Agarro a mesa, tentando me acalmar, olho para baixo e passo uma borracha por alguns desenhos feitos a lápis, para disfarçar.
─ Alguém sabe acender essa porcaria?! - exclama a professora.
─ Vou eu, professora. - Não sem antes rir gostoso dos apuros dela, outra vez; diz o moreno, se levantando.
Vejo como ele se ajoelha no chão em modo cavalheiro e começa a olhar os fios do computador. Ele os estica, olha por baixo, verifica se eles estão juntos. Estou vendo esses braços se movendo dentro do leve afrouxamento da sua camiseta preta.
Está todo mundo olhando para ele.
Abro um sorriso ladeado.
─ Era só a CPU, professora. - diz o moreno após apertar o botão, com cara de tédio. Ele se levanta e volta para o seu lugar enquanto todos dizem "Ah, fala sério!" ou coisas do tipo. A professora está envergonhada. Ele fica rindo após ver a reação dos outros alunos.
─ Enfim... - A mulher tenta se recompor, e vai respirando melhor pouco a pouco. - Vamos começar fazendo uma introdução dessa matéria.
Aos poucos todos vão ficando em silêncio, prestando muita atenção, concentrados.
Ouço um último sussurro:
─ Eu vou te fazer uma introdução.
Olha que malicioso.
A frase saiu desse palhaço que está aí sentado na minha frente. Ele nem está falando com ninguém. Só está zoando.
Decido me concentrar também.
Até o final.
Faltando pouco para acabar ela começou a fazer a chamada. Essa matéria é obrigatória, e as faltas podem causar expulsão, ou obrigar-te a repetir de ano.
Eu fiquei prestando atenção para ouvir o nome dele.
─ Malvina?
─ Presente. - Respondo.
─ Fulano, Ciclano, Beltrano?
─ Presente, presente, presente.
─ Armando? - ela pergunta.
─ Presente. - Responde, Armando, levantando a mão.
Que nome horroroso.
Ainda assim, acabo de sentir cócegas na minha perseguida ouvindo sua voz.
Será que este é o irmão do André?
O irmão hétero do André?
Que delícia.
Acabo de pintar a paisagem que estou fazendo na Tablet, corada, às vezes levantando os olhos e passeando-os por suas costas.
Nossa...
Eu amo esse biquinho que a ponta do cabelo dele faz na nuca.
A aula acabou.
Todo mundo está começando a recolher.
─ Ei... - o cutuco. Minha voz sai tão baixa, que acabo tendo que repetir. Inclusive cutucá-lo de novo. ─ Ei! - exclamo.
Quando ele finalmente me olha, coro inteira.
─ Você é o irmão gêmeo do André, não é? - pergunto, abrindo um sorriso para disfarçar meu nervosismo.
Seus cílios são profundos, intensamente negros.
Tem uma mancha numa das suas bochechas, um arranhão, acho que ele acabou de se coçar agora a pouco.
Isso deixa ele meio doido, mas muito engraçado. E até mesmo sexy.
Começo a rir baixinho.
Vejo ele abrindo um sorriso ladeado. Muito, muito sensual, ao me ver rindo.
─ Sou eu sim. - Ele fica calado, alguns segundos, me olhando com esse sorrisinho. ─ Vocês são amigos? - pergunta Armando, de um jeito calmo.
Fico alguns poucos segundos pensando.
Logo assinto, confiantemente.
─ Oh, sim. Claro que sim. - Sorrio, rindo um pouco mais.
─ Mm. - ele se gira completamente e apoia os dois braços na minha mesa, me olhando com esses olhos enormes que se submergem nesse cabelo preto, nessa pele branca, formando um conjunto muito chamativo.
Excitante, é.
Sexy, o cara...
─ E você é nova aqui, não? É seu primeiro ano, não é? Eu estou repetindo. - Ele faz as primeiras perguntas primeiro com segurança. E logo ri ao confessar que é repetente.
