O coração de Tim começou a bater descompassado assim que o ônibus fez sua parada habitual na Rua da Frente, logo após o SENAC. Seus olhos varreram a paisagem lá fora, mas quando se fixaram na catraca do veículo, uma onda de puro pavor o dominou: ali, passando pela catraca, estava Annabel. A visão dela foi como um choque elétrico para Tim, paralisando-o instantaneamente em seu assento. Seu corpo se enrijeceu, e uma frieza insuportável o fez suar mesmo sob o frio cortante do dia. As pernas pareciam feitas de gelatina, tremendo involuntariamente sob o peso do medo irracional que o consumia.
Com a mente em um turbilhão, Tim sabia que não poderia ficar naquele ônibus. Uma única opção martelava em sua mente: descer antes que fosse tarde demais, antes que Annabel o visse. Com um pedido de licença engasgado na garganta, ele se forçou a atravessar a massa de pessoas amontoadas dentro do veículo, cada passo sendo uma luta contra sua própria agonia. Finalmente, ao sair do ônibus, sentiu um leve alívio, mas sabia que não podia se dar ao luxo de baixar a guarda.
As ruas do bairro 13 de Julho, próximas à OAB, se desenrolavam diante dele enquanto ele se afastava rapidamente da cena que tanto o perturbava. Tim não hesitou em aumentar o ritmo de seus passos, quase correndo pela Rua Campos, desviando-se por vielas e becos, seus pensamentos em um caos total enquanto tentava escapar daquela situação angustiante. Somente quando alcançou a Avenida Barão de Maruim é que ele se permitiu diminuir o ritmo, ainda ofegante e com o coração batendo descompassadamente dentro do peito.
A ansiedade impulsiona seus movimentos enquanto ele se embrenha entre vielas e esquinas, desviando-se de olhares curiosos e mantendo-se sempre alerta. Cada esquina dobrada é um suspiro de alívio temporário, até que ele finalmente emerge na ampla Avenida Barão de Maruim. O coração de Tim ainda martela em seu peito, mas ao menos por enquanto, ele se sente seguro nas amplas ruas da cidade. Cansado e com sede, Tim segue em direção à catedral metropolitana e para num bar que fica numa das esquinas, chamado Corujão. Ele vai até o balcão, coloca 5 reais em cima e pede uma cerveja.
— Me dá uma Xereta de litro, bem gelada!
Mas o dono do bar olha pro adolescente e se recusa:
— Eu não vendo cerveja pra menores, garoto. Peça outra coisa pra beber, ou vá à merda.
— Você tá achando que tá nos Estados Unidos, filho-da-p**a? Aqui é Brasil, p***a! Me traz uma cerveja, c*****o! Eu vou pagar!
— Se quer comprar, vou te vender Xereta em lata, mas você vai ter que beber na praça da catedral, pra não me complicar.
— Me dá logo duas latas então, p***a! Pega aqui esse dinheiro e não precisa dar troco!
Tim pega a sacola com as duas cervejas da mão do dono do bar e sai a passos largos até a Catedral. Mas m*l ele se senta nas escadarias e abre a primeira latinha, uma voz o interrompe:
— Tem como me dar um gole dessa Xereta, garoto?
Ao olhar para o lado, Tim fica assustado mais ainda com quem ele vê: era o mendigo que estava dentro do ônibus no sentido Santa Maria. De alguma forma ele desceu e por ironia do destino, os dois acabaram se encontrando ali na praça da Catedral:
— Você não estava dentro de um ônibus no sentido Santa Maria? Eu te vi naquele ônibus.
— Estava. Mas vi uma pessoa indesejada, não pensei duas vezes e pulei fora do ônibus.
Tim sabia que o mendigo falava de Annabel. De alguma forma ele também estava fugindo dela. O jovem dá uma golada na cerveja e entrega a latinha para o mendigo, que manda todo o líquido dourado para dentro e solta uma pérola que deixa Tim puto de raiva:
— A melhor cerveja é aquela que você não paga.
— Ô seu filho da p**a! — Tim xinga o mendigo, quase tomando a cerveja dele de volta — Como é que você me pede pra beber e ainda me diz uma p***a dessas? Tá maluco, c*****o? Tá tão fodido da cabeça, que tá comendo a própria merda?
— Porque eu sei o que você está procurando. — Disse o mendigo — Eu sei bem quem é aquela garota que apareceu na cidade e sei bem o que ela faz.
Era como se as palavras penetrassem profundamente na mente de Tim, despertando uma mistura de choque e curiosidade, porque quanto mais ele se aprofundava nessa investigação, mais ele . Ele encarou o mendigo com olhos arregalados, tentando entender o significado por trás daquela afirmação enigmática, pois aquele indigente era a segunda pessoa que procura por ele, sabendo do que estava acontecendo aqui na cidade:
— Você... Você sabe quem é aquela ruiva e o que ela quer aqui em Aracaju? — Tim perguntou, com as palavras cheias de desconfiança — O que você quer dizer com isso?
O mendigo sorriu de forma enigmática, com seus dentes podres e amarelados, revelando um brilho nos olhos que parecia ir mais além do que sua aparência desgastada.
