Ryder Davis
Soco o saco preto com toda minha força, sinto o suor descer por minha espinha e testa, meus músculos tensionam, minhas pernas doem pedindo que eu pare, meus braços quase não aguentam o próximo soco, mas tento manter em minha cabeça. Só mais um, só mais soco, só mais um chute, não pense em mais nada, apenas nisso, só mais um. Ergo minha perna e disfiro um chute no saco suspenso, ele balança e volta em minha direção, eu o seguro e abaixo a cabeça agarrado a ele.
João, João.
Bato meu punho contra o objeto em minha frente, mas não movo meu corpo, fico ali ainda agarrado a ele.
Tem ficado pior.
Antes eu conseguia me concentrar em meu trabalho, passava horas e horas enfurnado em contratos e reuniões, em recrutar novos agentes para trabalhos específicos e treinamentos específicos. Ajudava nos treinamentos, hoje, eu apenas o tenho em minha cabeça.
João se alimentou?
Edgar foi importuná-lo novamente?
Questionamentos e mais questionamentos rodam minha cabeça, fazendo com que eu quase entre em loucura total. Eu o vi ontem e parece que tenho urgência para vê-lo novamente o quanto antes.
Antes tinha uma parede entre nós, quando me dei conta de meus sentimentos e eles foram ficando fortes, então João se mostrou interessado em outra pessoa, pareciam que seus sentimentos eram fortes em relação a esse outro alguém, então eu me calei e nem mesmo ousei uma aproximação mais de perto, nunca o desrespeitaria, hoje tenho consciência que o amo e respeito esse amor, nunca faria algo que pudesse ferir seus sentimentos. Apesar que me vi sendo egoísta quando venho até nos pela primeira briga e traição, fui covarde, não meus sentimentos, temi que se falasse nunca mais ele teria qualquer pessoa ao seu lado, pois o encheria de mim e apenas de mim, outros nunca teriam chance, então sufoquei tudo.
Então agora ele está solteiro, ferido, e eu anseio curar suas feridas, curar ele para mim, apenas para mim. Não tem mais aquela parede que me impedia de chegar até ele. É egoísta pensar assim? Querer que ele fique bem e corra diretamente para meus braços?
Suspiro, saindo da sala de treinamento que a essa hora está totalmente vazia, são cinco e meia da manhã, mais quarenta minutos e isso aqui estará cheio, gosto de vir todas as manhãs treinar quando não tem ninguém, posso ficar sozinho com meus pensamentos e divagar.
Estamos em um prédio de três andares bem equipado, no topo apenas minha sala e a mesa da minha secretária, aqui no primeiro andar logo depois da recepção e um longo corredor a sala de treinamentos, luta corpo a corpo, e no meio de tudo isso tem um ringe, uma vez na semana tem lutas
Estamos em um prédio de três andares bem equipado, no topo apenas minha sala e a mesa da minha secretária, aqui no primeiro andar logo depois da recepção e um longo corredor a sala de treinamentos, luta corpo a corpo, e no meio de tudo isso tem um ringe, uma vez na semana tem lutas para colocar em prática estratégias, ao redor vários acessórios e espaço para treinar vários estilos de luta, temos ótimos professores, eu apareço quando o trabalho no último andar está calmo, vários que saíram daqui hoje fazem parte até mesmo da segurança do prefeito e até mesmo do presidente, então posso dizer que estou conduzindo bem o lugar, apesar de que sempre achei que não levava jeito para estar preso dentro de um escritório.
Saio pelo corredor longo vendo a mesa da recepcionista ainda vazia, ela chega um pouco depois das seis, assim como minha secretária particular, a Zara, do lado esquerdo da recepção o elevador que conecta os três andares. Entro no mesmo, ainda sentindo meus corpos ativos pela ação recente, passo pelo segundo andar, aqui é apenas para treinamento com arma de fogo, temos todos os tipos delas e alguns percursos com tiro ao alvo, ajuda muito para um combate real, apesar de não ser cem por cento igual a realidade.
O elevador para
O elevador para abrindo as portas, dou de cara com a mesa de Zara, apenas passo por ela e entro no corredor que dá diretamente em minha sala, não á mais nada ao redor, apenas a porta em que entro.
Retiro a camisa de meu corpo e sigo para o meu banheiro privado, tomo um banho e retiro todo o suor dos meus cabelos cacheados que chegam até o ombro, estou pensando seriamente em cortar, nunca deixei que eles fossem tão longos, isso por vezes me atrapalhava em missões, então sempre o mantive aparado e com os cachos apenas no topo da cabeça.
