I. Maré de Mudança

2176 Words
— Nós não sobreviveremos, se ficarmos… você… vai… gostar! Vamos a um lugar muito bonito. — Minha mãe dizia, com um esperançoso sorriso no rosto, enquanto caminhávamos. Ela estava agitada. Após algum tempo quieta, estranha, surgiu com a ideia de irmos embora. Dizia que buscaríamos prosperidade em qualquer lugar onde não estivéssemos fadados ao erro, às falhas. Caminhamos por muito tempo, muitos dias e noites, até finalmente avistarmos o porto. Havia uma fragata aportada. Eu fiquei particularmente abismado. Era a primeira vez, frente a um navio… a primeira vez frente ao mar. Sentamo-nos na areia para ver o sol nascer à beira-mar e comer algumas frutas que pudemos comprar no caminho. Eu estava espantado, admirado, hipnotizado, observando a vastidão do mar, mesmo não entendendo o quanto era maior que a ínfima parcela que os meus olhos infantis conseguiam enxergar. Algo, olhando na sua direção, fazia-me querer ir para lá. Como a sensação de que ir, me levaria a um lugar que eu precisava conhecer… a um lugar que, com certeza, seria muito acolhedor para mim… ou comigo. — Aqui é realmente bonito, minha mãe! — Sorri, tentando imaginar como era possível algo como aquilo existir. — Ainda não chegamos. — Ela disse, rindo. — Tomaremos aquela embarcação. — Minha mãe apontou para a fragata. — Ela atravessará a água e nos levará para onde o seu pai nasceu! — Conhecerei o pai? Ela silenciou, deixando claro que a pergunta a incomodou. Zeloso, não insisti, só voltei a comer e, terminando, só fui criança. Aproximei-me da água curioso com o som, o cheiro. — Não beba da água é salgada! — Minha mãe gritou, ao longe. Sempre fui obediente, o tempo que sobrevivemos juntos me fazia admirá-la. Era Allah sobre a minha cabeça e ela ao meu lado! Não bebi da água e até tomei cuidado para não me molhar, afinal se não era seguro beber, o contato não tinha como ser — ou esta foi a lógica infantil que consegui aplicar. Corri pela praia, ocasionalmente perdendo-me parado, fitando o mar, novamente hipnotizado por ele. Somente ela cessou a minha brincadeira quando se levantou, olhando na direção do navio, aproximei-me, preocupado. — Voltarei logo, comporte-se! — Ela disse, deixando-me. Assenti, aproximei-me um pouco, mas sentei em um dos bancos no porto para voltar a perder-me na visão do mar. Não sei quanto tempo ela demorou, mas voltou com um sorriso muito bonito… um sorriso que me contagiou! Talvez o primeiro grande sorriso da minha vida. — Podemos ir? — Ela perguntou, estendendo-me sua mão. Assenti e a abracei. Terna, ela retribuiu o abraço, tomou a minha mão e seguimos à embarcação. Seis homens trabalhavam no convés. Apesar de preocupado com a presença de desconhecidos, eu estava muito mais maravilhado por conseguir sentir a embarcação dançar sobre a água. Desliguei-me da euforia quando a senti apertar levemente a minha mão. O estado de alerta fez-me olhar ao redor e um rapaz aproximou-se, chamando a minha atenção. Disse algo que o meu péssimo inglês impediu-me de entender. — Thank you! — Foi a resposta da minha mãe, sorrindo. Julguei que tudo estava bem. O mesmo rapaz nos acompanhou ao interior da embarcação, num corredor que cheirava a maresia e madeira recém-encerada. Ele abriu uma das portas, que parecia pesada, e mostrou-nos um aposento razoavelmente limpo — melhor que muitos lugares onde já tivéramos o desprazer de dormir! —, porém, bagunçado. O rapaz nada disse, apenas saiu. Minha mãe sentou-me à cama e ajoelhou-se à minha frente, olhando-me nos olhos, e disse: — Mamãe precisará trabalhar, então precisa comportar-se! — Sim, senhora! — respondi. — Quem são eles? — Amigos que nos levarão para o lugar melhor que falei. — Prometo que me comporto! — Estarei fora do quarto a maioria do tempo… mas, você precisa ficar aqui. Voltarei para averiguá-lo com certa periodicidade, tudo bem? — Sim, senhora. Salaam Aleikum, mãe! — Aleikum Essalam, meu amor. — Ela respondeu, com doçura. Aconcheguei-me na cama e a observei sair. Passeei com os olhos pelo cômodo e a madeira parecia velha, não havia nada para realmente chamar a minha atenção. Fui, primeiro, um bom filho e lidei com a desordem do local — o que não demorou — e ao