O SEGREDO POR TRÁS DAS TELAS - final

1993 Words
Tim começou a observar os quadros e o mesmo ficava horrorizado com aquilo tudo, uma náusea subindo de sua garganta como se a própria arte o estivesse rejeitando. Mas algo chamou muito a atenção do jovem, um detalhe que gelou seu sangue: as mulheres retratadas nos quadros eram todas ruivas. Cada tela, cada cena de metamorfose bestial, tinha como figura central uma mulher de cabelos de fogo, suas expressões uma mistura de êxtase e dor. Só aquilo já era assustador o suficiente, uma coincidência macabra que parecia zombar dele, mas... Era como se quisessem passar-lhe uma mensagem, um aviso codificado que ele não conseguia decifrar, mas sentia nos seus ossos. Já com as esculturas, a interpretação dele era diferente, mais visceral. Todas elas lembravam demônios, mas não aqueles demônios estilizados dos filmes de Hollywood, com chifres simétricos e sorrisos sarcásticos. Não, eram aqueles que mais pareciam entidades primordiais, usados em alguma invocação do m*l ou coisa parecida, saídos diretamente de pesadelos antigos. Eram demônios feios, feitos de maneira extremamente bizarra, com membros tortos em ângulos impossíveis e rostos que eram uma abolição da forma humana, como se estivessem ali não para serem admirados, mas para servirem como instrumentos em algum ritual macabro e estavam. Quando Tim menos espera, uma música estilo aquelas músicas de cabaré, um tango sombrio e sedutor, começa a tocar, cortando a tensão do ambiente. Várias cordas, puxadas por mãos invisíveis dentro da estrutura, abrem o enorme sobretudo que cobre o artista plástico Chico Marques, revelando um homem feio e nu, com o corpo pintado de vermelho vivo, um sacrifício sangrento em carne e osso. E dentro da armação surgem um monte de mulheres ruivas que estavam por lá como se fizessem parte da exposição, e elas saem passeando por entre as pessoas como se as seduzissem, seus corpos se movendo com uma graça serpenteante, seus olhos verdes fixos em cada convidado, desafiando, convidando, amaldiçoando. Aquela situação representou um cataclismo emocional para Tim, um turbilhão de lembranças e sensações que o envolveram instantaneamente como uma onda tsunâmica. A descoberta do caderno, há tanto tempo esquecido numa gaveta, foi como uma chave que destrancou um cofre de memórias e emoções que ele lutava para manter trancado. Era difícil para ele não associar aquele objeto a tudo o que acontecia. Era como se cada página amarelada fosse um portal para um passado doloroso e obscuro que ele jurara nunca mais revisitá-la. A ruiva, uma figura enigmática e perturbadora, era o fio condutor de tudo aquilo. Foi por causa dela que o caderno surgiu na sua vida, e foi também por causa dela que seu amigo Sam, o único ponto de apoio num mundo de desespero, tomou uma decisão irreversível que ecoava em sua mente como um grito silencioso. Tim revivia, em flashes dolorosos e rápidos como um estilhaço, os momentos compartilhados com Sam, as risadas que encheram tardes vazias, os segredos sussurrados sob as estrelas, e agora, a dor aguda e permanente da perda. E como se essa carga emocional não fosse suficiente para dilacerar sua alma, Tim viu-se diante de um espectro do passado, tornado carne e osso: Annabel. Seu coração parou por um instante, depois recomeçou a bater descompassadamente, um tambor de guerra em seu peito. Ao vê-la, uma mistura tóxica de raiva, tristeza e uma estranha fascinação o paralisou. Ela estava ali, com sua aura maquiavélica, seus cabelos de fogo que pareciam ter o poder de incendiar tudo ao redor, sua pele alva como porcelana fria, e um corpo que parecia esculpido para seduzir e destruir. Ela personificava o caos, uma lembrança viva de um tempo marcado por desventuras e paixões que quase o consumiram. Annabel não estava apenas presente, mas era uma encarnação de tudo o que ele tentava esquecer. Ela trajava roupas de couro e tecidos finos que revelavam mais do que escondiam, uma