O jovem, ainda com o gosto amargo da frustração e a mente em turbilhão após mergulhar na biografia de Chico Marques, sentiu o peso da realidade de 2001. O ano era um limbo, um tempo suspenso onde o destino do pintor ainda estava por ser escrito, faltando sete anos para o seu fim. "O que diabos isso significa?", Tim murmurava para as paredes silenciosas de seu quarto, a confusão tomando conta de seus pensamentos como uma névoa densa. A resposta, contudo, veio rápida e pragmática, um grito de guerra de sua alma inquieta:
— Preciso fazer o que sei fazer de melhor, nessa p***a de cidade. Preciso de putas, preciso de farra e o principal: preciso beber!
Com um brilho quase febril de curiosidade nos olhos, ele ligou seu computador, o zumbido do cooler uma trilha sonora familiar para sua missão. Adentrou ao vasto mundo virtual, um caçador em busca de seu presilheiro: um lugar onde o álcool fluísse gratuitamente pelas ruas de Aracaju. Ele conhecia bem o segredo, a regra não escrita que pairava sobre a capital sergipana como um perfume caro e discreto: onde os intelectuais se reuniam para discutir o mundo, as bebidas de alto custo eram oferecidas como se fossem água, uma cortesia quase obrigatória. Aquele paradoxo, por mais que parecesse uma piada de mau gosto, era a realidade tangível que ele planejava explorar.
Aracaju era um caldeirão cultural, e seus habitantes mais perspicazes, aqueles que navegavam nas correntes da arte e da literatura, sabiam que as exposições eram o ponto de encontro privilegiado. Eram nesses espaços de paredes brancas e conversas sussurradas que a efervescência criativa se encontrava com a sofisticação dos paladares mais exigentes. Os intelectuais, frequentemente se enxergando como artistas em potencial, usavam aqueles palcos para exibir suas ideias complexas e, de certa forma, justificar sua própria inércia diante das pressões de um mundo que eles mesmos criticavam do alto de seus pedestais. A ironia era palpável, pois muitos daqueles críticos vorazes do sistema capitalista provinham de famílias abastadas, cuja riqueza era o fruto exato do sistema que eles condenavam com tanto fervor em seus textos.
A contradição atingia seu ápice quando o tema era a caridade. Enquanto muitos proclamavam em discursos eloquentes a necessidade de mudança e engajamento social, poucos estavam dispostos a abrir mão de seu próprio conforto em prol de causas altruístas. A doação era um conceito abstrato, quase um palavrão, exceto quando se tratava de manobrar recursos públicos em troca de favores ou vantagens pessoais, revelando um abismo profundo entre o discurso e a prática daquela nata pensante.
Tim entrou num site onde os intelectuais da capital postavam seus textos literários, uma vitrine de egos. Ele leu as primeiras palavras de um ensaio sobre a desmitificação do sujeito pós-moderno e sentiu uma náusea imediata. "Pura merda!", o jovem resmungou, fechando a aba com um clique seco. Continuou a vasculhar a página, os olhos saltando de artigo em artigo, até que um link lhe chamou a atenção, uma promessa de concretude em meio àquele mar de abstrações: "agenda semanal". Tim clicou, entrou e começou a minerar o calendário em busca de algo interessante, um evento onde ele pudesse beber de graça, comer e, quem sabe, caçar umas xotas.
Ele procurou, rolando a página para baixo, passando por lançamentos de livros que ninguém lia e ciclos de debates que pareciam um remédio para insônia. Nada. Tim já estava com o mouse sobre o 'X' para fechar a janela, prestes a desistir e se render a uma noite de cerveja barata e solidão, quando de repente um cartaz digital lhe agrediu a visão e fez seus olhos brilharem com a intensidade de um farol: "a******a DA EXPOSIÇÃO 'BESTIAI', DO FAMOSO ARTISTA PLÁSTICO FRANCISCO MARQUES". O jovem analisou as informações: o local seria o Cultart, um espaço mítico onde o pessoal da universidade federal se reunia quando queria falar de arte e citar seus pensadores bolcheviques famosos. Um sorriso malicioso se formou em seu rosto.
— Que se fodam e se arrombem os pensadores de esquerda: eu quero é beber! — Tim berrava para a tela do computador, rindo feito louco dentro do quarto, a gargalhada ecoando como um troféu de sua própria audácia.
O jovem, imerso em seus pensamentos de conquista e álcool, desligou o computador e se viu diante de um novo desafio: comparecer à a******a da exposição sem se sentir um peixe fora d'água. Embora fosse um evento aberto ao público, ele pressentia que as pessoas estariam elegantemente vestidas, uma elegância que muitas vezes ocultava uma hipocrisia fétida, especialmente entre a burguesia de esquerda, que parecia exalar um odor de superioridade ainda mais intenso. Determinado a não destoar, a se misturar ao rebanho para poder roubar seu leite, o jovem decidiu tomar um banho.
Despiu-se completamente, deixando as roupas caírem em um monte desleixado no chão, e enrolou-se em uma toalha. Aproveitando a privacidade de estar sozinho em casa, caminhou nu pela residência, a toalha firmemente segurada na cintura, rumo ao banheiro. No aconchego do ambiente familiar, ele se acomodou no vaso sanitário e, após alguns momentos de esforço e concentração, vivenciou uma experiência de alívio profundo misturada com um leve desconforto, típico das evacuações mais intensas e significativas. Após concluir seu momento íntimo, ele se levantou, orgulhoso, observou as "bombas atômicas" que acabou de criar no fundo do vaso, acionou a descarga com um pontapé satisfeito e adentrou o chuveiro.
