A primeira decisão

1358 Words
A reunião de família acontecia na grande sala de jantar da mansão, um espaço ornamentado com retratos dos antepassados e o brasão da família gravado em madeira acima da lareira. Meus tios e primos estavam presentes, todos homens de postura rígida e olhares inquisidores. A conversa girava em torno da sucessão e, inevitavelmente, recaía sobre mim. — Matteo, já passou pelo ritual? — perguntou meu tio Enrico, sua voz carregada de autoridade, enquanto cruzava os braços e me encarava. — Ainda não, tio, — respondi, tentando manter a calma, embora sentisse o peso do julgamento em cada olhar ao meu redor. — Isso não pode esperar, — interveio meu primo Julio, um homem de fala incisiva. — Sem o brasão, como pode ser reconhecido como o líder legítimo? É tradição, Matteo. Não é opcional. — Eu sei disso, — retruquei, tentando esconder minha relutância. — Só preciso de um pouco mais de tempo. Acabei de perder meu pai e irmão. — Tempo? — Tio Enrico repetiu, balançando a cabeça com descrença. — Não temos tempo. Cada dia que você adia, a autoridade da nossa família é questionada. O brasão não é apenas um símbolo; é uma prova de lealdade e comprometimento. — Ele está certo, Matteo, — Jordan, outro primo acrescentou, inclinando-se para frente. — Todos os homens da família passaram por isso. Você não pode ser diferente. O silêncio que se seguiu era quase insuportável. Minha mãe, sentada no canto da sala, interveio com um tom mais suave, mas igualmente firme: — Matteo, querido, eu sei que é difícil, mas uma família precisa de símbolos. E esse é o nosso. Se você não fizer, será visto como fraco ou desleal. Suspirei, sentindo o peso das expectativas me esmagar. Não havia saída. Todos ali esperavam minha confirmação. — Matteo, como você ainda não passou pelo ritual? Já tem 18 anos, — Roberto, outro primo continuou, sua voz agora carregada de incredulidade. — Isso é o básico para mostrar respeito à nossa tradição e à força da família. Fiquei pressionado. A tensão na sala parecia sufocante, cada olhar me cobrando uma decisão. Não consegui mais conter a raiva que vinha se acumulando. Bati com força na mesa, fazendo os copos tremerem. — Farei a tatuagem! — exclamei, a voz carregada de frustração e determinação ao mesmo tempo. O silêncio que se seguiu era ensurdecedor, mas vi nos olhos de todos a aprovação que esperavam. Não havia mais espaço para hesitação. [...] — Matteo, a tatuagem não é só um símbolo, é um juramento de lealdade. Sem ela, os homens não vão te respeitar — Marco afirmou, com a voz firme. Eu relutava. Parte de mim queria recusar, manter alguma distância desse mundo que agora parecia me engolir. Pensei na vida simples que sempre desejei, longe das sombras e das expectativas. Mas como poderia dizer não? Era como se cada olhar, cada palavra, estivesse me empurrando para um destino do qual eu não podia escapar. O estúdio de tatuagem ficava em um dos galpões controlados pela família, longe de olhares curiosos. O cheiro de tinta misturado ao som constante da máquina criava um ambiente pesado, quase cerimonial. Marco estava ao meu lado, com a postura firme de sempre, mas seus olhos denunciavam uma estranha mistura de expectativa e compaixão. Eu precisava fazer essa tatuagem o quanto antes para mostrar minha lealdade à família e respeito aos demais homens que compactuavam com o império de meu pai. Sentado na cadeira de couro gasta, encarei o tatuador preparando o equipamento. Ele era um homem mais velho, com as mãos firmes e uma precisão quase cirúrgica. — é sua vez, garoto — disse ele, ajustando a agulha. — Quando terminar, não haverá mais volta . Minha mãe insistiu que eu fizesse isso o quanto antes. “Uma família precisa de símbolos,” ela disse. “E esse é o nosso.” Ela estava certa, mas isso não tornava o momento mais fácil. Essa seria minha primeira tatuagem, e o peso dela ia além da pele, era um marco de quem eu deveria ser. Enquanto o tatuador se aproximava, observei o desenho sobre a mesa: um brasão detalhado, com um leão rugindo e a data de fundação