SAMANTHA

1994 Words
A escuridão no quarto de Samantha era um ser vivo. Não era a ausência de luz, mas sua antítese, uma substância pesada e viscosa que se agarrava aos móveis, escorria pelas paredes e aderia à sua pele como um sudário de desespero. As lágrimas que corriam de seus olhos não eram salgadas; eram o destilado amargo de uma alma que fora espremida até a última gota de esperança, um veneno lento que ela mesma bebia. Seus olhos não apenas ardiam, eles se fundiam, queimados pela fumaça de uma fé que se incendiara sem deixar cinzas. A confiança, para ela, era uma palavra em um idioma morto, uma lenda contada por pessoas que nunca conheceram o frio. Ela havia tentado, oh, como o céu era testemunha de suas tentativas! Ofereceu seu coração como um livro em branco, pronta para que escrevessem nele as mais belas histórias. Mas os únicos que o pegaram usaram suas páginas para limpar a sujeira de suas mãos, rasgaram os capítulos mais bonitos e o jogaram de volta em seu peito, amassado e manchado. Chorar em silêncio era seu único ato de soberania, uma fortaleza que ela construía com lágrimas para que ninguém visse a ruína por dentro. A piedade alheia seria o insulto final, a confirmação de que sua dor não passava de um espetáculo patético. A embriaguez não era uma fuga, mas um afogamento programado. Cada gole de vodca era um passo mais fundo no oceano gelado do esquecimento, onde a dor se tornava um zumbido surdo, uma melodia de fundo suportável. As drogas não eram uma porta para a ilusão, mas uma agulha que costurava suas pálpebras, forçando-a a dormir em um pesadelo mais confortável que a realidade. Ela sabia do preço, sabia que o amanhã traria o naufrágio da ressaca, o corpo em revolta, a alma ainda mais nua. Mas a promessa de algumas horas de anestesia valia mais do que a certeza de uma vida inteira de agonia. O fogo em sua pele não era um pedido de ajuda, mas a tentativa de queimar o fantasma que a habitava, de cauterizar a ferida que nunca cicatrizava. Quando ele apareceu, foi como um raio de sol fraco em um céu perenemente tempestuoso. Seu coração, que batia em um ritmo de funeral, teve uma arritmia de esperança. Pela primeira vez, o sorriso de um homem não parecia uma máscara de carnival, e o toque dele não parecia uma cobrança. Ela floresceu, uma flor nascida no asfalto que, contra todas as leis da física e da botânica, encontrou uma fresta de luz. A felicidade era uma sensação tão estranha, quase desconfortável, como uma roupa nova que ainda não se ajustou a um corpo que só conhece a dor. Ela se agarrou a ela com unhas e dentes, ingênua como uma criança que ainda acredita em magia. Mas a magia era a cortina de fumaça de um truque barato. O amor dele era um espelho que refletia apenas seu próprio desejo, um eco de suas próprias necessidades. Ele a acariciava com uma mão e a afastava com a outra, mantendo-a em um limbo de esperança e humilhação, um purgatório de sua própria invenção. Seu corpo era um templo que ele visitava apenas para adorar a si mesmo. A confusão em sua alma era pior que a dor da traição pura, porque a traição, ao menos, era clara. Ele a mantinha em suspenso, uma marionete cujos fios ele puxava quando lhe convinha. E a tristeza, que antes era um lago, tornou-se um tsunami, engolindo-a por inteiro, afogando-a em seu próprio quarto. Suas palavras no papel não eram um desabafo, eram um testemunho, o registro de seu próprio assassinato em câmera lenta. A violência daquela noite não foi apenas física. Eles não estupraram apenas seu corpo; estupraram sua alma, violaram a memória daquele breve e frágil sorriso, profanaram o altar improvisado onde ela havia depositado sua última gota de fé. Cada ato de brutalidade era uma punição por ela ter ousado acreditar. As juras de amor dele eram os gritos mais sádicos, a trilha sonora perfeita para sua destruição. O