IV. Apátrida I

2009 Words
Logan destrancou o apartamento. — A locação na América é com todos os móveis dentro, caso não esteja acostumada. Tem um quarto, uma sala, um banheiro, uma cozinha e uma área de serviço, apesar da lavanderia no subsolo de uso coletivo — disse ele, entrando na casa. Chegamos na sala e era grande. As paredes eram claras, a cozinha americana foi estranha, afinal ainda não tinha sequer ouvido falar. Tudo estava coberto com plástico escuro e apagado. Logan abriu as cortinas, testando todas as luzes conforme passava pelos interruptores nas paredes. — A passagem de ar é boa, apesar de ser o primeiro andar. Os vizinhos de cima são idosos, não incomodam. Precisará comprar uma cama para o menino, afinal o quarto tem uma cama de casal. Isto é, se quiser uma maior privacidade, é claro! — Dormimos juntos. É o hábito! — Minha mãe respondeu. — Não há problemas na calefação. O aquecedor está bem, caso precise. Dias gelados virão, logo, compre agasalhos. Temos água quente em toda a casa e um triturador, como é de praxe em lares americanos — disse ele, apertando um botão próximo à pia. O alto som emitido quase tirou o meu coração do peito! — Não conheço! — disse minha mãe, recuperando-se do susto mais rápido que eu. — Se lido com isso, sem aviso, morro! — Com o tempo acostumará — disse Soraia, rindo. — Posso ensinar sobre estas coisas enquanto estiver trabalhando conosco. — Agradeço, será de imensa ajuda! — Minha mãe suspirou. — Tudo nos conformes. Comumente são trinta dólares semanais, mas no início de vida, posso abater para quinze! — Ele sorriu. — Se tiver problemas, avise imediatamente. Estou ao lado e temos telefone. O meu número pessoal e o número do meu trabalho são os primeiros na lista junto a outros emergenciais. — Obrigada novamente. É agradável! — Minha mãe ajoelhou-se na minha frente e me deu um beijo na ponta do nariz. Tirei o dinheiro do bolso e a entreguei. — Obrigada, meu amor. — Ela acariciou o meu rosto. — Quitarei dois meses e cuidarei da comida, agasalhos e tudo mais. — Uma mulher preparada! — elogiou ele, rindo. — Ah! O amor nascendo — brincou Soraia. — Precisamos de vinho para brindar o adeus à vida de apátrida e comemorar o recomeço. — Soraia disse, feliz, saindo e deixando a porta aberta. — Que seja uma boa e feliz vida para nós. — Minha mãe bem-disse, com olhar esperançoso na minha direção. — Será, minha mãe! — concordei. — Não duvide! — Logan disse, sorrindo. — Enquanto a nossa amiga busca o vinho, tiramos os plásticos dos móveis. Eu ajudo. Minha mãe assentiu e ambos começaram a trabalhar. Logan saiu por alguns instantes e trouxe produtos de limpeza e eu encarreguei-me de limpar enquanto ele e a minha mãe lidavam com as tarefas que eu não podia executar. Algumas coisas causaram estranheza, como o banheiro ou a estranha forma como cozinha e sala ligavam-se, mas nada disse. Apenas limpei aquilo que tinha convicção que sabia o que era. Quando Soraia chegou, pude ouvir do quarto! Eles fizeram o seu brinde e conversaram, apesar de a Soraia ser a mais audível. — Noah, sua mãe vai ao mercado! — Minha mãe disse, alto. — Quer ajuda? — perguntei, indo em sua direção. — Não precisa. Pode ficar só alguns instantes? — Posso. Continuo limpando as coisas — assenti. Ela beijou-me na testa e saiu com eles. Voltei às minhas tarefas. Pouco antes de terminar, Logan e a minha mãe chegaram. Logan carregava caixas e minha mãe carregava a nossa mala e uma travessa que tinha algo com um ótimo cheiro dentro. — Não precisaremos cozinhar hoje! — comemorou ela. — Preciso de banho… o banheiro é estranho! — falei, rindo. — Ajudo, aprendi um pouco como funciona. — Voltarei para casa, se precisar de algo, chame! — Logan disse para minha mãe. — O mesmo serve para você, rapaz. — Obrigado, senhor. Ele sorriu, nos cumprimentou e saiu. Minha mãe fechou a porta e fomos ao banho. Terminando, tivemos