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1586 Words
Igor Deitado, eu fitava o teto do meu apartamento, a escuridão pesada da madrugada ainda me abraçando. A imagem dela, de Linda, pairava na minha mente como um fantasma insistente. Ela estaria se lembrando de mim? Se lembrasse, teria dito alguma coisa, não teria? Mas o silêncio dela na minha sala ainda me ensurdecia mais do que qualquer grito. Por que Linda desapareceu? O que diabos aconteceu naqueles quatro anos em que ela sumiu do mapa? A lembrança da dor da sua partida ainda latejava em meu peito, uma ferida antiga que parecia ter acabado de ser reaberta. Ela me partiu o coração uma vez. Não vou permitir que aconteça novamente. Minha defesa seria o ataque: decidi que a trataria como trato todas as outras funcionárias: com frieza, com profissionalismo inabalável. Agir como se nada tivesse existido entre nós, como se ela fosse apenas mais uma em um mar de rostos esquecíveis. Meu celular vibrou no criado-mudo, interrompendo meus pensamentos sombrios. Vejo o nome "Lucas" no visor. Aff, só pode estar bêbado a essa hora. - Diga - falo sem rodeios, o tom já carregado de impaciência. - Dormiu comigo, foi? Não lembro de ter acordado com você! - Lucas fala, com a voz arrastada e um riso abafado ao fundo. - Rapaz, será? Não recordo de ter tido pesadelos assim - respondo ironicamente, a imagem da loira no meu quarto ainda fresca na mente. - Agora o assunto é sério, meu caro. Fui convidado para ir a uma festa hoje à noite, um amigo meu que... - começa ele, a voz ganhando um tom de quem tenta convencer. - Não vou - o interrompo, cortando-o no meio da frase. - Pare de mimimi, Igor, vamos, vai ser legal, prometo! Precisa sair um pouco dessa toca. - insiste, a insistência dele apenas acendendo meu pavio. - Tenho trabalho amanhã, e você deveria fazer o mesmo. Minha irmã não merece isso! - lembro-o, a voz subindo um tom, de seu compromisso com o trabalho e, principalmente, com a responsabilidade que ele tem com a minha irmã, que espera um parceiro, não um adolescente inconsequente. - Sabe muito bem que não estou bem com toda essa loucura... Vamos, vai ser bom... - Sei que ele não está lidando bem com toda essa pressão do casamento que se aproxima, com as expectativas de uma vida que ele talvez não queira, mas ele precisa amadurecer e respeitar minha irmã, respeitar a vida que está prestes a construir. Encerro a ligação, a irritação borbulhando. Não era hora para as lamentações de Lucas. Minha própria cabeça já estava um inferno. No dia seguinte, chego no trabalho. O saguão da empresa estava mais movimentado que o normal, mas meus olhos foram direto para a recepção. Lá estava ela, Linda, em seu posto. Ela estava concentrada em alguns papéis, a testa franzida em uma expressão séria que, estranhamente, me atraía. - Bom dia, Sr. Cooper - diz ela, a voz baixa e formal, sem me olhar diretamente. Ignoro seu cumprimento, propositalmente, passando por ela com um ar de quem não a viu. Preciso manter a fachada. Escuto um "i****a" sussurrado logo em seguida, abafado, mas perfeitamente audível. É assim que ela trata o chefe? Que audácia. Entro na minha sala e resolvo pedir um café. Uma desculpa perfeita para testá-la, para ver até onde ela iria, e também porque, sim, eu realmente precisava de uma dose de cafeína para espantar o que a noite vazia e os pensamentos sobre ela haviam deixado. Deixo claro, ao pedir o café, que ouvi seu comentário, um leve sorriso de canto brincando em meus lábios. Os minutos se arrastam, uma eternidade. Como demora para fazer um café! Finalmente, ouço uma batida delicada na porta. - Entre - digo, a voz mais rouca do que eu esperava. Linda entra, a postura impecável, a xícara em suas mãos, e se aproxima da minha mesa. - Aqui, Sr. Cooper - diz Linda, me entregando a xícara com um movimento preciso. Pego-a e levo à boca sem muita cerimônia, ansioso pela cafeína que me faria voltar à realidade. Assim que o líquido amargo atinge minhas papilas gustativas, sinto um choque elétrico. Eu sabia que precisava acordar, mas isso vai me manter acordado até amanhã! É absurdamente forte, o gosto de carvão queimado e desespero. Olho para ela, tentando decifrar o brilho travesso nos seus olhos castanhos. - Está bom? Fui eu mesma quem fiz - ela diz, com um sorriso inocente nos lábios, um brilho que me dizia o contrário. - Ótimo... Do jeito que eu gosto - minto, puxando um sorriso forçado, sem mostrar os dentes. Preciso manter a pose, não posso dar a ela a satisfação de me ver afetado. - Café forte é ótimo para ressaca e