provocação ambulante, uma reminiscência da vida perigosa e libertina que ela sempre levou. Seu olhar, cheio de mistério e malícia, era como um ímã que o puxava de volta para um abismo do qual ele tentava desesperadamente escapar, um abismo que cheirava a perfume barato e a pecado. Tim ficou extremamente assustado ao ver Annabel, um medo primal que gelou seus membros. Ela não o viu lá dentro, pois o mesmo saiu de dentro da exposição às pressas, empurrando gente sem cerimônia, uma necessidade animal de fugir. Ele tentou fingir normalidade, mas a mente estava em pânico, e quase esqueceu de levar sua bicicleta para casa. Ele abriu a corrente com dedos trêmulos, montou nela e veio em disparada para sua casa, pedalando como se os demônios daquela exposição o estivessem perseguindo. Nessa noite o jovem pedalou dobrado, tanto que o medo lhe fez esquecer as dores queimando em suas pernas e o ar cortando seus pulmões. O jovem chegou em casa, trancando a bicicleta com a mesma urgência de quem tranca um segredo, e correu para dentro. Ele falou com seus pais, que estavam na sala vendo TV, a luz azul da tela iluminando seus rostos sonolentos: — Onde você foi assim todo arrumado?— Perguntou sua mãe, sem tirar os olhos da novela. — Não me diga que você agora está saindo com alguém. — Esse fedorento? Saindo com alguém? — O pai fala com Tim de um modo sarcástico e rindo, um som rouco e familiar — Só se ele estiver saindo com alguma margarida da prefeitura. E aí, ela encontrou seu jardineiro? — Fui numa exposição artística, pra ver como era uma de verdade, a pedido da professora de Artes lá da escola. — Tim tenta explicar, respirando devagar, forçando o ar a entrar em seus pulmões para poder não demonstrar nervosismo ou o cansaço que o consumia — Não foi lá essas coisas, mas já vou poder escrever um texto sobre. — Menos m*l, hein? — O pai de Tim ri de novo, uma risada curta e desdenhosa — Pelo menos está se interessando por algo que não seja só essa barulheira que você chama música. Tim saiu da sala, sentindo o peso do calor abafado do verão que se infiltrava pelas janelas da casa, um calor úmido que parecia sufocá-lo. Decidiu que precisava de um momento para si, para organizar seus pensamentos tumultuados que dançavam uma dança macabra em sua cabeça. Antes de se refugiar em seu quarto, onde encontraria um pouco de paz, ele fez uma breve parada na cozinha. A sensação da água fria descendo por sua garganta seca era um alívio bem-vindo, quase como se pudesse lavar as preocupações que o assombravam, mas ele sabia que era inútil. Já no quarto, Tim despiu-se lentamente, sentindo a textura familiar do tecido de suas roupas deslizando pelo corpo, como uma segunda pele que ele precisava arrancar. Optou por ficar apenas de cueca, buscando alívio na leveza do mínimo possível de vestimenta. Ao ligar o ventilador, uma suave brisa espalhou-se pelo ambiente, trazendo um alívio temporário para o calor sufocante que não era apenas de fora. Com seu caderno entre as mãos, Tim sentou-se à mesa e mergulhou num mundo de palavras, a única fuga que lhe restava. Sua mente vagava como um fantasma entre os diferentes assuntos que o intrigavam e o atormentavam. Começou a escrever sobre Sam, as letras se formando com a dor de quem perdeu uma parte de si mesmo, revivendo memórias e reflexões sobre sua amizade, um vínculo que a morte não conseguiu romper completamente. Em seguida, seus pensamentos voltaram-se para Odin de Mônaco, cujas façanhas lendárias e obscuras intrigavam Tim há semanas, alimentando sua imaginação com histórias de aventura e mistério que pareciam um conto de fadas sombrio em comparação com a realidade que agora o enfrentava. Não demorou muito para que ele começasse a rabiscar sobre Chico Marques, um personagem peculiar que conhecia apenas de biografias, mas cujas peculiaridades agora pareciam proféticas, rendendo histórias que não eram mais divertidas, mas sim aterrorizantes. A exposição artística que visitara