─ Sim, sou. - Respondo, ainda meio vermelha. ─ Ah, mas não se preocupe. É sempre bom ter uma "voz da experiência" por perto. - Digo, amavelmente.
Ele não para de olhar meu rosto.
E pode que eu esteja alucinando, mas percebi o músculo do seu lábio se movendo um pouco mais para cima - o músculo responsável por esse sorriso pícaro.
─ Claro... A "voz da experiência" experimentou, conferiu, contrastou dados... - tenho uma leve impressão de que ele está sendo malicioso, e de que, além disso, se diverte me deixando na dúvida.
Acabo rindo e desviando o olhar momentaneamente.
─ Mhuhm. - Ri Armando, baixinho, um tanto sacana. ─ Escuta... Se precisar de alguma coisa, qualquer coisa mesmo. - Dessa vez sinto que ele fala sério. ─ Pode me perguntar. - Ele toca seu peito. ─ Como eu disse, eu já repeti. Então praticamente já sei tudo o que há que fazer para aprovar. - Afirma, erguendo as sobrancelhas.
─ O quê? - pergunto, docemente.
─ Pois... Puffffff.... - Ele começa a rir. Parece que ia tentar ser sério e não conseguiu. - Dar um beijo grego nos professores. Lamber as botas deles, pagar um bola-gato na diretoria... Essas coisas... - Armando começa a ter uma crise de risos. E fico com vontade de bater nele, enquanto rimos juntos.
─ Agora, sério! - falo, me recompondo.
─ Sério? - ele vai parando de rir aos poucos. Respira controladamente e me olha bem nos olhos, sério. c*****o. Safado. Você está tentando ser sexy? Se não estiver nem sequer tentando, tenho que dizer que você é bem gostoso. ─ Ok, hm. Sério. - Ele diz, com uma voz firme. É um timbre cálido, assertivo. E sério. ─ Você não pode faltar nenhum dia. Trazer os materiais sempre. E, preferivelmente, e mais importante de tudo, fazer com que os professores gostem de você.
─ O que você quer dizer com isso? - pergunto, atenta.
─ Quero dizer que... - ele para de ser tão sério e abre um sorrisinho. ─ Deixa, eu ia dizer uma coisa irrelevante. - Armando sorri, maliciosamente agora.
─ Bom, agora termina de falar. - Insisto, me aproximando.
─ Com essa carinha de anjo que você tem... eu não tenho que te aconselhar a não ser brincalhona durante as aulas, não é? Eu tenho certeza de que você presta atenção, como uma boa garota. - Ele sussurra.
Pisco algumas vezes, enfeitiçada.
Parece haver uma aura de maldade e prazer no que ele está dizendo, e não entendo o porquê.
─ Mm... - Murmuro. - Você acha mesmo que eu sou boa? - ergo uma sobrancelha, ainda corada.
─ Mhuhm. - Ele me olha, com ternura agora. É como se eu fosse algo muito fofo bem na frente dele. - Eu tenho certeza. - Afirma Armando, mediante um sussurro.
* * *
O primeiro mês na Escola de Arte foi tranquilo. Eu e Elisa íamos conhecendo várias pessoas legais e interessantes. Eu sou amiga dos gêmeos, Armando e André.
O Armando sempre me faz rir durante as aulas, e sempre me ajuda quando eu tenho alguma dúvida sobre desenho. Ele é bem talentoso.
O André é o amigo gay que todas sonhamos em ter.
E logo está o Casandro, um cara um tanto sarcástico e desagradável, mas que sempre treme as minhas veias cada vez que fala comigo. E Luíz, seu melhor amigo, e ex-namorado de Elisa. O Luíz vive no mundo dele. Sempre está escrevendo. Às vezes sinto vontade de conversar com ele devido a esse passatempo que temos em comum, mas me dá muita vergonha.
E também... Há um certo cara que se chama Daniel que, não sei por que, me lembra bastante alguém.
Tentei não t*****r com várias pessoas esta temporada, mas estou realmente mudando de ideia. Preciso de um pouco de aventura. Fazem uns quinze dias que eu não tenho nenhuma.