terminar, deitei-me. O balanço suave da embarcação tornou o incômodo ranger de uma madeira solta, uma canção de ninar e levou-me ao sono. *** — Meu amor… — Minha mãe chamou, acariciando o meu rosto. — Boa noite, mãe. — Sorri, a abraçando. — Já é noite!? — Sim. Precisa comer, depois pode voltar a dormir. — O balanço ainda não parou!? — reclamei, enjoado. — Não parará, amor… é água. — Ela sorriu e saiu comigo. A cozinha era um cubículo, mas vazia — segundo a minha ótica infantil — era enorme. Devido ao enjoo comi pouco. Terminando, ela cuidou de devolver-me à cabine onde dormi, um sono mais profundo, afinal ela estava comigo. Acordei no meio da noite e estava só. Um incômodo som de fricção na madeira perturbou a noite. Eu estava preocupado com ela, mas obediente, a aguardei. Demorou para ela chegar e se deitar ao meu lado. Ela dormiu pouco e, logo, voltou a sair novamente. *** Isto tornou-se rotina por alguns dias. Claro, permanecer no quarto tornou-se entediante. Entendi que ela saía no meio da noite e de manhã voltava para ter as suas poucas horas de sono. Dia após dia, o seu semblante voltava mais cansado e gradualmente, os meus infantis olhos perceberam que não era bom! Num primeiro momento, não perguntei para não a preocupar, na esperança de ser coisa da minha cabeça; mas as olheiras, os ombros pesados… aquilo não era normal e um dia, acariciando as rugas evidentes no seu rosto, a perguntei: — A senhora está bem, mãe? Ela abraçou-me e com tranquilidade na voz respondeu: — Sua mãe está ótima. Só tem muito trabalho, logo passa. — Se quiser, posso trabalhar e a senhora descansa. — Foi a melhor coisa que pensei naquele momento, tentando poupá-la. Ela abraçou-me, senti o seu peito tremer e ouvi um soluço, entravado na sua garganta. Antes que eu perguntasse, ela disse: — Amo-te muito! Que tal um banho? Não neguei. Aproximei-me e a abracei bem forte, tentando mostrá-la que eu estava ali, e deixamos o quarto. No corredor, um dos homens passou e a acariciou no rosto. Senti o seu corpo tremer e ela apertou a minha mão, o que me deixou aflito, aumentou a preocupação e pôs-me em prontidão. — Mãe? — chamei. — Meu amor… — Ela respondeu, cantarolando com doçura. Ao entrarmos no banheiro, ela fechou a porta e a ajudei a tirar a roupa, a ajudei a sentar-se — aquele era, até então, o lugar mais limpo que tinha na embarcação. Mesmo aflito, tentei sorrir buscando contagiá-la com alegria. — Posso banhar a senhora — ofereci. Ela aceitou com um tímido sorriso, abraçou os joelhos e fui zeloso. Ajudei com o banho, penteei os cabelos, como quando ela chegava exausta do trabalho. Infelizmente, tive trabalho para lidar com a desordem que as minhas mãos pequenas causaram. Ao fim do banho, tentei ajudar com a roupa, mas após falhas tentativas que a fizeram rir, rendi-me. — Posso… sair… do quarto? — pedi enquanto seguíamos pelo corredor. — Serei comportado… e a senhora sabe. — Precisa comportar-se. Não entre nestas portas! — disse ela, apontando para as outras cabines. — Só suba acompanhado! — Chamo a senhora. Será que estamos chegando? — Queira Allah que sim, meu amor! — Ela suspirou, transparecendo cansaço, enquanto subíamos ao convés. Após algum tempo sem contato com o sol, os olhos doeram quando foram banhados por seus raios novamente. O pouco que observei, naquele primeiro momento, olhando ao redor, foi o intenso brilho do sol sendo refletido na água. Alguns homens pescavam, alguns manuteniam o convés. — Não solte a minha mão. — Minha mãe instruiu, atenciosa. Assenti. Com a visão adaptando-se, só restou maravilhar-me. — Essa é a mesma água? — perguntei, perplexo. — Sim. Tudo isto, desagua naquela e em outras praias. — Mas é muita, mãe! — pasmei. — Um milagre! — Ela sorriu, sentando no mastro principal. Sentei ao seu lado e voltei a ficar hipnotizado por muito tempo. O balanço, o som do mar, os pássaros aproveitadores, era uma sinfonia de relaxamento natural. *** Quando despertei estava no quarto. Novamente só na cama. Tinha a sensação que ela saíra há pouco. Eu não estava sonolento, afinal foram dias de repouso absoluto! Logo, saí. À noite, sem movimento, a péssima iluminação do corredor o tornava lúgubre, o que me preencheu com receio. A minha