O seu olhar me perturbava.
Em meio as muitas coisas em que preciso pensar, está essa lembrança que leva o meu juízo com a pergunta "porque ele parecia tão zangado?".
Cheguei em casa, sedenta.
Tirei o sapato ao lado da porta e caminhei direto para a pia ao entrar, nem vejo nada no caminho. Bebo um copo cheio d'água, e quando me apoiei na pia e levantei o olhar, Fernando estava diante de mim.
Com o susto, o copo foi para o chão e se espatifou nos meus pés. Os estilhaços, em farpas, perfuraram a minha carne em vários machucados. Um deles era um corte.
_ Mas que droga!!!
Vejo e sinto o meu pé, mas a minha irritação por ver o Fernando alí, é muito maior que a dor.
_ Você precisa me ouvir _ exige.
_ Agora?! Depois que você passou a noite toda com ela? _ gargalhei sarcástica.
_ Te juro que não estava com ela, benzinho.
_ Eu não tenho mais saco para isso, Fernando. Devolve as chaves! _ estendi a mão e ele obedeceu hesitante.
_ Nêssa, dá uma chance? _ implorou com o olhar.
Analisei a cena, eu aqui com os pés cheios de farpas de vidro, e o infeliz só pensa em si mesmo tendo que viver sem otária que eu fui.
_ A sua Nêssa morreu ontem na sala da sua casa, Fernando. Ela não existe mais.
Peguei as chaves e esperei ele fechar a porta atrás de si. Só aí fui ver o que eu podia fazer sobre os meus pés vitimizados.
Primeiro, peguei o paninho da pia e me agachei, sem tirar os pés do lugar. Passei o pano no chão, juntando dos cacos ao pó de vidro, com cuidado. Joguei na lixeira que encontrei no caminho para o sofá. Sentada, tirava os cacos e farpas do meu pé direito, mas antes coloquei o meu celular para carregar.
O visor do meu celular acendeu e ele começou a carregar de verdade na tomada ao lado do sofá. O corte mais fundo estava acima do pé.
Que sorte! Poderei usar salto amanhã.
Pode parecer besteira, mas uma secretária que acompanha alguém como Yan Desire pode ser demitida se não estiver a sua altura.
É ridículo que um terço do meu salário do mês tenha que ser gasto em roupas para evitar a minha demissão. A roupa deveria ser um gasto da empresa. Mas eu não diria isso em voz alta, nunca.
Continuei a operação no outro pé. Neste, nem teve corte fundo. Respirei aliviada afinal. Fui direto para o chuveiro.
Fiz os curativos e só então pude comer algo.
O meu pensamento flutuou de novo.
Seu olhar aborrecido, deve ter algo a ver com a loira ao seu lado.
Então, porque ele olhava para mim?
Devia estar evitando olha-la, e fixou o olhar em mim porque... Eu sou dispensável e ela não.
Fim do mistério, consegui comer sem pensar nele.
Ouço toques na porta e já sei quem é, me apresso em atender. Daniela a minha vizinha do fundo da rua me sorri com um refratário nas mãos.
_ Advinha quem veio jantar?
Sorrindo, lhe dou um beijo compartilhado no rosto e ela passa por mim, vai para a cozinha. Fecho a porta e a sigo pra ajudar. Tiro um vinho que pus na geladeira na manhã anterior e nos sirvo para acompanhar o escondidinho que ela trouxe.
Prato vazio, taça cheia. Hora da conversa que eu sei que é o real motivo da Daniela estar aqui.
_ Como você está?
_ Posso ser sincera?
_ Estou aqui pra isso.
_ Aliviada. Vamos ser sinceras? O Fernando era uma roubada.
_ Claro que era, Nessinha _ me abraçou por cima da mesa _ Você é linda e merece coisa muito melhor.
Bebemos mais, e eu busco os bombons de chocolate que sempre escondo de mim mesma no alto do armário. Coloco sobre a mesa e nos servimos de chocolate e vinho.
Logo, Daniela se vai e eu, escovo os dentes e vou me deitar.
Caminhei levemente nervosa para o elevador. Segurei o celular na mão e só agora o ligo. Não sei como fiquei vinte e quatro horas sem ele, e não morri. Mas estou super bem e viva. Entro no elevador lotado.
Isso sim é a minha rotina.
Muitos entram e saem, e vou me colocando mais para o fundo, para facilitar a vida dos outros, afinal o meu andar hoje é o último. O elevador abre e fecha, o tempo vai passando e eu estou encostada no espelho ao fundo, com a cara enfiada no celular, quando noto o perfume delicioso, e meus olhos buscam pelo seu dono, involuntariamente.
Encontro o mesmo lindo rosto sério de antes. Seus olhos sobre mim me deixam nervosa, insinuo um sorriso, que tenso, vira o leve morder lateral do meu lábio inferior. Seu olhar desce pelo meu rosto antes de voltar para os meus olhos.
