Capítulo 1

2274 Words
João Santore — Quantas taças eu já bebi? — Pergunto a Ryder, minha voz sai um pouco diferente aos meus ouvidos do que de costume. Estamos sentados no chão em frente sua pequena mesinha de centro, em nossas costas o sofá que muitas vezes passei a noite rodeado pelos meus amigos assistindo ou apenas jogando vídeo game, em nossa frente tem a tv que passa algumas músicas eletrônicas baixinhas. — Perdi as contas depois que eu tomei minha quinta taça. — Sua voz também sai embolada. Eu sorrio como se ele tivesse contado a melhor piada de todas. Olho a mesinha a nossa frente e vejo duas garrafas de vinho vazias e uma terceira pela metade, eu suspiro, terminando de rir jogo a cabeça para trás, virando para o lado e encarando Ryder que leva a taça a boca e olha fixamente para frente. — O que você faria? — Deixo as palavras escaparem e volto a minha posição anterior, encarando-o melhor. — O que eu faria? Sobre o que? — Ele pergunta, seu rosto parece não se alterar, se ele sabe sobre o que estou perguntando, não deixa que eu veja isso. — Se você estivesse em um relacionamento assim? Que nem eu estive, se ela fosse uma filha da p**a manipuladora, que te trai e vem com desculpas fazendo você se sentir o culpado por isso? — Ele continua encarando meus olhos pelo que parece horas, seus olhos castanhos fazem um pelo contraste com a pele n***a e os cabelos cacheados na altura dos ombros. Então ele desvia os olhos de mim e bebi mais um gole do vinho, acabando de vez com o líquido da taça, pega a garrafa e enche novamente. — Não sei o que faria, cada um tem uma reação. Não sei se eu teria regido diferente de você. — Você com toda certeza não seria manipulado e feito de trouxa que nem eu fui por dois malditos anos. — Sinto o gosto amargo na boca, muito diferente do contraste amargo e doce do vinho. —Não fale assim, você gosta dele, apenas quis e tentou acreditar que ele gostava de você, acreditou que seria feliz e queria um amor. Acho que no fundo a maioria quer ter um amor. Deseja ser feliz. — Mas a maioria pula fora quando ver que não está dando certo, quando a outra pessoa vale menos que cocô de vaca. — Ele rir. Eu tomo mais um gole do líquido vermelho. Me sentindo zonzo e meio distante. — Mas você pulou fora, pode ter demorado, mas pulou e se livrou dele, muitas vezes na verdade, você apenas sentiu medo de não encontrar outra pessoa que pudesse amar, então se deixou levar pelas palavras falsas de amor dele, se deixou acreditar que ele te amava e era o único capaz disso, mas deixe-me te dizer. — Ele não desvia seus olhos. — Existe outros amores, outras pessoas que te amariam do jeito que você é, que admiraria a pessoa apaixonante, o amigo leal, o filho que ama seus pais, o irmão dedicado e o tio amoroso. Tenho certeza de que tem alguém aí cheio de amor para você. — Aquelas palavras me enchem com algo que não sei identificar, me sinto...me sinto digno de receber amor, aquelas palavras apenas reforçam que fiz a escolha certa e que não devo voltar atrás, mesmo que em algum momento eu me sinta sozinho e pense que nunca encontrarei alguém que me ame. Devo me lembrar dessas palavras e lembrar que o que Edgar sentia por mim não era nem perto esse sentimento lindo. Por um breve momento enquanto mantemos os olhos um no outro, tenho a impressão de ter visto um pequeno vislumbre, uma chama nos olhos de Ryder, devo ter imaginado isso por causa do vinho. Ryder é meu amigo, um bom amigo, deito minha cabeça em seu ombro, é tão bom ter pessoas que realmente se importem com você ao seu lado. — Você é o melhor amigo que alguém poderia ter. obrigado por suas palavras, elas foram gentis e me fizeram enxergar que eu realmente mereço mais que uma louca obsessão. — É, você merece mais. — Eu suspiro, tomando o último gole da minha taça. Levanto minha cabeça de seu ombro e sorrio para ele. — Estou aqui lambendo minhas feridas e nem falamos de você. Como você está? — Ele sorri e balança a cabeça em negativo. — Estamos aqui para isso, não para falar de mim. — Faço uma pequena careta ao sentir o estomago