Logan destrancou o apartamento.
— A locação na América é com todos os móveis dentro, caso não esteja acostumada. Tem um quarto, uma sala, um banheiro, uma cozinha e uma área de serviço, apesar da lavanderia no subsolo de uso coletivo — disse ele, entrando na casa.
Chegamos na sala e era grande.
As paredes eram claras, a cozinha americana foi estranha, afinal ainda não tinha sequer ouvido falar.
Tudo estava coberto com plástico escuro e apagado.
Logan abriu as cortinas, testando todas as luzes conforme passava pelos interruptores nas paredes.
— A passagem de ar é boa, apesar de ser o primeiro andar. Os vizinhos de cima são idosos, não incomodam. Precisará comprar uma cama para o menino, afinal o quarto tem uma cama de casal. Isto é, se quiser uma maior privacidade, é claro!
— Dormimos juntos. É o hábito! — Minha mãe respondeu.
— Não há problemas na calefação. O aquecedor está bem, caso precise. Dias gelados virão, logo, compre agasalhos. Temos água quente em toda a casa e um triturador, como é de praxe em lares americanos — disse ele, apertando um botão próximo à pia.
O alto som emitido quase tirou o meu coração do peito!
— Não conheço! — disse minha mãe, recuperando-se do susto mais rápido que eu. — Se lido com isso, sem aviso, morro!
— Com o tempo acostumará — disse Soraia, rindo. — Posso ensinar sobre estas coisas enquanto estiver trabalhando conosco.
— Agradeço, será de imensa ajuda! — Minha mãe suspirou.
— Tudo nos conformes. Comumente são trinta dólares semanais, mas no início de vida, posso abater para quinze! — Ele sorriu. — Se tiver problemas, avise imediatamente. Estou ao lado e temos telefone. O meu número pessoal e o número do meu trabalho são os primeiros na lista junto a outros emergenciais.
— Obrigada novamente. É agradável! — Minha mãe ajoelhou-se na minha frente e me deu um beijo na ponta do nariz.
Tirei o dinheiro do bolso e a entreguei.
— Obrigada, meu amor. — Ela acariciou o meu rosto. — Quitarei dois meses e cuidarei da comida, agasalhos e tudo mais.
— Uma mulher preparada! — elogiou ele, rindo.
— Ah! O amor nascendo — brincou Soraia. — Precisamos de vinho para brindar o adeus à vida de apátrida e comemorar o recomeço. — Soraia disse, feliz, saindo e deixando a porta aberta.
— Que seja uma boa e feliz vida para nós. — Minha mãe bem-disse, com olhar esperançoso na minha direção.
— Será, minha mãe! — concordei.
— Não duvide! — Logan disse, sorrindo. — Enquanto a nossa amiga busca o vinho, tiramos os plásticos dos móveis. Eu ajudo.
Minha mãe assentiu e ambos começaram a trabalhar.
Logan saiu por alguns instantes e trouxe produtos de limpeza e eu encarreguei-me de limpar enquanto ele e a minha mãe lidavam com as tarefas que eu não podia executar.
Algumas coisas causaram estranheza, como o banheiro ou a estranha forma como cozinha e sala ligavam-se, mas nada disse.
Apenas limpei aquilo que tinha convicção que sabia o que era.
Quando Soraia chegou, pude ouvir do quarto! Eles fizeram o seu brinde e conversaram, apesar de a Soraia ser a mais audível.
— Noah, sua mãe vai ao mercado! — Minha mãe disse, alto.
— Quer ajuda? — perguntei, indo em sua direção.
— Não precisa. Pode ficar só alguns instantes?
— Posso. Continuo limpando as coisas — assenti.
Ela beijou-me na testa e saiu com eles. Voltei às minhas tarefas. Pouco antes de terminar, Logan e a minha mãe chegaram.
Logan carregava caixas e minha mãe carregava a nossa mala e uma travessa que tinha algo com um ótimo cheiro dentro.
— Não precisaremos cozinhar hoje! — comemorou ela.
— Preciso de banho… o banheiro é estranho! — falei, rindo.
— Ajudo, aprendi um pouco como funciona.
— Voltarei para casa, se precisar de algo, chame! — Logan disse para minha mãe. — O mesmo serve para você, rapaz.
— Obrigado, senhor.
Ele sorriu, nos cumprimentou e saiu.
Minha mãe fechou a porta e fomos ao banho.
