ANTES DE TUDO MUDAR
Três anos atrás.
Tudo parecia normal. Ou pelo menos eu fingia que era.
Acordo no meu quarto, o cheiro de café já invade a casa inteira. Dona Ana Luísa, minha mãe de criação, sempre acordou cedo. Desde moleque. E eu sei que se eu não descer logo, ela vai subir aqui e me puxar pela orelha.
— Zyon! Já passou das oito!
Ela nem precisa gritar. A voz dela atravessa parede.
— Já vou mãe!
Minto. Deito mais cinco minutos. Só cinco.
—
Quando desço, ela tá na cozinha, mexendo uma panela no fogão. Cabelo loiro preso, avental amarrado na cintura. Ela olha pra mim e já faz aquele cara de julgamento.
— Você tá parecendo um zumbi.
— Dormi tarde.
— Dormiu tarde por quê? Ficou na rua até que horas, Zyon?
— Tava na casa do Juninho.
Ela aperta os olhos, mas não insiste. Sabe que eu não minto. Pelo menos não pra ela.
Sento na mesa, pego o copo de suco que já tá ali — ela sempre deixa no meu lugar — e ouço passos no corredor.
Passos leves. Apressados.
Zaya.
Ela aparece na cozinha, cabelo molhado, toalha no ombro, uniforme da escola amassado porque ela nunca passa a p***a do uniforme.
— Atrasada de novo — eu falo, nem olho direito.
— Cala a boca, Zyon.
— Oi? Cala a boca?
Ela me olha torto. Joga a mochila na cadeira ao lado e senta meio sem jeito. Pegou o celular, começou a digitar igual doida.
— Tá falando com quem?
— Não é da sua conta.
— É da minha conta sim, enquanto você mora debaixo do mesmo teto que eu.
Ela revira os olhos. Esse movimento dela me tira do sério desde que ela tinha uns doze anos.
— É o Marlon, da minha sala. Fica tranquilo, não vou engravidar não.
— Zaya! — Nossa mãe corta, colocando um pão em cima da mesa. — Não fala assim.
— Foi ele que começou, mãe.
— Comecei nada. Tô só perguntando, ué.
Ela me encara. Cabelo molhado escorrendo água na gola do uniforme. O rosto dela ainda tá meio vermelho do banho quente.
E é aí que eu vejo.
Não sei quando foi que começou. Mas agora eu tô vendo.
O uniforme que antes ficava folgado agora marca. O cabelo molhado deixando o pescoço dela à mostra. A mão pequena segurando o celular.
Ela não é mais criança.
E o problema… é que eu comecei a perceber isso.
Eu… eu não devia ter reparado nisso.
Desvio o olhar. Pego o pão. Mastigo sem sentir o gosto.
—
Os dias seguem iguais.
Acordo, vou pra faculdade, passo na oficina do meu pai, volto pra casa a noite. Ela passa o dia na escola, depois chega em casa fazendo algum barulho irritante.
Mas agora eu reparo em tudo. E isso tá me matando.
Tipo hoje. Chego da oficina, tô cansado pra c*****o, a única coisa que eu quero é tomar uma cerveja gelada e não pensar em nada.
Entro na sala. Ela tá no sofá. Deitada.
De perna dobrada. Assistindo alguma porcaria na televisão.
— Você não vai trocar de roupa não? — pergunto, já irritado sem motivo.
Ela olha pra cima, confusa.
— Por que eu ia trocar de roupa?
— Sei lá. Anda assim pela casa?
— Zyon, eu tô de saia e camiseta da escola. Você quer que eu vista o quê? Um terno?
— Sai fora.
Ela senta, me olha diferente.
— Você tá de mau humor por quê?
— Não tô de mau humor.
— Tá sim. Fez a mesma cara que quando perdeu no videogame pra mim.
— Eu nunca perdi pra você.
— Perdeu sim. Duas vezes.
— Isso não aconteceu.
— Aconteceu, e eu até gravei.
Ela pega o celular, começa a procurar, e eu sei que ela tem razão porque ela realmente me venceu naquela noite de tédio. Mas eu não vou dar o braço a torcer.
— Para de caçar pelo em ovo — falo, abrindo a geladeira.
— Você que veio encher meu saco do nada.
Ela se levanta, vai pro quarto batendo o pé. De propósito. Sabe que isso me irrita.