sangue que brotava de sua pele era o mesmo sangue que eles pintaram nas paredes, não um símbolo de um ritual macabro, mas a assinatura de seu sacrifício no altar da ganância alheia. Enquanto seu corpo era despedaçado, sua mente viajou para longe, para um lugar onde a dor não existia, e talvez, por um instante, ela tenha sentido pena de si mesma pela última vez antes de se tornar completamente vazia. O garoto da máscara não era um anjo da guarda, mas um demônio da vingança. Ele não se moveu por justiça, mas por uma fome primária, um instinto de predador que cheira o sangue dos inocentes como outros cheiram flores. A promessa que ele fez não foi a Samantha, mas à escuridão que ele próprio carregava. Ele era a materialização da raiva que Samantha nunca pôde expressar, a ponta de uma lança forjada em seu próprio silêncio. A vingança que se seguiu foi uma cirurgia feita com faca bruta, que arrancou o câncer, mas deixou uma cicatriz que doeria para sempre. A justiça dos jornais era farsa, a justiça dos tribunais, uma piada de gosto duvidoso. A única verdade foi a fúria silenciosa do garoto e a promessa sussurrada sob a lua. Samantha descansava, mas o mundo continuava doente. E em outros quartos escuros, em outras cidades, outras Samanthas choravam, suas lágrimas caindo em silêncio, aguardando um demônio com uma promessa nos olhos ou um monstro com uma herança no bolso. A melancolia não estava em sua morte, mas na eterna repetição de sua vida, um ciclo de dor que nem mesmo a vingança mais brutal conseguia quebrar. Seu silêncio havia se tornado um grito que ecoava por todo o sempre, um aviso para ninguém, porque ninguém jamais estaria ouvindo. A paz que encontrou não era a tranquilidade, mas o silêncio final de uma canção de dor que finalmente acabou. O garoto da máscara desapareceu na noite tão silenciosamente quanto chegara, levando consigo não apenas o papel manchado de sangue, mas o próprio eco da dor de Samantha. A promessa feita sob a lua não era um juramento de justiça, mas um contrato com o vácuo, um pacto para transformar o sofrimento dela em uma arma afiada. Ele se dissolveu nas sombras da cidade, tornando-se uma lenda urbana antes mesmo de sua primeira vítima ser encontrada. Não era um herói. Heróis salvam pessoas. Ele era o carrasco da escuridão, o executor de uma vingança que pertencia a um fantasma. Jarbas, o traficante, era a outra metade dessa equação sombria. Ele não agia por amor ou por um código de honra distorcido. Samantha era uma transação impecável em um mundo de caos e dívidas. Sua morte não foi uma perda, mas uma quebra de contrato, uma ofensa à sua ordem pragmática. O dinheiro que ela lhe devia era sempre pontual, uma ilha de confiabilidade em um mar de inadimplentes. Matar sua melhor cliente era como queimar a única árvore frutífera de um deserto. Era uma questão de princípio, um princípio sujo e sangrento, mas um princípio nonetheless. A caça começou não com um rugido, mas com um sussurro. Jarbas, com sua teia de informantes e viciados, traçou o mapa da decadência daqueles homens. Paulo Rocha, o chefe do cartório, cuja vida era uma pilha de papéis falsificados e segredos chantageados. Maurice, o funcionário, cuja mediocridade era um veneno que ele cuspira em todos ao redor. Andrew, o amigo, um parasita que se alimentava da luz dos outros. George, o esposo de Valquíria, um boneco de ventríloquo cujas cordas eram puxadas pela esposa e pela ganância. E Sérgio, o advogado, que vendia a justiça como se fosse mercadoria de balcão. Eles não morreram de uma vez. A morte veio lentamente, como uma doença que se espalha, alimentando-se do medo. O primeiro foi Maurice. Encontrado em seu cubículo apertado no cartório, o pescoço quebrado não pela força bruta, mas por uma torção precisa, quase cirúrgica. O sangue não havia sido derramado, mas sim drenado, como se um