da família inscrita abaixo. Deitei-me na cadeira, respirando fundo enquanto a agulha tocava minha pele. A dor era aguda, mas suportável. Era simbólico, uma dor física que parecia pequena diante do peso que carregava. Marco permaneceu em silêncio, mas sua presença era um lembrete de que esse não era apenas um ritual. Era um compromisso. Minutos pareceram horas. Quando o tatuador finalmente se afastou, olhei para o espelho. O brasão estava lá, marcado em meu ombro direito. Definitivo. Um símbolo que não poderia apagar, mesmo que quisesse. Marco colocou uma mão em meu ombro. — Agora você é oficialmente um deles, Matteo. Seu pai e Max estariam orgulhosos. Balancei a cabeça em silêncio, sem saber o que dizer. Não sentia orgulho ou pertencimento, apenas um vazio crescente [...] Horas depois, sentado na cadeira principal do salão de reuniões, sentia o peso da responsabilidade como nunca antes. Os homens da organização estavam reunidos à minha frente, esperando minhas palavras. Marco deu um passo à frente, colocando documentos e relatórios sobre a mesa. — Matteo, temos dois assuntos urgentes. Primeiro, a questão da segurança. Os Moretti estão se movendo e precisamos fortalecer nossas defesas. Segundo, um grupo local está causando problemas em um dos territórios. Eles não respeitam nossas regras. Os olhos de todos estavam fixos em mim. Marco podia conduzir a conversa, mas agora as decisões eram minhas. Eu era o chefe, quer quisesse ou não. — Começaremos pela segurança, — respondi, tentando manter a voz firme. — Reforce os postos. Quero patrulhas extras e um relatório atualizado sobre nossas vulnerabilidades. Marco assentiu, fazendo anotações. Um dos homens, Lorenzo, um veterano de rosto marcado pelo tempo, interveio. — E quanto ao grupo local? Se não agirmos, serão vistos como uma fraqueza. Ponderei por um momento. Minha mente dizia para evitar confrontos desnecessários, mas sabia que a aparência de fraqueza poderia ser fatal nesse mundo. — Envie uma mensagem clara, — decidi. — Converse com eles primeiro. Dê uma chance para se alinharem. Mas se resistirem… Minha voz falhou por um instante, mas Marco completou minha sentença com um tom firme: — Resolveremos do jeito tradicional. Concordei em silêncio, sentindo o estômago revirar. Não queria ser essa pessoa, mas agora parecia que não tinha escolha. [...] Naquela noite, fiquei sozinho no terraço da mansão, observando as luzes da cidade. O brasão em meu ombro ainda ardia, um lembrete constante de quem eu era agora. Por mais que quisesse, não podia voltar à vida simples que sonhava. Não havia espaço para Matteo, o garoto comum. Agora, havia apenas Matteo, o chefe. Enquanto a noite avançava, continuei lutando contra a aceitação do meu novo papel. O brasão na minha pele era uma marca definitiva, mas minha mente vagava para além das paredes da mansão. Pensava no garoto que fui, alguém que sonhava com uma vida comum, longe das responsabilidades sufocantes que agora me cercavam. Como posso manter minha integridade em meio a tantas expectativas e pressões externas? A cada decisão que tomo, sinto que uma parte de mim é enterrada, substituída por algo que nunca quis ser. Eu sabia que não poderia fraquejar, especialmente diante da minha mãe, que dependia da minha força para manter a família unida após tantas perdas. Mas no silêncio daquela noite, uma pergunta ecoava na minha mente: quanto de mim mesmo eu seria capaz de sacrificar para preservar o que restava da nossa família? O peso do império estava sobre os meus ombros, e eu não sabia por quanto tempo poderia suportá-lo. A cada instante, sentia que meu passado se distanciava mais, enquanto a responsabilidade me puxava para um futuro que eu não tinha escolhido. Enquanto o vento frio soprava, lembrei-me das palavras de meu pai anos atrás. “Ser chefe não é apenas comandar. É carregar o peso de todos os que dependem de você.” Finalmente, compreendi o que ele queria dizer. E mesmo assim, uma parte de mim ainda se recusava a aceitar.
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