Mas quando ela passa por mim, o cheiro dela atinge meu cérebro antes que eu consiga bloquear.
Algum creme. Doce. Não sei o quê.
Meu corpo reage antes da mente.
Fecho a geladeira, nem peguei a cerveja. Subo pro quarto e fecho a porta.
Fico sentado na cama, olhando pro nada.
Que p***a é essa?
—
Ela é minha irmã.
Por parte de pai.
Mas é minha irmã.
—
Os amigos dela começaram a aparecer mais em casa.
Principalmente os garotos.
Tem um, o Pedro, que começou a vir toda semana. Estudar. Assistir filme. "Só amigos", ela diz.
Mas eu vejo o jeito que ele olha pra ela. E eu sei. Porque homem sabe quando outro homem tá querendo.
E ela deixa.
Ri. Empurra o ombro dele. Senta perto demais.
E eu fico no canto da sala, fingindo que tô no celular, mas na verdade eu tô observando cada movimento.
O sangue ferve. A mão fecha.
— Zyon, você vai ficar aí o tempo todo? — ela pergunta, rindo.
— Minha casa, fico onde eu quiser.
— Tá estranho.
— Tô não.
O Pedro olha pra mim, meio sem graça. Ele não é um moleque r**m, mas nesse momento eu quero que ele vá embora.
— Zaya, você tem uma água pra me oferecer? — ele pergunta.
— Claro.
Ela se levanta. Eu me levanto junto.
— Eu pego — falo.
Ela me olha, confusa.
— Zyon, eu sei onde fica a cozinha.
— Eu pego.
Vou pra cozinha, pego a água. Demoro uns trinta segundos. Quando volto, ela tá sentada de novo. O braço do Pedro encostado no dela.
Coloco o copo na mesa de centro. Meio forte demais.
— Pronto.
— Obrigado — ele fala, meio sem jeito.
— Zyon — ela me chama, com aquela voz de "para com isso" — você não vai subir não?
— Não.
— Por quê?
— Porque não quero, Zaya.
Ela me encara. O Pedro olha pro nada.
Eu fico. No canto. Assistindo.
Até ele ir embora.
—
Naquela noite, ela aparece no meu quarto. Bate na porta, nem espera resposta, entra.
— Que isso, não bate mais não? — falo, sentando na cama.
— Mas eu bati.
— Entra sem eu falar nada.
— Você sempre deixa, Zyon.
Ela senta na cama. Do meu lado. Perto demais.
— Você tá tão esquisito esses dias.
— Tô normal.
— Não tá. Tá grosso, tá respondendo. O Pedro falou que você parecia que queria matar ele.
— Não queria matar ele.
— Então o quê?
Silêncio.
Eu não sei responder. Porque eu não sei o que tá acontecendo comigo.
Ela olha pro meu rosto, tentando ler alguma coisa.
— Zyon…
— Deixa pra lá.
— Não vou deixar. Você tá estranho comigo.
— Não tô.
— Tá sim. E eu não fiz nada pra você.
Ela fala isso com uma voz que quase me quebra. Sinceridade. Como se realmente não entendesse.
Porque ela não entende.
Ela não faz ideia do que tá passando na minha cabeça.
Ela deita a cabeça na minhas coxas, um gesto inocente, comum. Pois ela sempre gostou quando eu fazia carinho no cabelo loiro dela. Mas agora é diferente, o calor, o cheiro. Tudo nela mexe comigo, me faz sentir coisas que irmãos não devem sentir.
— Você pode sair? — peço. Mais baixo do que eu queria.
Ela hesita.
— Por quê?
— Porque eu quero ficar sozinho.
Ela olha nos meus olhos. Demora uns segundos. Depois levanta.
— Tá bom.
Vai até a porta. Para.
— Se quiser conversar… eu tô aqui.
Ela sai. Fecha a porta devagar.
Eu fico olhando pra ela por um segundo, e depois me jogo na cama.
—
Não é normal.
Não é certo.
E eu não consigo parar de pensar nela.
—
E aí a noite chega.
A noite que tudo mudou.
A gente tava na sala. Eu, ela, meu pai e minha mãe. O clima já tava pesado antes de começar. Eu percebi no jeito que eles entraram. Olhar sério demais. Silêncio antes da palavra.
