PASSAMOS DO PORTÃO E DARYL LEVOU JARED ATÉ SUA CELA. Pousamos no pátio do palácio e eu desci de Fire Flame, exausta. Assim como fizemos na casa de Victoria, ele enrolou seu longo pescoço ao meu redor e eu me aninhei nele, pronta para dormir.
— Cabe mais um nesse ninho? – Eu ouvi uma voz masculina e fiquei surpresa ao ver Thuban querendo entrar. Fire Flame abriu espaço e meu pai sentou-se ao meu lado, permitindo que eu apoiasse minha cabeça em seu ombro – Por 16 anos eu permaneci preso numa cela menor que este ninho aqui. Qualquer um teria enlouquecido, mas sabe o que me manteve são?
Eu neguei com a cabeça, prestando atenção na história.
— Você. – ele disse e eu não consegui conter um sorriso – A esperança de vê-la gloriosa, tomando seu lugar, aceitando Dracônia e todos nós.
— Sabe que não foi tão fácil quanto eu deixei transparecer. – confessei e ele prestou atenção – Tudo parecia errado, surreal. Parecia ter saído de um livro de fábulas, sobre dragões, reinos, Reis, pessoas com poderes. E uma grande parte de mim dizia para negar tudo e voltar para a realidade. – Eu fiz uma pausa – Mas outra parte sabia que era para aquilo que eu havia nascido. Liderar os Guardiões, montar o Fire Flame, derrotar Keelien. Eu sentia dentro de mim que tudo que eu havia vivido até então era a fantasia e que tudo que vivi desde o dia em que Fire Flame se revelou para mim era a realidade.
— Eu já me senti assim. Quando me tornei Rei.
— Pensei que você era o filho mais velho.
— Naquele momento eu percebi que teria que assumir grande responsabilidade e percebi o quanto eu teria que pagar por isso. Mas ainda assim, eu tomei meu lugar de direito.
— Há quantos anos você é Rei? – Por algum motivo, aquela pergunta me veio à mente.
— 20 anos. – Ele sorriu.
— E só 5 anos depois de ser coroado você e minha mãe tiveram um filho? – Ele respirou fundo e eu senti ter tocado numa ferida.
Fire Flame, fique atento aos pensamentos dele.
Já estou nisso. Fire Flame respondeu.
— Sua mãe não é a minha primeira esposa, Aurora. – Eu fiquei chocada, porém não surpresa. O que aconteceu com a primeira esposa dele? – Gaia, da Legião da Terra, era a minha Rainha e, logo após a minha coroação, houve um acidente com o dragão dela, Green Worm, e ela veio a falecer. O estrago foi tanto que não sobrou nada do corpo.
Consegui uma imagem de Gaia, mas tenta tirar mais informações dele. Fire Flame avisou.
Me sinto m*l fazendo isso. Confessei. Ele é meu pai, poxa.
Eu sei, sinto muito, mas é necessário se quisermos saber o que houve. Ele explicou.
— E vocês nunca tiveram filhos?
— Gaia e eu estávamos suspeitando que ela estava grávida, mas como eu acabei de contar, houve um acidente. – Ele falou – Se algum dia houve um bebê, ele não teve nem a chance de vir ao mundo.
— Sinto muito, pai. – Eu o abracei e ele retribuiu o gesto.
Já chega, eu não vou seguir adiante. Falei para Fire Flame. Olha como ele está arrasado.
Tem razão, Aurora. Ele respondeu. Contudo, preciso que pergunte de que Legião ela era.
Eu respirei fundo e tomei coragem.
— De que Legião ela era? Terra? – falei, simpática.
— Era a Guardiã da Terra. – Eu engoli em seco. Noah era o atual Guardião da Terra. Provavelmente ele nasceu logo depois que Gaia morreu – Por que tantas perguntas?
— Sou sua filha, quero saber tudo sobre você. – Eu consegui arrancar um sorriso com aquela meia verdade. Sim, eu queria saber tudo sobre ele, mas não era esse o motivo de eu estar perguntando tanto.