Sob a água quente que escorria em cascata sobre seu corpo, ele se entregou à limpeza ritual, dedicando atenção especial à higiene de seu traseiro, lavando-o com um vigor quase cerimonioso. Enquanto a água carregava os vestígios do esforço anterior, ele relaxava, deixando-se envolver pela sensação revigorante dos jatos batendo em sua cabeça. Durante o banho, sua mente vagou para a Natasha, para os p****s dela, imaginando cenas explícitas onde ela o atendia com a boca e ele, depois, esporrava tudo em cima da sua colega de escola, uma fantasia rápida e poderosa que o fez sorrir. No banho ele fez a barba, deixando o bigode fino e arqueado, um estilo cafajeste que lhe conferia um ar de mistério e malandragem. O jovem sorriu, fazendo cara de safado no espelho embaçado, e se enxugou com a mesma toalha.
Após sair do banho, Tim vestiu uma calça jeans limpa, calçou um tênis preto discreto, vestiu uma camisa de botões marrom que passou por uma rápida inspeção para remover possíveis rugas, passou gel no cabelo, penteando-o para trás em um estilo molhado, tipo recém-saído da piscina, e jogou uma generosa quantidade de perfume barato por todo o corpo, criando uma aura de limpeza forçada. Saiu de casa de bicicleta, só que dessa vez levando a corrente e o cadeado, pois iria para um lugar estranho, um território desconhecido onde seu meio de transporte poderia ser alvo de cobiça. Ele pedalou pelo centro, passou na rua 24 horas, comprou um maço de cigarros mentolado e seguiu para a exposição, o coração batendo um pouco mais rápido.
Ao chegar no Cultart, o jovem viu que o local já estava bastante badalado. O som das conversas e do tilintar de taças vazava para a calçada. Além da imprensa, com suascâmeras e microfones, muitos dos intelectuais da nata da sociedade estavam por lá, circulando com a arrogância leve de quem se sente no centro do universo. Isso sem contar os alunos universitários, com seus olhares ávidos por aprovação, e demais pessoas da zona sul da capital, todas vestidas como se tivessem saído de uma revista de moda que ele nunca lera.
Ao adentrar no elegante salão, ele foi imediatamente recebido por um garçom atencioso, cujo uniforme impecável refletia a sofisticação do ambiente. Com um sorriso discreto, ele solicitou duas taças de vinho, cujo aroma aveludado já inebriava seus sentidos antes mesmo de tocar seus lábios. Após um gesto de agradecimento, ele se vira, segurando com elegância uma das taças, e com passos seguros, desliza entre os convidados, sua presença sendo notada pela sutileza de seus movimentos.
Chegando à estação de petiscos, ele não hesita em selecionar alguns camarões empanados, cuja crocância promete um deleite ao paladar. Com maestria, ele equilibra a segunda taça de vinho em uma das mãos, enquanto com a outra, delicadamente escolhe os petiscos que lhe parecem mais apetitosos. Seus olhos brilham com antecipação, revelando a expectativa de desfrutar não apenas dos sabores, mas também da atmosfera única do evento.
Com seus aperitivos em mãos, ele se encaminha serenamente em direção às obras do renomado artista plástico, cujas criações aguardam pacientemente para serem apreciadas. Entre as conversas animadas e risadas discretas dos presentes, ele se destaca pela calma e serenidade, sua postura refletindo não apenas uma apreciação pela arte, mas também um profundo respeito pelo ambiente ao seu redor. Enquanto mergulha na contemplação das obras, ele brinde silenciosamente ao talento do artista, cada gole de vinho e cada mordida nos petiscos sendo uma celebração discreta, porém significativa, da beleza que o rodeia.
— Cara... Eu tô totalmente camuflado no meio desses ricos. Há! Há! Há! Queria ver a cara daqueles filhos da p**a dos amigos do Yan, se me vissem agora, pagando de patrão! — pensava e falava Tim para si mesmo.
O jovem estava tão empolgado, mas tão empolgado, que quando entrou no salão principal, ele tomou um susto tão grande, que quase deixava a taça cair no chão: a exposição não era apenas de pinturas de quadros e sim de esculturas. Eram esculturas diabólicas, feitas em ferro e madeira, expostas sobre luzes vermelhas, que mais pareciam de um filme de terror e os quadros retratavam cenas onde pessoas metamorfoseadas em animais faziam amor com homens e mulheres de maneira bestial. O jovem ficou horrorizado, mas não a ponto de não parar para ver a exposição. O pintor Chico Marques estava no meio da exposição, como se em cima de uma armação de ferro, vestido no que parecia ser um sobretudo gigante. Tim não era muito bom em Matemática, mas pela altura da cabeça do pintor, ele estava há pelo menos uns três metros do chão. Ele ficou ali, paralisado, a taça de vinho tremendo ligeiramente em sua mão. O choque inicial deu lugar a uma fascinação doentia. Ele não entendia nada daquilo, não conseguia decifrar os símbolos ou as intenções por trás daquelas formas retorcidas, mas sabia, instintivamente, que aquilo era importante. Aquilo era arte verdadeira, a arte que machucava, que incomodava, que não pedia licença para existir. Era o exato oposto daquela "pura merda" que ele havia lido no site dos intelectuais. Ali, diante daquele horror magnífico, Tim se sentiu mais vivo do que nunca, um impostor que, por acaso, havia encontrado o altar sagrado que ele nem sabia que procurava.