a refeição e sentamos na sala. Ela serviu-se com uma taça de vinho, deitei a cabeça no seu colo para ficar olhando-a. Aquele rito que realizávamos todas as noites, diferiu e, claro, foi melhor. Não havia violência, não estávamos com medo e isto foi o que me deu o relaxamento necessário para cochilar. *** Quando acordei, estava na cama e a minha mãe ainda dormia. Olhei pela janela e o sol m*l nascera. Dada a impossibilidade de tomar banho, fui até a mala para dobrar e guardas as roupas. Assustei-me com ela levantando sobressaltada, olhando ao redor. — Mãe!? Está bem? — perguntei, indo até ela. — Noah… — Ela suspirou, aliviada. — Como está? Bom dia. — Bem… lidando com as roupas. É frio, mas não como o mar. — Hoje trabalharei, mas você vem. Precisa se comportar. — Sim, senhora. Machucarão a senhora de novo? — Preocupei-me. — Não quero que te machuquem! — Não vão, não se preocupe. Apenas limparei, cozinharei… — Isso também sei fazer, posso ajudar! — Se Soraia deixar, eu deixo. Não saia de perto, tudo bem? — Pedirei para ela deixar. — Sorri para ela. — Seu charmoso lindo! — Ela beijou-me na testa. — Deixe-me ajudar com as roupas também! Voltamos à mala e com a sua ajuda foi ainda mais rápido. — Não tomei banho, preciso aprender como usa aquilo — falei quando terminamos com as roupas. — Ajudo! Enquanto não aprende, tomamos banho, juntos, diariamente. — Sorriu ela, seguindo comigo ao banho. Lidamos com a refeição ao terminar o banho e fomos à rua. Rumo à casa de Soraia, onde Aziz estava regando o jardim. — Bom dia. Cheguei para o trabalho. — Minha mãe disse. — Ótimo! — Ele acenou, receptivo. — Bem-vindos de novo. Dormiram bem? — Fui uma ótima noite de sono! — Ela respondeu. — É um problema Noah ficar comigo durante o trabalho? — Contanto que se comporte, não! — disse ele, me olhando. — Quero ajudar a minha mãe com o serviço, posso? — pedi. — Sabe ajudar!? — Ele indagou, descrente, entrando. — Sim. É só trabalho doméstico, não!? — Então ajude, oras! — Aziz brincou, rindo. Comemorei em meu íntimo e entramos. Soraia estava na sala com uma menina com idade aproximada da minha no colo e um rapaz mais velho, arrumado, com uma mochila nas costas. — Bom dia! — cumprimentou minha mãe. — Olá, como está? — Soraia sorriu, simpática. — Estes são Kaled, o nosso primogênito, e Laila, nossa pequena. — Linda! — Minha mãe disse, sorrindo para a pequenina. — Esta é Nádia, trabalhará conosco por algum tempo e o seu filho, Noah — apresentou Aziz, olhando para Kaled. — Salaam Aleikum — cumprimentei. — Essalam — retribuiu Kaled, desconfiado, incomodado. — Estudarão juntos, então seja bom com ele — disse Soraia. — Sim, senhora. Estou saindo! — Kaled disse, cumprimentando todos brevemente e deixando a casa. — Ele me deixou ajudar, senhora… — falei, olhando para Soraia. — A senhora me permite também? — Tão jovem e já querendo trabalho? Abençoado seja! — Riu Soraia. — Pode sim, ao fim do dia pagarei com um doce. — Não trocam doces no mercado! — falei, decepcionado pelo ingrato soldo. — Noah, é uma gentileza! — Minha mãe explicou, corando. — Por quê? Se trabalho preciso de algo que troquem, não é!? — perguntei. — Não trocam gentileza por comida! — reclamei. — Menino… quantos anos você tem? — Soraia perguntou-me. — Daqui a pouco, oito — respondi, olhando-a. — Nossa, muito esperto! — Ela pasmou, boquiaberta, como se eu tivesse falado algum absurdo, o que me deixou confuso. — Bobo ele não é! — Gargalhou Aziz. — Bons soldados são fortes desde cedo! — falei algo que ouvi. — Menino, de onde ouviu isso? — Soraia intrigou-se. — Dos tios. Uma história de um soldado forte que resistiu a muitas coisas quando pequeno e quando cresceu, se tornou alguém de prestígio no exército. — expliquei. — É boa. — Nossa. Então quer ser um soldado? — Queira Allah que não! — disse minha mãe. Não respondi, é claro, afinal era meu