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DULCE Saviñon pov's  Ainda não conseguia acreditar que havia mesmo convencido Christopher de ir a um evento da minha família. Eu estava super preparada para ouvir o seu "não" e lidar com ele, mas tive sorte e consegui contornar a situação ao meu favor, já que ele fez o ato maravilhoso de esquecer que estávamos sendo filmados enquanto transávamos na oficina.  Para garantir que tudo sairia perfeito, criei alguns tópicos para as conversas que teríamos durante o jantar. Eu tinha que conhecê-lo melhor e isso não era só sobre convencer a minha mãe de que ele era meu namorado. Eu também estava curiosa sobre Christopher. Usaria a minha persuasão para arrancar os detalhes mais sórdidos.  Preparei o jantar para nós dois e me arrumei logo em seguida. Quase não consegui ficar pronta a tempo, mas assim que terminei de passar o batom, o interfone tocou. Permiti que Christopher subisse e como se já fosse de casa, ele nem tocou a campainha, apenas conferiu se a porta estava aberta e foi entrando.  — Olá, doutora. — sentou-se ao meu lado e me deu um selinho. — Está muito cheirosa. — sorriu de canto.  — Eu sei. — sorri também, ficando de pé em seguida. — O jantar está pronto. — estendi minha mão para ele.  — E aí você vai me colocar em um paredão e atirar em mim com dezenas de perguntas? — segurou a minha mão e se pôs de pé.  — Isso aí.  Puxei ele pela mão e o levei até a cozinha, onde a mesa estava posta da maneira mais formal possível. Seria como um jantar de negócios e eu esperava que o ambiente aparentemente sério pudesse induzir o subconsciente de Christopher a ser sério também.  Sentamos lado a lado e nos servimos. Quando começamos a comer, eu peguei a caderneta que estava sobre a mesa e abri na folha onde havia feito uma lista com os tópicos principais da nossa conversa. Christopher franziu a testa e olhou para mim como se perguntasse se eu estava mesmo falando sério.  — A gente precisa se organizar para não nos perdermos. — expliquei.  — Eu tinha esquecido o quão nerd você é.  — Como eu ia dizendo... — ignorei seu comentário e continuei a falar. — O primeiro tópico é sobre a nossa infância. Eu começo. Meus pais e eu morávamos em um condomínio chamado La Belle Vie que fica nos extremos da cidade, em um bairro de elite. Apesar da fortuna, eu nunca fui uma criança que teve tudo de mão beijada. Se eu não me comportasse, não tinha o que queria.  — Eu chamo isso de criação normal. — debochou.  — É a criação ideal. — dei de ombros. — Mas isso partia mais do meu pai. Ele sempre foi o mais humilde e a minha mãe sempre foi a pessoa que gosta de chamar atenção. Ela sempre achou estranho o fato de eu preferir fazer a lição de casa do que ir brincar no parquinho do condomínio com as outras crianças.  — Olha só, a sua mãe pensa.  — Qual o problema em eu gostar de estudar? Olha só onde eu cheguei.  — Parabéns, mas suas preferências continuam sendo esquisitas.  — Não me arrependo de nada. — dei de ombros. — Enfim, eu via a minha família como sendo perfeita. A minha mãe sempre estava sorrindo e sempre estava arrumada, parecia a mulher mais feliz do mundo e eu sonhava em ser como ela. O meu pai era o melhor, era o meu melhor amigo e o meu herói. Ele sempre tinha tempo para mim e me apoiava nos meus devaneios infantis. Mas aí... — suspirei e deixei o meu sorriso morrer.  — O que aconteceu? — Christopher me olhou com atenção.  — Houve uma época em que meus pais começaram a discutir muito. Eu não entendia bem o que estavam falando, mas sabia que era sobre uma outra mulher. O meu pai estava traindo a minha mãe. Eu ouvi ele dizer que estava apaixonado por outra e que queria o divórcio, mas a minha mãe dizia que não iria perder assim tão fácil e que não seria tratada como descartável. No final, eles fizeram um acordo e assinaram o divórcio quando eu tinha dez anos. Meu pai foi embora com a nova namorada e continuou se correspondendo comigo regulamente.  — Ele vinha te visitar?  — Eventualmente. Não era com tanta frequência, mas eu entendia. Era difícil ter que lidar com a fera chamada Blanca. — ri sem humor. — Ela sempre dava um jeito de transformar uma visita do meu pai em um campo de guerra. Acho que é por isso que ele passou a vir apenas em eventos importantes da família.  — Você sente algum rancor dele?  — Não. Eu nunca estive apaixonada por ninguém, mas conheço pessoas apaixonadas e sei que tudo é muito intenso. Não julgo o meu pai por ter escolhido viver a felicidade dele.  — Pelo menos ele não te abandonou. — mexeu em sua comida com o garfo.  — Sua vez, Christopher.  — A minha infância... — pigarreou. — Certo. Bom, acho que foi normal. Eu era uma criança comum, sabe? Preferia brincar do que estudar, coisas que crianças normais fazem.  — Ei! — dei um tapinha em seu ombro e ele riu.  — Minha família era de classe média e morávamos em um bairro muito bom. As ruas eram calmas e seguras e tinham muitas crianças com a minha faixa etária, então eu aprendi desde cedo a socializar, sempre tive muitos amigos. Eu não era excelente na escola, mas também não era horrível. Me esforçava apesar de ter um pouco de preguiça às vezes.  — E os seus pais?  — Meu pai sempre foi ótimo. Ele era e é o meu melhor amigo. Me orgulho de ser filho dele e me inspiro em sua trajetória. Quando você descreveu o seu pai, eu meio que lembrei do meu. E a minha mãe, bem... A minha mãe parecia ser ótima. Ela era muito carinhosa e atenciosa. Beijou cada um dos meus machucados e me deu um beijo de boa noite em todas as noites até... Até ela resolver simplesmente sumir.  — Como aconteceu? — apoiei minha mão em seu ombro.  — Meus pais não discutiam como os seus. Na verdade, eu só os ouvi brigar uma vez. Aquela foi a última vez que eu ouvi a voz dela. Eu estava no meu quarto e acordei quando ouvi as vozes altas. A minha mãe estava chorando muito, dizendo que não podia mais fingir e que queria ser feliz com quem realmente amava. O meu pai respondeu que ela não estaria apenas desistindo dele, mas de mim também. E aí... — ele respirou fundo e fechou os olhos por alguns instantes.  — Tudo bem se não quiser continuar. — o confortei.  — Não. Eu vou terminar. Bom, aí ela disse uma frase que eu nunca vou esquecer e que me serviu de lembrete pra todas as vezes que eu achei que podia deixar alguém entrar na minha vida.  — O que ela disse?  — Certas coisas devem ficar para trás. Ela me tratou como se eu fosse só uma fase da vida dela, uma página que ela pudesse virar. No dia seguinte, meu pai disse que ela tinha ido embora com outro homem e que isso era um problema dela com ela, não era culpa nossa.  — Como você se sente em relação a isso hoje?  Christopher me olhou de relance e depois negou com a cabeça antes de dizer: — Não transforme isso em uma sessão de terapia.  — Não é a minha intenção. Só estamos conversando, eu não vou te analisar.  — Aposto que está me analisando nesse exato momento.  — Não. — ri, desviando o olhar. Foi um péssimo tom para uma mentira.  — Vai, fala. Qual a sua análise?  — Bom, já que insiste. — limpei a garganta e arqueei as costas. — Tudo o que me disse faz muito sentido. Eu acertei quando achei que você tinha questões com a sua mãe por querer se impor como o alfa das relações, o indomável, aquele que quebra corações, o que não liga no dia seguinte, o que não confia em nenhuma mulher...  — Ok, já entendi. — riu.  — Pessoas com traumas familiares tendem a ser desconfiadas, fechadas e frias. Isso se encaixa bem no seu perfil. E eu posso usar o seu relato e o que sei sobre você para analisar também o seu pai.  — O meu pai? Como?  — Deixa eu ver se estou certa. Seu pai ficou muito distante depois que a sua mãe foi embora. Ele costumava estar presente e acompanhar você em tudo, mas de repente as coisas que você fazia, boas ou ruins, não tinham mais relevância nenhuma e ele não dava a mínima.  — Como diabos você adivinhou isso? — ficou boquiaberto.  — Descreveu o seu pai como um homem bom e justo. A única maneira de fazer uma pessoa assim dar mais atenção a algo é se esse algo não está funcionando como deveria. Você era um adolescente de merda, aprontava tudo o que podia aprontar com as pessoas e até com o prédio do colégio. Seu pai vivia sendo chamado na diretoria porque você vivia na detenção. Fazer coisas erradas foi uma forma do seu pai voltar a trabalhar em você. Hoje em dia você não é muito daquele garoto que fazia coisas ruins sem motivo nenhum. Você é justo e tem uma ótima relação com o seu pai. Conseguiu o que queria.  — Você é boa, doutora. — falou com aprovação genuína. — Se a sua mãe acha que você não conseguiria administrar um consultório médico sozinha, ela deveria tentar essa coisa de terapia.  — Isso foi muito gentil. — fiquei surpresa. — Obrigada.  — Qual o próximo tópico? — ele pareceu querer mudar de assunto. Certamente, me elogiar não era uma coisa que Christopher ficaria confortável em fazer.  — Os nomes da família e amigos. Meus pais se chamam Fernando e Blanca. A minha madrasta se chama Alexa. A Maite você já conhece, ela é filha do irmão mais velho do meu pai, o tio Timothy. Minha avó tem mais dois filhos, tio Archer, pai das minhas primas Diana e Michelle, as gêmeas mais idênticas que você irá conhecer. E por último, tia Edna, mãe do meu primo Hart. E o nome da pessoa mais importante: a vovó Hellen Saviñon. — Você vai ter que anotar isso aí.  — Relaxa, eu faço uma árvore genealógica. Ainda tem os irmãos da minha avó e os filhos e netos deles, mas esses você só precisa ser apresentado pessoalmente.  — Sua família é composta por coelhos ou o quê? Quanta gente!  — Vai dizer que a sua família também não é grande?  — Meus quatro avós já faleceram e tiveram filhos únicos. Sou só eu, meu pai Victor e minha mãe Alexandra.  — Ótimo, simples e fácil. — sorri. — Você é amigo de todos os meus amigos, então podemos pular essa parte.  — Espera, antes do pessoal do colégio se reencontrar você só via a Maite?  — Meio que sim. — fiquei sem jeito. — Que tipo de namorado horrível eu seria se não te apresentasse ao mundo? Você tem que ver o mundo.  — Eu vejo o mundo, só não socializo.  — Me diz uma pessoa que não é da sua família e que é importante pra você, mas que eu não conheço.  — Bom... — parei para pensar. — O Jason.  — Quem é Jason?  — Ele foi o meu primeiro paciente e eu cuido dele até hoje.  — Pode dizer o que ele tem?  — Depressão e transtorno de ansiedade, algo bem comum entre as pessoas. Jason tem seus altos e baixos e a gente construiu uma relação que vai além da de médico e paciente. Ele é meu amigo.  — Era ele quem estava tentando salvar quando me atropelou?  — Sim.  — Certo. Jason é o nome do seu paciente favorito. Anotado. — dois dois toques em sua testa com a ponta do dedo. — Qual a sua cor favorita?  Notei que ele estava tomando a iniciativa da conversa e aquilo me deixou feliz. Christopher não era um homem fácil de se conhecer e eu não achei que ele estaria disposto a se abrir para mim tão rápido. Mas cá estava ele perguntando a minha cor preferida de maneira tão natural.  — Eu gosto de todas as cores, principalmente as quentes. Acho que vermelho é a que mais chama a minha atenção.  — Vermelho também é a minha cor preferida.  — Ótimo! Temos algo em comum. — fiz uma anotação sobre isso na caderneta.  — Flor favorita?  — Girassol, porque cresce em direção à luz.  — A minha é o lírio.  Olhei para ele com uma sobrancelha erguida.  — O que? Eu não posso ter uma flor favorita? — riu.  — Pode. Claro que pode. — segurei o riso. — Por que o lírio?  — É a única flor que nasce da lama.  — Olha só, Christopher Uckermann dá significados filosóficos às coisas. — apoiei meu queixo em minha mão e olhei para ele como se estivesse orgulhosa. — Acho que eu comecei a te odiar um pouco menos hoje.  Ele olhou bem para os meus olhos e me encarou com um semblante sério, porém leve e com um sorriso quase imperceptível no canto da boca. O sorriso no meu rosto relaxou e eu o encarei de volta, sentindo como se pudesse ficar apenas naquilo por horas e ainda assim estaria totalmente confortável.  Christopher olhou para a minha boca e entreabriu seus lábios, a respiração ficando mais profunda. Eu nunca o vi com aquela expressão antes e fiquei curiosa sobre o que se passava em sua cabeça.  — Você quer... — minha fala foi interrompida pela boca dele.  Ele segurou minha nuca e me puxou com tanta força que eu achei até que cairia da cadeira caso ele não estivesse ali para me servir de apoio. O beijo repentino me pegou de surpresa e eu fiquei ainda mais surpresa pelo modo como seus lábios atacaram os meus, tamanho era o desejo que aquele beijo me passou.  Ele agarrou minha cintura e me puxou para sentar em seu colo. Segurei seu rosto e dei o máximo de mim para devolver aquele beijo à altura. Quando nos separamos para tomar fôlego, vi a chance de tentar questiona-lo sobre o que estava pensando.  — Christopher... — Shhh. — colocou seu dedo indicador sobre os meus lábios. — Chega de falar, doutora.  Seu olhar mudou e agora era um com o qual eu já estava bem familiarizada. Pura excitação, pura luxúria. Voltamos a nos beijar e agora eu já não pensava em mais nada que não fosse tirar as minhas roupas e me entregar totalmente a ele.
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