Olhando para trás agora vejo que conquistei muitas coisas, vivo uma vida tranquila e pude proporcionar isso a minha mãe, nascer já carregando uma cruz apenas por sua cor de pele faz de você um fracassado aos olhos da sociedade, mas minha mãe trabalhou duro para que eu nunca tivesse que sair da escola, me deu a melhor educação dentro de casa e me dediquei, até que cheguei aqui, com meus esforço, com meu trabalho duro, hoje sou dono de tudo isso, uma das empresas mais requisitadas no ramo de segurança pessoal e até mesmo treinei pessoas para o BOPE e a polícia.
As vezes penso que treinei pessoas para matar pessoas como eu, pessoas negras, pobres que não tiveram o que eu tive.
Mas eu treino acreditando no caráter deles, se eles forem capazes de matar pessoas inocentes, eu terei que lavar minhas mãos, até porque não posso mudar o caráter de ninguém.
Acabo meu banho, João deve acordar em alguns minutos, já passa das seis e meia, então logo ele irá para sua loja.
Saio do box e na mochila que sempre trago com roupas pego a camisa social e as calças de alfaiataria, as vestindo e colocando meu tênis, não é uma boa combinação, mas me mantém confortável. Coloco creme nos cachos e os deixo solto já que está molhado, passo perfume e estou pronto para mais um dia de cara em meio á papeis, saio do banheiro e me sento sobre minha mesa, logo vou respondo os mais de vinte e-mails.
Espero que João tenha tomado um café da manhã reforçado. Devo mandar uma mensagem?
Quando me dou conta estou lendo e relendo um Email a mais de cinco minutos.
— p***a, sinto que estar ficando pior.
Pego o celular sobre minha mesa e escrevo a mensagem.
Oi, espero que tenha tomado um café da manhã bem reforçado. Tenha um bom dia.
07:06
Encaro o celular pelo que parece longas horas, mas uma batida na porta tira minha atenção da tela, colo o aparelho de volta sobre a mesa e permito a entrada da pessoa. Zara entra pela porta com um vestido preto que vai até abaixo de seus joelhos, os cabelos ruivos estão presos num r**o de cavalo que vai até o meio de suas costas, as sardas em seu rosto ainda são visíveis mesmo ao notar que está de maquiagem.
— Senhor, tem reunião em trinta minutos, é o senador, pelo que parece terá campanha em dois meses e ele quer que a segurança seja feita toda pelo nosso pessoal.
— Isso é bom, mas alguma coisa importante?
— Tem alguns contratos que estão para vencer com três empresas, peço que de uma atenção a isso e se irá renovar.
— Claro, já recebemos os relatórios dos seguranças responsáveis? Alguma reclamação?
— Não senhor, todos dizem ser um bom local de trabalho, e que ficariam felizes em trabalhar por lá por mais alguns anos. — Tamborilo os dedos sobre a mesa.
— Bom, vou dar uma olhada, até o final do dia você irá saber se precisa marcar reunião com as empresas. Se for apenas isso pode voltar para seu trabalho.
— Claro senhor, com licença. — Ela se retira e então começo com meus afazeres, João parece dar uma trégua em meus pensamentos, até que por volta de meio dia quando Zara fala que pediu meu almoço eu me permito recostar sobre a cadeira e pegar meu celular. Notificação de mensagem e na mesma hora a abro vendo que foi uma mensagem de João de horas atrás, estava no silencioso e não escutei.
J
Oi, não se preocupe, estou bem, e comi bem, e você tem se alimentado direito? Espero que não esteja se matando de tanto trabalho, descanse um pouco ?
07:40
Meu corpo automaticamente relax, sorrio diante a tela do celular.
Estou bem, não precisa se preocupar.
11:10
Espero algumas respostas, mas ela não vem, então deduzo que esteja almoçando assim que nem eu.
Por volta da cinco da seis da tarde quando já tinha dispensado todos, estava arrumando minhas coisas quando meu celular tocou. Vejo que é uma ligação em grupo.
Todos atendem, mas apenas Marcos fala.
— Todos na casa do Ryder hoje as sete. Eu levo as bebidas.
E pronto, ele desligou na cara de todos nós.
— Filho da p**a.
Ele diz que vai ter festa na minha casa, sem ao menos pedir permissão para isso e desliga na cara de todos? Ele é um filho da p**a espaçoso.