sonho! — A sedução começa cedo, estão em todos os lugares no Irã. — Minha mãe disse, com chateação no semblante. — Estou perplexa! Compreendo porque veio e fico feliz! — É complexo, mesmo com todos os esforços, ainda tinham contato com Noah. Consegui fazê-lo parar de repetir alguns dos maiores absurdos, mas há outros que não foram esquecidos. Com fé, o tempo dissolverá! — Minha mãe disse, solene. — Felizmente, as tarefas domésticas estão em dia. — Soraia disse, mudando o assunto. — Mostrarei os cômodos e me ajudam. — Se precisar, posso cozinhar! — Minha mãe ofereceu-se. — Agradeço. Ajudará muito. Ficarei um pouco, mas hoje vamos ao médico… exames de rotina. Chegaremos para o almoço. — Sim, senhora. Agradeço por me deixar trazê-lo. Ela sorriu, levantou e seguiu conosco para nos mostrar a cozinha, a sala de jantar, a sala de estar e outros cômodos. Ajudei na sala de estar, onde Laila ficou sentada, me olhando. Aziz saiu para trabalhar e não tardou para Soraia sair com Laila, ficando somente eu e minha mãe na sua casa. Somente ao terminar com a sala, fui à cozinha encontrar minha mãe. Ela limpava a louça do café aparentemente. — Prefere cozinhar ou limpar? — perguntei, juntando-me. — Cozinhar é bom… e você, o que prefere? — Não tenho preferência, então limparei e a senhora fica na cozinha! — Sorri, tirando dela uma risada. — Estamos combinados! Assim seguimos o dia. Voltamos à noite e encontramos Logan saindo. Ele cumprimentou-nos, eu retribuí e entrei para organizar a refeição, poupando minha mãe — que ficou conversando com Logan — de tamanho trabalho. Terminando de lidar com a refeição, fui ao quarto, preparar a roupa para o banho e logo minha mãe chegou. — Vamos nos banhar. Fui um dia e tanto de serviço! — Sim, senhora. Separei a roupa e preparei a refeição. — Nossa. Meu filho já é um homem feito! — elogiou ela. Fiquei acanhado, mas segui ao banheiro. Após o banho, comemos, conversamos um pouco e nos recolhemos. *** Os dias seguintes seguiram o mesmo padrão, mesmo encontrar Logan toda noite ao chegar, virou parte da rotina. Minha mãe não teve sorte nas buscas por emprego, então para ajudar, eu caminhava pelo bairro oferecendo-me para qualquer trabalho, desde lavar carros a passear com cachorros. Conheci alguns dos rapazes e moças da minha idade, mas eu não tinha o menor interesse em ter amigos, afinal, a prioridade era conseguir ajudar minha mãe e amizade consome tempo! Tivemos audiências para lidar com os meus documentos, para o meu desprazer foi fácil e rápido. Logo, reconheceram-me como um americano. O que significou que precisaria ir à escola. A possibilidade chateou-me muito, afinal, dedicar tempo ao colégio diminuiria o tempo disponível para trabalhar. Eu me tornaria como os outros, um inútil com uma desculpa! Recebi ajuda de algumas moças junto a Soraia e minha mãe, para chegar ao colégio com um inglês melhor. Felizmente, aprender sempre foi fácil. Sempre fui um sobrevivente e sobreviventes aprendem! *** O primeiro dia de aula foi infernal. Eu estava acostumado com uma vida regrada e o caos do colégio abalou as minhas estruturas mentais. Fui preparado para lidar com muito, mas nada me preparou para chegar num lugar com dezenas de crianças barulhentas, m*l-educadas e maldosas! Nós, asiáticos, estávamos em maior número no bairro e consequentemente no colégio, mas entre as crianças, havia uma divisão — que entendi como gangues! — até mesmo entre nós. Conheci algumas crianças segregadas, mestiças como eu; mas não tinha intenção de misturar-me com ninguém. O ano transcorreu e mantive-me afastado de qualquer possibilidade de amizade. Claro, algumas meninas trocaram coleguismo comigo. Elas eram mais fáceis de lidar, organizadas e não estavam procurando confusão a todo momento. Isto inevitavelmente despertou a perseguição dos rapazes.
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