VI. Bons Soldados...

2073 Words
“Gosto das trevas que vejo em ti!”, ouvi uma melodiosa voz feminina, dizer em meu íntimo, despertando-me, tragando-me de volta à realidade abruptamente. Ofegante, olhei ao redor e estava sentado. A multidão já dispersara, apesar de alguns curiosos permanecerem. Não havia corpo e o sol já terminara de nascer. Aziz conversava com um policial um pouco distante de mim. Zayn, pai de Ali, estava recostado ao meu lado. Ele era um homem alto e muito forte, o corpo era muito trabalhado, evidenciando fazer muito trabalho pesado. Ele estava com olhar distante, numa direção aleatória. — Está bem, garoto? — Ele perguntou-me, sem me olhar. — Ela… morreu? — indaguei, engolindo seco, de cabeça baixa. — Sinto muito, mas sim. Tem alguém para te ajudar? — Sem ela… não tenho nada! — Ela guardava economias? — perguntou ele, após suspirar. — Sim. — Precisará ser forte, agora que está só. Neste primeiro momento, conte conosco, tudo bem, garoto? — Quem? — perguntei, sentindo-me aéreo. — Até onde suspeitamos um grupo de loucos. — Por estarem loucos mataram ela? — indaguei, confuso. — Não. Por matarem são loucos! — O que faço? — perguntei-me, com os pensamentos voltando a embaralhar. — Cremar, não!? — perguntei para ele. Ele franziu a testa, me olhando, e perguntou: — Ela o ensinou que seria cremada? Assenti com a cabeça. — Ajudaremos com a cremação. Aziz lidará com os policiais e não irá a um orfanato. São péssimos… as ruas são mais seguras! — Devo ficar na rua? — Até as coisas com o lugar onde está mudarem, ficará lá. Se precisar de um lugar depois, conte comigo e com a minha família. — Obrigado. — Levantei, pondo a mochila nas costas. — Tenho que ir para a escola… não!? — perguntei, sentindo uma lágrima cair em resposta ao meu receio de voltar para casa. — Não precisa. É tarde, provavelmente perdeu metade do dia. — Ela não gostaria que eu faltasse — falei, seguindo, de cabeça baixa, enquanto as lágrimas simplesmente não paravam. Chegando, o porteiro olhou-me com decepção. — Nunca esperaria que, de todos os alunos, você chegasse a esta hora! — disse ele, com um severo tom de reprovação. — Nunca esperaria que, de todas… as pessoas, eu fosse encontrar… minha mãe… morta! — respondi, respirando fundo. Ele silenciou, arregalando os olhos. — Que brincadeira é esta, garoto? — Posso… assistir… minha… aula? — perguntei, olhando-o nos olhos, sentindo o meu corpo tremer pela lembrança dela. — Você parece morto! Entre, mas vá ao conselheiro primeiro! Assenti e fui à sala de aconselhamento onde o velho conselheiro recebeu-me com certa velocidade. — Entre, bom dia! — O velho cumprimentou, apreensivo. Entrei, senti-me novamente aéreo, o que me fez parar de andar; mas ele guiou-me ao divã e ajudou-me a sentar. Minha visão embaçou por um instante e senti uma leve dor de cabeça. Tudo voltou a emudecer e perdi-me na sensação de ter uma lágrima voltando a caminhar por minha face. — Como se sente, criança? — perguntou ele, aparentemente ansioso, talvez estivesse repetindo aquilo há um tempo. Eu o olhei, rapidamente esqueci-me da pergunta que ele fez ao lembrar-me do toque nela. — Noah, precisa me ajudar a te ajudar — disse ele, mais alto, despertando-me da embriaguez que me afligia. — N-não… posso… ir à aula? — perguntei, um pouco confuso. — Você veio aqui porque disse algo ao porteiro. Precisa conversar comigo para eu te ajudar! — O que… podemos… conversar? Que ajuda… pode dar? Casa… comida… ou trabalho? Trará… minha mãe… de volta… à vida!? Observei o suor escorrendo na face dele. — Não posso trazê-la de volta, filho. Entretanto, este semblante apático deixa claro que não está bem! O meu trabalho aqui, é conduzi-lo a um melhor estado emocional e mental. — Ninguém pode… me fazer sentir… melhor. É impossível! Então… está tudo bem… não se pressione… para fazer… algo que… é incapaz — falei, olhando-o. — Posso ir… à aula? — Você tem familiares que possam ajudar? — Não tenho ninguém. Receberei ajuda… amigos dela… não querem que eu vá a um orfanato e… também não quero ir! — Se, e quando, crer que posso ajudar, procure-me. — Obrigado. Salaam Aleikum! — cumprimentei ele, com todo o respeito possível, realmente agradecido por parecer se importar. Ele retribuiu o cumprimento e seguiu comigo para a sala. Eventualmente, a aérea sensação de estar perdido parou-me. O conselheiro despertou-me, sempre que ocorreu. Antes de ser repreendido pela professora, ao entrar na sala, o conselheiro a chamou, permitindo-me assumir meu lugar. Ambos deixaram a sala e inevitavelmente, o caos da ausência de um responsável iniciou. Eu me sentei, devagar; com certo perfeccionismo, tirei os materiais da mochila e pus sobre a mesa. Logo, o intenso ruído da sala silenciou. A minha visão embaçou me impedindo de enxergar além do grande borrão de cores que dançavam ao meu redor. Olhei para frente, buscando o quadro, mas tive dificuldades em enxergar o que estava escrito, afinal, ele não parava de mexer! Cocei os olhos, vi borrões à minha frente que, mexendo as mãos, moveram-se sincronizadamente, logo cri ser o mesmo. — Noah! — O alto chamado da professora me despertou. Olhei, mas gradualmente trevas consumiram minha visão e nada mais eu consegui ver. *** “O que farei agora?”, perguntei-me, em meio a escuridão. “O que aconteceu?”, a minha lamúria ressoava, junto a um incessante pranto que já não partia dos meus olhos, mas do íntimo da minha alma. Foi muito tempo perdido nas minhas lamentações, até uma intensa luz tomar a escuridão e eu sentir-me pressionando os meus olhos, numa tentativa de protegê-los do ataque da luz a eles. A visão estava embaçada, mas olhando ao redor, vi-me no leito de um hospital. A esposa de Zayn, Isa, estava ao lado do leito onde eu estava deitado e rapidamente se aproximou de mim. — Noah, está bem? Chamarei a doutora! — Ela disse, assoberbada, sem nem sequer esperar que eu respondesse. Olhei para o que vestia e era a deprimente roupa de paciente. Soro era bombeado para minhas veias através de uma agulha. Ali entrou no quarto, bebendo uma lata de refrigerante. — Acordou… onde está minha mãe? — Ele perguntou. Receando ouvir suas piadas, não o respondi. — Ficou surdo? — Ele riu e sentou, olhando para mim. Isa voltou com uma moça, caracterizada de médica, às pressas. Ela aproximou-se para me averiguar com tantos movimentos e perguntas que fui incapaz de acompanhar. Franzi a testa, fitando-a. — Qual seu nome? — A médica perguntou-me. — Noah Mubarak — respondi —, o que aconteceu? — Você desmaiou na sala! — Ali disse. — Chamei minha mãe para te acompanhar ao médico. — Qual a última coisa que se lembra? — indagou a doutora. — Estava na aula. Tudo embaçou. Silenciou. A professora chamou. Tudo apagou — narrei, buscando ser preciso. — O que há com olhos tão apáticos? — perguntou a doutora, direcionando-se à Isa, com real preocupação em seu semblante. — Deve ser causado pelo luto. Sua mãe foi assassinada e ele esteve presente no local onde o corpo foi achado. — Compreendo. Recomendo acompanhamento psicológico e muito descanso, não deveria ter ido ao colégio! Fiquei confuso, afinal não é estudar obrigação das crianças!? — A senhora é a atual responsável? — perguntou a médica. — Sim. — É um momento delicado. É importante ele não estar só. Encaminharei para as consultas. Fisicamente, está saudável, logo o estresse deve ter causado o desmaio. Assinarei a alta e espero que venham outras vezes para acompanharmos a sua saúde. — Agradeço — disse Isa, aliviada. — Seremos cuidadosos. A doutora deu um breve sorriso e deixou o quarto. — Como se sente? — Isa me perguntou. — Não preciso de companhia. Você tem um filho para cuidar. Não se preocupe! — falei, melancólico, eu diria. — Estou bem. Ela não respondeu. Uma enfermeira chegou para quebrar o silêncio e auxiliar-me com o preparo para a alta. A médica voltou com papéis explicando a Isa cada um e nos acompanhou à recepção do hospital, onde a minha alta foi formalizada. — Preciso ir em casa… deixei a refeição servida para… ela. Não é bom estragar comida! — falei enquanto saíamos. Isa assentiu e tomou um táxi para voltar conosco. — Ali, para casa! Se o seu pai chegar, comunique onde e o que estou fazendo — disse ela. — Vamos? — Ela perguntou-me. — Não precisa vir, sei como lavar louça! — Incomodei-me. — Não disse que não sabe! — Ela riu, seguindo à frente. Fiquei mais incomodado, mas não reclamei mais. Seguimos ao prédio. Parei na porta, com a mão na maçaneta, respirando fundo; confrontando a ideia que não mais chegaria e a encontraria na sala, na cozinha ou quarto. Ela simplesmente não estaria mais lá! Engoli seco, hesitante, olhando a maçaneta. Uma lágrima foi o custo para conseguir abrir a porta e entrar. Olhei ao redor na sala e mais lágrimas verteram dos meus olhos em resposta ao vazio que senti. Parei um instante, fechei os olhos e respirei fundo, tentando coordenar os meus pensamentos. Fui primeiramente ao quarto. Abri o armário buscando a caixa de sapato onde guardávamos as reservas financeiras. Joguei o dinheiro na cama e com calma eu contei. Mil e quinhentos dólares foi o total. Tirei quinhentos e o resto organizei num bolo que deixei em meu bolso. Voltei à sala e Isa estava com meu bilhete em sua mão, com uma lágrima correndo em seu rosto. — Sei que médicos são pagos — falei, tentando manter-me sério. — Tem mil e quinhentos dólares, separei quinhentos porque não faço ideia de quanto devo! — Estendi o dinheiro. — Não precisa pagar. Se me dispus, é minha responsabilidade — disse ela, com um sorriso gentil no rosto. — Se não estragará a refeição, comerá? Recebi a pergunta com tristeza, é claro! “É só comida!”, foi o que repeti algumas vezes mentalmente. — Noah!? — chamou ela. — Sim — falei, após um suspiro —, é só comida, jogar fora me deixará com fome mais rápido e não a trará de volta! — falei, sentindo a voz saindo trêmula da minha garganta. — Posso pegar? — perguntei, estendendo a mão e olhando para o bilhete. Ela entregou-me e o deixei no quarto, na mesa de cabeceira. Voltei à cozinha e sentei para comer. Apesar de, antes de sair, a refeição ter tido um ótimo sabor, naquele momento, ela estava carregada com o amargo sabor do luto. — Zayn disse que ficarei aqui, mas quando não puder serei recebido por vocês… — falei, quando terminei a refeição, enquanto lavava a louça. — Obrigado por se importar. — Não posso imaginar o quanto sofre agora. Infelizmente, sei que também não posso ajudar com muito. Sabe cozinhar? — Ela me ensinou tudo… eu consigo. Eu… vou… sobreviver… à falta dela… — disse, ficando aéreo de novo, tomado por uma melancolia que simplesmente me desligou da realidade. Despertei sentindo Isa tirar o prato da minha mão. Ao descansar o prato na pia, ela abraçou-me. — Uma hora… parará… de doer — falei, em meio a soluços que faziam meu peito doer mais. — Vai, sim, criança! Você é forte, muito forte. Ela conduziu-me ao sofá e sentou ao meu lado, ainda me envolvendo em seus braços, oferecendo acalento ao meu quebrantado coração. Nem sequer sei em que momento apaguei, mas sei que minha alma chorei, em seus braços. Quando abri os olhos, além da intensa dor de cabeça e da enorme sede, a luz incomodava a minha visão. Olhei ao redor e ainda estava na sala. Isa estava na cozinha e conversava algo com seu marido, em voz baixa, logo fui incapaz de ouvir. — Boa noite! — falei ao sentar-me, decepcionado por nada daquilo ter sido somente um pesadelo. — Olá, criança. Está bem? Preparei a refeição. — Sorriu Isa. — Obrigado, senhora. Tomarei um banho e comerei. Podem ir, agradeço a companhia, mas estou melhor e ficarei bem! — Por que insiste em não me permitir? — Isa perguntou. — A mãe estava sempre cansada devido ao trabalho. Cuidar de mim, pagar as contas… sei não ser fácil, então, não quero ser estorvo na vida de ninguém! — falei, seguindo ao quarto, antes de receber quaisquer respostas à ácida declaração.
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