Capítulo 2 - Dracônia

2764 Words
UNS DIAS APÓS EU TER ME TORNADO UMA CAVALEIRA DE DRAGÃO, eu estava com uma amiga da escola, Victoria, na casa dela, pois não aguentava mais estar em casa. Depois da aparição do dragão, todos estavam com os nervos à flor da pele. Muita gente o havia visto e comentavam por toda a cidade, mas eu não ligava. Eu não vi mais Fire Flame e não conseguia me transformar sem ele. Pelo menos eu ainda tinha as habilidades que adquiri naquele dia. Na quarta-feira à tarde, eu, Victoria Camyl e mais duas amigas nossas, Nancy Menphis e Brooke Downey, fomos para o campo de futebol no nosso bairro para assistir aos jogos. Sentamos nas arquibancadas e, enquanto o jogo seguia, eu fui comprar uma garrafa de água nas barraquinhas embaixo das arquibancadas. Assim que peguei minha água, Victoria passou por mim. — Amiga, vamos comigo ao banheiro? – Ela me puxou pelo braço, sabendo que eu iria concordar. Ela foi ao banheiro e eu fiquei parada na porta, esperando. Era um banheiro muito pequeno para duas pessoas. Eu não pensava muito em Fire Flame, mas naquele campo de futebol eu não podia evitar olhar para o céu e imaginá-lo sobrevoando-nos, majestosamente. Era tudo que eu precisava. Que ele aparecesse e me levasse para longe. — Aurora? – Eu ouvi uma voz masculina do meu lado e ao olhar, percebi que era Jeremiah Bithencourt, meu ex-namorado, e Kelly Edwin, a menina que ele tratava como namorada, que ele já apresentou para a família, mas que oficialmente não era namorada. Nem eu nem minhas amigas gostávamos dela – O que veio fazer aqui? — Jogar golfe. – Eu debochei e ele abaixou a cabeça para rir, mas Kelly me olhou feio. Eu achava engraçado que ela gostava de se achar grande coisa, de falar que ia dar surra, que ia fazer isso, que ia fazer aquilo, quando na verdade ela era só uma menininha mimada e fútil – O que você acha que eu vim fazer aqui? — Desculpa, errei a pergunta. – Ele reformulou – Veio com quem? Kelly quase surtou. Ela o encarou com tanta força e raiva que eu fiquei surpresa. Dei risada da cara dela sem nem me preocupar com o que ela iria dizer e, antes que pudesse pensar em fazer algo, Victoria saiu do banheiro e já foi me puxando de volta para as arquibancadas. Depois de um tempo olhando o jogo, escureceu e no céu quase não se podia ver nada, mas eu jurei ter visto uma sombra cobrir o campo. Aquilo acelerou meu coração. Eu jurava que era Fire Flame. Assim que deu o intervalo e o campo ficou livre, a sombra desceu e revelou aquela fera vermelha majestosa. Eu pude perceber que todo mundo estava apavorado, mas como um dragão era algo que ninguém nunca tinha visto, estavam todos calados. Eu aproveitei o silêncio e dei um salto até o microfone do locutor. — Por favor, pessoal, fiquem calmos, ele não vai machucar ninguém. Por favor, não se movam. Eu cuido disso. – As pessoas pareceram aceitar a minha proposta até porque, por mais que nunca tivessem visto um dragão, sabem que gritar e deixar um agitado não é uma boa ideia. Eu voltei para o meu lugar, mas fiquei de pé, me destacando na multidão, que estava sentada. Fire Flame. Eu o chamei com o pensamento. O dragão me olhou e esticou seu longo pescoço por cima da grade até seu rosto chegar a mim. Conforme ele se aproximava, as pessoas iam se afastando, até minhas amigas, menos Victoria, que tentava fazer com que eu me afastasse. — Aurora, vamos embora! Por favor! – Ela me puxou pelo braço, mas congelou quando sentiu o bafo quente de Fire Flame no seu ombro. — Você sumiu. Por onde esteve? – perguntei em voz alta. Tive que voltar para casa. Esperava ter voltado com você nas costas. — Sinto muito. Ele voltou completamente para o centro do campo e virou de lado para mim. Venha. Vamos pra casa. Eu desejei me transformar naquela hora e