embrulhar, deve ser porque quase não comi nada o dia todo e agora estou bebendo. — Você está bem? — Ele pergunta parecendo preocupado. — Acho que apenas não comi o suficiente hoje. — Ryder me olha de canto de olho e sorrir para mim, ele parece estar perfeitamente sóbrio, ao contrário de mim que já estou vendo tudo girar. — Vou te preparar um lanche. — Ele diz e se levanta indo em direção da cozinha que fica num longo corredor, já que o espaço todo da entrada principal é apenas composto pela enorme sala de estar, sigo apenas olhando para o corredor, me levanto e sigo em direção a entrada em que ele foi, ele está abrindo alguns armários e pegando alguma coisa, logo noto ser aqueles pães de forma, ele abre a geladeira sem nem mesmo notar a minha presença na entrada do local, ele monta um sanduíche para mim com um copo de leite, quando ele coloca tudo sobre a pequena mesinha de servir café na cama ele se vira, já que a bancada faz com que ele fique de costas para entrada, ele leva um pequeno susto comigo ali. — Poxa. — Ele diz, colocando a mesinha sobre a mesa que é o que nos separa. — Te assustei? — Um pouco. Está aí a muito tempo? — Ah... — Nem mesmo sei por que o segui, talvez eu esteja muito fragilizado e não quis ficar sozinho. — Um pouco de tempo sim. Ele balança a cabeça acenando, em seguida olha para a mesinha. — Quer comer aqui ou na sala? — Pode ser na sala mesmo. — Ok, vamos lá. Assinto, ainda encarando seus olhos, que me olham de volta, não sei o que estou sentindo nesse momento, apenas sinto que estou seguro aqui, estre essas paredes, parece que por um instante enquanto nossos olhos se mantem conectados eu perco um pouco da noção de tempo, meus problemas parecem ter sumidos, me encontro tranquilo e sem medo, aqui o futuro parece certo. Parece ser louco pensar assim não é mesmo? Acho que só pode haver uma explicação, esse cara só pode ser o melhor amigo que eu poderia ter, alguém assim é difícil achar, um amigo sincero que te faça se sentir bem apenas com sua presença. Parecendo sair de uma hipnose eu pigarreio e dou as costas para ele, voltando para a sala e se sentando no mesmo lugar em que estava antes. Segundos depois ele chega e coloca tudo a minha frente, dou uma mordia no sanduiche e está muito delicioso, tento dar um gole no vinho, mas a taça é retirada da minha mão, olho feio para ele. — Não adianta me olhar assim, coma tudo e beba o leite, vai se sentir melhor depois disso. — Você é muito chato. Não sei como pode ser meu amigo. — Sou seu amigo porque te amo e cuido de você. — Ele diz de uma vez, olho para ele, sentindo meu coração acelerar no peito. Isso sempre acontece desde a primeira vez quando ele disse isso a alguns anos, enquanto brincávamos assim. Sei que é verdade, mas dito de forma brincalhona, mas meu coração sempre insistiu em bater forte, sei que é um amor fraternal, mas mexe muito comigo essas palavrinhas saindo de sua boca, talvez isso me ajude a tatuar em minha alma que eu posso ser amado, de uma forma ou de outra eu sou amado. Enquanto como a casa segue em silencio, Ryder procura um filme na tv, acho que nossa noite de bebedeira acabou. O filme começa e ficamos ali, num silencio confortável enquanto a sala é iluminada e preenchida com as vozes do filme. — Acha que um dia perderei toda a visão? — Deixo meu medo escapar, talvez isso seja o meu pior medo, fruto de toda minha insegurança. Ouço um suspiro fundo ao meu lado. — Infelizmente não posso lhe dar essa resposta. — É, eu sei. — A tristeza toma conta de mim. Dar muito medo você ter a certeza de que logo perderá algo com a qual viveu desde que nasceu, mesmo que fosse r**m, eu teria que aprender a viver de uma forma diferente, teria minha independência, claro, mas de uma forma diferente, eu teria que aprender tudo do zero, como uma criança. Isso dar medo, dessa possibilidade, desse futuro que ainda é tão incerto. — Os médicos dizem que minha chance é de dez por cento de continuar enxergando. — Sorrio e tomo o último gole do leite antes de voltar a falar. — Pelo menos não vou precisar usar esses