O peso da notícia
O som do telefone ainda ecoava em minha mente. Era como se cada toque fosse um aviso, uma profecia sombria que eu não conseguia ignorar. Quando atendi, a voz do capanga de confiança de meu pai, Marco, estava trêmula. Marco nunca demonstrava fraqueza. Se ele estava abalado, algo muito errado havia acontecido.
— Don Vittorio e Max...— Ele parou, engolindo seco. — Eles foram mortos, Matteo. Uma emboscada. Moretti.
Por um momento, não consegui processar. Meu pai e meu irmão, mortos? Era impossível. Meu pai era invencível, um titã. Max, com toda sua arrogância e força, era o herdeiro natural. Eu não tinha lugar nesse mundo de sangue e poder. Sempre estive à margem, quase invisível. Gostava de ser assim, um espectador de uma realidade que nunca quis fazer parte, almejando apenas uma vida comum, longe das sombras que cercavam minha família. O poder que minha família tinha era imensurável. Meu pai comandava o lugar, as boates , os hotéis, restaurantes e até a polícia. Meu pai, Don Vittorio, matou, encobriu crimes oriundos, vendeu drogas, armas e era o chefe intocável. Já meu irmão seu sucessor Max era sua cópia fiel. Foi criado para comandar e para dá continuidade ao império mafioso do meu pai.
— Você está errado, Marco. Deve haver um engano,— consegui dizer, minha voz rouca e insegura.
— Não há engano, garoto. Você precisa vir para casa agora. Você é o único que resta.
O único que resta. Essas palavras ecoaram como um sino funerário. Coloquei o telefone no gancho, minhas mãos tremendo. Meus pensamentos vagaram por outro tempo, antes de tudo isso parece inevitável. Antes de meu nome ser Matteo, filho do Don, era apenas Matteo, o garoto que almejava uma vida tranquila longe de sua própria família.Desde os meus quinze anos, decidi morar em um apartamento no centro da cidade, que meu pai pagava, ficava próximo à escola onde estudava. Apesar de viver ali, não estava completamente sozinho: havia empregados que cuidavam da casa, e minha mãe vinha me visitar com frequência. Naquele espaço, eu sentia que podia manter distância do império criminoso do meu pai e, talvez, levar uma vida comum. Mas agora, o destino me forçava a retornar ao lugar que tanto lutei para evitar e que, apesar de tudo, precisava chamar de lar.
Meus únicos problemas eram provas, trabalhos escolares e... Luna. Ah, Luna. Quanto tempo faz desde que a vi pela última vez? Ela era minha única conexão com algo real, algo puro. Quando terminamos, achei que meu mundo estava acabando. Agora percebi que aquele era um tipo de dor que eu sabia enfrentar. Perder meu pai e meu irmão foi a gota d´água. Perder os dois foi como perder o sonho de viver livremente fora dos muros do império criminoso.
Caminhei até o espelho do corredor, encarando meu reflexo. Ainda parecia o mesmo jovem de 18 anos que nunca precisou fazer escolhas difíceis. Mas algo estava diferente agora. Havia uma sombra no meu olhar, algo que eu nunca tinha visto antes. Meu destino mudará naquele instante.
Lembrei-me do que meu pai sempre dizia sobre a tradição: todos os homens da família recebiam a tatuagem com o brasão da casa. Um sinal de pertencimento, de lealdade. Eu nunca tinha feito a minha. Meu pai dizia que meu tempo chegaria, mas eu sempre soube que ele nunca acreditou que eu a faria.
Agora, parecia que essa escolha não era mais minha.
A comunidade onde minha família vivia ficava em uma área periférica próxima à cidade, um lugar que misturava o caos urbano com a tranquilidade do mar. De longe, parecia um bairro comum, com casas simples amontoadas em ruas estreitas e uma agitação constante de moradores indo e vindo. Mas bastava olhar mais de perto para perceber que o lugar tinha suas próprias regras, um equilíbrio frágil sustentado por negócios que ninguém ousava questionar.
A proximidade com a praia era estratégica para os negócios da minha família. Enquanto alguns moradores usavam o mar para pesca ou lazer, nossa realidade era diferente: aquele litoral era uma porta de entrada para armas, drogas e outros contrabandos.
Minha casa, no entanto, era uma mansão, destoando completamente do resto do bairro. Isolada em um terreno amplo, cercada por muros altos e vigilância constante, ela parecia um universo à parte dentro da comunidade. Era ali que eu cresci, entre o luxo e o contraste da periferia que nos cercava.
O caminho de volta para a mansão foi longo e silencioso. Marco dirigia, seus olhos fixos na estrada enquanto eu lutava contra a enxurrada de pensamentos. Quando chegamos, a casa estava tomada por um silêncio estranho. Os corredores antes tão movimentados agora pareciam sufocantes.
No salão principal, encontrei minha mãe, cercada por parentes e aliados. Seus olhos estavam vermelhos, mas ela não chorava. Era como se sua dor fosse tão grande que lágrimas já não bastassem.
— Matteo — ela disse, sua voz um sussurro frágil. — Eles se foram.
Não consegui responder. Apenas a abracei, sentindo seu corpo tremendo contra o meu. Por mais que tivesse me distanciado desse mundo, meu pai e meu irmão eram minha família. Eles eram parte de quem eu era, mesmo que eu não quisesse admitir. E agora, estavam mortos.
