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1464 Words
Igor O despertador tocou, e como em todas as manhãs, a melodia estridente soou como uma afronta. Revirei os olhos, ignorando a mulher que dormia ao meu lado. Mais uma noite vazia, mais um corpo sem nome. A loira de cabelos descoloridos, com um sorriso plastificado, agora se espreguiçava, os braços esticados sobre o edredom de seda. Um gemido arrulhante escapou de seus lábios, e ela se virou, os olhos azuis sonolentos focando em mim. A cena era familiar, quase entediante. Levantei da cama, sentindo o peso da ressaca e a constante sensação de que algo estava faltando, um buraco que nenhuma festa ou corpo conseguia preencher. O trabalho, como sempre, seria meu refúgio. Ou pelo menos era o que eu pensava. Enquanto eu buscava minhas roupas espalhadas pelo chão, ela se moveu novamente, o lençol escorregando e revelando a pele pálida. Com um ronronar, como um gato em busca de carinho, ela se sentou na cama e subiu em meu colo, os s***s fartos pressionando meu peito nu. Seu perfume adocicado, enjoativo de tão artificial, invadiu minhas narinas. Ela começou a se esfregar em mim, os dedos finos e cheios de anéis percorrendo minha nuca, os lábios procurando os meus. "Bom dia, amor", ela sussurrou, a voz arrastada pela preguiça e talvez por algo mais. Ela estava sempre tratando de amor, com essa pose de namorada dedicada, subindo em meu colo para me aninhar, se esfregando de forma tão… previsível. Era sujo, de um jeito que não me excitava mais, apenas me aborrecia. Sua mão deslizou para a minha cintura, mas eu a segurei, o toque da sua pele gelada não me causando nada além de irritação. "Nem fudendo", pensei, uma impaciência crescendo dentro de mim. Não estava com cabeça para isso. Não hoje. "Preciso ir", eu disse, minha voz seca, sem sequer olhar para ela. Tentei afastar-a gentilmente, mas ela se agarrou mais forte, os s***s agora roçando com mais insistência. "Ah, Igor... Fica mais um pouco. O que custa?", ela insistiu, com um bico infantil que só me fez revirar os olhos internamente. Passei a mão pelos meus cabelos, sentindo a pontada da dor de cabeça. "Eu já disse que tenho que ir", repeti, com um tom mais firme, quase um rosnado. "Pega suas roupas e se veste. Mando alguém te levar." Seu rosto murchou, o sorriso desaparecendo, e uma expressão de mágoa infantil tomou seu lugar. Ela finalmente soltou o aperto, os olhos marejados. Observei-a recolher suas peças de roupa do chão, um vestidinho de festa amassado, um salto alto jogado de lado. Era tudo tão banal, tão sem sentido. Vesti-me rapidamente, abotoando a camisa com pressa, o terno que eu tinha deixado impecável na noite anterior me servindo como uma armadura. Saí do hotel sem me despedir, sentindo o alívio de escapar daquele quarto e daquela mulher. A rotina de festas e prazeres momentâneos já não me satisfazia, mas eu continuava preso a ela, como um vício, uma fuga vazia. A imagem do meu pai, com suas cobranças e expectativas, surgiu em minha mente. Preciso provar meu valor. Preciso mostrar que sou mais do que o filho do dono. A empresa era meu foco, minha obsessão. Cheguei na empresa e fui direto para a minha sala. As entrevistas de hoje me aguardavam. Suspirei pesadamente. A pior parte do meu trabalho. “Sr. Cooper, a senhorita Duarte chegou”, minha secretária anunciou. “Mande-a entrar”, respondi, sem muito ânimo. A porta se abriu e… meu mundo, que eu achava tão controlado e previsível, desmoronou em um instante. Meu sangue gelou. Ali, parada na minha frente, emoldurada pela luz vinda do corredor, estava Linda. Linda… mais linda do que nunca. Quatro anos… Quatro anos que eu tentava esquecer aqueles olhos castanhos, que me assombravam em sonhos e me desarmavam por dentro. O cabelo agora mais escuro e longo, a postura mais firme, e aquele brilho nos olhos que eu lembrava tão bem, mas que agora carregava uma camada de... experiência, talvez dor. O que ela está fazendo aqui? — Como vai, senhorita Duarte? — Forcei uma formalidade que eu não sentia, uma máscara protetora para a torrente de emoções que me invadia. Meu coração batia forte no peito, um tambor descompassado que eu temia que ela pudesse ouvir. Ela está diferente. Mais mulher. Mais… dona de si. Não a garota que eu conhecia, que era tão fácil de desarmar. Isso me irritava e me atraía ao mesmo tempo. — Bom