Apesar de sair resmungando do prédio e entrar no carro ainda falando m*l dele, não segurei o sorriso ao ver todos os idiotas, menos João claro, entrando por minha porta e se acomodando pela sala, João se sentou de pernas cruzadas sobre o sofá, Gilberto se sentou em sua frente no tapete felpudo, mas com a mesa de centro os separando, Marcos se sentou ao lado de Gilberto, eu me coloquei no sofá ao lado de João, queria que de alguma forma estivéssemos próximos.
Gilberto parecia ter saído do trabalho e vindo direto para cá, estava de jeans e camisa azul escuro, ele parecia cansado. Mas é ótimo no que faz, ele é um mecânico de mão cheia, comanda o próprio negócio que vai muito bem, o conheço desde que fomos vizinhos no bairro que crescemos mesmo sendo dois anos mais velho que ele nos demos bem, se tive dificuldade ele e a mãe teve mais, o pai era um bêbado que não ligava para a família, mas ele conseguiu vencer, a mãe segue firme trabalhando com o que gosta, ela hoje é cozinheira num restaurante bem famoso na cidade. Os olhos azuis e pele marrom, mas claro que eu, passou por perrengues assim como eu passei. Hoje com trinta anos ele tem uma vida confortável.
Marcos está de jeans também, veste uma camisa larga branca, que não disfarça muito seus músculos, ele é o nosso personal, o melhor no que faz. Filho de pais ricos ele foi renegado ao se assumir bi, sorte que ele já tinha terminado seus estudos e faculdade que com muito esforço e bater de pé fez de educação física, já que os pais queriam que ele fizesse medicina, faz três anos que não vê a família, hoje com vinte e cinco anos mora sozinho e segue com sua vida.
E ao meu lado João, perfumista, por isso sempre tão cheiroso? E por que não dizer meu amor?
Seguimos bebendo, trouxe alguns petiscos, e depois de uma hora já gargalhávamos com o vento, rimos de tudo e todos.
Pedi jantar para todos e ficamos ali, meios altos, jogados pela minha sala, Gil e Marcos estava deitados lado a lado no chão enquanto assistíamos e comíamos pizza, eu e João estávamos sobre o sofá, era espaçoso então ele se deitou de um lado e eu de outro, vez ou outra nossos pés se tocavam e sentia meu corpo formigar com aqueles pequenos toques.
Marcos como sempre falando pelos cotovelos enquanto o filme rolava, ele sempre tinha um comentário a fazer sobre o filme, o que fazia Gilberto começar a falar também e eles entravam num pequeno diálogo sobre o filme, eu e J, seguíamos rindo dos dois e das teorias mirabolantes que eles criavam.
Vi que João estava encolhido de frio no canto do sofá, fui ao quarto de hospedes e peguei cobertores para todos.
— Valeu cara, estava já com frio. — Gil fala compartilhando o grosso edredom com Marcos.
Andei rapidinho até a cozinha e trouxe um copo de leite morno para João, ele me olhou com um sorriso lindo e agradeceu, levantando o cobertor para que eu me senta-se novamente sobre o sofá e me enrolasse junto dele.
Acordei meio no susto, olhei ao redor e vi que o filme tinha pausado, Gilberto estava por cima do peite de Marcos todo enrolado nele, meu amigo o abraçava e os dois roncavam baixinho.
Então me dei conta do peso em meu próprio peito, quando olhei para baixo e notei o cabelo preto não pude impedir meu coração que batesse acelerado e de forma louca, eu só podia estar no céu, João tinha seu corpo todo por cima do meu, seus braços estavam por cima de mim, me apertando onde podia, joguei minha cabeça para trás, isso era demais, como viemos parar nessa posição, ele estava do outro lado do sofá.
Respirei fundo e mesmo lutando muito meus dedos entraram por entre os fios negros, ele resmungou baixinho e esfregou seu rosto em meu peito.
Aquilo seria a realização de um sonho?
Deixei que meus dedos fizessem carinho em seus fios sedosos, eles cheiravam bem, me faziam querer aquilo pelo resto dos meus dias.
Como eu o amo.
Como eu o desejo.
Mas tratei de fechar os olhos com força, os abrindo tentei pegar o controle que tinha caído do sofá, com um esforço consegui e desliguei a tv, a sala entrou em um escuro confortável, meus dedos voltaram a entrar entre os fios sedosos, então me permitir relaxar, era João ali, não podia fazer mais do que lhe dar todo meu carinho e amor, com um pouco de custo, eu voltei a adormecer.