O encontrão
Vanessa Heart
Segura o elevador!
Gritei, mas ninguém me ouviu.
Corria para conseguir chegar antes que o elevador se fechasse e consegui no último segundo.
Está vazio??
Pensei enquanto entrava em uma velocidade incontrolável. Isso era bom, porque acelerei tanto no desespero para entrar, que eu não conseguiria parar o meu corpo, até colidir com a parede interna do elevador.
Caramba, vai doer! Fechei os olhos, aguardando a colisão, com o rosto voltado para o lado, não queria quebrar o nariz.
Acertei algo relativamente macio, dentro do elevador, ao mesmo tempo em que as portas se fechavam atrás de mim.
Encarei o tecido de linho cinza e senti um perfume delicioso bem no nariz. Levantei o olhar, totalmente desconsertada, notei que eu não estava sozinha.
Levantei mais o olhar hesitante para ver os olhos mais azuis que eu já tinha visto na vida. Eles estavam no rosto do homem mais bonito que eu já vi.
Neste momento, senti tristeza. Por tudo o que vivi esta noite, e que me fez chegar atrasada a ponto de quase partir a cara no espelho do elevador da empresa onde trabalho.
Os olhos azuis percorreram o meu rosto, pareciam demonstrar seriedade demasiada, o que me constrangeu.
_ Me desculpa _ soei a lamento, minha voz saiu como se eu suspirasse em um choro. Minha tristeza se estampou no meu rosto, fiquei constrangida e desviei o olhar.
Ainda estava estatelada sobre o homem que agora percebi que me segurava nos braços, minhas mãos apoiando no espelho, também o segura, prendendo-o.
_ Você está bem? _ sua voz é rouca e máscula, estremeci ao ouvi-lo.
Mas o que está acontecendo comigo?
Minha zanga me move finalmente e me apoio em minhas próprias pernas e me recomponhou.
_ Sim. Eu realmente sinto muito _ mordo o canto do lábio inferior sentindo a maior vergonha que já senti na vida.
O loiro não tira os olhos de mim, parece preocupado comigo, ou acha que eu sou louca e neste caso, deve preocupar-se consigo mesmo.
Mas observo que ele não desce no próximo andar, apenas me olha, me olha...
_ Por que toda a pressa? _ pergunta afinal.
_ Estou muito atrasada. Provavelmente serei demitida.
_ Você se atrasa sempre?
_ Nunca me atrasei.
_ Ah, creio que o seu chefe irá entender.
_ Você não conhece o meu chefe _ neguei e contraí os lábios em uma expressão negativista.
_ Se é tão r**m assim, por que você vacilou?
_ Não pude evitar. Essa foi a pior noite da minha vida _ murmurei.
Chegamos ao décimo primeiro andar sem ninguém entrar no elevador, isso era um milagre. Milagre este que me deu dez minutos, já que o elevador levava vinte para chegar ao meu andar, quando pegava pessoas no percurso.
_ Boa sorte, senhorita?
_ Vanessa Heart. Obrigada, senhor?
_ Yan Desire _ sua expressão era firme quando disse, a porta do elevador se fechou, e eu não me movia.
O nome dele era o nome da empresa! Estive com o dono da empresa dentro do elevador! Pior ainda, caí em cima dele!
Aí, meu Deus! E as coisas só melhoram.
Caminhei direto para a sala do meu chefe. O meu fim era eminente. O senhor Tavares precisava de mim para tudo o tempo todo. A coisa era tão extrema que no dia que ele faltasse eu ocuparia o lugar dele com louvor. Mas eu não tinha o seu cargo, era somente a sua secretária.
Quando entrei, ele falava ao telefone, esperei diante da sua mesa, observando-o. Como eu imaginei, o senhor Tavares estava vermelho de raiva, seu olhar sobre mim, deixava isso cristalino. Abaixei o olhar resignada, de hoje eu não passava. Acho que salvei o meu nariz no elevador, mas de qualquer forma eu quebraria a cara agora.
_ Sim, senhor Desire.
A menção do nome me fez levantar o olhar de novo. Reparei que depois o meu chefe desligou.
_ Está atrasada.
_ Desculpa, senhor Tavares. Isso não irá se repetir nunca mais. Eu prometo.
_ Estaria na rua, senhorita Vanessa. Não pense que não.
_ Eu entendo, senhor.
_ Volte para o seu trabalho.
