O velório foi realizado na mansão da família, no salão principal, decorado com flores brancas e velas que iluminavam suavemente o ambiente. O cheiro de incenso misturava-se à atmosfera pesada de perda e respeito. Os retratos do meu pai e do Max estavam dispostos no centro da sala, ladeados por coroas de flores e os símbolos que representavam a nossa família.
Ao meu redor, rostos familiares expressavam dor e solidariedade, mas também uma certa expectativa. Para eles, eu era o sucessor, o novo líder que deveria honrar o legado. Mas, para mim, a ideia de ocupar o lugar do meu pai e de Max parecia insuportável.
Minha mãe estava ao meu lado, os olhos vermelhos e inchados. Segurei sua mão, tentando transmitir uma força que eu mesmo não sentia. Olhei para os caixões fechados e me perguntei, mais uma vez, como tudo havia desmoronado tão rápido.
— Não quero isso, mãe, — confessei, minha voz baixa, mas carregada de emoção. — Não quero ser o chefe.
Ela me olhou, as lágrimas escorrendo por seu rosto pálido.
— Matteo, sei que é difícil, — disse ela, sua voz entrecortada. — Mas a família precisa de você agora. Não é apenas sobre poder. É sobre proteger o que é nosso.
Minha vontade era gritar, recusar, fugir. Mas ali, cercado por tantos olhares e memórias, senti que minha rejeição seria vista como fraqueza, como uma traição àqueles que me precederam.
Depois da cerimônia, vaguei pela mansão, buscando algum refúgio. Passei pelo escritório de meu pai, um espaço imponente que sempre me intimidou. Era ali que ele tomava decisões cruciais, traçava estratégias e mantinha a ordem. Entrei, sentindo o peso do ambiente. Toquei a mesa de madeira escura, imaginando as conversas e negociações que ali aconteceram. O eco do silêncio me envolveu, tornando a ausência dele ainda mais palpável.
[...]
Após o velório, os assuntos urgentes não demoraram a me alcançar. Marco veio até mim com uma expressão séria e relatórios nas mãos.
— A notícia da morte do seu pai e do Max correu rápido, Matteo, — disse ele, direto ao ponto. — Por isso, estão começando a desrespeitar as nossas leis. Precisamos agir.
As palavras de Marco me atingiram como um golpe. Senti um nó no estômago e uma pressão esmagadora no peito. Minha mente corria, tentando encontrar uma saída ou uma maneira de não me afundar ainda mais nessa realidade que eu não queria aceitar. As expectativas eram claras: eles esperavam que eu assumisse, que mostrasse força. Mas, por dentro, eu me sentia quebrado, dividido entre a lealdade à minha família e a rejeição a tudo o que aquilo representava. A sensação de ser arrastado por uma corrente contra a qual eu não podia lutar tornava tudo ainda mais sufocante.
— Matteo, precisamos falar sobre os problemas urgentes. Primeiro, há um grupo local no bairro industrial que ainda se recusa a seguir nossas regras e questiona sua liderança. Eles estão testando nossas fronteiras, desrespeitando o equilíbrio que seu pai manteve com firmeza.
A menção ao grupo local fez meu estômago revirar. Eu sabia que esse tipo de desafio era inevitável, mas enfrentá-lo tão cedo parecia c***l. Perguntei a Marco sobre o conflito, tentando entender a situação antes de agir.
— Eles reclamam da distribuição do dinheiro das drogas. Querem mais, alegam que trabalham mais duro e que eram melhores tratados por Max — Marco explicou, sua voz calma, mas firme.
— Max fez tratados com eles à custa de uma bala na cabeça, — respondi, sentindo a raiva borbulhar dentro de mim. — Ou eles seguiam, ou o próprio Max os mataria. Eles sabem como as coisas funcionam. O que querem agora é aproveitar o momento para testar meus limites.
Respirei fundo, tentando processar tudo. Sentia como se cada novo problema fosse um tijolo a mais em um muro que me separava da vida que eu realmente desejava. O peso das expectativas me esmagava, e, embora minha expressão permanecesse firme, minha mente fervilhava de questionamentos. Era possível manter minha integridade enquanto me afundava nesse mundo que sempre desprezei? A memória de Max, de como ele enfrentava essas situações com brutalidade calculada, ecoava na minha cabeça. Eu sabia que meu caminho teria que ser diferente, mas como, se tudo ao meu redor parecia conspirar para que eu seguisse o legado deles?
