- Vai dormir o dia todo mesmo? - A voz alta de Rubinho me arranca abruptamente do meu sono, conseguindo dessa forma, fazer com que meu coração desse um pulo e acelerasse - Tô com fome. Levanta aí - Dito isto, ele se afasta.
Respiro fundo pela boca, encarando o teto do quarto antes de levantar.
Aquela casa antes de Rubinho, era grande demais apenas para mim. Agora com a presença ameaçadora dele, a sensação que tinha, era que o lugar havia encolhido e que era pequena demais para nós dois.
Quando saio do quarto, a casa estava um verdadeiro pandemônio. O lugar que nos últimos meses, sempre estava limpo e arrumado, já que fazia questão apenas de limpar uma vez por semana, apenas o quê sujava e o que tinha mais urgência, por exemplo o banheiro; agora parecia que nunca havia sido limpo.
A louça na pia havia simplesmente duplicado. As portas dos armários estavam abertas e a porta da geladeira entre aberta, os vasos de água completamente secos em cima da pia e no chão. O balcão estava completamente sujo com migalhas, além das sacolas que disputavam espaço.
O chão antes limpo, agora estava imundo. Havia barro por toda parte e uma bagunça que tinha certeza que não estava ali, antes de eu ir deitar.
Ele abre a geladeira, procurando alguma coisa.
- Não tem mais água gelada - comenta, pegando um dos meus danones de chocolate, antes de se sentar novamente no meio daquele caos, em frente a tv, como se tudo ao seu redor estivesse em perfeito equilíbrio.
- Poderia pelo menos, encher os vasos da água - digo forçando minha voz a soar gentil.
Ele me olha.
- Sai fora, Marcela. Isso é trabalho de mulher, não é de homem não.
- Custa nada você me ajudar - rebato.
- Ih, que nada. Faz aí vai - diz se acomodando mais no sofá.
Olho para o quarto, aonde minha arma continuava em baixo do travesseiro. Lutando contra o lado que queria pegar aquela arma e simplesmente descarregar em Rubinho, ali mesmo; o que estragaria meu sofá na certa.
Fecho meus olhos com força, inspirando profundamente, começando a encher os vasos, para só depois, começar a dar um jeito em toda aquela louça.
Perdi pelo menos duas horas da minha vida, limpando e arrumando aquela bagunça. Rubinho ficava se inclinando de um lado para o outro, quando passava na frente da tv, empatando sua visão.
- Se tu passar de novo na minha frente, quebro suas pernas - Ele ameaça.
- Estou limpando - digo indignada.
Ele aponta o dedo indicador para mim.
- Já dei o aviso.
Para terminar de passar pano na sala, tenho que me curvar o máximo que posso, para não ficar na frente da tv, conseguindo dessa forma, uma dor em baixo dos s***s por causa da pressão na barriga.
Quando finalmente termino, estou completamente suada. Meus pés haviam inchado drásticamente e a dor nas costas estava persistente.
- Tô com fome - Rubinho anuncia pela segunda vez.
Abro o freezer, encontrando o que sempre me salvava. Comida congelada.
Coloco uma costela suína com molho barbecue para descongelar, esperando impaciente o processo, já me imaginando cheia de sabão dentro do boxe do banheiro.
Mal espero o microondas terminar de apitar e tiro o prato pronto de seu interior, o colocando sob um prato.
- Está pronto - digo atraindo a atenção dele.
Rubinho levanta no mesmo instante, vindo até mim, olhando com expressão de desaprovação a comida em sua frente.
- Que p***a é essa, Marcela?!
- Não disse que estava com fome?
Com um movimento rápido, ele joga a comida na parede com prato e tudo. Assustada, dou um passo para trás.
- Já disse pra tu começar a cozinhar!
- Só que eu não sei cozinhar e não sou obrigada a aprender por causa de você! - Respondo no mesmo tom, fazendo com ele franza o cenho.
- Tu fala baixo comigo.