_ Sim, senhor _ me apressei para a minha mesa e comecei o meu dia duas horas atrasado.
Que milagre, fez o meu chefe recuar na decisão?
O dia foi corrido. Ralei para conseguir por ordem nos papéis e compensar o meu atraso. Em resumo, pedi comida e fiquei no escritório durante o meu horário de almoço. Tudo bem, porque eu precisava do trabalho para me distrair.
Nem acredito que não chorei. Até agora não derramei uma única lágrima. Mas doeu e ainda doía.
Como isso foi acontecer comigo?
Fernando, meu namorado desde a época do colégio, me traía. Eu nunca desconfiei. Jamais teria descoberto se não fosse o celular que esqueci na casa dele ontem depois do trabalho. Encontrei Alma, a sua vizinha da frente, grudada nele pela boca, assim que entrei pela porta da frente.
O chão sumiu dos meus pés. É difícil acreditar que algo tão duradouro não era sólido. E a minha reação? Nada. Apenas peguei o meu celular e saí da casa dele o mais rápido que pude.
Terminou. É claro que terminou. Mas eu não disse. Não tive o gostinho de lhe jogar na cara o quanto ele era canalha. E eu não sei porque não fiz. Será que achei que não valia a pena. O meu estresse, a minha saliva, o meu karma?
Vai ver, foi porquê eu estava cansada do sexo mais ou menos, dos rompantes de fúria, das mudanças de humor, da sua falta de dinheiro pra tudo, das divergências de opinião, da solidão a dois, das mesmices rotineiras e da falta de evolução. Ele continuava o mesmo de sempre e exigia que eu fosse assim também. Mas tudo muda. Eu mudei.
No entanto, eu soei a lamento quando falei com o meu chefão no elevador. Esse foi o meu primeiro contato humano depois do ocorrido. Passei a noite inerte, olhando para o grande vazio da minha vida. Perdi a hora, por não ter carregado o celular que permaneceu na minha mão até eu colocá-lo na bolsa antes de sair de casa.
A inconstância das coisas me preocupa, mas me tranquiliza. Era r**m ter sido enganada por tanto tempo, mas eu descobri e estava em um mundo novo. Um mundo feito de mudanças.
Acho que tenho que mudar ou estou mudando...
Isso é aterrorizante!
As quatro e meia, tenho tudo o que o senhor Tavares me pediu. Acomodo a grande pilha entre meus braços e caminho até a sala do meu chefe, que está aberta. Pouso sobre a sua mesa.
_ Senhor Tavares, está tudo aqui.
Parando de olhar o seu notebook, olha para a pilha de papéis e examina as pastas.
_ Muito bem _ poem de volta em pilha. _ Sobe até a cobertura. O senhor Desire faz questão que você lhe entregue isto pessoalmente. _ volta a prestar atenção no monitor e me ignora a partir daí.
Nervosa, começo a divagar sobre o que poderia ter levado o chefão a prestar atenção em mim. Caminho para o elevador, obedecendo. Um andar acima está a cafeteria e no próximo, a temida e desejada cobertura e lugar dos chefes de verdade. A equipe com o melhor salário do prédio trabalha aqui.
Já se nota a diferença ao sair do elevador, os espaços são amplos as salas devem ter paredes externa de vidro, eu presumo ao ver a tal parede em todos os ambientes livres.
Caminho pelo longo corredor procurando por algo que me dê uma pista sobre a sala certa. Chego a uma ilha no fim do corredor, é feita de uma mesa de mármore em forma de círculo incompleto e dentro está uma ruiva de cabelos brilhantes que fala ao telefone. Sorri ao me vê caminhar para ela e sem parar o que faz me aponta a porta atrás do círculo aonde está. A última sala do corredor. Aceno com a cabeça, retribuindo o sorriso, e dou três toques na porta entreaberta antes de ouvir um "entre" em tom impaciente.
Entro examinando o lugar. Estou em uma sala ampla com duas paredes de vidro, vejo o céu ao redor, e atravesso outra porta totalmente aberta para encontrar o homem sobre o qual caí pela manhã, em sua mesa. A sua sala e maior e atrás dele há uma parede de vidro, atrás dela um jardim maravilhoso.
_ Senhor Desire.
Faz um gesto com a mão para que eu me aproxime e indica a cadeira. Parece muito interessado nos papéis. Pouso sobre a sua mesa. Ele examina pasta por pasta. Pacientemente sentada, espero que ele chegue até a última.
