João Santore
João está completamente apagado nesse momento, eu tentei, me forcei, gritei comigo mesmo que não viria aqui, que não me machucaria assim, ver ele de longe sem ao menos poder tocar, foi assim durante os últimos sete anos, desde que nos conhecemos e fomos apresentados um ao outro.
Ele não me olhou com segundas intenções, muito menos eu a ele nos primeiros meses, até porque é muito difícil alguém chamar minha atenção, seja de forma romântica ou s****l no primeiro encontro, lógico que eu o achei muito lindo, era inegável isso, seus olhos negros pareciam brilhar de uma forma diferente, eu achei já ter visto aqueles olhos antes, até ele me olhar com conhecimento, então falou que eu já tinha ido a loja de perfumes de sua mãe, foi quando me lembrei dele, eu procurava um presente de aniversário para minha mãe quando eu passei pela vitrine da loja de perfumes que ele trabalha e é de sua mãe, vi que eles faziam fragrâncias exclusivas, então eu resolvi que seria um bom presente, um perfume único para a mulher mais amável e única que amei e amo. Desde então me liguei a ele de uma forma estranha e totalmente nova para mim.
Nunca senti nada igual, demorei muito a me entender, fiquei com várias pessoas, homens, mulheres, todas as pessoas que possa imaginar, na vã tentativa de achar aquilo que me fazia sentir vazio. Até que quando passei a conhecê-lo, vendo seu amor para com sua família, o cuidado dele comigo e nossos amigos em comum, seu amor pelo seu trabalho, sua garra em terminar sua faculdade mesmo não sendo aquilo que ele aparentava gostar, ele é gentil, amoroso, tem respostas para tudo, sempre foi forte, e seu sorriso? O que falar do sorriso mais perfeito que já vi em toda minha vida, ele parece brilhar sempre que sorrir, ele é um homem extraordinário, fui me sentindo atraído, querendo mais dele, me sentindo apaixonado, logo depois passei a amá-lo, e então veio o desejo, um desejo ardente que me deixa pegando fogo em sua presença, nunca senti tamanho desejo, tamanha vontade de me entregar a alguém, de beijar, abraçar, sentir o calor do outro como sinto vontade de João. Não é loucura? Eu demorei a entender que meu corpo e meu coração e meu cérebro tinham que estar em harmonia se tratando de um outro alguém, fodas casuais nunca me interessaram, apesar de eu ter me rendido a eles antes de o conhecer por que era aquilo que homens mesmo antes de sair do ventre de suas mães eram ensinados, eu me vinha na obrigação de t*****r porque me sentia obrigado a isso, pela sociedade, por todos, até perceber que isso apenas estava me machucando, quando passei a querer João, á seis anos atrás mais ou menos, nunca me interessei por ninguém, desde então meu corpo não vê necessidade de ter outra pessoa.
— O que eu faço João? — Pergunto para seu rosto adormecido. — Por muito tempo segui te amando em silencio pensando que nunca teria uma oportunidade, você sempre parecia feliz sem ter a mim ao seu lado que eu pensei que era o melhor nos manter apenas como amigos, mas o que faço com esse amor que perdura por anos e anos? — solto um logo suspiro frustrado. — Isso dói pra c*****o. Te amar, te ter por perto por todos esses anos e não te ter. Ele está sem seus óculos, passo meu dedo de leve por sua barba que é bem rente a pele, ele fica lindo com ela quando resolver deixar ela crescer. Subo por suas bochechas rosadas ainda do vinho e chego em suas sobrancelhas grossas, seu rosto é muito lindo, seus cabelos negros são sedosos, deixo que meus dedos passem por eles nos fios que caem em sua testa. Ele parece uma pintura, a mais linda já feita.
— Acho que vou acabar enlouquecendo. — Uma lágrima cai pelo meu rosto, eu sou apenas um homem fraco, que não corre atrás do que quer.
Quando ele falou que estava namorando com Edgar, meu chão caiu, ele sempre falava sobre os pouco interesses amorosos que teve, nenhum durou muito, mas quando ele falou que Edgar o havia pedido em namoro eu fiquei completamente abalado, tinham ali minha única chance de tê-lo, e a deixei escapar pelos dedos por não ter coragem de falar meus sentimentos por ele. Nunca gostei do ex dele, não me passava coisas boas, nas poucas vezes que brevemente nos vimos o cara parecia ser arrogante, ainda mais quando notei João se perdendo aos poucos no meio daquele relacionamento, ele tinha perdido o lindo brilho nos olhos, o sorriso lindo e brilhante eu nunca mais havia visto, ele tinha mudado, ele foi forçado a mudar, se fechar, pela primeira vez em muito tempo eu vi um pequeno vislumbre do brilhante e confiante João ontem.
Me sinto feliz por ele ter finalmente criado coragem para se libertar das amarras daquele homem, ele nunca disso com todas as letras o que aquele i****a falava e fazia com ele, mas posso imaginar todo o terror psicológico que ele deve ter sofrido para mesmo depois de várias traições e provas de seu não amor para com ele, ele ter continuado por tanto tempo com aquele ser desprezível, mas me sinto triste por seu coração partido, por todos os machucados que ele terá que carregar durante sua vida.
