II. Terra da Paz

2105 Words
Corri de volta para a cabine, extremamente amedrontado. Nem o som do revoltado mar… da intensa chuva castigando o convés conseguiram suprimir os mais intensos barulhos da fricção da madeira e os abafados gemidos de dor da minha mãe. Em instantes, vi-me vivendo um pesadelo! A porta da cabine abriu, dando ao meu coração, palpitações. O homem da poltrona entrou, segurando uma garrafa. — Acalme-se, criança… não vim machucá-lo! — Ele disse, com um vil sorriso contrastando com a fala “amigável”. — Só trouxe algo que ajudará você a dormir! O meu corpo tremeu e o coração não aquietava. Apavorado, emudeci, fitando-o, desesperado. Os trovões lá foram alastravam intensos arrepios no meu corpo e por um instante, em nada consegui pensar, senão na minha própria sobrevivência. Ele aproximou-se e com a mão vazia, que cheirava a amônia, cloro e outras coisas que não pude distinguir, abriu a minha boca e despejou o conteúdo da garrafa, garganta adentro. Senti meu interior queimar. Tossi sem parar. Frágil, o estômago devolveu a bebida junto ao peixe que comi. Fiquei tonto imediatamente. Tudo ao redor pareceu lento; a visão embaçou e o cômodo, por um instante, pareceu escurecer. — Não seja um mau menino, desperdiçar bebida é haram! — O homem disse, forçando-me a beber mais, com vilania no olhar. Sentindo-me ameaçado, esforcei-me para acatar a ordem de não desperdiçar, mas meu corpo simplesmente não obedeceu. A tontura que já me afetava foi ainda mais alimentada pelo breve instante em que me afoguei na bebida. O homem riu, vendo-me cair sobre o meu próprio suco gástrico. Foi uma noite infernal! Os poucos momentos lúcidos foram regados a extrema tontura e a contínua rejeição do estômago ao maldito líquido. Senti o momento em que a minha mãe cuidou de mim, mas nada pude falar, não consegui ajudá-la a cuidar da limpeza da cama; apenas fiquei inutilizado. *** Acordei com ela acariciando o meu rosto e cantarolando. Imediatamente ao despertar, a quentura de mais uma rejeição passou pela minha garganta machucada. Enquanto golfava, ouvi os seus suspiros. — Como está, meu amor? — Ela indagou, com a voz calma. — Tonto, machucado — respondi, pondo a mão na barriga. — O homem é mau, mãe — reclamei, com lágrimas nos olhos. — Já briguei com ele e ele desculpou-se. — Está machucada? — perguntei, observando-a com atenção. — Não estou. Lembra-se do que viu ontem? — Estavam machucando a senhora… trovões… tudo girou… os trovões de novo — narrei, apavorado pela mera lembrança. — Passou… olha, eu estou bem! — Ela disse, sorrindo e abrindo os braços, me permitindo estudá-la minuciosamente. — Não quero ficar aqui — disse, agarrando-me a seu pescoço. — Estou com medo. Eles são maus e sei que te machucaram! — A viagem está acabando, faltam dois dias para chegarmos! — Ela comemorou, parecendo realmente feliz pelo fim da viagem. — Consegue suportar só esse tempinho pela mamãe? — Pela senhora, tudo suporto. Ela sorriu, ajudou-me a levantar. — Preciso pegar uma roupa em outra cabine, vem comigo? — Sim, senhora. As suas roupas não estão boas? — perguntei, observando-a intrigado, afinal as roupas pareciam boas. — As roupas estão boas, mas será bom para chegarmos. Assenti, ainda confuso, mas segui com ela a outra cabine. Fomos ao cômodo mais distante. Tive medo de passar na frente do maldito cômodo da noite anterior, mas ela seguiu acariciando minha mão, o que sempre acalmava, não importando o quão estressado eu estivesse. O tal cômodo onde fomos era maior, limpo e organizado. Tinha uma cama que me pareceu confortável. Algumas muitas garrafas de bebidas. Um baú próximo à cama, estava abarrotado de roupas, masculinas, femininas, infantis ou não. Ela procurou uma que coubesse nela e encontrou um vestido. — Posso ajudar? — ofereci-me quando a vi despindo-se. — Pode. — Ela sorriu, sentando e permitindo-me ajudar. — Como estou? — Ela riu, girando no seu eixo e olhando-me. — Bonita. Ela me beijou na testa e me abraçou forte, suspirando. Talvez, assim como eu, estivesse pensando no quanto estava ansiosa para aquilo acabar! Cuidei para dobrar a