— E quanto aos homens do Moretti? — perguntei, tentando desviar momentaneamente.
— Estamos monitorando. Eles ainda não cruzaram nenhuma linha definitiva, mas precisamos mostrar força, — Marco respondeu, mas logo voltou ao assunto do grupo local. — Precisamos de uma solução imediata para o problema no bairro industrial. Isso está afetando nossa credibilidade.
Eu ponderei por um momento. Sabia que resolver isso pacificamente seria essencial para evitar uma escalada de tensões. Decidi ir pessoalmente ao bairro industrial para tratar do assunto.
[...]
O lugar era sombrio, com ruas estreitas e prédios desgastados pelo tempo. O cheiro de óleo queimado e lixo impregnava o ar. Cheguei acompanhado de Marco e dois seguranças, mas mantive uma postura firme e decidida. O grupo local nos aguardava em um galpão abandonado. Eram homens jovens, com olhares desafiadores e armas visíveis.
— Estamos aqui para resolver isso, — comecei, minha voz ressoando no espaço vazio. — Mas não posso aceitar que vocês desafiem a organização e prejudiquem o equilíbrio do sistema.
Um dos líderes, um homem chamado Vicente, deu um passo à frente. Seu olhar era frio, quase provocador.
— Max nos entendia, — disse ele. — Ele sabia que nosso trabalho valia mais. Você, Matteo, está apenas começando. Como pode nos dizer o que fazer? Ainda mais sendo tão jovem?
Eu me aproximei, encarando-o diretamente. Sentia a tensão no ar, mas sabia que precisava manter o controle.
— Não estou aqui para ser Max, — respondi, contendo a raiva. — Mas estou disposto a ouvir e encontrar uma solução justa. Ser jovem não significa que podem me desrespeitar ou ignorar. No entanto, isso não quer dizer que aceitarei ameaças ou insubordinação. Somos parte de algo maior, e isso precisa ser respeitado.
A conversa foi longa e intensa. Argumentos e acusações foram trocados, mas, no final, conseguimos chegar a um acordo provisório. Eles receberiam uma porcentagem ligeiramente maior, desde que garantissem a estabilidade e seguissem as regras estabelecidas.
Quando a reunião terminou, senti um misto de alívio e exaustão. O peso das decisões que tive de tomar era algo com o qual eu ainda não sabia lidar. Olhei para Marco, que assentiu levemente, como se dissesse que eu havia feito bem. Talvez ele estivesse certo, mas isso não diminuía o fardo
[...]
Quando saí do galpão, o ar fresco da noite foi um alívio bem-vindo. Enquanto caminhava pelas ruas, ainda tentando processar tudo, um movimento chamou minha atenção. No meio da multidão que passava apressada, vi um rosto familiar. Meu coração quase parou: era Luna.
Ela estava ali, com o cabelo preso de forma despretensiosa e uma expressão concentrada. Parecia diferente, mais madura, mas ainda tinha aquele brilho que sempre me atraiu. Por um instante, esqueci de tudo — do império, das responsabilidades, do peso que carregava. Era como se o tempo tivesse parado.
Fiquei parado, observando-a se afastar pela rua. Ela não me viu, e talvez fosse melhor assim. Mas, ao mesmo tempo, sentia um desejo quase incontrolável de chamá-la, de atravessar o espaço entre nós e descobrir o que o destino havia reservado para aquele encontro inesperado.
A visão de Luna trouxe uma enxurrada de lembranças, de dias mais simples, de momentos em que eu acreditava que poderia ser alguém diferente. Era como se ela carregasse consigo uma parte de mim que eu havia perdido. Meu peito se apertou, e uma pergunta silenciosa ecoou em minha mente: será que ela me reconheceria agora, no homem que eu estava me tornando?
Permaneci em silêncio. Luna desapareceu na multidão, mas deixou em mim um turbilhão de sentimentos. O passado que tentei enterrar estava de volta, e eu sabia que isso mudaria tudo.
Enquanto voltava para o carro, senti uma estranha mistura de determinação e melancolia. Era como se aquele encontro silencioso com Luna fosse um lembrete de que, apesar de tudo, eu ainda tinha escolhas a fazer. Talvez não pudesse fugir do meu destino, mas ainda poderia encontrar uma maneira de não perder completamente quem eu era.