[...]
Passei o resto do dia evitando perguntas, olhares e a responsabilidade que todos pareciam querer jogar sobre mim. Fiquei no quarto que costumava ser meu, cercado por memórias de uma infância que agora parecia tão distante. Cada fotografia, cada livro na estante parecia zombar da pessoa que eu queria ser.
Enquanto o sol se punha, subi até o terraço. A vista da cidade estava mergulhada na penumbra, as luzes piscando como estrelas em um céu invertido. Pensei em meu pai e em Max. Não eram homens bons, mas eram tudo o que eu conhecia como família. E, apesar de tudo, sentia a dor de sua perda.
Ali, sob o céu escurecido, fiz uma promessa silenciosa: antes de qualquer decisão, eu me permitiria sentir o luto. Seria apenas Matteo por mais um instante, um garoto de 18 anos tentando entender como sua vida havia mudado para sempre.
Quando desci novamente, a sala estava vazia, exceto por minha mãe. Ela estava sentada no sofá, segurando uma foto antiga de nosso pai com Max e eu, ainda crianças. Quando me viu, fez sinal para que eu me aproximasse.
— Matteo, você precisa ser forte agora — disse ela, sua voz firme, mas com um tremor subjacente. — Nossa família depende de você.
Eu sabia que ela estava certa. Mesmo que não quisesse, mesmo que minha alma gritasse contra essa realidade, eu era o único que restava. Os homens já estavam me esperando, prontos para ouvir o que eu tinha a dizer, prontos para me reconhecer como o chefe.
— Eu não sei se consigo, mãe — admiti, minha voz quebrando. — Eu nunca quis isso.
— Nenhum de nós escolhe o destino, Matteo. Mas você é forte, como seu pai. E agora, precisa ser forte por mim, por nossa família.
Seu olhar encontrou o meu, e naquele instante, percebi que não havia escapatória. O peso de sua expectativa e o vazio deixado por meu pai e Max me esmagavam, mas também me empurravam para frente. Respirei fundo e me levantei, tentando reunir a coragem que sabia que precisaria.
[...]
Quando Marco veio me chamar para a reunião, eu estava pronto. Ou pelo menos, precisava fingir que estava. Ser forte por minha mãe, por minha família, era o único caminho que me restava. E, assim, com o coração pesado, desci para enfrentar o que me aguardava.
A sala de reuniões estava cheia. Homens que conheciam meu pai há décadas, rostos endurecidos pelo tempo e pelo trabalho sujo que mantinha nossa família no topo. O brasão da família, bordado em um grande estandarte na parede, parecia me encarar, um lembrete silencioso da responsabilidade que agora pesava sobre mim. Marco me conduziu ao assento principal, o lugar onde meu pai costumava sentar.
Engoli em seco ao me sentar. O couro da cadeira era frio, desconfortável, como se soubesse que eu não pertencia ali. Os olhares em minha direção variavam entre expectativa, dúvida e até uma pitada de desprezo. Eu não era Max, o herdeiro preparado para esse momento. Eu era Matteo, o garoto que preferia um livro a uma arma.
Minha mãe entrou na sala e se colocou atrás de mim, uma presença silenciosa, mas inabalável. Seu olhar fixo no estandarte parecia transmitir uma mensagem: você tem que fazer isso. Por mim. Por eles.
Marco iniciou a reunião, atualizando a todos sobre a emboscada, os culpados e os passos que precisávamos tomar. Eu ouvia tudo, mas as palavras soavam distantes, abafadas. Minha mente estava presa na ideia de que agora eu era o chefe. Eu precisava falar, mostrar que tinha controle, mesmo que sentisse que estava desmoronando por dentro.
— Precisamos reagir com cuidado, — comecei, minha voz saindo mais firme do que eu esperava. — Meu pai e Max não podem ter morrido em vão, mas não vamos agir por impulso. Vamos planejar. Mostrar força, mas com inteligência.
Os murmúrios cessaram. Havia um silêncio tenso na sala. Alguns pareciam surpresos, outros apenas observavam, avaliando cada palavra. Marco assentiu levemente, um sinal de aprovação.
Depois da reunião, voltei ao meu quarto. A responsabilidade pesava mais do que nunca, mas por trás de tudo isso havia uma decisão inevitável. Eu precisava decidir quem eu seria a partir de agora. O chefe que eles esperavam? Ou algo diferente, alguém que pudesse navegar nesse mundo sem perder completamente quem eu era?
Com essas perguntas em mente, sentei-me à beira da cama, encarando o brasão da família em um quadro na parede. A tatuagem que eu nunca quis agora parecia um destino inevitável. Minha mãe bateu na porta e entrou, trazendo uma pequena caixa de madeira. Dentro, o anel de chefe da família. Ela o colocou em minha mão, sem dizer uma palavra.
— Você é mais forte do que pensa, Matteo, — ela disse finalmente. — Seu pai sabia disso, mesmo que nunca tenha dito.
Quando ela saiu, fiquei ali sentado, segurando o anel. Naquele momento, entendi que meu luto precisava ser colocado de lado. Havia uma guerra para lutar, uma família para liderar, e um legado para carregar, que eu quisesse ou não.