para o meu espanto e de Victoria, foi o que aconteceu. — O que é isso, Aurora?! – Ela estava apavorada. — Eu explico em casa. – Me posicionei com um pé para trás e dei um salto, passando pela grade e caindo aos pés de Fire Flame. Ele virou-se de costas para mim e começou a içar voo, querendo que eu corresse atrás dele mais uma vez – De novo, não! Eu corri atrás dele ainda mais rápido que da primeira vez e só então percebi uma coisa: Fire Flame tinha várias correntes presas ao seu corpo, como se fossem acessórios. Uma delas voava bem perto de mim. Perto o bastante para agarrá-la. Fire Flame já estava no ar e eu também. Fui escalando a corrente até chegar no seu dorso. Ao olhar para baixo, pude ver Victoria correndo para alcançar Nancy e Brooke. — Me sinto m*l por deixá-la. – lamentei. Não se preocupe. Ela vai chegar bem em casa. — Como sabe? Nossa! – exclamei assim que um enorme dragão amarelo surgiu na nossa frente com um rapaz montado nele. Aurora, esse é Hélio, Guardião da Legião do Sol. — Essa é a garota? – Hélio perguntou, me olhando torto. Diga a ele que não. Fire Flame falou, mas eu sabia que não era comigo. Falou comigo? Perguntei por via das dúvidas. Não, falei com Sun Bolt, o dragão dele. Ele é da Classe Luz. Esse rapaz vai levar sua amiga até em casa. Fire Flame falou. — Victoria nunca vai montar um dragão, mesmo que de carona. – falei tanto para Hélio quanto para Fire Flame. — Ela vai se você disser. Siga-me. – Hélio e Sun Bolt mergulharam, voltando para a cidade para levar Victoria para casa. Estávamos sobrevoando os arredores do campo de futebol quando a avistamos indo embora sozinha. — Sun Bolt irá pegá-la. – Hélio disse. — Não! Pode machucá-la e se voar baixo demais vai acabar destruindo os prédios e casas ao redor. – Eu o impedi de pegar Victoria. — E daí? Eu não conseguia acreditar na insensibilidade daquele garoto. — E daí que pessoas moram e trabalham aqui! – respondi com raiva – Vamos pousar nas proximidades. Eu falo com Victoria. Eles me obedeceram sem questionar e assim que pousamos, eu corri até minha amiga e lhe segurei pelos ombros. — Victoria, acalme-se! – implorei e ela respirou fundo, olhando em meus olhos – Esse é Hélio. Ele vai levar você para casa. — Não vou montar em um dragão! — Victoria, por favor. Nada de r**m vai te acontecer, eu prometo. – Estiquei a mão para ela – Você confia em mim? Ela olhou relutante para a minha mão estendida, mas eu conhecia minha amiga. Ela era curiosa por natureza. Ia aceitar montar no dragão e conhecer a experiência. Então ela pegou na minha mão e eu sorri. — Hélio vai levar você para casa. Eu vou com Fire Flame para... – olhei para meu dragão, esperando que ele me dissesse para onde estamos indo. Para casa. — Vou com ele conhecer um lugar, mas eu prometo que até o amanhecer eu estarei de volta. – assegurei e ela sorriu de canto, me abraçando. — Tome cuidado e divirta–se. – ela pediu, subindo nas costas de Sun Bolt logo atrás de Hélio. O dragão da Classe Luz também tinha correntes acopladas a seu corpo, às quais o Guardião do Sol se segurava. Assim que estávamos todos devidamente montados em ambos os dragões, Hélio pediu que Victoria se segurasse e assim, partimos para lugares diferentes. Fire Flame foi para cima novamente, indo em direção aos céus. — Fire Flame, para onde estamos indo? – eu tomei coragem e perguntei. Para Dracônia, ele respondeu e, ao ver que não significou nada para mim, ele explicou melhor. Dracônia é o reino em que vivo, composto por dragões. É onde todos os cavaleiros de dragão nascem, vivem e morrem. — Como funciona esse reino? Vocês são amiguinhos dos humanos? – Eu ri e ele concordou. Basicamente. Ele não parava de subir em direção às estrelas. Quando um cavaleiro nasce, lhe é imediatamente dado uma