Terminando, tivemos a refeição e sentamos na sala. Ela serviu-se com uma taça de vinho, deitei a cabeça no seu colo para ficar olhando-a.
Aquele rito que realizávamos todas as noites, diferiu e, claro, foi melhor. Não havia violência, não estávamos com medo e isto foi o que me deu o relaxamento necessário para cochilar.
***
Quando acordei, estava na cama e a minha mãe ainda dormia.
Olhei pela janela e o sol m*l nascera. Dada a impossibilidade de tomar banho, fui até a mala para dobrar e guardas as roupas. Assustei-me com ela levantando sobressaltada, olhando ao redor.
— Mãe!? Está bem? — perguntei, indo até ela.
— Noah… — Ela suspirou, aliviada. — Como está? Bom dia.
— Bem… lidando com as roupas. É frio, mas não como o mar.
— Hoje trabalharei, mas você vem. Precisa se comportar.
— Sim, senhora. Machucarão a senhora de novo? — Preocupei-me. — Não quero que te machuquem!
— Não vão, não se preocupe. Apenas limparei, cozinharei…
— Isso também sei fazer, posso ajudar!
— Se Soraia deixar, eu deixo. Não saia de perto, tudo bem?
— Pedirei para ela deixar. — Sorri para ela.
— Seu charmoso lindo! — Ela beijou-me na testa. — Deixe-me ajudar com as roupas também!
Voltamos à mala e com a sua ajuda foi ainda mais rápido.
— Não tomei banho, preciso aprender como usa aquilo — falei quando terminamos com as roupas.
— Ajudo! Enquanto não aprende, tomamos banho, juntos, diariamente. — Sorriu ela, seguindo comigo ao banho.
Lidamos com a refeição ao terminar o banho e fomos à rua.
Rumo à casa de Soraia, onde Aziz estava regando o jardim.
— Bom dia. Cheguei para o trabalho. — Minha mãe disse.
— Ótimo! — Ele acenou, receptivo. — Bem-vindos de novo. Dormiram bem?
— Fui uma ótima noite de sono! — Ela respondeu. — É um problema Noah ficar comigo durante o trabalho?
— Contanto que se comporte, não! — disse ele, me olhando.
— Quero ajudar a minha mãe com o serviço, posso? — pedi.
— Sabe ajudar!? — Ele indagou, descrente, entrando.
— Sim. É só trabalho doméstico, não!?
— Então ajude, oras! — Aziz brincou, rindo.
Comemorei em meu íntimo e entramos.
Soraia estava na sala com uma menina com idade aproximada da minha no colo e um rapaz mais velho, arrumado, com uma mochila nas costas.
— Bom dia! — cumprimentou minha mãe.
— Olá, como está? — Soraia sorriu, simpática. — Estes são Kaled, o nosso primogênito, e Laila, nossa pequena.
— Linda! — Minha mãe disse, sorrindo para a pequenina.
— Esta é Nádia, trabalhará conosco por algum tempo e o seu filho, Noah — apresentou Aziz, olhando para Kaled.
— Salaam Aleikum — cumprimentei.
— Essalam — retribuiu Kaled, desconfiado, incomodado.
— Estudarão juntos, então seja bom com ele — disse Soraia.
— Sim, senhora. Estou saindo! — Kaled disse, cumprimentando todos brevemente e deixando a casa.
— Ele me deixou ajudar, senhora… — falei, olhando para Soraia. — A senhora me permite também?
— Tão jovem e já querendo trabalho? Abençoado seja! — Riu Soraia. — Pode sim, ao fim do dia pagarei com um doce.
— Não trocam doces no mercado! — falei, decepcionado pelo ingrato soldo.
— Noah, é uma gentileza! — Minha mãe explicou, corando.
— Por quê? Se trabalho preciso de algo que troquem, não é!? — perguntei. — Não trocam gentileza por comida! — reclamei.
— Menino… quantos anos você tem? — Soraia perguntou-me.
— Daqui a pouco, oito — respondi, olhando-a.
— Nossa, muito esperto! — Ela pasmou, boquiaberta, como se eu tivesse falado algum absurdo, o que me deixou confuso.
— Bobo ele não é! — Gargalhou Aziz.
— Bons soldados são fortes desde cedo! — falei algo que ouvi.
— Menino, de onde ouviu isso? — Soraia intrigou-se.
— Dos tios. Uma história de um soldado forte que resistiu a muitas coisas quando pequeno e quando cresceu, se tornou alguém de prestígio no exército. — expliquei. — É boa.