— Pode perguntar o que quiser, mas vamos mudar de assunto. – Ele praticamente implorou.
— Sim, sim. Bom... – eu tentei pensar em uma pergunta. Eram tantas que ficava difícil pensar em só uma – Meu avô, Egnar. Conte-me sobre ele.
— Está bem. – Ele me soltou e olhou em meus olhos verdes – O meu pai foi o homem mais sábio que já conheci, e eu conheci muitos homens. Ele conseguia dizer o que tinha no coração de alguém, só de olhar.
— Qual era a Legião dele? – Eu perguntei, curiosa. Sempre gostei das aulas de história sobre o meu país no Continente, mas as aulas de história de Dracônia são muito mais emocionantes, principalmente quando sua família faz parte dela.
— Legião do Ar. E minha mãe, Rhea, é que nem você, minha princesinha: da Legião do Fogo. – Aquilo me prendeu.
— Minha avó paterna é da mesma Legião que eu? – Eu sorri, animada – Mas onde ela está?
Ele ergueu o pescoço e apontou para algum lugar para frente.
— Nos Campos do Norte. – Eu notei que era a região menos habitada, tanto por dragões quanto por humanos – Lá é onde as Legiões do Fogo e da Morte vivem.
É onde os dragões da Classe Fogo e Morte vivem. Fire Flame respondeu à pergunta que eu não fiz.
Por isso não era tão povoada. A Legião do Fogo é rara e a Classe do Fogo está praticamente extinta.
— Na verdade, eu não tenho certeza de onde ela está. Quando a rebelião de Keelien aconteceu há 16 anos, minha mãe e seu dragão, Fire Bolt, lutaram bravamente, mas como todos da Classe Fogo, exceto o atual Rei dos dragões, Fire Bolt caiu. Não soube da minha mãe desde então. – Ele baixou o olhar. Não era algo que parecia machucá-lo tanto quanto o assunto Gaia.
— Por que não vamos atrás dela? – Foi a ideia mais louca que eu já tive.
— O quê? – ele indagou, sorrindo.
— Tô falando sério. Ela deve ter ficado escondida por todos esses anos.
— Se a rebelião de Keelien não a matou de desgosto, essa é uma possibilidade. – Eu podia ver o desejo de ir atrás de Rhea nos olhos de Thuban, tanto quanto o receio de ir atrás dela e não encontrá-la. Então ele se levantou – Bom, acho que está na hora de você se tornar uma Princesa.
Ele estendeu o braço e eu me levantei, tomando seu braço. Nós caminhamos até as portas do castelo e os guardas abriram para nós, sorrindo.
— Bem-vindo de volta, Majestade. – Um deles sorriu e curvou-se para Thuban.
— Obrigado, soldado. – Meu pai sorriu, cordial, como sempre – Gostaria de apresentá-los minha filha, Aurora Regner, Guardiã da Legião do Fogo, como a lendária Princesa de Dracônia.
Os dois guardas se curvaram diante de mim e eu abri um largo sorriso.
— Bem-vinda, Alteza. Estamos honrados com sua presença. – eles falaram e eu sorri de volta, dando um passo para dentro do castelo, juntamente de Thuban e ele me conduziu até um quarto onde minha mãe estava.
— Ellie, precisamos da sua ajuda. – Thuban falou e ela andou até nós.
— O que foi? – Ela cruzou os braços meio travessa.
— Mãe, você é uma Rainha. – Eu comecei – Pode me ajudar a me vestir como uma Princesa.
Minha mãe sorriu, orgulhosa.
— Eu vou fazer ainda melhor, Aurora. Vou lhe ensinar a ser uma Princesa. – Ela acariciou meu rosto e eu não pude evitar ficar nervosa – Mas por ora, vamos apenas nos ater às vestimentas.
Ela andou até seu closet e retirou um vestido roxo simples, mas refinado. Tinha mangas coladas e era um tecido leve e um espartilho levemente apertado, mas dava para o gasto.
