Quatro rapazes, por deterem “poder” sobre outros, se destacavam entre os encrenqueiros do colégio: dois eram muslins como eu; um, era branco e outro, n***o.
Kaled, filho de Soraia era o pior de todos! Pegava bem pesado com suas brincadeiras e para o azar das suas vítimas, ele tinha cobertura dos pais, logo nunca pagava por nada do que fazia. Kaled não distinguia menino ou menina, muslim, branco, n***o… tanto faz! Ele sentia-se superior e todo mundo pagava.
Ali era o segundo maior encrenqueiro, mas, os seus alvos eram os meninos. Com as meninas, ele era cuidadoso e protetor, dois anos mais novo que Kaled, era um mistério para todos se eles eram amigos ou não.
Apesar de suas piadas intolerantes quanto a impureza do sangue, Ali executava um serviço de segurança para nós, muslins, independentemente de quem fosse, desde que fosse um nativo do Oriente Médio, também independendo da nação.
Kaled e Ali tinham as suas “gangues”, é claro… e até com eles, era difícil identificar se havia ou não algum laço de amizade.
Richard era o encrenqueiro dos brancos. Extremamente intolerante e racista. Ele era nojento! Mesmo que fôssemos majoritariamente asiáticos no bairro ou colégio, ele ainda acreditava ter direito de ser tão e******o!
Num primeiro momento, não tive problemas, pois, o evitei.
Cyan era o encrenqueiro dos negros. De todos, o mais razoável e mais fácil de conversar. Ele não era somente um desordeiro, tinha as suas ideias de conquistas que queria obter e o faria a qualquer custo.
Ele não pensava somente em conquistas para os seus, como era habitual, mas em conquistas para todos. O que o tornava popular entre todos, inevitavelmente.
Cyan era um garoto inteligente e as poucas vezes que tive com ele, aprendi muito. Não éramos tão diferentes e por reconhecer isto, ele defendia todo mundo, principalmente dos ataques racistas.
O primeiro infernal ano encerrou-se.
As festas de fim de ano foram comunitárias e foi relativamente tenso dada a minha pouca vivência com fogos de artifício, neve, mas, nada realmente preocupante!
Minha mãe adequou-se bem a comunidade e apesar de não gostar da maior parte das crianças, até eu me adequei.
Os adultos adoravam-me, o que eu não fazia por trabalho, era por educação, para ajudar.
A fama de menino de ouro foi inevitável.
Na semana do meu aniversário de nove anos… primeira semana de agosto… minha mãe e Logan sentaram-se comigo na sala, após mais uma das refeições em que ele estava.
— Precisamos conversar! — disse ela.
Eu, obviamente, já sabia.
As brincadeiras da Soraia prepararam-me para aquele momento. Entristeci-me, por mero ciúme, é claro!
— Sei… estão se relacionando — falei, sem olhá-los.
— Sim. É importante você saber disso… — Ela respondeu, com um tímido sorriso. — Gostaria que fosse bom conosco.
— O que significa ser bom com a senhora e ele?
— Significa que se algo o incomodar precisa falar… significa que não pode ser m*****o com o Logan…
— Não gosto que esteja com ele, mas acredito que não posso impedir, não é!? — perguntei, levemente decepcionado. — Precisarei mudar e chamar ele pai!?
— Não, não é necessário! — Logan assumiu a palavra. — Não estou com a sua mãe para receber tal alcunha. Eu e ela estamos envolvidos emocionalmente e isto me compele a querer cuidar dela; logo, cuidar de ti, mas não precisa mudar como me chama!
— O senhor pode realmente cuidar da minha mãe? — perguntei, afinal sabia haver formas de carinho que eu não podia dar.
— Sim, posso e farei, prometo! — disse ele, olhando-me com certa convicção. — Então, se tivermos que mudar a nossa relação um com o outro, quero que seja meu amigo e eu serei seu amigo também, tudo bem? Assim podemos, juntos, cuidar dela.
— Razoável. Posso ir deitar agora?
— Pode. Obrigada pela compreensão. — Minha mãe disse.
Sorri, a abracei após levantar e fui para o quarto.
Ela veio dormir tarde, mas esforcei-me para não a regular.
