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– Você tem o seu próprio banheiro. Ela indica, com a cabeça, uma porta à esquerda. — E este é o seu quarto.
Ela abre a última porta. O interior ainda está completamente escuro, até que puxa uma cordinha e o cômodo se ilumina.
O quarto é minúsculo. Não há outra forma de definir. Além disso, o teto é inclinado, acompanhando a estrutura do telhado. O lado mais baixo chega à altura da minha cintura. Em contraste com o quarto principal dos Finch, este espaço comporta apenas uma cama de solteiro, um guarda-roupa e uma cômoda pequena, iluminados por duas lâmpadas penduradas no teto. Diria que tudo foi pensado para caber dentro daquele cômodo modesto, mas, para mim, está mais do que bom. Se fosse luxuoso demais, eu sequer teria chance de conseguir o emprego. O fato de o quarto ser tão simples talvez signifique que os padrões dela sejam baixos o suficiente para que eu tenha uma chance, ainda que ínfima.
Há, contudo, algo a mais naquele cômodo. Algo que começa a me incomodar.
– Desculpe, é um tanto pequeno. A Sra. Finch faz uma careta.
— Mas você vai ter muita privacidade aqui.
Caminho até a única janela. Assim como o restante do quarto, ela é pequena, pouco maior que a minha mão. Não tem vista nenhuma. – Então, o que você acha, Jasmine? Gostou?
Afasto-me da janela e encaro o sorriso da Sra. Finch. Ainda não consigo definir o que está me causando esse desconforto. Há algo nesse quarto que forma um medo profundo em meu âmago.
Talvez seja a janela. Não dá para ver nada. Se algo acontecesse e eu tentasse chamar atenção, ninguém conseguiria me ver aqui. Eu poderia gritar, berrar, esgoelar, e não seria ouvida.
Mas quem estou querendo enganar? Eu teria sorte se morasse neste quarto. Preciso me lembrar do meu objetivo. Um banheiro só para mim e uma cama de verdade, onde eu possa esticar minhas pernas. Aquela cama dura minúscula do meu apartamento, comparada a isto, chega a me fazer vontade de chorar.
– É mais que perfeito.
A Sra. Finch começa a rir de forma descontrolada, como se tivesse enlouquecido. Meu coração dispara.
– Garota boba… como poderia sobreviver num quarto desses? Eu estava apenas brincando.
Ela me conduz de volta pela escada escura até o primeiro andar. Ao sair dali, solto o ar que nem percebi estar prendendo. Sorrio, contida, aliviada. Há algo profundamente assustador naquele quarto, mas, pelo emprego, eu me acostumaria. Fácil.
– Este é o seu quarto. Ela abre uma porta que eu sequer havia notado, escondida na área de serviços da cozinha. A tensão deixou o meu corpo.
Meus ombros relaxam, e meus lábios já estão formando outra pergunta quando uma voz se ergue atrás de nós.
– Já terminou?
Paro imediatamente. Ao me virar, deparo-me com a voz, e o olhar, da senhora Margot. Pergunto-me de onde ela surgiu. Ela me encara como se pudesse enxergar dentro de mim. Atravessar a minha alma.
Sabe aqueles filmes sobre seitas bizarras, povoadas por pessoas assustadoras que parecem ler mentes, adorar o d***o ou algo assim? Pois é. Essa velha parece ter saído direto de um desses filmes. E nem precisariam fazer um teste com ela.
– Senhora Margot! Reage a Sra. Finch, pela primeira vez. — Eu vou conversar com ele. Derick sabe que eu estou doente. Não tenho me sentido bem nos últimos dias, preciso de uma empregada! Gritou, quase sem fôlego.
A senhora encarou a nora, mas nada disse. Permaneceu imóvel, feito uma estátua, observando-a de cima abaixo, o semblante fechado e intimidante.— Alguma dúvida, Jasmine? Pergunta ela, ainda sem dirigir o olhar a mim.
— Não, Sra. Finch.
Ela estala a língua.
— Por favor, me chame de Susie. Você vai trabalhar aqui; eu me sentiria ridícula se ficasse me chamando de Sra. Finch o tempo todo. Ela ri, leve. — Como se eu fosse uma velha decrépita.
— Pode deixar… Susie.
O rosto dela parece brilhar, a pele tão sedosa quanto impecável.
— Tenho bons pressentimentos, Jasmine. É difícil não me deixar contagiar pelo entusiasmo dela.— Pode ir conhecer seu quarto agora. Não irei acompanhá-la. E, quanto antes puder começar, melhor.
Assenti. Ela se virou totalmente para me olhar; abri um sorriso tímido e entrei no cômodo.
Fechei a porta e deslizei até o chão, encostando-me à madeira finíssima. Fechei os olhos por alguns segundos, pedindo a Deus que ela não desistisse de mim. Embora Susie seja simpática, a sogra não é. Ela pode muito bem fazer a cabeça do filho.
Depois de me acalmar da opressão que parece rondar essa casa, levantei-me para conhecer o meu quarto de fato.
Ao contrário do outro, que parecia obscuro, este é um pouco mais elegante. Uma cama mais confortável, um guarda-roupa maior, paredes pintadas de branco e uma poltrona na cor marrom.
Aproximei-me da cama, sentindo a maciez do colchão e o cheiro maravilhoso de floral.
Soltei uma lufada de ar pesada. Apesar de ter sido gentil, se posso dizer algo sobre Susie é que ela não é nada burra.
Ela não vai contratar uma mulher para trabalhar e morar na sua casa sem antes fazer uma verificação básica. E quando ela fizer…
Engulo um nó na garganta.
Susie vai me dar um chute no traseiro.
Depois de inspecionar o quarto e o banheiro, saio dele por fim. Preciso ir buscar as minhas poucas coisas…
Assusto-me com a Sra. Finch parada na porta.– Muito obrigada por ter vindo e aceitado, Jasmine. Ela estende a mão para apertar a minha. – Não se preocupe com o Sr. Finch. Vou conversar com ele. Se importa de esperar a minha ligação? Só para preparar o meu marido, para que ele não surte com a sua presença. O emprego já é seu, de toda forma.
Franzi a testa e concordei.
Essa vai ser a última vez que vou pisar nesta casa. Nunca deveria ter vindo, para início de conversa. Deveria ter tentado um emprego que tivesse alguma chance de conseguir, em vez de desperdiçar meu tempo aqui.
Despedi-me da Sra. Finch. E só agora, passando pelo belíssimo jardim, percebo que não há outros empregados na casa.
Saio pelo portão eletrônico e olho para trás uma última vez. Na janela da casa, lá está, a senhora Margot, me observando.
Senti algo estranho. Ela balançou a cabeça, quase imperceptível, demonstrando seu desagrado.
Mas a palavra final era da Sra. Finch. Dane-se a senhora Margot. Eu preciso desse emprego.