dia, senhor Cooper — respondeu ela, a voz firme, mas pude notar um leve tremor em suas mãos enquanto se aproximava da minha mesa. Aquele perfume… O mesmo de antes. O carpete macio abafava o som de seus saltos, mas eu conseguia sentir sua presença, quase palpável. — Bom, Sr. Cooper, eu tenho… — Ela começou, mas a interrompi. Não conseguia suportar a formalidade. Precisava saber o que ela estava fazendo ali. — Contratada! — disse, sem pensar duas vezes. Precisava tê-la por perto. Era egoísmo? Talvez. Mas eu não me importava. Vi um misto de surpresa e confusão em seus olhos castanhos. Ela não esperava por essa. — Bom… Obrigada pela confiança. Quando poderei começar? — perguntou, hesitante. — Amanhã mesmo — respondi, abrindo um sorriso. Aquele sorriso que, eu sabia, sempre a afetava. Ou pelo menos afetava a garota que ela era antes. Ela se levantou, e por um impulso, toquei sua mão. Senti um choque percorrer meu corpo, e pelo breve instante em que nossas peles se tocaram, vi um lampejo de… reconhecimento? Repulsa? Não consegui decifrar. Ela rapidamente se afastou, seus olhos castanhos fixos nos meus por um breve instante antes de desviar o olhar. — Perdão, já pode ir… — murmurei, sentindo um nó na garganta. Observei-a sair, e só então respirei fundo, o ar parecendo pesado na sala. O que eu fiz?. Ter Linda trabalhando na minha empresa era uma loucura, uma decisão impensada que poderia explodir na minha cara. Mas, ao mesmo tempo, sentia uma estranha calma, uma sensação de que, finalmente, algo estava no lugar certo. Mesmo que esse 'certo' fosse o caminho mais perigoso possível. Peguei o telefone e disquei o número da minha secretária temporária. "Olivia cancele as outras entrevistas de hoje. E me traga um café forte, por favor." Enquanto esperava, olhei para a porta por onde Linda havia saído. Uma ponta de curiosidade e receio se misturavam em meu peito. O que os próximos dias trariam? A batida na porta me trouxe de volta ao presente. Olivia entrou com a xícara fumegante. "Sua reunião com o conselho é em dez minutos, Sr. Cooper. Eles estão esperando na sala de conferências." "Obrigado, Olivia." Bebi um gole do café, o amargor me despertando um pouco. Precisava focar. Havia um império a ser administrado, decisões importantes a serem tomadas. Mas, por baixo da fachada de CEO implacável, a imagem dos olhos castanhos de Linda persistia. Deixei a sala, a pasta de documentos em mãos, e segui para a sala de conferências. Os rostos sérios dos membros do conselho me esperavam, as vozes já preenchendo o ambiente com a seriedade de números e projeções. A pauta era extensa: resultados do último trimestre, novas estratégias de mercado, aprovação de investimentos. Eu me forcei a sentar, balançando a cabeça em alguns momentos, acenando em outros, fingindo que absorvia cada palavra, mas minha mente estava em outro lugar. Os gráficos coloridos na tela, as vozes articuladas ao meu redor, tudo parecia um zumbido distante. Uma parte de mim estava ali, presente, respondendo quando necessário com a precisão que esperavam, mas a outra, a parte mais barulhenta, estava naquela sala de entrevista, revendo o breve e impactante reencontro com Linda Duarte, e a sensação de que o mundo acabara de girar em seu eixo. Durante a apresentação do Dr. Almeida, chefe de marketing, sobre as novas campanhas digitais, ele fez uma pausa. "O que o senhor acha, Sr. Cooper, sobre a alocação de 30% do orçamento para as mídias sociais no próximo trimestre? Acreditamos que é crucial para alcançar um público mais jovem." Igor, que naquele momento estava pensando na textura do cabelo de Linda anos atrás, apenas piscou, seu olhar fixo na tela sem realmente ver nada. As palavras do Dr. Almeida haviam passado direto, sem registrar. "Ótimo", respondeu Igor, com a voz um pouco mais alta do que o necessário, sem saber ao certo o que estava aprovando. Um silêncio momentâneo preencheu a sala, e alguns conselheiros trocaram olhares rápidos. O Dr. Almeida assentiu, um tanto surpreso pela resposta tão imediata e sem questionamentos. "Excelente, então seguiremos com essa linha, Sr. Cooper", ele continuou, visivelmente satisfeito. Igor apenas acenou, e sua mente voltou a divagar, traçando o sorriso de Linda, a forma como ela havia se afastado dele. Ele precisava vê-la novamente.
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