óculos ridículos. — Olho para ele ainda rindo. Sua mão vem em minha direção enquanto seus olhos estão vidrados no ponto em que seus dedos chegam, ele passa o dedo pela armação da orelha até um pouco abaixo da minha sobrancelha, minha respiração engata, se acelerando, meus pelos se arrepiam com seu dedo roçando de leve por minha pele, seus olhos vêm até os meus. — Você fica lindo com eles. — Por que estou sentindo isso justo agora? Por que estou sentindo meu coração assim? — Eu...Ah, obrigado. — Falo finalmente depois de gaguejar um pouco. — Você é bonito, João, um óculo não mudaria isso, apenas te deixou ainda mais incrível. Sorrio, deixando aquelas palavras se infiltrarem por minha pele, tenho que acreditar em palavras assim, gentis. —Você é incrível, Ryder, sempre foi. — Seu sorriso parece convencido. — Eu sei disso. — Ah não. — Exclamo em horror. — Você é muito convencido, um chato, não devia ter feito isso, seu ego vai passar a torre Eiffel. — Estamos apenas constatando fatos. — Ah claro. — Debocho. — Sim, você apenas não notou isso antes. — O empurro pelo ombro e foco em seus olhos. — Eu sempre notei o qual incrível você é. sempre. — Era para sair em tom de brincadeira, mas pareceu sério demais, o que não deixa de ser verdade. Nossos olhos voltam a ficarem presos um no outro, isso está acontecendo com muita frequência. — Ok. — Diz apenas, voltamos a ver o filme, parecia estar no fim, apenas me dei conta disso quando senti alguém me balançando de leve, estava deitado, não era macio, mas era confortável. — Vamos lá dorminhoco, hora de ir para a cama. — Escuto a voz doce e gentil. Abro os olhos brevemente e quando olho para cima encontro o rosto de Ryder me olhando. Me levanto devagar e volto para o lugar de antes. — Acho que eu dormi. — Ah, você acha? — Ele sorri enquanto se levanta. — Vem, vou te levar até o quarto. Aceno e o sigo em direção ao corredor. — Você conhece a casa, então sinta-se à vontade para usar o banheiro, diz, apontando para a porta depois da entrada da cozinha, logo depois passamos pelo quarto dele, para então chegar à porta em que paramos. — Você dorme aqui hoje. Tem cobertores no guarda-roupas, eu deixo algumas roupas que não uso muito, pode ver se alguma serve em você. — Ok. Ele está pronto para ir, chega a andar uns cinco passos e para na frente da porta do seu quarto, quando ele abre a porta minha voz o faz parar e me olhar. — Ryder. — Sinto toda a avalanche do dia de hoje e dos dois anos de relacionamento de merda que tive, as lágrimas pinicam em meus olhos, prontas para saírem, mas não deixo que isso aconteça. — Só quero agradecer por essa noite, não sei o que faria se estivesse sozinho, provavelmente estaria remoendo as palavras nojentas que escutei dele. Você fez com que eu esquecesse da dor. Realmente muito obrigado por ser meu melhor amigo, eu te amo muito, sabe disso certo? Seus olhos desviam dos meu e ele fecha os olhos por alguns segundos, penso até se falei algo errado para a expressão infeliz que por segundos passou por seu rosto e seus olhos. — Eu sei, eu também te amo muito. — Seus olhos brilham nessas palavrinhas. — Eu sou seu amigo. — Sinto que as palavras saíram de uma forma amarga de sua boca. Mas coloco a culpa disso em minha cabeça cheia de álcool. — Sempre vou lhe ajudar no que puder, estarei sempre ao seu lado, não importa o que. — Ele dá um passo para dentro do quarto, mas se volta para mim novamente, vindo em minha direção, tão rápido que meu cérebro custa a processar, só sinto seus braços ao meu redor, me apertando dentro dele, seu cheiro gostoso chega as minhas narinas, fazendo com que eu feche os olhos, o abraço de volta, sentindo seu corpo musculoso contra minha palma, suas costas largas. Tão rápido quanto chegou ele se foi, me deixando com o vazio de seus braços. Meio atordoado me coloquei para dentro do cômodo e me joguei na cama, não seu por quanto tempo minha mente deu voltas e mais voltas, só apenas apaguei sem me dar conta ou ao menos me levantar para tomar um banho.
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