habilidade, um poder. O dos membros da Legião do Sol, por exemplo, têm o poder do Sol. Hélio é diferente, além de ter o poder do Sol ele é o Guardião o que o torna mais poderoso que os de sua Legião. — Continue. – Sempre adorei uma boa história. Quando um draconiano recebe seu poder, no mesmo momento um laço entre draconiano e dragão é criado. Chamamos de Ligação. Quando ela acontece, sabemos que aquele será o cavaleiro daquele dragão. Quando ele explicou tudo fez sentido. Menos uma coisa: — E eu? Como é possível você estar ligado a mim? – Talvez fosse um acidente. Talvez Fire Flame tivesse ficado tempo demais sem um cavaleiro e saiu desesperado em busca de um. Estamos conectados há 16 anos, Aurora. — Por quê? – Eu tinha medo de sugerir o óbvio principalmente porque tinha medo de ele concordar. E ele ia concordar. Porque você é de Dracônia, Aurora. Não ficou óbvio? Eu não respondi. Queria com todas as forças discordar, mas eu não podia. Fire Flame poderia dizer que eu era homem e eu iria concordar. Tudo que ele me dissesse eu tomaria como verdade, porque fazia sentido. Por mais absurdo que seja eu ser de Dracônia, fez total sentido. Se apenas draconianos podem se tornar cavaleiros de dragões e eu era uma, então algo estava errado. Assim que voltarmos de Dracônia minha mãe vai ter que me dar alguma explicação. Não seja muito dura com ela. Eu o olhei surpresa. Como ele sabia o que eu estava pensando. Telepatia, lembra? Peço que não seja muito dura com a sua mãe. É possível que ela nem saiba quem você é, se for adotada. — Eu não sou adotada! – protestei. Não que eu fosse parecida com ela, mas eu sentia que era algo mais – Fire Flame, se eu sou uma cavaleira, isso significa que minha mãe também é? Para ser uma draconiana você tem que ter pelo menos um dos pais de Dracônia e tem que nascer lá. Quem quer que seja, seu pai draconiano nasceu lá, assim como você. Ele contou e então parou de voar, apenas planando no ar. Hélio está vindo. Eu observei a cidade e logo avistamos a enorme criatura amarela vindo em nossa direção. Quando ele nos alcançou, continuamos a seguir em direção a Dracônia. — Ela chegou bem? – perguntei me referindo a Victoria. Ele me olhou meio aéreo por alguns segundos e concordou lentamente – Ok. Não acredito. Fire Flame riu. O que foi? Perguntei em pensamento. Eles se beijaram. Eu olhei para Hélio, confusa. — Você beijou a Victoria? — Como sabe?! – Ele estava nervoso, como se nunca tivesse feito isso. Ele olhou para seu dragão e deu um tapa nele – Sun Bolt! O que eu já disse sobre ler meus pensamentos perto de outros dragões? — Não brigue com ele! Não tem nada demais. – Eu revirei os olhos. Draconianos são estranhos então resolvi mudar de assunto – Como chegamos lá? Seguimos em direção à segunda estrela e logo estaremos em Dracônia. Ele falou e eu não pude evitar o riso. Do que está rindo? — Então Dracônia fica na Terra do Nunca? — O que é Terra do Nunca? – Hélio perguntou. É sério, eu sei que ele vive em outro mundo, mas como não conhece a Terra do Nunca? Já vamos passar o Portão. Aurora, é melhor se segurar! Eu o obedeci, me agarrando nas correntes com força. Quando senti uma força invisível tentando arrancar a minha alma do meu corpo eu soube que havíamos passado o portão. Aurora, pode abrir os olhos e bem-vinda a Dracônia! Quando o meu dragão falou comigo eu soltei as correntes, abri os olhos e fiquei imediatamente perplexa. Era um paraíso! Montanhas rodeavam o centro de Dracônia, que era como um buraco, porém, tanto nas montanhas quanto mais além, havia casas e prédios e o principal: dragões. Eles estavam por toda parte, tanto no ar quanto na terra, e havia muito, mas muito mais dragões do que humanos. Claro, isso porque cada vez que os dragões têm filhotes vêm sempre muitos. O que mais me chamou atenção foi que bem no meio de Dracônia havia um castelo com um dragão preto e cheio de cicatrizes agarrado no topo da torre. Eu olhei nos olhos dele e não senti uma boa energia. Ele parecia que queria me eliminar. Aquele é Quiet Death, da Classe Morte. Ele é o dragão do Rei e Rei dos dragões. Fire Flame contou ao perceber que eu me apavorei ao ver um dragão como Quiet Death. — Você não me disse que Dracônia era comandada por um Rei. Todas as sociedades precisam de um líder. Vocês não têm um presidente? É quase a mesma coisa. Ele falou enquanto descíamos devagar. — E não me falou que você tinha um Rei. – Na mesma hora o meu dragão se mexeu e uma das correntes me acertou – Ai! Por que fez isso? Quiet Death é um tirano! Faz o que quer com os dragões apenas porque está com vontade. Ele se aproveita do fato do Rei Keelien Regner ser o cavaleiro dele. Quiet Death não é meu Rei e nunca será. Ele pode ter controle sobre os outros, mas não sobre mim. Fire Flame realmente se zangou muito com Quiet Death, mas tem algo que não consegui entender: se ele é Rei dos dragões, Fire Flame deveria obedecê-lo, certo? — Por que não? – perguntei e Hélio suspirou. Ele podia ouvir o que eu perguntava e Sun Bolt o que Fire Flame respondia. Os dragões da Classe Fogo não obedecem a ninguém. Mesmo que seja o Rei. É como uma imunidade, mas talvez tenha a ver com o fato de sermos indomáveis e líderes natos. Por séculos, os dragões como eu foram os Reis. Até a Classe Morte acabar com todos nós. Eu apenas sobrevivi porque era um filhote e a Rainha me escondeu no castelo. Ele contou, triste e nostálgico. — Sinto muito. Mas, ei, agora você não está mais sozinho. – tentei animá-lo – Agora somos uma equipe! Eu imaginei que ele estivesse sorrindo, mas não me disse nada. — Vamos pousar! – Hélio avisou e foi na frente, pousando próximo ao castelo. Nós pousamos ao seu lado e eu pulei do dragão na mesma hora. Minhas pernas doíam. — Olha, Fire Flame encontrou sua cavaleira! – As pessoas começaram a se aglomerar ao nosso redor. Pessoas de todas as idades, mas principalmente crianças e idosos. — Em que parte de Dracônia você mora, minha jovem? – Uma senhora segurando um ovo de dragão perguntou a mim. Lá vamos nós. Meu dragão avisou. — Não moro em Dracônia, não, senhora. – Eu falei educadamente e todos exclamaram surpresos. — Você vem do Continente? – Um homem de 30 e poucos anos perguntou, apavorado e eu assenti – Isso não é possível! — Devemos levá-la ao Rei Keelien! – Ouvi alguém dizer e a aglomeração foi crescendo. Fire Flame, o que está acontecendo? Eu perguntei, nervosa. Fire Flame! De repente, senti algo pesado e afiado segurar meus braços e me levantar do chão. Olhei para baixo e a multidão estava me procurando, mas Fire Flame estava voando em nossa direção, com muita raiva. Solte-a agora, Quiet Death! Fire Flame rugiu para o Rei. Não. Não antes do Rei decidir o que fazer com ela. Eu olhei tanto para um dragão quanto para o outro. — Eu posso ouvi-lo! – exclamei, e ele bufou. Claro que pode. Eu sou o Rei dos dragões! Todos devem me ouvir! Eu estou avisando, Quiet Death, solte-a! Eu nunca vi o meu dragão com raiva. Ele não parecia mais tanto uma criatura majestosa e, sim, uma fera perigosa, porém, não para mim. Lembre-se de que eu sou seu Rei, Fire Flame, e não o contrário. Você vai me obedecer nem que seja a força! Já chega. Se ele não ia me soltar então eu mesma iria fazer isso. Eu consigo, pensei, sou uma draconiana. Me estiquei para pegar a minha adaga na altura do tornozelo e com dificuldade consegui. Quando fechei o punho no cabo da adaga, espetei sua lâmina nas patas de Quiet Death. Ele urrou de dor e me soltou, fazendo assim, eu cair em direção à morte.
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