Continuo ainda com seus fios entre meus dedos, pensando no que devo fazer, contar a ele ou não.
Se eu contar nesse momento talvez eu receba um não, já que ele acabou de sair de um relacionamento, pode não haver mais amor, mas há a dor da separação, devo ajudar ele a se curar, e só depois lhe confessar o que sinto.
— Que assim seja, estarei ao seu lado, vou lhe ajudar a se curar, então se depois disso houver um espaço em seu coração para mim, irei lutar com todas as minhas forças por você.
Toco uma última vez em seus fios, depositando um beijo em sua testa.
— Durma bem, meu amor.
Saio de seu quarto, fechando a porta atrás de mim depois de me certificar de que ele está bem enrolado no edredom e as luzes então apagadas.
Sigo para a cozinha, onde coloco minha cafeteira para trabalhar, se eu dormi sem um gole de café em meu sistema acordarei todo acabado amanhã depois de beber tanto, posso não ficar bêbado com facilidade, mas acordo parecendo um zumbi se não tiver minha dose de cafeína.
Entro em meu quarto ainda no longo corredor e tomo um banho, vestindo um conjunto de moletom, está um pouco frio essa noite, retorno a cozinha e desligo a máquina vendo meu café pronto, pego a xícara e sigo para a sala saindo do corredor, apagado todas as luzes, deixando apenas um abajur de pé ligado ao lado do sofá, caso João acorde no meio da noite e não consiga se guiar pelo apartamento escuro, ele logo verá o abajur ao sair do seu quarto.
Retorno ao meu quarto, sento-me na poltrona ao lado da mesinha de cabeceira, de frente a porta de entrada, pego o livro que estava terminando de ler ao meu lado, dessa vez era um livro sobre arte, ele não entendia muito, mas gostava de ler sobre e ver as telas, tinha algo nas telas, principalmente naquelas confusas, tinha algo que sempre o chamava naquela bagunça, talvez fosse a confusão que era muito parecido com a sua.
Enquanto saboreio o liquido preto com calma, vendo alguns quadros e lendo sobre eles, me sinto afundar naquele mundo, o álcool parece finalmente ter evaporado de meu corpo, me deixando mole e pronto para um bela noite de sono, amanhã seria um longo dia, chegaria alguns recrutas novos para a agencia, ser o CEO de uma agencia que treina soldado, agentes e tantos outros as vezes cansava, queria apenas algumas semanas de férias, aproveitar uma praia com um sol escaldante queimando minhas bochechas, talvez eu sugira isso aos garotos para o próximo fim de semana, um domingo na praia seria o suficiente, mesmo que desejasse semanas livre.
Acabei apagando, acordo meio atordoado ao escutar alguns resmungos longe, me sinto confuso, olho aos meus pés e o livro está lá, o pego, colocando de volta a mesinha de cabeceira, vendo assim minha xícara de café ainda pela metade, tomei alguns poucos goles. Meu pescoço dói pelo m*l jeito em que dormi, me levanto, esticando todo meu corpo, quando volto a escutar mais resmungos. Saio no corredor, vendo o abajur ainda acesso, dou alguns passos para o lado e abro a porta do quarto que João dorme, vejo apenas o breu a minha frente, então ando devagar para não o acordar e acendo seu abajur, vendo seu corpo ainda como o deixei mais cedo, toco seus cabelos quando me assusto com suas mãos agarrando meus pulsos.
— Não, não fale assim, Edgar. — Fala baixinho, sua voz chorosa, sua expressão tão sofrida, seus olhos se apertam bem fechados. — Não fale isso, não fale, isso dói. Dói muito.
A princípio ainda estou congelado pelo susto ao ter ele agarrando meu braço, mas logo me dou conta que ele está tendo um pesadelo.
Com minha mão direita, seguro sua mão que me agarra o pulso, mantendo meu carinho em seus cabelos.
— Está tudo bem, está tudo bem. — Tento acalentar, tento afastar seus medos e pesadelos, falando baixinho palavras de conforto enquanto acaricio seus cabelos, sua mão vai me soltando aos poucos e seu ressonar parece tranquilo e ele volta a dormir sem pesadelos.
Me recosto sobre a cabeceira da cama, pensando e ficando furioso com o homem que fez isso com ele, pensando em quais palavras ele deve ter dito para que isso infiltrasse cada espaço na cabeça brilhante desse homem para que ele acreditasse nelas e tivesse pesadelos com elas, alguém forte assim, como ele, estar quebrado dessa forma por causa de uma merdinha que não tem caráter e nem noção, um homem porco e i****a que acredita que humilhando as pessoas irão se sair por cima. Eu só queria alguns momentos em sua presença para que eu pudesse enfiar um pouco de juízo em sua cabeça quebrada. Talvez se eu apontar minha arma diretamente para sua cabeça isso fizesse ele implorar por perdão aos pés de João, talvez isso fizesse ele implorar piedade aos meus pés. Fecho meus olhos por alguns segundos, tentando recobrar minha consciência.
