tinham sido atropelados. Ninguém conseguia entender a situação, mas enquanto todos discutiam, Jack fez as pazes com Conrado e disse que só fez aquilo pra ele aprender que não é o dono do mundo e que nada gira ao seu redor.
Desse dia em diante, nunca mais brigaram, só andavam juntos, e viveram muitas outras aventuras. Jack mostrou a Conrado o mundo em que vivia e Conrado quase deixou os pais loucos, quando bateu o pé no chão e disse que não ia querer mais fazer faculdade de direito, e ia ser turismólogo, para trabalhar viajando pelo mundo.
A diferença que divide meninos de homens está nas lições que cada um aprende. Conrado precisou aprender de um modo difícil, como ser o amigo que ele é até hoje. Mas Jack ensinou muito bem o dever de casa pra ele. O estranho é que nenhum dos presentes notou a sombra de Jack ter aumentado de tamanho por alguns segundos, durante o pequeno desmaio que ele sofreu no pátio. Aquilo sim foi de arrepiar!