_ Bom dia, Vanessa.
_ Bom dia _ respondo bem baixo.
_ Está preparada?
_ Na verdade, eu não sei se é uma boa ideia. O que o senhor quer de mim?
Seu olhar corre pelo meu rosto, passeia pelo meu pescoço e ombros. Ele volta ao meu rosto e ao meu olhar. Move a cabeça com um gesto e suspira... Aquilo foi impaciência?
_ Dados, Vanessa. Você falará o que sabe na reunião de hoje. Pode fazer isso?
Ponderei _ Eu falo muito bem _ dei um riso interno, uma ironia.
_ Então, vai se sair bem _ a porta abriu e ele me empurrou levemente para fora dela.
O elevador estava vazio e eu nem tinha visto mais nada ao meu redor durante a nossa conversa. Sua mão pousa em meu ombro durante o percurso todo até a sala de reuniões.
Assim que entramos, muitos olhares estão sobre nós e eu sinto que vou fraquejar. A mão, ainda sobre o meu ombro, aperta de leve e desenha círculos perto da minha nuca. Estremeci buscando o seu rosto que se afastou de mim antes, junto com sua mão.
Sentamos e a reunião começa. Muitas coisas foram discutidas antes do Yan pedir os dados do mercado e seu atual crescimento. Nervosa, a princípio, pois todos mantinham a atenção sobre mim, falei sobre o quadro geral.
Perguntas foram feitas e as respondi facilmente, acrescentei a minha opinião baseada no que eu sabia bem, pois aquilo era o meu trabalho havia um ano, mas o meu nicho de trabalho sempre fora esse, negócios e exportação.
Ao fim da reunião todos começaram a conversar entre si e pareciam animados, comecei a organizar os papéis de volta nas pastas. O meu trabalho havia terminado.
Quando fechei a última pasta uma grande mão se pôs sobre a minha. Levantei o olhar para o sorriso do Yan e eu sei que fiz uma cara de i****a, embora tenha contraído os lábios para minha boca não entreabrir. Que sorriso era esse! O tipo de sorrisos que derrete até iceberg no ártico.
Mantive o meu olhar no dele.
_ Parabéns, Vanessa _ abriu mais o sorriso _ Você foi ótima!
_ Obrigada _ falei baixo juntando as pastas para devolvê-las ao arquivo.
_ Fique aqui _ ordenou e eu larguei as pastas colocando as mãos sobre o meu colo.
Esperei até todos terem ido. Só restava eu na sala quando a ruiva veio até mim.
_ O senhor Desire a aguarda na sala _ me informou e saiu.
Caminhei até lá e entrei sem bater já que a porta estava aberta. Sentei diante do seu olhar atento.
_ O senhor me chamou?
_ Tenho uma proposta pra você. Preciso que seja minha secretária.
_ O que tenho que fazer?
_ Vai ter que viajar comigo. Essa é a única diferença daquilo que você já faz para o senhor Tavares.
_ Estou livre para viajar _ coloquei o meu ponto.
_ Isso é um sim?
Parecia um sonho. Eu iria trabalhar para o chefe de fato, ganhar mais, viajar... Meu Deus!
_ Sim, claro.
_ Pode começar, guardando as pastas no arquivo _ pegou o celular _ Nos encontramos no subsolo em quinze minutos.
_ Para onde vamos?
Sorriu da minha pergunta, boba _ Almoçar, é claro.
_ É claro _ concordei patéticamente.
Encontrei com o André no elevador. Só nós dois, que estranho! Parece que ninguém almoça neste horário por aqui. Olho no visor do celular e é quase meio dia. Lembrando de como o André foi simpático da última vez que o vi, mudei a bolsa de braço pra servir de barreira entre nós.
_ Para onde vai _ sorri.
_ Almoço de negócios _ suposição totalmente minha. Afinal, não havia outro motivo para o Yan Desire me levar com ele.
_ O senhor Tavares não saiu para almoçar.
Sorri _ Eu subi de nível.
Incredulidade no seu rosto _ Não me diga! _ ri e me abraça pela cintura, feliz por mim _ Que boa notícia. A porta abre no subsolo e somos surpreendidos aos risos por ninguém menos que Yan Desire.
Nós nos recompomos e desfazemos a cara de riso.
_ Até mais, Nêssa _ André diz ainda sorrindo quando aperta o botão depois que eu saio.
_ Seu namorado? _ Yan faz uma cara estranha ao perguntar.
_ Colega. Eu não tenho namorado _ digo como se isso fosse uma sentença de vida.
Tenho certeza de que empinei o queixo orgulhosa, quando disse. Vi quando os lábios de Yan se contrairam em um quase sorriso. O que era engraçado?
Isso me irritou, mas deveria ser engraçado mesmo. Eu iria rir de mim agora, se fosse há uma semana atrás.