Os dias seguintes foram atribulados. Enciumado, foi difícil lidar com os encrenqueiros mexendo comigo. O sotaque era-me motivo de problemas e jamais abandonaria a minha língua-mãe!
O ano passou e mantive o foco em ser um bom filho.
Eu precisava empenhar-me mais. Não somente garantindo que a minha mãe ficaria bem sabendo que eu estava bem, mas também para me distrair.
Ser um bom filho é trabalhoso e isto realmente foi combustível que queimei para manter-me quieto a maioria do tempo, sem me envolver em brigas ou contendas, mesmo que eventualmente, o sangue fervesse nas minhas veias, pensar na decepção que daria a minha mãe sempre me freou.
Lidar com os possíveis rumores da minha mãe foi, de longe, o mais difícil; mas felizmente, nesta empreitada, recebi apoio não somente de Cyan, mas também de Ali.
Kaled não se envolveu, mas também não levantou palavra alguma quanto a ela. Este apoio poupou-me de lidar com Richard.
Terminada a problemática, Ali voltou a ser quem era.
Os anos seguiram e logo aprendi a usar da indiferença.
Aprendi que quando a vítima não responde positiva ou negativamente, é natural perderem o interesse ou as coisas atingem um ponto fatal, o que não foi meu caso.
Uma muslim, adotada por americanos chegou no colégio. Chamava-se Liandra e, felizmente, graças a Ali ela não foi tão perseguida a princípio. Contudo, após um tempo sem Kaled no colégio, Liandra deixou de ser simpática e recluiu-se. Algumas vezes até me fazendo companhia em silêncio.
As perseguições de Kaled começaram e Laila, sua irmã, surfou a mesma onda, tornando a vida de Liandra infernal. Mesmo eu a vi cansando, mas, o nosso pouco tempo de conversa silenciosa; acabou ajudando-nos a suportar!
Uma grande pancadaria entre Cyan, Ali e Kaled estourou em meio àquele ano, foi insano! Com direito a viaturas e tudo mais…
Diziam que o conflito dos rapazes era somente resultado de um conflito entre Kaled e Ali, porém ninguém sabia o que era verdade e Ali era bom em esconder o que pensava, o que fazia.
O clima de tensão no colégio entre pais, professores, alunos, deixou a minha mãe alerta e ela tornou-se mais conversativa.
Agora, ela tinha pontos para levantar em toda conversa, não somente nas conversas quanto ao sexo e meninas, mas também sempre querendo saber como eu me sentia com a vida estudantil.
As coisas em casa voltaram a acalmar para mim.
Minha mãe e Logan saíam com frequência, mas o ciúme inicial passou quando consegui constatar que ele estava fazendo bem para ela. Os fracassos em busca de emprego já não tinham um impacto tão forte no seu rosto. Mesmo que sentisse, ela tinha a nós para conversar e muitas vezes foi feito desta forma.
Logan não era tão r**m quanto o ciúme fez-me crer.
Eles gostavam de passear, até me convidavam, mas não tinha o menor interesse; não somente nas atividades, mas também em vê-los abraçados — o ciúme passara, mas isto era forte demais!
As reuniões aos fins de semana eram agitadas e um momento, onde as crianças, pré-adolescentes e adolescentes, pareciam pessoas, não animais movidos por hormônios!
Perto dos pais, a maioria mudava o comportamento e creio ser o único momento onde todos éramos “amigos” — com exceção de alguns brancos que, racistas, não tinham conosco!
Era complexo lidar com a volatilidade das pessoas.
Desenvolvi um péssimo hábito de tentar entendê-las. Ocasionalmente perdia-me olhando alguém enquanto a mente viajava, tentando encontrar um motivo para coisa xis ou ípsilon!
Isto tornou a aumentar a minha popularidade para ser vítima dos encrenqueiros, mas não me foi um problema, lidar foi fácil.
Minha amiga indiferença ajudou!
Aos onze anos, minha mãe finalmente conseguiu um emprego e deixou o trabalho na casa de Soraia. Tivemos até uma pequena comemoração em casa.
A rotina mudou.