— Vai ficar tudo bem, João, se ele algumas vez cruzar seu caminho novamente eu farei questão de fazer com que seja a última vez. — Acabo apertando meus punhos, e nisso aperto os cabelos de João, ele resmunga e eu o solto assustado por quase ter machucado ele, ele se vira e me dar as costas, ainda em um sono profundo. Respiro aliviado.
Me levanto da cama, ele se acalmou e é melhor que eu volte para meu quarto antes que e cometa algum acidente por ficar martirizando o quanto meu João foi machucado por aquele filho da p**a.
Saio de seu quarto fechando a porta e me tranco no meu, me jogando sobre a cama apago o abajur e tento dormi, rolando pela cama, entre cochilos e outro eu acabo adormecendo, o que não é mais do que três horas antes do despertado tocar, procuro pelo barulho filho da p**a que parece estar chutando meu cérebro, até que acho o meu celular perdido entre a coberta e desligo o despertador. Rolo sobre a cama ficando de barriga para cima, olhando o teto, sinto minha cabeça latejar, vejo que será um dia estressante cheio de dor pela frente.
Viro de lado e cubro até a cabeça, desejando morrer ali mesmo, ressaca não é meu forte, não tem coisa que eu mais odeie que isso, não costumo beber muito porque sei como será meu dia depois de acordar assim, ficarei com essa dor insuportável e com um m*l humor do cão, tenho até pena dos novos recrutas de hoje.
Uma batida é ouvida na porta, tiro o coberto de cima da cabeça e fico de barriga para cima, levantando a mesma para olhar em direção da porta que é aberta, vejo os cabelos negros, eles parecem molhados, indicando um banho recente.
— Bom dia flor do dia. — Resmungo, voltando a enterrar minha cabeça embaixo do grosso cobertor. — Vamos lá, eu ouvi seu despertador tocar, está na hora de se aprontar e ir ao trabalho.
— Que se f**a. — Sinto a cama afundar ao meu lado e mãos me sacudir. Descubro o rosto rapidamente. — p***a, para com isso.
— Não paro, não paro. — Ele continua me balançando, até que suas mãos vão em direção a minha barriga e começa a fazer cocegas, eu seguro suas mãos, não antes de soltar um riso abafado e pular da cama.
— c*****o, você é um pé no saco.
— E sua boca fica imunda quando está de ressaca. — Ele sorrir, reparo agora em algumas gotículas de água ainda presa nos fios de seus cabelos, ele está usando uma calça jeans minha e uma camisa azul, me faz bem ver ele vestido em minhas roupas.
— Vamos, eu fiz o café enquanto sua b***a bêbada se afogava aí em ressaca.
— De quem é a culpa para começo de conversa? — Ele me olha parecendo ultrajado, indignado.
— Eu dei a ideia, não retiro minha culpa, mas você aceitou e ainda me convidou para sua casa. A culpa maior é sua.
Sorrio para ele que tem um pequeno sorriso brilhante em seus lábios, é bom que seja eu a colocar ele lá.
— Ok, assumo a culpa. — Levanto as mãos em rendição e sigo em direção a cozinha, vendo a mesa posta, com pães, café e algumas frutas, sento-me a cabeceira da mesa de seis lugares e ele se senta ao meu lado.
— Espero que esteja a sua altura majestade. — Ele brinca, fazendo uma reverência com a cabeça.
— Poderia ser melhor. — Zombo. Ele soca meu braço e não sinto nem mesmo uma picada de dor, meu corpo pode ser chamado de definido, depois de anos de treino e luta corpo a corpo, meus músculos estão bem definidos.
Términos nosso café com calma enquanto conversamos amenidades, ele parece mais relaxado e feliz do que quando chegou aqui ontem.
— Fique à vontade, pode deixar a louça aí, vou me arrumar, se não chegarei atrasado hoje.
Corro para meu quarto e tomo um banho rápido, visto calças jeans e uma camisa branca, colocando um casaco de couro por cima, não costumo usar ternos, odeio, não é nada prático na hora de treinar, não é porque hoje comando a agência que deixei de dar aulas e inspecionar tudo, cuido da parte burocrática e das aulas também, não é querendo ser chato ou me achar, mas sou o melhor ali dentro, e gostaria de treinar outros para serem tão bons quanto eu.
Por ter a cor de pele que tenho, já nasci fadado ao fracasso e a violência, nunca querem ver um n***o no topo da cadeia alimentar, mas me superei, almejei algo e com a força e carinho de uma mãe esforçada eu trabalhei em duro, e cheguei aonde estou nesse momento, minha cor não atrapalhou, me abençoou, tenho orgulho do homem que sou hoje, de tudo que conquistei, dei uma vida melhor para minha mãe e hoje ela vive bem, deixou de ser empregada doméstica e hoje tem seu primeiro negócio, uma floricultura, ela ama aquelas flores, se duvidar mais que a mim.
Já arrumados, saio com ele do apartamento, descemos no elevador, ele sai na portaria me abraça e agradece pela noite, aperto seu corpo junto ao meu, sentindo seu calor, então o solto, deixo que ele vá, a portas se fecham e desço para o estacionamento, entrando em meu carro, sigo para mais um dia.