— É perfeito para uma busca, querida. – Thuban comentou, sorrindo, mas minha mãe não estava satisfeita.
— Ainda não. – Ela acenou e o vestido mudou de cor, ficando vermelho. Ela sorriu – Agora sim.
— Sempre foi a minha cor. – eu sorri, admirando o vestido.
— Acho que agora você pode ter isso de volta. – Eu não entendi até ela estalar os dedos e eu perceber que uma de suas ilusões foi desfeita. A cor do meu cabelo.
Quando eu me transformei a primeira vez, não entendi por que ele se tornou ruivo e agora eu sabia. Essa era sua verdadeira cor.
— Por que você escondeu a cor do meu cabelo? – Eu já estava cansada de segredos.
— Seu cabelo é uma herança de Thuban. Quanto mais você soubesse sobre ele mais perigoso seria. – Eu apenas fechei a cara e fui vestir aquela peça de roupa.
Eu podia sentir a tensão entre meus pais enquanto me trocava no banheiro da suíte. Quando saí, Thuban sorriu, maravilhado.
— Você está linda, minha filha. – Ele me abraçou e beijou minha testa.
— Só vou colocar minhas botas e podemos ir. – Ele concordou com a cabeça enquanto eu calçava as botas – Pronto. Vamos.
Eu saí do quarto na frente dele e Thuban me seguiu até o pátio do castelo.
— Aurora, vá devagar! – ele pediu, dando uma breve corrida até mim – Sei que está magoada.
— É claro que estou! – Eu parei de andar e fiquei de frente para ele – Passei a minha vida inteira querendo saber sobre meu pai, e toda vez que eu fazia uma simples pergunta ela virava uma fera e brigava comigo. E agora eu descubro que nem o meu cabelo é como eu imaginei e ela nem se desculpa! Minha mãe pode dizer o que quiser, mas que perigo a cor do meu cabelo pode trazer?
Ele compreendia minha frustração, mas não sabia como me ajudar. Pelo menos o abraço dele já me acalma.
— Eu prometo que vou conversar com ela. – ele falou ainda me abraçando. Ele era tão alto que apoiava seu queixo na minha cabeça – Mas, mudando de assunto, acho que essa aventura juntos vai fazer bem para nossa relação.
— Eu também. – falei enquanto montávamos em nossos dragões.
Como se sente voltando para os Campos do Norte? Perguntei para Fire Flame.
É estranho voltar para lá. Eu deixei aquele lugar há alguns anos, que foi quando Quiet Death me expulsou de lá. Eu senti raiva de Quiet Death quando meu dragão disse aquilo.
Não se preocupe, eu estou aqui para você. Sempre vou estar. Eu acariciei o topo de sua cabeça e senti que seu coração se acalmou.
Quando chegamos aos Campos do Norte, alguns dragões rosnaram para nós, mas não fizeram nada. Como esperado, houve um murmúrio entre os draconianos.
— Bom dia a todos. – Thuban falou, meio sem saber o que fazer.
— É o Rei Thuban! Está de volta! – Uma mulher pouco mais velha que meu pai sorriu e ajoelhou-se perante ele – Seja bem-vindo de volta, Majestade.
— Levante-se. – ele pediu, sorrindo – Qual o seu nome?
— Hilda, da Legião do Fogo, Majestade. – Ela falou, com seus olhos cansados voltados para o Rei.
— Hilda, eu lhe apresento minha filha, aliás, apresento a todos vocês, Aurora Regner, Guardiã da Legião do Fogo, a lendária Princesa de Dracônia. – Meu pai me apresentou com um sorriso no rosto que eu compartilhava. Ele só aumentou após a multidão me receber com aplausos – Podem voltar ao que estava fazendo. Não tomaremos mais o seu tempo. Bom dia.
Com aquelas palavras, a multidão se dispersou e nós iniciamos nossa busca andando pelo vilarejo.
— Por onde começamos? – perguntei enquanto segurava o braço de Thuban, que me conduzia pela vila.
— Pela casa em que minha mãe morava com seus pais e seus... 5 irmãos. – ele falou e eu me engasguei na saliva, rindo.
— 5 irmãos? Caramba! Isso é que é casa cheia! – exclamei aos risos.
— Ela sempre contava que era difícil para seu pai e sua mãe sustentarem a família. Desde cedo eles trabalhavam. Meu avô era o mordomo do Príncipe Egnar e foi assim que ele conheceu minha mãe. – Eu não dei uma palavra enquanto ele contava a história – Minha avó trabalhava como costureira e vendia os mais belos vestidos para as Ladies de toda Dracônia. O dinheiro que ambos ganhavam era bom, mas não sustentava 6 filhos. Então, os mais velhos tiveram que trabalhar. Rhea foi trabalhar como criada da Rainha e foi assim que os dois se apaixonaram.
Ele fez uma pausa ao chegarmos na casa onde Rhea morou com seus irmãos.
— Meu pai lutou contra tudo e todos para ficar com ela. A corte não aceitava o fato de minha mãe ser uma plebeia, mas Egnar insistiu tanto que eles finalmente cederam. – Ele subiu na varanda e travou na hora de bater à porta – Espero encontrá-la.
— Sei como é ficar separada de um dos pais. – Eu coloquei a mão em seu ombro em sinal de apoio e bati na porta por ele.
Demorou um pouco, mas finalmente alguém abriu e, para nossa surpresa, era uma menininha de um pouco mais de 10 anos.
— Bom dia, querida. – Eu sempre me dei muito bem com crianças – Você sabe quem eu sou?
— Sim, você é a Princesa. – ela falou, tímida, e eu concordei – E você o Rei.
— Sim. Estamos procurando uma senhora. Poderia nos ajudar chamando seus pais? – Thuban falou e antes que a menina pudesse dizer algo, uma voz feminina falou de lá de dentro.
— Lydia, eu já disse para não abrir a porta quando eu estou ocupada! – A mulher que parecia ser um pouco mais jovem que Thuban, parou ao lado da menininha e parecia furiosa – Pode ser alguém que queria roubar você, quantas vezes vou ter que repetir?
— Alexa? – Meu pai olhou desconfiado para a mulher e só então ela prestou atenção nele. Seu queixo foi ao chão.
— Ah, meu Deus! Thuban! – Ela avançou para frente e abraçou meu pai. Quem era ela? – O que aconteceu? Todos pensaram que você e sua família estavam mortos!
— Nós sobrevivemos. Todos nós. – ele falou isso olhando para mim e ela imitou o gesto.
— Essa é sua filha? – Alexa me olhou de cima a baixo e sorriu – Se parece com você.
— Essa é a Princesa Aurora. Aurora, essa é minha prima, Alexa. – Ele nos apresentou e Alexa me abraçou. Quando ela me abraçou, senti uma pontada no peito, bem onde fica a joia da minha armadura. Então eu soube quem era ela.
— Você é do Fogo, não é? – perguntei apenas para ouvir o que já sabia.
— Sou, sim. Nasci e me criei aqui. O pai de Lydia é um da Lua, mesmo assim mora aqui. – Ela sorriu e só então se deu conta de que estava de pé – Ah, por favor, entrem, fiquem à vontade.
— Obrigado. – Thuban agradeceu e nós entramos, nos sentamos no sofá e esperamos.
— Querem alguma coisa? Água? Vinho? Rum? – Ela ofereceu.
— Na verdade, Alexa, eu estou aqui para encontrar a minha mãe. Há anos eu não sei dela e, bom, – ele olhou para mim, com pesar – Há anos que eu não sei de ninguém.
— Bom, você deu sorte. – Ela cruzou os braços e se recostou na mesa de jantar – Ela está morando com a gente, mas não está em casa agora. Durante o dia ela trabalha fazendo pão na padaria da vila.
Thuban se ergueu e eu o acompanhei.
Fire Flame? Eu chamei o meu dragão enquanto Alexa explicava para meu pai onde Rhea estava.
Estou aqui. Claro que estava, Fire Flame. Você sempre está aqui.