roupa que ela trocara e fui à cabine guardá-la na nossa mala. Quando subimos ao convés, o jovem aproximou-se, dizendo: — O capitão está na casa do leme. — Obrigada, rapaz. — Minha mãe disse, sorrindo. Seguimos a cabine mais limpa e organizada da embarcação. — Chegamos. — Minha mãe disse, olhando para o capitão. Ele era um homem forte, com certa idade. Observava o mar. — Temos só um assento, mas sinta-se à vontade para usar. Dificilmente é-me necessário. O que achou da roupa? Coube? — Agradável, agradeço. Temo perguntar como conseguiu. — Transporto pessoas, preciso de roupas para emergências! — Ele disse, rindo. — Não se preocupe, apesar de um bufão ou outro, não somos todos ruins. Minha mãe sentou e acolheu-me nos seus braços, pondo-me sentado no seu colo e acariciando os meus cabelos. — Desculpe, se me exacerbei com vocês. Estava chateada. — Eles são maus homens — reclamei, olhando para o capitão. — É o tempo no mar. Sempre viajando, não vemos outras pessoas senão nós, logo alguns esquecem da educação que aprenderam em terra firme. É natural! — Deve ser uma vida difícil. — É uma vida de liberdade… difícil está longe da realidade! — Ele sorriu, exalando satisfação. — Mais fácil que viver em terra… Não tardou para suas vozes distanciarem-se e eu cochilar. *** Despertei, sentindo minha mãe sobressaltada. Imediatamente, olhei ao redor e ainda estávamos na casa de leme. Eu ainda estava sentado no seu colo e o homem ria. — Mãe!? — chamei, observando o homem com hostilidade. — Calma, meu filho — disse o capitão, sorrindo. — Está tudo bem. Vou levá-los para passear. Já deve ser possível ver a costa. — O senhor não parece ser meu pai — retruquei. — Por que acha isso? — Ele riu. — Se fosse não deixaria machucarem a minha mãe! — Você tem um ponto! — Ele riu, deixando-me incomodado. — Entretanto, para sua segurança e para a segurança dela, precisa aceitar que eu o chame filho até chegarmos. Fiquei confuso e olhei para a minha mãe. — Alguns homens podem ser maus… então, ouça. — Ela disse. — É só até chegarmos. Pense como uma brincadeira! — Ela riu. — Sim, senhora — assenti, olhando o homem. — Sim, senhor. — O moleque aprende rápido! — Ele gargalhou, dando o braço à minha mãe e seguindo conosco ao convés. Agora, água não era a única coisa ao nosso redor. Haviam navios distantes, padronizados. Era possível observar a fina linha da costa ao longe. Com ajuda de uma luneta e de muita simpatia, o capitão mostrou-me a terra. Curioso, animei-me com a fascinante visão. — Já conhecia o mar, Noah? — O capitão perguntou, parando no mastro principal, de braços cruzados, fitando o horizonte. — Não. — O primeiro contato foi naquela praia. — Minha mãe disse. — Estávamos distantes da costa. Precisamos cruzar a Jordânia para chegar no porto, após muito estudo! — Muito corajosos e fortes! — Ele disse, parecendo surpreso. — O rapaz já está acostumado a ser o homem da casa? — Sim. Cuido da casa quando ela trabalha e às vezes trabalho. — Já é um trabalhador! — elogiou ele. — E o colégio? — Não vou ao colégio, minha mãe é inteligente e me ensina tudo que preciso saber! — respondi, levemente orgulhoso. — Imagino que não sentirá falta de amigos do colégio, já que não o frequenta! — Riu o homem. — Não tenho amigos. Só a minha mãe. Ele observou-me brevemente, com um estranho sorriso no rosto, mas logo voltou a sua atenção para o mar novamente. — Durante esta noite e amanhã, pescaremos. Venderemos os peixes e conseguirei ajudá-la com a passagem à Pequena Istambul. A comunidade local é grande e poderá ajudá-los. — Agradeço, senhor. — Minha mãe sorriu. — Mesmo se não tivéssemos negócios, ainda tentaria ajudá-la. É direito de todos, tentar ter uma vida melhor. Você é uma boa moça. Feliz e infelizmente, já entende o quão complexa a sobrevivência pode ser. Isto a torna forte! — Mato e morro por ele! — Ela disse, acariciando-me gentil. — Esse é o espírito que a permitirá sobreviver a América! — Ele gargalhou, voltando a atenção para mim. — Precisará cuidar dela, pequeno. É o homem da família e as coisas podem ser perigosas para as moças aqui. — Sempre cuidei e