Linda
Meu coração se aqueceu instantaneamente. Luz! Minha pequena Luz, meu raio de sol em meio à tempestade. Ela correu em meus braços, me prendendo em um abraço apertado que me fez esquecer, por um instante, de toda a tensão do dia.
- Tava com saudadi, mamãe - sua voz saiu abafada contra meu ombro.
Me agachei para olhar em seus olhinhos brilhantes, emoldurados por seus cachinhos castanhos. Segurei seu rostinho delicado entre minhas mãos.
- Também estava morrendo de saudades, meu bebê. A mamãe ama muito você, sabia? - perguntei, sentindo meus olhos marejarem de emoção.
Ela balançou a cabecinha, concordando com um sorriso largo que iluminou todo o meu ser.
- Também xi amo, mamãe, muitoooo! - disse, soltando um sorriso largo antes de sair correndo pela casa, como um furacãozinho de alegria.
Observei-a se afastar, e um turbilhão de pensamentos me invadiu. Pode ter sido um erro, tudo isso... Mas não me arrependo da Luz. Por ela, eu faria tudo novamente! Minha filha é tudo o que tenho de mais precioso em minha vida! Por que Luz? Há quatro anos, comecei a ter crises de ansiedade, e ela é o que me faz ficar bem, o que me dá forças para continuar.
(Ansiedade: um conjunto de doenças psiquiátricas marcadas pela preocupação excessiva ou constante de que algo negativo vai acontecer.) Ficar grávida sozinha, sem ter a quem ou onde recorrer, não é fácil. Mas Luz... Luz foi a minha salvação.
- Bom, já que a mamãe chegou, vou indo - disse Josh, meu vizinho que também é filho de minha madrinha. Um verdadeiro irmão para mim. Não tenho como pagar uma babá para Luz, então peço a ele, o tio/babá, para ficar com ela quando preciso. Quando voltei para a cidade, depois de tudo, foram eles que mais me ajudaram a me readaptar.
- Tio Jox, não vai! - Luz falou com olhinhos de cachorrinho pidão, batendo os pezinhos e abraçando a canela de Josh. Sim! Ela sabe manipular as pessoas. Como aprendeu? Deve estar no sangue, pois não a ensinei! Josh não tem pulso firme com ela, então a acostumou muito m*l.
- O titio tem mesmo que ir, meu amor, mas vou trazer um doce para você, que tal? - E, como sempre, ela abre o sorriso de vencedora. Todas as vezes é assim!
- Então xau! - diz e vira, saindo correndo para a TV. Onde estava a menininha que ia chorar? Ela era inacreditável.
- Ela sabe como te manipular - digo a ele, rindo.
- Sim, mas não consigo dizer não para a Luz - diz Josh, com um sorriso carinhoso. - Vou indo.
- Tchau, Josh. Obrigada mais uma vez! - digo na porta.
- E como sempre digo, não é nada demais cuidar de vocês duas - diz me abraçando. - Por vocês, faço qualquer coisa - e beija minha cabeça em um gesto fraternal.
(Flashback)
- Josh... - falo manhosa, com a barriga já grandinha.
- Ahhhhh... Desejo?! - pergunta ele, deitado no sofá, sonolento.
- Simmm. Sua sobrinha está agitada! Ela tá pedindo pão com leite condensado... - digo.
- Luísa! - fala ele, olhando para minha barriga.
- Nós estamos no interior! Você tem ideia do quanto eu vou ter que andar para achar um mercadinho ou mercearia?! - E Luz se mexeu no mesmo instante, como se concordasse comigo.
Vou para o quarto, deito um pouco triste, porém acordo com um sacolejo.
- Tome. Se vomitar, não vou mais! - diz Josh, todo vermelho e ofegante.
- O que aconteceu?! - pergunto, assustada.
- Tive que ir correndo, não tinha um carro no caminho de terra! Rodando aqui! - respondeu ele, apontando para as próprias pernas.
Tadinho.
- Tá vendo o que o titio faz por você? - falo, olhando para minha barriga.
(Fim do Flashback)
Chegou a hora da maratona "dar banho na Luz"! Entro no banheiro, coloco sua toalha junto com a roupa e me encosto no batente da porta.
- Luzzzz, vem aqui, filha - chamo. Vejo uma cabecinha com os cabelos emaranhados surgir de trás do sofá.
- Ximmm, mamãe do meu colação? - Ela já sabe... Malandrinha.
- É para vir aqui... - digo, chamando-a com as mãos.
- Banho não, mamãe! - grita ela, correndo.
- Há banho sim, Luisa Duarte! - falo, colocando as mãos na cintura.
- Mamãe, você é tão má. Lux ti ama tato - errou, bonitinha. Não vou cair nessa. Não sou seu tio.
Corro atrás dela, e a perseguição começa pela sala.
- Ihhh - pula do sofá, se escondendo entre as cortinas.