Sentei no sofá, sem entender nada.
Zaya sentou do meu lado. Ela olhou pros dois, depois pra mim. Confusa.
— O que foi? — ela perguntou.
Ninguém respondeu na hora.
Meu pai limpou a garganta. Ele não costuma ficar sem jeito. Mas naquela noite, ele tava. Olhava pro chão, depois pra mamãe, depois pra gente.
— Filho… — ele começou.
E eu já soube que não era coisa boa. Porque ele nunca me chama de filho assim. Com pausa. Com peso.
— O que foi? — perguntei, mais firme.
A minha mãe segurou a mão do meu pai. Esse gesto me deu um aperto no peito. A Zaya segurou a minha mão.
E aí veio.
A verdade.
Sobre minha mãe. A de verdadeira. A Gabi.
Eu já sabia que a Analu, ela não era minha mãe, ela que me criou quando se casou com meu pai e eu a chamo de mãe. Isso pra mim nunca foi segredo. Até porquê eu lembro da minha mãe. Da Gabi. Lembro do rosto dela, da voz dela. Lembro que ela morreu quando eu tinha uns cinco anos.
Mas o que eles disseram…
Eles disseram que meu pai não era meu pai.
Não biologicamente.
O Cayo. O homem que me criou. Que me ensinou a andar de bicicleta. Que me dava bronca quando eu faltava com respeito. Ele… não era meu sangue.
— Isso é mentira — falei. Mas minha voz saiu falhando. Sem força.
— É verdade, filho — Cayo respondeu. Os olhos dele tavam marejados. Nunca via ele chorar. Nunca. — Eu te criei desde bebê. Te amo como se fosse. Mas… eu não sou seu pai de sangue.
O mundo parou.
Foi como se arrancassem o chão debaixo dos meus pés.
Não fez sentido. Nada fez.
Zaya, do meu lado, fez um som. Um soluço preso.
Eu olhei pra ela.
Ela tava chorando.
Chorando de verdade. Com o rosto todo molhado, os olhos vermelhos.
E aquilo me atravessou de um jeito que eu não sei explicar.
Por que ela tava chorando?
Nada mudou pra ela.
Ela ainda tinha tudo.
Pai. Mãe. Lugar no mundo.
E ela tava ali, chorando, como se o mundo dela tivesse desabado também.
A mão dela apertou a minha.
Forte.
Instintivo.
Como se ela tivesse medo. Como se precisasse de mim.
Eu senti a mão quente dela na minha. Pequena. Trêmula.
Era o mesmo gesto de sempre. A mesma menina que segurava minha mão quando tava com medo do escuro. Quando caiu de bicicleta.
Sempre eu.
Sempre eu ali.
Mas agora…
Agora eu não conseguia segurar de volta.
O que eu sentia por ela não era mais fraternal. E naquele momento, com a mão dela apertando a minha, eu percebi que aquilo não tinha mais volta. Não ia dar mais pra fingir.
Ela olhou pra mim. Esperando. Como se eu fosse ser o forte. Como sempre.
Mas eu não era forte.
Eu tava quebrado.
Ela não sabia o que passava na minha cabeça. Se soubesse, teria nojo de mim.
Soltei a mão dela.
Ela sentiu. Olhou pra baixo, viu a mão vazia, depois levantou os olhos pro meu rosto.
— Zyon?
Não respondi.
Levantei. Sem olhar pra trás. Subi as escadas. Entrei no quarto. Tranquei a porta.
Ouvi ela me chamando lá de baixo. Primeiro baixo. Depois mais alto. Depois desesperado.
Mas eu não desci.
Deitei na cama. Olhei pro teto.
Eu sou um monstro.
Eu olhava pra minha irmã e sentia coisas que não devia. Sentia ciúme. Sentia desejo. Sentia raiva. Sentia culpa. Sentia tudo ao mesmo tempo, e não cabia dentro de mim.
E agora, no meio do caos, ela tava lá. Chorando. Me chamando.
E eu não podia ir.
Porque se eu fosse, se eu olhasse pra ela de novo, se eu tocasse nela…
Eu não ia conseguir fingir mais.
E agora…
agora eu sabia a verdade.
Ela nunca foi minha irmã.
Era melhor eu ir embora.
Era melhor sumir.
Antes que eu destruísse tudo.
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