Capítulo 4

2585 Words
João Santore Só pode ser um teste de paciência, eu deixei claro que não queria mais ver ele, será que é muito difícil ele respeitar meu pedido? Saio de minha sala e passo pela porta, vendo toda a loja, então o vejo, está de calça jeans, e camisa simples preta, ele sempre foi um homem lindo, mas vejo agora que por dentro sempre foi feio. Ando em sua direção, sentindo meu coração acelerar e meus pelos arrepiarem, mas muito diferente de antes, hoje é por medo de sua reação e do que se trata ele querer me ver e falar comigo. Me aproximo com calma, tomando meu tempo para ter coragem de enfrentar ele, eu poderia apenas pedir que Augusto o retirasse, mas sinto que se não o escutar ele irá voltar novamente, e isso é algo que eu não quero. Paro alguns centímetros atrás dele, ele parece observar o movimento fora da vitrine, lá fora. — O que deseja? — Ele se vira em minha direção, um sorriso desponta em seus lábios e sinto minha barriga gelar de medo. — Amor, precisamos conversar. — Sorrio, colocando minhas mãos em meus bolsos da calça, o que me lembra que elas são de Ryder, e meu coração se enche de algo, fazendo o medo desaparecer, coragem tomando meus músculos, cada centímetro de mim. — Acho que eu falei tudo o que tinha para falar, deixei claro que não temos mais nada. — Ele fecha os olhos, parecendo tentar se controlar. — Mas eu não falei tudo. — Volta a dizer me olhando novamente. — Eu te amo, João, te amo muito, não entende isso? Eu quero você. — Levo meu dedo até minha sobrancelha esquerda, bagunçando-a. — Você não entende o quanto me fez m*l? — Deixo toda minha dor transparecer em meus olhos. — Não entende que estou machucado? Ferido? Você me quebrou de formas inimagináveis. Não tem volta. — Eu realmente posso mudar João. Eu sei que posso, por você. — Você já falou isso das outras duas vezes, quem traí pela primeira vez, sempre vai trair, é como experimentar algo viciante, você sempre quer mais, se fez uma vez, irá fazer muitas outras, se não teve caráter, não vai ser depois do terceiro erro que irá criar vergonha na cara. — Falo entredentes, estou começando a me irritar com toda essa insistência dele. — Você não deveria estar feliz agora? Não tem mais ninguém no seu pé, está livre para comer quem quiser sem ter alguém reclamando no seu ouvido. — Sem que eu menos espere por isso, ele segura meu braço esquerdo com força. Sinto a pele abaixo de seus dedos doerem. A carne sendo esmagada contra seus dedos, vai ficar marcado. Mordo meus lábios e olho ao redor, Pri está no caixa falando alegremente com um cliente, Augusto está fora da minha visão do lado de fora. — Me solte. — Falo cheio de raiva, segurando seu braço que me aperta. — Me solte agora mesmo ou irei chamar o segurança. — Você ainda vai se arrepender disso. — O ódio mortal em seus olhos, a voz ameaçadora. Meus olhos se enchem de lagrimas até que sua mão me solta repentinamente, seu corpo é afastado do meu e um corpo se coloca entre Edgar e eu. Seguro meu braço que doí e olho para as costas do meu salvador, e logo reconheço o cheiro de Ryder, meu coração acelera de felicidade, sempre amei esse perfume dele, por mais que não fosse um dos meus. — Acho melhor você se manter afastado. — Ele segura Edgar com as mãos presas sobre as costas, sempre esqueço que Ryder é dono de uma agência que treina seguranças e agentes, ele parece ser alguém inofensivo para mim, mas ele carrega uma arma sobre sua cintura, ele deixou claro uma vez. — Me solta seu i****a, quem você pensa que é, ele é meu namorado. — Acho que está enganado, ele deixou claro para mim ontem que não tinha mais namorado. — Edgar olha por sobre os ombros em minha direção, seus olhos inflamam com ódio, mas logo Ryder tampa minha visão. — Já está dando para outro seu cego i****a? — Suas palavras fazem mais lágrimas surgirem em meus olhos, dessa vez de humilhação, de dor por ter permitido alguém assim entrar em minha vida. Olho ao redor e vejo algumas pessoas olharem disfarçadamente para nós, esperando que uma briga mais séria comesse. — Se você falar assim novamente com ele... — A voz de Ryder me gela a espinha nunca o ouvi falar assim, tão ameaçador, não vejo sua expressão nem o escuto pois ele parece falar baixo contra o ouvido de Edgar e mostrar sua arma logo em seguida já ele meio que empurra para o lado o seu casaco, logo depois Ryder empurra o Edgar, e vejo a expressão de pavor no rosto dele quando ele se vira para nós, antes de sair pela porta da loja, meu corpo treme, abraço a mim mesmo, mordendo meus lábios quando meu amigo se vira em minha direção. Ele toca