A LINHA QUE EU CRUZEI
Eu não durmo.
Como é que eu vou dormir depois de tudo?
Fico olhando pro teto do meu quarto, mas não enxergo nada. Só o rosto do meu pai. Do homem que eu achava que era meu pai. A voz dele ainda ecoa na minha cabeça, aquela fala arrastada, os olhos marejados.
"Eu não sou seu pai de sangue."
A p***a dessa frase não sai de mim.
Mas sabe o que dói mais? Não é nem isso.
É a mão dela.
É a mão da Zaya apertando a minha. É o jeito que ela olhou pra mim depois que eu soltei. A confusão. O medo. Ela não entendeu nada.
Ela nunca vai entender.
Porque eu não posso explicar. Não posso dizer que soltei a mão dela porque se eu continuasse segurando, eu ia fazer alguma coisa. Ia puxar ela. Ia apertar mais forte. Ia… não sei. Ia cruzar uma linha que não dá pra voltar.
E agora eu sei.
Agora eu sei que ela não é minha irmã de sangue.
E isso… isso piora tudo.
Porque se antes eu já me sentia errado, agora eu não tenho nem desculpa. Não tem barreira. Não tem "é errado porque é minha irmã". Agora é só… eu. O que eu sinto. Sem filtro. Sem freio.
Eu preciso ir embora.
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Levanto da cama. O quarto tá escuro, mas eu não ligo a luz. Não quero ver nada. Não quero lembrar.
Abro o guarda-roupa, pego a mochila que tá no fundo. Começo a jogar coisa dentro.
Camisetas. Calça jeans. Um casaco.
Não sei pra onde vou. Não sei como vai ser. Só sei que não dá mais pra ficar.
Vou até a gaveta, pego os documentos. Identidade. Carteira de motorista. Título de eleitor. Enfio tudo num envelope.
O dinheiro. Tenho uns trezentos reais guardados numa caixa de sapato. Não é muito, mas seguro na mão e penso na minha conta do banco. Tem uns cinquenta mil lá. Cinquenta mil que eu juntei trabalhando na oficina com meu pai. Com o homem que eu achava que era meu pai. E também os presentes que o vovô Bernardes dava nos natais e aniversários, eram sempre em dinheiro.
Dá pra recomeçar. Dá pra sobreviver.
Melhor do que ficar aqui. Melhor do que olhar pra ela todo dia e sentir isso. Melhor do que destruir a família. Melhor do que…
Melhor do que fazer alguma coisa que eu não vou poder desfazer.
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Termino de arrumar a mochila. Olho pro quarto. Minha vida toda tá aqui. Mas não é minha vida de verdade. Nunca foi.
Vou até a porta. Paro.
O corredor tá silencioso. Todo mundo já dormiu. A casa inteira tá quieta, como se nada tivesse acontecido. Como se o chão não tivesse aberto embaixo de mim.
Meus pés andam sozinhos.
Não era pra eu ir nessa direção.
Eu devia descer as escadas, sair pela porta da frente, pegar a moto e sumir. Simples. Limpo. Sem olhar pra trás.
Mas meus pés param na porta dela.
Quarto da Zaya.
A porta tá entreaberta. Ela sempre dorme com a porta assim. Desde pequena. Diz que gosta de ouvir os passos da casa. Diz que se sente segura sabendo que tem gente perto.
Eu devia continuar andando.
Eu sei que devia.
Mas eu entro.
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A luz do poste lá fora entra pela cortina, fraca, meio azulada. Dá pra ver ela.
Zaya tá deitada de lado. O cabelo loiro espalhado no travesseiro, os fios claros contrastando com a fronha escura. A respiração dela é calma. Lenta. O peito sobe e desce devagar.
Ela parece em paz.
Como se nada tivesse mudado.
Como se o mundo não tivesse virado do avesso.
E isso… isso me quebra de um jeito que eu não esperava.
Por que ela tá dormindo? Por que ela não tá acordada igual eu? Por que ela não tá sentindo esse peso?