infantil cabeça, amedrontada, ansiou por minha mãe. Apesar do silêncio, banhado pelo divino som do mar, o ranger da madeira sendo friccionada, estava duas cabines à frente. Senti culpa quando me vi a desobedecendo, mas segui. — Mãe? — chamei, batendo à porta. “É o meu filho!”, ouvi a minha mãe sussurrar no interior. — Sou eu, mãe — reafirmei, ansioso pela culpa. O som da fricção da madeira parou. Pesados passos anunciaram a aproximação de alguém que não era minha mãe. Um dos tripulantes que nem me lembro do nome abriu a porta, me olhando, nitidamente descontente. — O que quer? — Ele perguntou, impaciente. — Minha mãe — respondi, tentando observar o interior da cabine. — Que coincidência, eu também! — Ele ironizou, rindo — Ela está bem… está trabalhando. — Desculpa. Ela está cansada. Posso vê-la? — pedi. — Noah, vá ao quarto. — Minha mãe disse, com voz trêmula. — Mãe, tudo bem? — perguntei, mais ansioso ao ouvi-la. — Mamãe só está ocupada. Volte ao quarto, logo chegarei! — A senhora não parece bem. — Entristeci-me, é claro, mas acatei e me virei para voltar à cabine. — Se quiser fique, rapaz… observa a mamãe trabalhar. — O homem riu, com um tom malicioso. — Noah Mubarak, para o quarto! — Minha mãe ordenou, quebrando a doce esperança que eu tinha de vê-la. Voltei a cabine e sentei na cama. Fitei a porta toda a noite. Minha mãe voltou com os cabelos molhados e o seu semblante estava horrível, mas, ao ver-me acordado, ela sorriu. — Bom dia, meu amor! — Ela disse, doce, ajoelhando-se na frente da cama. — O que houve à noite? — Senti saudade… depois medo — respondi, abraçando-a. — Tem certeza que a senhora está bem? — Sim, tenho. Você não está… precisa de banho… comer… — Posso ajudar a senhora com o trabalho? — pedi, diria que implorei, enquanto o meu rosto era tomado por lágrimas aflitas. — Não pode, meu amor. — O homem disse que eu podia ficar com a senhora ontem. — Ele é um bufão, não sabe o que fala. É perigoso para uma criança ficar perto dos adultos enquanto trabalham, lembra? — Sim, senhora. Perdão. — Novamente acatei. Ela deu-me à mão e acompanhou-me ao banheiro. Após banho e refeição, tivemos um longo dia de trabalho. Ela permitiu-me ajudá-la com a limpeza, com a cozinha. Todos estavam agitados, a pesca foi muita; pasmei ao constatar a quantidade de peixes. O tempo estava nublado. Na hora da refeição, todos se empanturraram de peixe e bebida numa exótica comemoração que não entendi. Cansado, comi um pouco e dormi no colo dela. *** Acordei à noite com os aterradores barulhos dos trovões. Levantei assustado. Quando não a encontrei, desesperei-me. Tinha seis, ou sete, anos, mas ainda era criança! O som do mar revoltado lá fora consumiu-me com pavor e não consegui não chorar. Tirei forças da preocupação para conseguir sair do quarto. No corredor, ouvi alguns gemidos sofridos da minha mãe. Mais apreensivo, corri até a porta. Antes que pudesse bater, congelei quando a ouvi murmurar: “Está machucando!” Momentaneamente perdi o ar, mas apesar do corpo trêmulo, combati a minha própria covardia para abrir a porta, sem bater. Ela era tudo que eu tinha! Imediatamente ao entrar, vi somente três homens. Dois estavam nus na cama e um estava distante numa poltrona que parecia atrelada ao chão. Um deles, provavelmente envolto pelo prazer, simplesmente continuou o que fazia. Consegui atestar que a mão direita do mais lascivo a segurava no pescoço; a observei nua e fui tomado por um intenso enjoo. — Gosto quando mexe mais! — O lascivo disse, numa óbvia resposta às tentativas de desvencilhar-se que a minha mãe empregava contra ele. — Mãe! — chamei, pouco ciente do que realmente se passava. — O que faz aqui, garoto? — O homem da poltrona arguiu. — Se veio destruir uma ereção, parabéns! — Ele riu, olhando o desestimulado falo, perdendo o sangue que o mantinha ereto. Assustei-me, mas já não podia retroceder, tentei dar um passo à frente. Minha mãe debateu-se com mais força. — No- — Ela tentou chamar, impossibilitada de fazê-lo pelo homem que pôs o seu corpo sobre o dela. — Hora de dormir! — O homem da poltrona disse, levantando-se, ajeitando as suas calças e vindo na minha direção.
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