— Você está em busca de respostas, não é mesmo? — Ele respondeu, sua voz ecoando com uma calma surpreendente — Pague mais duas cervejas bem geladas como essa e eu conto sobre aquela menina ruiva que ninguém sabe de onde veio, sobre sua própria vida e sobre o que você realmente procura.
Tim ficou momentaneamente sem palavras, surpreso com a precisão das palavras do mendigo. Como ele poderia saber sobre suas dúvidas com relação a Annabel e ao caderno de Sam? Seria apenas coincidência, ou havia algo mais profundo acontecendo ali? Ele foi no bar Corujão, comprou mais duas latas de Xereta e trouxe até o mendigo, que abriu e entornou uma de uma vez, abrindo a outra, passando a beber mais socialmente. Só que o silêncio do mendigo estava deixando Tim extremamente puto:
— Quem é você, seu merda? — Tim perguntou, agora com seu tom agora misturando raiva, incredulidade e intriga — Como é que você sabe o que está acontecendo aqui, nessa bosta de cidade?
O mendigo apenas sorriu novamente com seus dentes podres e amarelados e, antes de entornar as cervejas uma depois da outra, se levantou lentamente, como se estivesse prestes a desaparecer na multidão e falou para Tim:
— Você vai encontrar suas respostas, jovem. Mas lembre-se, nem sempre elas serão o que você espera e isso tudo tem um preço. Porém, às vezes é preciso olhar além do óbvio para encontrar a verdade que todo mundo busca.
E com essas palavras enigmáticas, o mendigo se afastou, misturando-se com os hippies e roqueiros que enchem a praça da Catedral e disputam espaço com os pombos, deixando Tim sozinho com ainda mais dúvidas. E enquanto observava o mendigo desaparecer entre a multidão, Tim sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Havia algo naquele encontro que o deixava inquieto, algo que ia além da mera coincidência. Ele sabia que precisava de respostas, e que aquelas coincidências eram apenas o começo de uma jornada que o levaria a desvendar os mistérios que cercavam não apenas o mendigo, mas também o enigmático caderno de Sam e sua própria existência.
Com o coração cheio de determinação, Tim se levantou das escadarias da catedral, pronto para enfrentar o desconhecido que o aguardava. Ele sabia que essa jornada seria repleta de desafios e descobertas, mas estava disposto a seguir em frente, em busca da verdade que tanto almejava.
— Porra... Depois que conheci esse Góes, parece que todo mundo nessa cidade é amigo dele! — Tim fala pra si mesmo, bebendo as cervejas que tinha comprado — Todo mundo que eu encontro fala difícil. Até a p***a de um mendigo é intelectual. Parece até que o burro sou eu. Que merda!
Um pouco anestesiado por conta do álcool das cervejas, porém com os passos bastante firmes e a mente aberta, Tim partiu em direção à sua casa, ansioso pelo que o destino reservava para ele. Pois, no final das contas, ele sabia que a verdade estava lá fora, esperando para ser descoberta por aqueles corajosos o suficiente para buscá-la. Ele não é um desses corajosos mas, mesmo com medo do que pode encontrar mais adiante, o jovem segue em busca de respostas, pelo fato de que quanto mais ele mexe nesse bolo de merda, mais ele fede.
Assim que chega em sua casa, Tim Toma um susto ao perceber que sua mãe chegou mais cedo do trabalho:
— A senhora mais cedo em casa? Que novidade é essa?
— Um funcionário da escola foi vítima de latrocínio, dentro do ônibus Santa Maria. Teve um arrastão dentro do ônibus e um dos assaltantes cismou que ele ia reagir e atirou nele à queima roupa. Aí suspenderam o expediente.
Tim toma um enorme susto com aquela notícia e sua mãe percebe:
— O que foi? Porque ficou assustado com isso?
— Como assim um funcionário morreu dentro de um ônibus da linha Santa Maria? — Tim está perplexo com o que sua mãe acabara de falar — Mas... Que história é essa?
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— Está em todos os noticiários, Tim. É só ligar a TV e assistir.
Tim corre para seu quarto, liga o computador e pesquisa nas notícias da internet, algo sobre o incidente. A pesquisa é rápida e logo que a foto do colega de trabalho da mãe aparece, o susto: ele era exatamente o mesmo que o jovem encontrara dentro do ônibus.
— Caralho... — O jovem coloca as duas mãos no rosto, assustado — Era pra eu estar dentro daquele ônibus! Eu ia ser assaltado hoje!
Tim, pálido e com as mãos trêmulas de medo, vai até embaixo da cama e retira uma garrafa de vodca que o mesmo mantém guardada para emergências. O mesmo abre, dá uma golada forte e só depois de alguns minutos o seu corpo relaxa. Ele então pega o caderno de Sam e fica folheando-o:
— Cara... Esse caderno está me deixando cada dia mais assustado. É como se eu fosse personagem de um livro e tudo o que eu lesse nessas páginas sujas, se materializasse.
Ele poderia parar com a leitura e queimar o caderno, mas encorajado pelo álcool, fala para si mesmo:
— Ah... Quer saber? f**a-se isso tudo! Vou continuar lendo essa merda.
O jovem se joga na cama, abre o caderno de Sam de onde tinha parado sua última leitura e recomeça a próxima, em voz alta: