Linda
— Não vai comer? — A voz dele, fria e cortante, me assustou. Igor. Canalha, filho de... eu o xinguei mentalmente, engolindo a raiva que subia pela minha garganta.
— Vou — respondi, tentando manter a compostura, sem encará-lo.
— Então venha me acompanhar — disse ele, como se fosse a coisa mais natural do mundo, o tom de comando irritante.
— Não estou com fome! — retruquei, com a teimosia que me era característica. Mas, para meu azar, meu estômago roncou alto, me traindo sem piedade.
— Vamos — ele insistiu, e simplesmente saiu andando, sem esperar por uma resposta, me deixando sem escolha. Aff! Aquele homem conseguia me tirar do sério sem o menor esforço.
Aquele almoço foi um desastre. As perguntas pessoais dele me deixaram extremamente incomodada, como se ele estivesse investigando cada pedaço da minha vida. Por que ele estava fazendo isso? Me fiz a mesma pergunta, a que me assombrava há anos: por que não corri atrás dos meus sonhos? Eu estava perdida em meus pensamentos, revivendo cada dor e cada escolha, quando voltávamos para a empresa, o silêncio no elevador quase tão pesado quanto a tensão entre nós.
De repente, um grito me tirou bruscamente do meu transe, ecoando pelo andar assim que as portas do elevador se abriram:
— O que essa v*******a está fazendo aqui?!
Reconheci a voz imediatamente. Meu sangue gelou. Era ele… O pai de Igor. O homem que havia me humilhado e me destruído anos atrás. Aquele que eu jurei nunca mais ver.
— Pai, o que está fazendo aqui? — Igor perguntou, a voz carregada de irritação, a surpresa em seu rosto quase me deu um alívio.
— Primeiro, me responda o que ela faz aqui! — O homem ignorou o filho, apontando para mim com o dedo acusador, o olhar de ódio perfurando minha alma.
— Já não acabou com a vida do meu filho? O que quer mais?! Dinheiro?! — Ele estava ali, mais uma vez, na minha frente, me fazendo a mesma pergunta humilhante de quatro anos atrás. A mesma pergunta que havia selado meu destino.
Flashback – 4 anos atrás
A imagem nítida, dolorosa, se projetou em minha mente. Eu estava em seu escritório, as mãos tremendo, a voz embargada pela dor de saber que jamais veria Igor novamente.
— O que quer? Dinheiro?! Eu lhe dou. Agora suma da vida do meu filho! — gritou ele, com a voz cheia de desprezo, jogando um maço de notas em meu rosto. As cédulas se espalharam no chão como folhas mortas, simbolizando o fim de tudo. Ele me deu as costas, encerrando a conversa, encerrando a minha esperança. A humilhação daquele dia ecoa em minha mente como se fosse ontem, um eco amargo que jamais se calaria.
Dias Atuais
— Pai, ela trabalha aqui, somente! E já que foi o senhor quem a ofendeu sem motivos, quero que se retire! — A voz de Igor, firme e inesperadamente protetora, me trouxe de volta. O homem me encarou com ódio, um ódio frio e calculista, antes de finalmente se virar e sair, sua presença deixando um rastro de veneno no ar.
Aquele encontro me deu calafrios, a pele arrepiada pelo pavor. A imagem do pai de Igor me assombra, um lembrete constante daquele dia. Jurei a mim mesma que não deixaria Luz perto dele desde aquele dia, desde o momento em que ele me esmagou com sua arrogância.
— Você está bem? — Igor perguntou, a voz menos fria agora, uma expressão de preocupação genuína em seu rosto. Balancei a cabeça positivamente, tentando disfarçar o tremor incontrolável em minhas mãos.
— Conhece meu pai? — perguntou ele, estreitando os olhos, uma ponta de desconfiança surgindo.
— Não… Deve ter sido um engano — minto, a voz saindo um sussurro, desviando o olhar para qualquer ponto da parede, menos para ele. — Vou terminar os papéis! — digo, e corro para minha sala, sentindo as lágrimas queimarem meus olhos, uma mistura de raiva e dor.
— Esse velho me paga pela humilhação que me fez passar — sussurrei para mim mesma, com as lágrimas escorrendo pelo meu rosto, manchando o rímel. Eu não podia mais chorar por ele, não podia mais me permitir ser fraca. Terminei meu horário de trabalho no piloto automático, e corri para casa, a única coisa que me impulsionava era a ansiedade para ver minha filha, meu porto seguro.
— Mamãe! — Luz gritou, a voz de sininho, e veio correndo me abraçar, seus bracinhos apertando meu pescoço. O cheiro de casa, de infância, me invadiu e, por um instante, tudo ficou bem.
— Eu já estava pensando que você não ia mais chegar… — Josh apareceu logo atrás dela, e a cena me fez engasgar de tanto rir. O rosto dele estava pintado com tintas de criança, chuquinhas de cabelo coloridas amarradas em seus fios, e... sem uma sobrancelha?! Um buraco imenso onde antes havia pelos.
— O que aconteceu aqui? — perguntei, caindo na risada, o estresse do dia se dissolvendo com aquela imagem.
— Ela estava com saudades da mamãe… e ia chorar… e o titio aqui teve a brilhante ideia de brincar… Ela queria brincar de salão… Eu concordei e logo me arrependi quando vi o barbeador na sua mão! Mas já era tarde, o estrago estava feito — disse Josh, com uma expressão de puro desespero e resignação, enquanto passava a mão pelo local da sobrancelha perdida.
— Como você deixou a Luísa pegar no barbeador, Josh?! — perguntei, tentando manter a seriedade, mas a gargalhada teimava em sair. Josh estava quase chorando enquanto se olhava no espelho, a mágoa evidente.
— Mamãe… Eu… Só quelia te ve… — Luz começou a falar, com os olhinhos marejados, a voz tremendo, uma performance digna de Oscar.
— Não foi isso que eu perguntei! — digo, tentando manter a voz firme, sabendo que ela estava usando todo o seu arsenal de manipulação.
— Subi na c****a… — diz ela, rápido, com a voz tremula, apontando para um banquinho.
— Mas eu só quelia colcerta a sombaceia do titio… para ele ficar buito… Não gostou, mamãe… buaaaaaaaaaaaaaa! — Ela começou a chorar com tudo, e eu sabia que era pura, descarada manipulação.
Quando estou prestes a dar uma bronca em Luz, Josh…