Porque pra ela, nada mudou.
Ela ainda tem o pai dela. A mãe dela. O sobrenome dela. A vida dela.
A única coisa que mudou pra ela é que eu não sou mais irmão dela.
E ela nem sabe o que isso significa.
Eu sento na beirada da cama.
Devagar. Quase sem fazer barulho.
O colchão afunda um pouco com meu peso. Ela não acorda. Continua ali, dormindo, alheia a tudo.
Eu olho pra ela. Pro rosto dela. Pras sobrancelhas meio franzidas que ela faz quando tá sonhando com alguma coisa. Pros lábios entreabertos. Pro cabelo bagunçado.
Minha mão sobe sozinha.
Os dedos tocam os fios loiros. Macios. Soltos.
Eu faço carinho no cabelo dela. Como eu sempre fiz. Como ela sempre gostou.
Mas agora não é igual.
Agora o calor da mão dela no meu corpo… não. Ela não tá nem me tocando. Sou só eu. Eu tocando ela. E já é demais.
Meu peito aperta. A garganta fecha.
Eu vou embora. Vou sumir. Vou passar o resto da vida longe daqui. Longe dela.
E isso dói.
Dói mais do que descobrir que o homem que me criou não é meu pai.
Dói mais do que tudo.
Eu começo a chorar. Silencioso. As lágrimas escorrem sem barulho, caem na minha mão que ainda tá no cabelo dela.
Eu não quero ir. Mas eu preciso.
Porque se eu ficar… eu vou querer ela. E querer ela vai destruir tudo. A família. Meu pai. Minha mãe. A memória de tudo que a gente construiu.
Ela vai me odiar.
E eu não suporto a ideia de ser odiado por ela.
Me inclino. Devagar. Aproximo meu rosto do dela.
O cheiro. Aquele cheiro doce. Ela usou o mesmo creme. Depois do banho. Como sempre.
Minha testa encosta na dela. Eu fecho os olhos.
Só mais um segundo.
Só mais um.
E então eu beijo a testa dela.
Macio. Devagar.
Sempre fiz isso. Desde que ela era pequena. Quando ela caía, quando ela chorava, quando ela tava doente. Eu beijava a testa dela e dizia que ia ficar tudo bem.
Mas agora não é inocente.
Nada disso é inocente.
Eu sinto o gosto da pele dela. O calor. E meu coração dispara de um jeito que eu sei que não é fraternal.
Eu me afasto.
Ela se mexe.
Os olhos dela se abrem. Devagar. Sonolentos.
Ela me olha. Confusa.
— Zyon?
A voz dela tá rouca de sono. Baixinha.
Ela pisca algumas vezes, tentando entender.
— Que horas são? — ela pergunta. — O que foi?
Eu não respondo.
Só olho pra ela.
Ela senta um pouco, apoiando o cotovelo no travesseiro. O cabelo loiro cai pro lado. A camiseta larga escorrega um pouco no ombro. Ela nem percebe.
— Zyon? — ela repete. — Tudo bem?
Tudo bem.
Ela pergunta se tá tudo bem.
Como se o mundo não tivesse desabado. Como se eu não tivesse descoberto que não sou filho do meu pai. Como se eu não estivesse aqui, no quarto dela, de madrugada, sentindo coisas que não devia sentir.
— Você tá chorando? — ela pergunta, a voz mudando.
Ela estende a mão. Toca meu rosto.
Os dedos dela no meu rosto.
Quentes.
Eu fecho os olhos.
— Zyon, o que aconteceu? — ela insiste, mais desperta agora. — Foi por causa do que eles falaram? Foi por causa do seu pai?
Meu pai.
Ela ainda chama ele de meu pai.
E não é.
Nunca foi.
Eu abro os olhos. Ela tá ali. Olhando pra mim. Preocupada. Com os olhos claros ainda pesados de sono, mas já cheios de mim.
E eu não consigo mais.
Não consigo mais segurar.
Eu me inclino.
E beijo ela.
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