Vejo seus pezinhos aparecendo atrás do tecido. - Onde está minha Luz? - falo, me aproximando devagar, com uma voz divertida.
- Na cutina não - grita ela, rindo.
- Peguei! - exclamo, finalmente a alcançando.
- Tô de m*l - diz ela no chuveiro, com os bracinhos cruzados e um biquinho nos lábios.
- Mamãe vai ficar triste - falo, com uma falsa tristeza na voz.
- Não, mamãe, não fica tliste. Eu ti amo - fala a pequena, me abraçando forte. - Não tô mais blava, mamãe - e dá aquele sorriso lindo que só ela tem. Meu coração se derrete.
Mais tarde, estou no quarto arrumando minhas coisas para o trabalho e para a escola de Luz. Vou para a sala e a vejo ainda tomando seu leite, deitada, esticando as perninhas e assistindo à TV, com os olhinhos brilhando. Pego-a no colo com cuidado, a levo para sua cama, deposito um beijo em sua testa e vou para o meu quarto.
Na manhã seguinte, começa a "lutinha da manhã".
- Tá cedu, mamãe... - diz ela, choramingando, agarrada ao meu pescoço.
- Mas você não quer ver os seus amiguinhos e a pró Carla? - pergunto, fazendo cócegas em sua barriga.
- Tá bom... Ve Gui, Titi e Betty - fala, empolgada, finalmente se animando.
Depois de deixar Luz na escola, sigo para o meu primeiro dia de trabalho. No estilo secretária: saia lápis preta, blusa de botões branca e salto alto. Vou direto para minha sala, organizar as reuniões e programações do dia. Papéis e mais papéis.
Escuto o elevador apitar e vejo o i****a chegar.
- Bom dia, senhor Cooper - digo, educadamente. Ele passa por mim sem nem olhar ou ter a caridade de responder.
- Ignorante... - sussurro. Entretanto, me assusto quando, do nada, o telefone toca.
- Senhorita Duarte - era ele. - Espero que me traga um bom café depois dessa! - Nem respondo, pois sou deixada na linha sozinha. Ele ouviu! Quê?!
- Não vou ser tratada assim, não - sussurro, andando até a copa.
- Ah, oi - chamo a atenção da moça de avental.
- Oi, me chamo Mari - se apresenta, carismática.
- Linda, prazer. Posso usar sua cozinha? - pergunto. .
- Só é me dizer o que quer, e eu farei! - diz, abrindo um sorriso.
- Eu quero um café... Uma xícara de café bem forte! Mas prefiro feito com ** - Igor, você me paga.
- Quantas colheres? Uma ou uma e meia? - pergunta ela, pegando o pote de café.
- Cinco - respondo. Ela me olha com uma expressão de "você é doida?". Uma xícara para tanto **!
- Muita cafeína não faz bem - avisa ela. - Açúcar? Leite?
- Não, puro mesmo, obrigada - digo. O desgraçado ainda vai achar r**m.
- Olha, um conselho, pare com a cafeína - diz ela, preocupada.
- Tudo bem, é só hoje - respondo, com um sorriso amarelo. Subo para o último andar e bato na porta da sala de Igor.
- Entre - escuto sua voz grave.
Entro na sala, segurando a xícara com firmeza. Ele está sentado à sua mesa, com a postura impecável de sempre. Me aproximo e coloco a xícara sobre a mesa, evitando olhar diretamente para ele.
- Aqui, Sr. Cooper - digo, tentando manter a voz neutra.
Ele pega a xícara e leva aos lábios, tomando um gole. Observo-o atentamente. Vejo uma careta se formar em seu rosto, seus olhos se estreitando por um instante, mas logo ele a disfarça, engolindo o café com um leve esforço. Ele detestou. Ótimo. Pelo menos uma pequena vingança.
- Está bom? Fui eu mesma quem fiz - minto, com um sorriso forçado, quase desafiador. Não ia entregar a Mari.
- Ótimo... Do jeito que eu gosto - diz ele, com um sorriso enigmático que não chega aos olhos, mas com um brilho divertido que me causa um arrepio involuntário. Café forte é ótimo para ressaca e mau-humor. Sangue de barata, ele bebeu tudo! Penso, observando-o tomar mais um gole.
- Quer outro? - pergunto, com uma pitada de sarcasmo na voz.
- Não. Pode ir - responde ele, rapidamente, desviando o olhar para alguns papéis em sua mesa. Um pequeno músculo em sua mandíbula se contrai. Ele está se controlando.
Saio da sala com uma sensação de triunfo agridoce. Pelo menos uma pequena vingança.
Minhas mãos tremiam levemente, não apenas pela adrenalina, mas pela audácia que encontrei em mim para provocá-lo. Mas por que isso me afeta tanto?
Volto para minha mesa, sentindo o olhar dele queimar em minhas costas. Preciso me concentrar no trabalho. Preciso ignorá-lo. Mas era difícil. Sua presença pairava no ar, densa e carregada de memórias.