- Digo a mesma coisa - Rubinho segura de repente meu queixo, apertando - ...está me machucando - digo entre dentes.
- É pra machucar mermo - responde num tom ameaçador - É melhor tu aprender a me respeitar, se não vai sobrar pra você - Ele balança minha cabeça com força - Tá me entendendo? - Não respondo. Apenas sustento seu olhar com os lábios pressionados com força - Tô falando com você, p***a!
- Já entendi! - grito. Ele estreita mais a mão.
- Então vai pra p***a desse fogão e cozinha algo que preste. Se não esfrego sua cara nesse fogão - Me soltando abruptamente, me olha por alguns segundos, antes de voltar para frente da tv, deixando para trás toda a comida que espalhou - E nem pense em jogar essa comida fora - diz quando começo a limpar a sujeira - Tu não gosta dessa porcaria? Então. Vai comer. Tudinho - Engolindo em seco, termino de limpar o chão.
Em frente ao fogão, usando o celular, sigo uma receita para um macarrão. Não me parecia difícil, quando basicamente só precisava juntar o macarrão, o molho e temperos, em uma panela de pressão com um pouco de água.
Mentalmente torcia que desse certo. E deu, depois de quase vinte minutos no fogo, o macarrão saiu completamente cozido e já temperado, faltando apenas servir em um prato e levar até Rubinho.
Ele olha demoradamente o prato, antes de pegá-lo da minha mão, dando uma boa garfada no queijo e presunto que havia misturado com o macarrão.
- Vai aonde? - pergunta quando dou as costas para ele.
Me viro, fazendo minha voz soar mansa ao falar.
- Tomar banho, Rubinho.
- Hum. Tá. Vai lá.
Entro no banheiro, me sentando na privada, após me trancar dentro do banheiro. Interiormente, tremia de raiva. Ódio, para ser sincera.
Aquele filha da puta...!
Que p***a ele estava achando que ele era? Rei do Egito? Rei da cocada preta?!
A vontade de meter uma bala bem no p*u dele só crescia e nada me garantia que não faria aquele benfeitoria.
Não estava escrito escrava na minha testa. Pelo contrário. Não nasci para ser escrava de ninguém, muito menos para um traficante pé de chinelo.
Foi no momento em que estava me mordendo de raiva, que meu celular vibra sobre o lavatório e me inclinando sobre o mesmo, noto uma mensagem de Guilherme.
Você estava certa.
Digito sem paciência.
Com o quê basicamente?
Este cara, Rubens, já conhece o Gael há um bom tempo.
Como assim?
Você sabia que seu namorado ele foi adotado?
Ex. E não. Foi adotado por quem?
Encaro a tela do celular, esperando pela resposta.
Por Josiane Ferreira da Silva.
Mas...
Meus olhos vagam ao redor, enquanto tentava entender aquela nova informação.
Como assim? Quando?
Em 2005. Gael tinha 15 anos na época. Teoricamente dois anos depois que ela adotou o Rubens.
O quê foi que ele fez para ir parar num orfanato?
Nada.
Ergo uma sobrancelha, esperando que ele continuasse.
Ele tinha 8 anos quando a mãe dele tentou matar o pai. Ela foi presa. Como não tinha nenhum parente pra se responsabilizar, ele acabou no orfanato. Os crimes vieram depois, que ele foi adotado.
Gael havia passado oito anos em um orfanato, vendo crianças sendo adotadas, até ser adotado. Oito anos.
E a mãe dele? Aconteceu o quê com ela?
Atualmente está em condicional. E antes que praticamente exija, já tenho o endereço dela. A pergunta é: será que ela está escondendo ele?
Me colocando no lugar dela, me via fazendo isso. Havia passado oito longos anos longe do meu filho, na primeira oportunidade que pudesse para protegê-lo, protegeria sem hesitar.
Ela sabe onde ele está.
Digito convicta.
Tomara que esteja certa, de novo.
Em seguida ele manda o endereço, que precisaria jogar no Google Mapas para chegar até la.