— Nossa. Então quer ser um soldado?
— Queira Allah que não! — disse minha mãe.
Não respondi, é claro, afinal era meu sonho!
— A sedução começa cedo, estão em todos os lugares no Irã. — Minha mãe disse, com chateação no semblante.
— Estou perplexa! Compreendo porque veio e fico feliz!
— É complexo, mesmo com todos os esforços, ainda tinham contato com Noah. Consegui fazê-lo parar de repetir alguns dos maiores absurdos, mas há outros que não foram esquecidos. Com fé, o tempo dissolverá! — Minha mãe disse, solene.
— Felizmente, as tarefas domésticas estão em dia. — Soraia disse, mudando o assunto. — Mostrarei os cômodos e me ajudam.
— Se precisar, posso cozinhar! — Minha mãe ofereceu-se.
— Agradeço. Ajudará muito. Ficarei um pouco, mas hoje vamos ao médico… exames de rotina. Chegaremos para o almoço.
— Sim, senhora. Agradeço por me deixar trazê-lo.
Ela sorriu, levantou e seguiu conosco para nos mostrar a cozinha, a sala de jantar, a sala de estar e outros cômodos.
Ajudei na sala de estar, onde Laila ficou sentada, me olhando.
Aziz saiu para trabalhar e não tardou para Soraia sair com Laila, ficando somente eu e minha mãe na sua casa.
Somente ao terminar com a sala, fui à cozinha encontrar minha mãe. Ela limpava a louça do café aparentemente.
— Prefere cozinhar ou limpar? — perguntei, juntando-me.
— Cozinhar é bom… e você, o que prefere?
— Não tenho preferência, então limparei e a senhora fica na cozinha! — Sorri, tirando dela uma risada.
— Estamos combinados!
Assim seguimos o dia.
Voltamos à noite e encontramos Logan saindo.
Ele cumprimentou-nos, eu retribuí e entrei para organizar a refeição, poupando minha mãe — que ficou conversando com Logan — de tamanho trabalho.
Terminando de lidar com a refeição, fui ao quarto, preparar a roupa para o banho e logo minha mãe chegou.
— Vamos nos banhar. Fui um dia e tanto de serviço!
— Sim, senhora. Separei a roupa e preparei a refeição.
— Nossa. Meu filho já é um homem feito! — elogiou ela.
Fiquei acanhado, mas segui ao banheiro. Após o banho, comemos, conversamos um pouco e nos recolhemos.
***
Os dias seguintes seguiram o mesmo padrão, mesmo encontrar Logan toda noite ao chegar, virou parte da rotina.
Minha mãe não teve sorte nas buscas por emprego, então para ajudar, eu caminhava pelo bairro oferecendo-me para qualquer trabalho, desde lavar carros a passear com cachorros.
Conheci alguns dos rapazes e moças da minha idade, mas eu não tinha o menor interesse em ter amigos, afinal, a prioridade era conseguir ajudar minha mãe e amizade consome tempo!
Tivemos audiências para lidar com os meus documentos, para o meu desprazer foi fácil e rápido. Logo, reconheceram-me como um americano. O que significou que precisaria ir à escola.
A possibilidade chateou-me muito, afinal, dedicar tempo ao colégio diminuiria o tempo disponível para trabalhar.
Eu me tornaria como os outros, um inútil com uma desculpa!
Recebi ajuda de algumas moças junto a Soraia e minha mãe, para chegar ao colégio com um inglês melhor.
Felizmente, aprender sempre foi fácil.
Sempre fui um sobrevivente e sobreviventes aprendem!
***
O primeiro dia de aula foi infernal.
Eu estava acostumado com uma vida regrada e o caos do colégio abalou as minhas estruturas mentais. Fui preparado para lidar com muito, mas nada me preparou para chegar num lugar com dezenas de crianças barulhentas, m*l-educadas e maldosas!
Nós, asiáticos, estávamos em maior número no bairro e consequentemente no colégio, mas entre as crianças, havia uma divisão — que entendi como gangues! — até mesmo entre nós.
Conheci algumas crianças segregadas, mestiças como eu; mas não tinha intenção de misturar-me com ninguém.
O ano transcorreu e mantive-me afastado de qualquer possibilidade de amizade. Claro, algumas meninas trocaram coleguismo comigo. Elas eram mais fáceis de lidar, organizadas e não estavam procurando confusão a todo momento.
Isto inevitavelmente despertou a perseguição dos rapazes.