recentemente também ocupava espaço em seu caderno, suas impressões e interpretações preenchendo as páginas com rabiscos frenéticos, cores vibrantes e formas abstratas que tentavam, e falhavam, em capturar o horror que ele sentira. Mas era sobre Annabel que Tim mais escrevia, sua caneta quase furando o papel. Cada palavra dedicada a ela era como uma tentativa desesperada de decifrar um enigma complexo, uma mistura de emoções que o deixava fascinado e envenenado ao mesmo tempo. Ele tentava capturar em palavras a essência da garota que ocupava seus pensamentos mais íntimos, desejando compreendê-la melhor e, quem sabe, desvendar os segredos de seu coração, ou o que restava dele. Cruzando as informações sobre o modo como ela fez com Sam no bar do PATTO, o beijando ardentemente sob a luz neon, despertando nele um desejo que sempre quis fazer; sobre tudo o que estava acontecendo, as ruivas, as esculturas, a música de cabaré, o corpo vermelho de Chico Marques, e o mesmo deitou na cama olhando pro teto, o ventilador girando em círculos inúteis sobre seu corpo. — Tem alguma ligação nisso tudo que eu não estou sabendo conectar. Eu sinto isso, mas minha mente não consegue processar! — ele sussurrou para o teto, para o ventilador, para os fantasmas que o cercavam. Tim pensa, pensa e pensa até que, cansado de não conseguir encaixar nada, ele se levanta com um grunhido de frustração. Ele liga o computador, a luz da tela iluminando seu rosto cansado, entra num site de heavy Metal, seus dedos voando sobre o teclado em um ritual familiar. Monta uma playlist no modo aleatório e coloca para tocar, o volume alto o suficiente para abafar seus próprios pensamentos. E as primeiras frases da primeira música, uma voz poderosa e cortante sobre um riff de guitarra icônico, o fazem pular da cama, um choque elétrico percorrendo sua espinha: "Woe to you, oh, earth and sea... For the Devil sends the beast with wrath... Because he knows the time is short... Let him who hath understanding... Reckon the number of the beast... For it is a human number... Its number is six hundred and sixty six..." Tim pula da cama, a adrenalina substituindo o cansaço. Ele conseguiu, através das primeiras letras da música do Iron Maiden, conectar tudo como se estivesse conectando um quebra-cabeças que ele nem sabia que estava montando. As esculturas não eram apenas esculturas, eram bestas. As ruivas não eram uma coincidência, eram as servidoras, as sereias que atraíam para a armadilha. A música de cabaré era o chamado, o convite para o ritual. Chico Marques não era um artista, era o sumo sacerdote. E Annabel... Annabel era a peça central, a b***a em forma humana. Ele pega o caderno, com uma urgência febril, e faz uma caricatura de Annabel, mas desta vez não era um desenho de desejo, mas um mapa do inimigo. Ele coloca nela um par de chifres retorcidos e um r**o pontudo, traçando o contorno do m*l que ele agora via com clareza cristalina. Tim sorri, um sorriso louco e triunfante, pois conseguiu matar a charada: — Tem algo de sobrenatural acontecendo aqui nessa capital e não é de agora! Rapaz... Como foi que conseguiram invocar o demônio e trazer ele pra cá? p**a merda.... Virei investigador paranormal agora! A declaração soou no quarto vazio como um juramento. Tim vai pro banheiro, toma um banho frio pra despertar, a água gelada um choque bem-vindo que o lava do medo e o enche de um novo propósito. Ele se enxuga com a mesma toalha de antes, mas agora se sentia diferente, um homem com uma missão. Ele pega o caderno de Sam, o objeto que começou tudo, e volta para seu quarto. E enquanto a playlist de heavy metal continua rolando, um hino para sua nova cruzada, ele vai lendo mais uma história escrita por seu amigo, procurando pistas, sinais, qualquer coisa que Sam possa ter visto e não entendido, uma profecia deixada para trás por um amigo que talvez tivesse sido a primeira vítima da b***a:
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