cuidarei! — falei. Minha mãe deu um sorriso tímido. — Precisará conduzir feitos ainda maiores! Deve ter conhecido os guerreiros da sua casa. — Os tios que lutam!? — perguntei, afinal os conhecia bem. — Esses mesmos. Precisará ter a coragem que estes tios têm para fazer o que for necessário para proteger a sua mãe. — Não ensine essas coisas ao meu filho! — Minha mãe repreendeu. — Estamos saindo justamente para evitar que estes comportamentos violentos se tornem uma realidade para ele. — Desculpe-me, esposa minha. Entretanto, ele deve estar por você, como os guerrilheiros em casa, estão por Allah! — Eles não estão por Allah! — Minha mãe retrucou. O homem sorriu e suspirou. — Infelizmente, não poderei ajudar com documentos, mas chegando à Pequena Istambul, há um casal que poderá ajudá-la. Como está o seu inglês? — Razoável. Praticava ocasionalmente. — Quando a guarda se aproximar, não se esforce para falar em inglês. Mantenha o árabe, nos poupará tempo e dinheiro! A tarde transcorreu bem. Passeamos pela embarcação, o capitão mostrou as tarefas que os tripulantes conduziam e as explicou para mim. Ensaiamos uma pesca, o que me divertiu muito. Quando um navio deu a ordem para pararmos assustei-me, é claro, porém com a tranquilidade da minha mãe, voltei para a brincadeira de pescar. Ao fim da tarde, ajudei a minha mãe a mover as coisas para a cabine grande, sem perguntar o porquê. De noite, nos recolhemos na cabine grande. A mãe estava apreensiva, mas deitou comigo e dormimos. Felizmente, ela dormiu ao meu lado toda a noite. *** Quando acordei, ela ainda dormia. Extremamente relaxada, com a respiração bem calma. Preocupado, a sacudi, chamando-a. — Bom dia, meu amor. — Foi a frase que queria ouvir e ouvi. — A senhora está bem? — Estou ótima, amor da minha vida. Vamos ao banho? — Sim, senhora. — Sorri, mais calmo. — Banho. Seguimos ao banho e fomos à cozinha, ajudar com a refeição. Foi um dia intenso de pesca, todos estavam mobilizados para isto. Mesmo a minha mãe e eu ajudamos com tudo que pudemos. Tendo o trabalho como brincadeira, inevitavelmente cansei. A aproximação da costa era fascinante. Muitas vezes, peguei-me novamente hipnotizado, observando a paisagem. À noite, chegamos a um porto. O jovem saiu e o resto mobilizou-se para deixar o peixe pronto para a descarga. Eu e minha mãe ficamos parados, observando a cidade. Havia muitas luzes e apesar da poluição sonora com veículos e pessoas, não havia o som da violência, o som da guerra. Simplesmente não acreditei ser real. O capitão aproximou-se e envolveu a cintura da minha mãe, me deixando enciumado, obviamente! Ela assustou-se e num instinto, tirei o braço dele da sua cintura. — Noah… — Minha mãe repreendeu, nitidamente constrangida. — Desculpa, foi… Perdão, minha mãe — falei, acanhado. — Perdão, m-meu… p-pai. O capitão apenas riu e voltou o olhar para a cidade. — Precisa tomar cuidado. A cidade é bela, porém tóxica. O nosso povo não é tão bem quisto em solo americano e enfrentará dificuldades, principalmente tendo uma criança para cuidar! — Serei precavida! — Ela respondeu, acariciando-me. — Apesar do serviço com os meus homens, se possível, não sobreviva assim! Boa sorte com a resiliência quanto a violência. Sempre busque alternativas. Felizmente, americanos são avarentos e ambiciosos, logo há muito profissional que supervaloriza o que executa, isso facilita a conquista de boas posições. Seja justa e não se permita a escravidão! — Jamais o faria. — Tivemos uma ótima pesca. Serão, ao menos, mil dólares. Seiscentos serão para pagar o bom serviço com a cozinha, a limpeza e com os rapazes. Cem serão para ajudar com a sua passagem à Pequena Istambul, se precisar conseguirá hospedar-se num motel e comer. — Ele disse, com a voz baixa. — Agradeço a ajuda! — Disponha, esposa minha. — Ele sorriu, beijando-a no canto da boca. — Tenha uma ótima luta e vença! — Venceremos. Foi um dia calmo. Descansamos à noite e acordamos cedo. No convés, a tripulação descarregava o peixe. — Bem-vindos à América! — O capitão saudou-nos, sorrindo.
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