meus ombros com suas mãos, tomo um leve susto, mas logo sou arrastado para dentro dos seus braços, afundo minha cabeça entre seu peito, sentindo o seu cheiro gostoso ali, assim como o leve batimento do seu coração. —Está tudo bem agora, desculpe. — Sinto seus braços me apertarem. Meus óculos começam a me incomodar por estar em uma posição r**m entre meu rosto e a camisa de Ryder. — O que você disse a ele? Ele parecia com medo. — Levanto minha cabeça, olhando diretamente para seus olhos, ele parece decepcionado. Mas por quê? Com carinho ele solta suas mãos de mim e ajeita os óculos em meus rostos, voltando a me abraçar depois do seu ato carinhoso e muito gentil. — Está preocupado com ele? — Aceno em negativa. — Claro que não, apenas curioso pelo que você disse para colocar aquela expressão de medo no rosto dele. — Seu olhar se suaviza. Era por causa disso sua decepção? Ele pensou que eu ainda sentia algo pelo Edgar? — É realmente importante? — Volto a colocar meu rosto entre seu peito. — Não. Não é, aliás, obrigado por ter chegado na hora e ter me ajudado. — Sempre que precisar. — Sua mão vai até o meu cabelo em minha nuca, cada pelinho em meu corpo se arrepia. Me afasto dele. — Você está bem? — Como posso já sentir falta de seus braços? — Ah, sim, estou sim. — Olho para ele. — O que veio fazer aqui? Você não costuma aparecer por aqui. Ele olha ao redor, as pessoas parecem terem perdido o interesse na pequena discussão. — Estava preocupado. — Ele aponta para uma sacola em uma prateleira bem na entrada da loja com a logo de um restaurante. Cruzo meus braços. Ele segue meu movimento, passando o seu dedo bem no lugar onde Edgar me apertou, olho para baixo e vejo a marca dos dedos em minha pele. — Sinto muito que não cheguei antes. Meus olhos encontram os seus novamente. Ele veio porque ficou preocupado que assim como ontem hoje eu não tivesse almoçado. Então ele veio me trazer comida, me defendeu do meu ex-namorado insistente e ainda pede desculpas por algo que não estava sobre seu controle. Tem como ele ser mais perfeito e gentil que isso? Por que sinto meu coração tão quente? — Você não tem culpa de nada, ele quem deveria pedir desculpas, e eu lhe devo agradecimentos, ontem me ajudou quando eu estava precisando, hoje me salvou de uma briga. Você está se tornando meu herói. — Brinco com ele e sorrimos um para o outro. — Não faço mais que minha obrigação, somos amigos, amigos fazem isso um pelo outro. — Sinto um gosto amargo na boca do estomago. Mas ainda assim continuo sorrindo. — Sim, amigos fazem isso. Nós olhamos por alguns segundos até que ele se vira indo em direção a sacola com o nosso almoço. — Vamos comer? — Ele levanta a sacola em minha frente. — Sim, vamos. Me viro e sigo andando até a porta de minha sala, no caminho encontro Pri e Ryder cumprimenta ela. — Vou almoçar agora Pri, pode fechar a loja por uma hora e ir almoçar, avisa ao Augusto. — Sim chefe. — Ela diz e sai, sorrindo em minha direção, um sorriso com segundas intenções, reviro meus olhos, isso seria uma coisa meio que impossível. Abro a porta e de minha sala e a seguro aberta. — Pode entrar, fique à vontade, você já conhece tudo. Minha mesa está uma bagunça, alguns papais e canetas espalhados em cima dela. Até mesmo uma garrafa de água que eu esqueci a uns dois dias atrás. Arrumo tudo apenas de um lado e coloco a comida no espaço agora vazio, tem salada, arroz com purê e um bife que parece bem gostoso. — Parece estar uma delícia. — Ryder se senta na cadeira em minha frente, com a minha mesa nos separando. — Já almoçou? — Já sim, almocei e já aproveitei e peguei o seu para viajem. — Você é um amor, Ryder. — É, eu sei. Começo a comer calmamente, até que ele me olha e retira da sua mochila que eu nem mesmo tinha reparado que ele carregava, uma garrafa de leite, a colocando sobre minha mesa. — Sei que você gosta, para depois que terminar sua comida. — Tenho um sorriso curto em meus lábios, como pode ele ser tão gentil? Volto a comer, até que me sinto satisfeito e coloco o pratinho da marmita sobre a mesa, pegando o leite me recosto sobre minha cadeira e tomo um gole. — Como você está? Ele pergunta de repente, fico surpreso. — Estou bem. Por que não estaria? — Ele parece insatisfeito com minha resposta. — Você foi atacado pelo seu Ex dentro da sua loja, vocês terminaram a um dia e ele já veio te encher o saco, então eu não esperava que você me desse essa resposta, não quero que fique com medo, mas tenho receio que ele volte, que não te deixe em paz. Ryder parece bem preocupado, não tiro sua razão, ele está certo, Edgar pode