vampiro clínico tivesse trabalhado. A polícia ficou confusa. A violência era extrema, mas a cena, estranhamente limpa. O pânico começou a se instalar no grupo de "amigos". As piadas sobre o ritual macabro que eles haviam encenado agora lhes soavam como uma sentença de morte. Andrew foi o próximo. Tentou fugir, mas foi encontrado em um motel barato na periferia da cidade. Não havia sinais de arrombamento. A porta estava trancada por dentro. Ele parecia ter morrido de terror, o coração explodido no peito, mas o legista confirmou a mesma causa: pescoço quebrado e corpo exsanguinado. A melancolia da morte de Samantha começava a se espalhar, um manto de desespero que envolvia seus algozes. George e Sérgio tentaram usar sua influência. Contrataram mais segurança, mudaram-se de casa. Mas não se pode escapar de uma vingança que nasceu de um silêncio. Foram encontrados juntos, na casa de campo de George, um lugar que deveria ser um refúgio. A cena era um quadro dantesco. Símbolos, iguais aos que haviam desenhado com o sangue de Samantha, agora estavam rabiscados nas paredes com o sangue deles. A fúria não era apenas para matar, era para humilhar, para espelhar de volta a eles a profanação que cometeram. Paulo Rocha, o chefe, o velho raposa, durou mais. Trancou-se em seu escritório, cercado por advogados e guardas. Mas o garoto da máscara não era como a polícia. Ele não precisava de mandados. Ele era uma sombra, um pensamento maligno que se materializava. Uma noite, os guardas simplesmente... adormeceram. Quando acordaram, a porta do escritório estava aberta. Rocha estava em sua cadeira, os olhos arregalados para o teto, o corpo seco como uma folha de outono. Com a morte dos cinco, a promessa estava cumprida. O garoto da máscara sumiu. Jarbas, o prático, o homem de negócios, assumiu tudo. Ele sabia que o sistema o protegeria até certo ponto, e que o medo faria o resto. Sua confissão foi um espetáculo teatral. Ele se pintou como um justiceiro torturado pela perda de sua "cliente e amiga", uma mentira tão grotesca que quase se tornava verdadeira. Ele usou o garoto como um fantasma, uma criação de sua imaginação, um "comparsa desconhecido" que a polícia nunca encontraria porque nunca existiu da forma como ele descrevia. A sentença de dez anos foi uma piada. Um investimento. Sete anos em uma penitenciária que ele controlava de dentro, trocando informações por proteção e conforto, foi o preço de limpar seu nome e reafirmar seu poder. Quando saiu, não era mais apenas Jarbas, o traficante. Era Jarbas, o homem que vingou a fantasma, uma figura mítica que comandava um respeito ainda maior e mais sombrio. E Samantha? O silêncio que ela tanto buscou em vida finalmente a envolveu na morte. Seu nome virou um caso policial arquivado, uma nota de rodapé em um jornal amarelado. A herança que motivou seu assassinato foi parar em mãos de outros abutres, em uma batalha judicial que se arrastaria por anos. Valquíria e a doutora Giovana continuaram suas vidas, manchadas pela suspeição, mas livres. O mundo seguiu seu giro, indiferente. Mas em noites de lua cheia, diz a lenda que se você passar em frente à casa abandonada no fim da rua, ainda pode sentir um frio que não é da noite, e ouvir o sussurro carregado de uma promessa no vento. A vingança não trouxe paz. Apenas transformou a melancolia de uma vida em uma lenda de horror. Samantha não foi vingada. Ela foi canonizada como a padroeira de todos os que morrem em silêncio, seu sofrimento elevado à categoria de mito, enquanto a verdade de sua dor, a dor de uma garota que só queria ser amada, mas que continuava esquecida, enterrada junto com seu corpo, em um túmulo sem nome, em um cemitério de almas perdidas. A justiça foi feita, mas a tristeza permaneceu, uma mancha indelevelmente no tecido do mundo.
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