_ Você está a par de todos esses dados, Vanessa?
Pisco feito boba ao ouvir o meu primeiro nome dito na sua voz rouca, uma onda de calor irradia pelo meu corpo a partir da minha barriga aquecendo os arredores.
_ Sim _ engulo a poça de saliva que se formou na minha boca não sei bem quando _ Eu mesma coletei os dados e fiz as planilhas, senhor Desire.
Ah, esse nome! Esse nome, meu Deus! Como lhe caí bem esse nome! Suspiro pegando de volta uma das pastas sobre mesa e começo a me abanar. Ele passa o olhar atento sobre a última pasta que pegou, mas assim que nota o meu calor, desvia a sua atenção para mim por um instante, me examina, e logo volta ao último papel da pasta.
_ Preciso de você em uma reunião amanhã cedo _ pousa a pasta sobre as outras.
_ Precisa de mim? _ repito e ponho a pasta que eu tinha, de volta.
_ Desesperadamente _ seu olhar sobre mim ao dizer isso, me causa um arrepio de temor. Parece um nível de desespero que eu não sei se reconheço.
Junto os lábios como se fosse dizer algo por uns segundos, mas desisto e suspiro resignada e querendo colaborar _ Estou as suas ordens _ retiro o lápis que prende o meu cabelo em um coque no meio da cabeça e levo diretamente a boca que abro e o mordo de lado. Meu cabelo despenca sobre meus ombros. O olhar azul do loiro pousa e fixa nos meus lábios.
Se reclina na cadeira para trás e desliza a parte inferior do corpo para frente, como se oferecesse. Olha em meus olhos e eu engulo de novo.
_ Obrigada.
Ensinuei um sorriso, mas estou nervosa _ Não há de que.
_ Está dispensada.
Levantei ao ouvir, acenei a cabeça e fiz o caminho até a porta.
_ Ah, Vanessa _ olhei para trás por cima do ombro para vê-lo me olhando e me ajeitei virando-me completamente para ele _ Não se atrase _ exigiu.
Balancei a cabeça afirmativamente, antes de voltar para a minha mesa e pegar minha bolsa. Passava das cinco, eu estava de saída.
_ Esteve na sala do poderoso chefão? _ meu colega André, brinca.
Afirmei pensativa e voltei a morder o lápis relembrando, meu olhar procura pelos indicadores de andar se iluminando la em cima.
_ Sério? _ percebe que acertou _ E como é?
_ Alto _ digo lembrando como tive que levantar os olhos para vê-lo, naquele elevador mesmo a poucas horas.
_ Alto!? _ repetiu.
Desconsertada, tiro o lápis da boca e enfio na bolsa, corrijo _ Quis dizer amplo _ fixo nos olhos castanhos do André.
Ele se perde no meu rosto com uma expressão de estranheza _ Você está bem?
_ Fui traída _ desabafei.
Descrença no seu olhar e ele baixou o olhar para o meu corpo, parando um segundo, pensando, antes de voltar para os meus olhos.
_ Quer tomar uma cerveja?
Sabia que o André era o maior pegador do escritório, poucas escaparam do seu radar. Mas não me atraía.
_ Tenho reunião bem cedo _ era verdade, mas também uma desculpa perfeita. Sei que eu transaria com qualquer um agora. Só pra estravasar. Isso era imprudente e perigoso.
A porta do elevador abre no quarto andar, algumas pessoas saem duas entram.
Andre me abraça acolhedor e beija minha testa. Segura o meu queixo e nos entreolhamos.
_ Você está bem?
Faço que sim com a cabeça.
_ Se precisar, me liga.
Depois de passar a mão pelo meu cabelo, ele desce no primeiro andar.
Desconsertada com todo esse afeto que ele nunca demonstrou antes, procuro me situar e olho ao redor encontrando aquele par de olhos azuis em um cenho franzido, diretamente sobre mim. Fico tensa imediatamente, mas não consigo desviar o meu olhar do dele. É Yan Desire. Parece aborrecido comigo.
A porta abre no térreo e eu desço. Uma loira está ao seu lado e conversa com ele que acompanha o meu sair do elevador, sinto o seu olhar e viro a cabeça para trás, vejo o seu olhar fixo sobre mim quando a porta do elevador se interpõe entre nós.
No subsolo tem o estacionamento. É para onde ele vai e de onde veio, pela manhã.