voltar, deve estar com o ego ferido por eu ter largado ele e não o contrário. Me levanto e em passos curtos chego por detrás de sua cadeira, coloco minhas mãos sobre seus ombros, os sentindo tensos. Eu tenho muito sorte por ter um amigo que se preocupe tanto assim com meus bem-estar. — Eu posso me cuidar, tenho certeza de que seja lá o que você disse foi o suficiente para que ele nunca mais volte. — Sua mão direita vem até a minha esquerda que ainda estar sobre seu ombro, sinto um negócio esquisito em minha barriga. — Eu queria ter essa certeza, mas tem pessoas que não importa quanto medo sentem, seu ego e maldade são maiores. — É sério Ryder, não se preocupe... — Ele se levanta rapidamente, cortando minha frase, ficando frente a frente comigo. — É claro que eu me preocupo, poxa. Eu gosto de você, João, você... — Ele parece pensar no que falar. Meu coração martelando feito louco em meu peito, ele gosta de mim? Como assim ele gosta? — Você é meu melhor amigo, eu me preocupo. — Ah. — O brilho em seus olhos quando ele falou que gostava de mim parecia mais, mas eu me enganei, ele nunca olharia para alguém quebrado que como eu, nem mesmo sei se um dia no futuro ainda o verei, não sei se lembrarei de seu rosto, eu seria um peso na vida da pessoa que resolvesse ficar do meu lado, seria um peso na vida das pessoas que amo. — Eu entendo. — Dou as contas a ele. É tarde demais para mim, nunca poderei ter alguém. Mas porque estou pensando nisso assim, com Ryder aqui? Por que penso nele como sendo a pessoa que não suportaria ter um cego ao seu lado? — Eu posso me cuidar Ryder, em breve terei que fazer isso a qualquer custo, tenho que aprender a cuidar de mim sozinho, não terei ajuda para sempre. — Que papo é esse? — Ele pergunta sua mão em meu ombro para me virar em sua direção. — Em breve tenho uns exames, não sei quais os resultados, mas pode vir que meu problema de nascimento nos olhos não tem mais jeito, que ficarei deficiente visual para sempre. — Seus olhos, sua expressão nesse momento transmitem dor. — E você acha que se isso realmente acontecer seus amigos vão te abandonar? Você pensa que eu irei fazer isso? — Ele parece magoado. Olho para o teto, respirando fundo. — Não vamos brigar por isso. Eu não quis dizer isso, apenas que vocês não vão estar lá por mim vinte e quatro horas por dia, cada um tem sua vida, vocês podem namorar, casar, ter filhos, seguir em frente. E eu terei que me virar sozinho, não vou e não posso depender de ninguém. — Você não entende, João, eu estarei ao seu lado, seja para lhe ajudar caso perda completamente sua visão, ou seja, para te livrar do i****a do seu Ex, eu vou estar ao seu lado a cada segundo, a cada minuto, porque eu quero te proteger, quero cuidar de você. — Sorrio, me sinto bem com suas palavras, mas sei que não podem serem de todo verdadeiras, ele vai se apaixonar um dia, então ele vai partir, mesmo que ainda me ame como seu amigo, ele vai embora um dia, com seu amor. E nesse dia vai estar tudo bem, até porque ele é só o meu melhor amigo, e tudo o que eu desejo a ele é sua plena felicidade. Sim. É isso. A dor em meu peito não tem nada a haver com essa possível realidade. Não tem mesmo. Sinto seus braços ao meu redor, não que ele nunca tenha feito isso, mas parece que ficou mais frequente, que nos aproximamos mais depois da noite de ontem, em todas as oportunidades que ele tem, Ryder me puxa para o calor protetor de seus abraços, e eu amo isso. — Não sei o que passa na sua cabeça, mas pode colocar aí dentro que irei te proteger daquele i****a, de qualquer coisa que possa te machucar. Não vou nunca admitir que meus olhos se encherem de lágrimas com esse carinho e proteção. — Sei que você pode muito bem se proteger, meu pequeno bolinho, João, é forte. — Rio com seu apelido i****a. — De onde tirou essa que sou pequeno e um bolinho? — Levanto minha cabeça de seu peito e seus olhos estão até mais fechadinhos por causa do lindo sorriso em seus lábios. — Essa barba pequena e rala não esconde as bochechas fofas. — Aposto que elas nesse momento estão vermelhas. Encaro aquele homem que me toma em seus braços com carinho, ele é bruto com a maioria das pessoas de fora, carrega uma arma, já deve ter atirado em alguém com ela quando trabalhava em campo, mas é de uma gentileza e um carinho comigo que me deixa bobo, encantado. As mesmas mãos que bate e atira, são as que me pegam com todo o cuidado do mundo quando eu estou m*l. Meio s*******o achar isso fofo? com toda certeza. — Obrigada pela pessoa maravilhosa que você é comigo.
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