mau-humor - ela comenta, com um tom levemente acusatório, o sorriso agora mais evidente. Ah, ela quis se vingar. Entendi o jogo. Tento não demonstrar que fui afetado e viro o resto do café em um só gole, o líquido escaldante queimando minha garganta, mas a satisfação de não ter demonstrado fraqueza é maior. - Quer outro? - ela pergunta, com um sorriso vitorioso e um ar de desafio. - Não. Pode ir - digo rapidam ente. Nem pensar. O próximo pode ter veneno! Observo-a sair, os quadris balançando discretamente, até sumir da minha vista. Será que devo me preocupar? Na próxima pode ser chumbinho?! Não acredito que ela vá tão longe assim... Ou será que vai? Ela sempre foi imprevisível. Volto aos papéis e negociações, tentando afastar a imagem de Linda da minha mente, mas a sensação de que ela estava ali, a poucos metros, tornava tudo mais difícil. Chega a hora do almoço. Minha barriga ronca, mas antes de sair da sala, vejo Linda ainda atolada entre os papéis do trabalho, o rosto sério, focado. Ela não parava nem para respirar? - Não vai comer? - pergunto, com um tom que espero soar casual, mas que sai mais áspero do que o pretendido, quase um comando. Seu olhar, ao se levantar, podia m***r. Posso jurar que estou sendo xingado mentalmente nesse exato momento, um arsenal de impropérios silenciosos sendo disparado na minha direção. - Vou - responde ela, sem me encarar, os olhos desviando para a pilha de documentos. - Então venha me acompanhar - digo, em um impulso que me surpreende. O que estou fazendo? Não era para tratá-la com frieza? Mas, por algum motivo, a ideia de almoçar sozinho me pareceu insuportável. - Não estou com fome! - retruca ela, a voz carregada de teimosia. Mas, como se a vida tivesse seu próprio roteiro, seu estômago ronca alto, entregando-a de forma humilhante. Ela cora levemente, e um sorriso quase imperceptível surge em meus lábios. - Vamos - insisto, saindo da sala para cortar qualquer chance de recusa, ignorando seu constrangimento. É somente um almoço. Nada mais. Uma formalidade de chefe. Vejo-a me seguir, hesitante, cada passo dela parecendo uma concessão. E aqui estamos nós, sentados em um restaurante elegante, um silêncio constrangedor pairando entre a mesa polida e os talheres de prata. Ela nem mesmo olha para mim, os olhos fixos em um ponto qualquer na parede, evitando o meu. Peço a comida e, em um ato impulsivo, que me surpreende tanto quanto a ela, incluo a sobremesa que ela adorava há quatro anos: torta de limão com merengue suíço. Vejo uma breve surpresa em seu rosto, uma faísca de reconhecimento que acende uma chama de esperança em meu peito. Ela se lembra de mim! - Você é muito inteligente. Por que não tentou outra coisa? - pergunto, tentando obter mais informações sobre o que ela fez durante esses anos, sobre o que a trouxe de volta à minha vida. Vejo seu olhar se perder no vazio por um instante, uma sombra passando por seus olhos. - Não tive muita escolha... - sussurra ela, com a voz embargada, quase inaudível. - Como não? Aposto que era uma das melhores da sua classe, sempre foi a mais determinada - insisto, jogando uma indireta, pois eu a conhecia bem e sabia de seu talento, de sua capacidade de ir além. Ela fica visivelmente inquieta, os dedos tamborilando na borda do copo. - Não quero falar disso... - responde, desviando o olhar, a voz mais firme agora, um muro se erguendo entre nós. - Bom, então... Casada? Solteira? - pergunto, tentando manter um tom leve, casual, mas com uma pontada de ansiedade que m*l consigo disfarçar. Preciso saber. Preciso entender o que aconteceu em sua vida. Vejo um leve sorriso surgir em seus lábios, um sorriso que eu conhecia, mas que agora carregava uma nova dose de ironia. - Viúva n***a - diz ela, com um humor ácido que me pega de surpresa. - O quê?! - exclamo, surpreso, e por um breve segundo, não duvido, depois daquele café quase letal. - Estou brincando - ela ri, uma risada leve que alivia a tensão no ar. - Em um relacionamento comigo mesma - completa. Meu coração dispara. Solteira. Que alívio. - Vamos terminar o almoço - digo, apressando o assunto, assim que o garçom chega com nossos pratos, interrompendo o que poderia ser uma conversa perigosa. Voltamos para a empresa em silêncio, a tensão entre nós quase palpável, mas com uma nova camada de curiosidade e, quem sabe, algo mais. Assim que o elevador se abre no andar da presidência, uma voz furiosa ecoa pelo corredor, cortando o silêncio como uma faca afiada: - O que essa v*******a está fazendo aqui?!
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