Eu acordava antes do sol nascer, arrumava-me para o colégio e preparava a refeição para nós. Quando ela acordava, eu só precisava comer com ela e ir ao colégio.
Chegava pouco depois do almoço, cozinhava algo para mim e já deixava o jantar preparado. Quando não pretendia voltar para casa e sair com Logan, ela avisava, sempre chegava de manhã.
Eu tinha a minha refeição e deixava a refeição para ela na bancada, com um bilhete qualquer.
Tentei deixar claro para minha mãe que ela poderia sair por mais que um dia, mas ela, provavelmente por superproteção, sempre dizia não ter intenção de deixar-me tanto tempo só.
Não havia o que temer, com os meus serviços na vizinhança, mesmo que ela ficasse uma semana fora, eu ainda teria autonomia para cozinhar, estudar, e o trabalho me deixaria cansado o suficiente para não ceder aos hormônios.
Falando em hormônios, eles não eram um problema tão grande. O pouco contato social impossibilitava-me de fantasiar muito. Tive os meus momentos extremamente constrangedores, mas consegui passar por eles com certa facilidade em comparação com outros que vi passarem por maus bocados!
Somente quando tinha catorze anos, minha mãe permitiu-se sair o final de semana com Logan, deixando-me só em casa.
Foi um ótimo final de semana! Lidei com as lições no sábado ao acordar e o resto do fim de semana, eu só trabalhei.
***
Na segunda-feira, como era de praxe, acordei antes do sol nascer. Um extremo incômodo, uma aflição tirou-me o sono.
Ignorando a sensação, arrumei-me para o colégio, preparei a refeição e comi, deixando a refeição da minha mãe reservada.
“Estudarei.
Cuide-se!
Consegui cento e cinquenta dólares no fim de semana
e deixei no quarto.
Amo demais você!
Noah.”
Foi o que escrevi no bilhete que acompanhou aquela refeição.
Eu saí de casa e vi algumas pessoas aglomeradas há uns metros de distância. A intuição falou para eu correr até lá, mas aflito, sem saber o que fazer, apenas segui caminhando.
Assustei-me com viaturas virando a esquina, apressadas.
A multidão parecia crescer e precisei cortá-la para seguir.
“Como ficará o seu filho?”, foi a pergunta que chamou a atenção.
Todos olhavam numa mesma direção e cedendo a ansiedade, fui na direção que todos encaravam.
Na calçada, estava Logan decapitado, a cabeça estava sobre o peito, com uma suástica desenhada na testa. Mesmo incapaz de identificar o corpo ao seu lado, era um corpo feminino.
Senti uma morna lágrima escorrer pelo meu rosto, mas ainda fui compelido a ter certeza de quem era. Toquei no ombro e o corpo estava morno, o virei e a vi de olhos fechados.
— Mãe!? — chamei, sabendo que ela não me responderia.
Haviam marcas de abuso no corpo e algumas perfurações no seu peito provavelmente foram a causa da morte.
Caí de joelhos, derrotado; acariciei seu rosto gelado e rígido.
— Mãe… — falei, acariciando as feridas em seu tórax. — Ele… prometeu… que cuidaria… — lamentei, sentindo-me culpado por acreditar na proteção de outro.
Logo as sirenes, as pessoas conversando, tudo silenciou.
Minha visão embaçada pelas lágrimas borrou tudo ao meu redor e apenas ela, imóvel, continuou nos meus pensamentos, ecoando como uma maldita canção de três acordes.
Senti-me em movimento, sendo conduzido a algum lugar.
Uma distante voz perguntou se eu estava bem, mas não consegui falar. Era, definitivamente, não somente o pior pesadelo que eu poderia viver, mas o ponto de ruptura da minha alma.
Um turbilhão de atribulados pensamentos tomaram-me, tornando saber o que sentia difícil de dizer.
Subitamente, estava me afogando no choque de tocar o corpo daquela que mais amei. Senti a minha mente tentar ser razoável e combater o choque, em busca de mínima razão, lucidez.
Um carro preto com os vidros fechados passou.
Observei famintos olhos cinzas fitando os meus, como se me invadissem; em meio a multidão de forma improvável, impossível.
Quase uma alucinação!
Um cheiro de sangue acompanhava o carro e tomou o local.