Capítulo 3

1531 Words
Jasmine: E aqui estava eu, sentada diante de duas mulheres. Uma senhora que aparentava estar na casa dos sessenta anos, Margot Finch, sogra da mulher mais jovem ao seu lado, Susie Finch, que parecia estar nos seus trinta anos. A senhora, de feição cerrada, mantinha um ar nitidamente intimidador. Analisei suas roupas: um vestido branco, ajustado e impecável, sem um único fiapo fora do lugar, contrastando com o scarpin de salto mediano. O rosto exibindo uma maquiagem leve, e os cabelos negros, marcados por alguns fios grisalhos, presos em um coque alto, elegante e perfeitamente alinhado. — Acho que já deixei tudo bem claro no anúncio. Agora, fale sobre você, Jasmine. Susie inclinou-se levemente à frente no sofá de couro preto, as pernas cruzadas revelando parte dos joelhos que surgiam sob a saia de seda branca. Não entendo de marcas, mas era evidente que tudo o que ela vestia era absurdamente caro. A blusa branca de bolinhas despertou em mim o impulso de estender a mão para sentir o tecido, embora um gesto desses fosse, sem dúvida, suficiente para destruir qualquer possibilidade de contratação. Para ser franca, eu não tinha qualquer chance de ser contratada, considerando que menti em cada linha do currículo. — Bem… Comecei, escolhendo cada palavra com extremo cuidado. — Eu cresci no Austreet. Mais uma mentira! A senhora Margot torceu a boca em desgosto.— Tive muitos empregos realizando tarefas domésticas para diversas pessoas, como a senhora pode ver no meu currículo. Era uma mentira, eu sabia. Meu currículo fora cuidadosamente adulterado. Mas eu precisava sair daquele bar antes que algo realmente r**m me acontecesse. — E eu amo crianças. Trabalhei um tempo como babá. O anúncio on-line para empregada não mencionava crianças ou animais de estimação, mas eu precisava dar o meu melhor para garantir aquele emprego. Novamente, a senhora Margot torceu a boca. Dessa vez, ela deixou evidente seu desagrado. Eu torcia para que não fosse ela quem daria a palavra final. — Não há animais nesta casa, muito menos crianças. A mulher do meu filho é vaidosa demais para isso. Declarou a senhora, rude e cortante. Olhei para senhora Finch sem saber o que responder, mas talvez minha expressão demonstrasse meu arrependimento sincero. — Peço desculpas, eu não quis… Antes que eu terminasse, a senhora Finch me interrompeu. — Não há problemas, querida. Deus ainda não agraciou a mim e ao senhor Finch. Ela enfiou uma mecha de seu cabelo loiro, dourado e brilhante atrás da orelha, claramente tentando disfarçar o nervosismo. Os fios batiam na altura do queixo, num corte elegante channel, que acentuava com precisão a estrutura de seu rosto. Ela me observou por alguns segundos, como se estivesse me avaliando. Minha aparência seguia na direção oposta à dela. Eu era mais de dez anos mais nova que a mulher sentada à minha frente, e precisava evitar qualquer possibilidade de que ela se sentisse ameaçada. Para a entrevista, escolhi uma saia comprida de lã e uma blusa cinza de mangas bufantes. Meus cabelos negros estavam presos para trás em um coque austero. Eu precisava parecer profissional, e absolutamente nada atraente. Quando terminou sua avaliação silenciosa, a senhora Finch soltou um suspiro pesado e disse: — Então, o trabalho. Ela começou, com firmeza. — É basicamente cuidar da limpeza e cozinhar um pouco, se estiver disposta. Você cozinha bem, Jasmine? — Sim, sei fazer várias coisas. Minhas habilidades na cozinha eram a única parte do meu currículo que não era mentira. Ter trabalhado num restaurante e de meio período no café, ao menos, me rendeu alguma experiência real. — Sou uma excelente cozinheira. Os olhos azuis da senhora Finch se iluminaram. — Que ótimo! Quase nunca comemos uma boa comidinha caseira. Ela riu de leve. — Quem tem tempo para isso? Eu a julguei, mas engoli qualquer resposta. A sogra, ácida e rude, disparou: — É uma preguiçosa. Não trabalha, não faz nada! Como pode não ter tempo para cuidar da própria casa e preparar uma refeição para o marido? Gritou, furiosa. — Só sabe gastar e gastar. Meu filho precisa discipliná-la. A senhora Finch mordeu os lábios e apertou as mãos, nervosa. Perguntei-me por que ela não rebatia, o porquê não colocava a sogra em seu devido lugar. Mas ela apenas respirou fundo e, com um sorriso forçado, levantou-se. Ainda assim, ao observar a expressão raivosa da sogra, concluí que Susie Finch devia ser uma dessas riquinha mimada. Não que eu a estivesse julgando, afinal, eu não sabia nada sobre sua vida. – Me siga, Jasmine. Por favor. Vamos conhecer a casa, o emprego é seu. Contive-me ao máximo para não dar pulos e saltos mortais de felicidade. Enquanto a senhora Finch discorre sem pausa sobre a casa e sobre as preferências do senhor Finch, permito-me um instante para observar ao redor da sala. A mobília é inteiramente ultramoderna, com a maior televisão de tela plana que já vi, e não tenho dúvidas de que seja um aparelho de alta definição, acompanhado de alto-falantes surround embutidos em todos os cantos do ambiente, garantindo uma experiência sonora impecável. Na extremidade da sala há o que parece ser uma lareira em pleno funcionamento, com a cornija repleta de fotografias do casal Finch em viagens por diversas partes do mundo. Ao erguer o olhar, percebo que o teto absurdamente alto resplandece sob a luz de um lustre cintilante, que parecia refletir o meu reflexo. – Você não acha, Jasmine? Pergunta a Sra. Finch. Pisco, aturdida. Tento buscar na memória e recuperar a pergunta que me escapou por completo. – Claro. Respondo, hesitante. Seja lá com o que eu tenha concordado, ela parece satisfeita. – Estou tão feliz que você pense assim também. – Com certeza. Digo com mais firmeza desta vez. Ela se volta parcialmente para mim e, mantendo o passo elegante pelo corredor, acrescenta: – E, claro, há a questão do pagamento. Você viu a proposta no anúncio, certo? É um valor aceitável para você? Engulo em seco. O valor no anúncio é mais do que aceitável. O dinheiro, na verdade, quase me impediu de me candidatar. Alguém oferecendo tanto, vivendo numa casa como esta, certamente não pensaria em contratar alguém como eu. Mas eu lidaria com isso depois. O que eu queria, a qualquer custo, era me livrar da humilhação que carregava no emprego atual. – Sim. Respondo, com a voz um pouco mais contida. — Está ótimo. Ela arqueia uma sobrancelha. – E você sabe que é preciso morar aqui, certo? Ela provavelmente quer confirmar se, para mim, tudo bem abandonar o muquifo do meu apartamento. – Claro. Sei, sim. – Maravilha. Continua, andando com elegância. — Espero que não se arrependa. As outras não gostaram muito da ideia de dormir no emprego. E minha preferência sempre foi por alguém jovem, com disposição. Eu a observo. Mesmo de salto alto, a Sra. Finch tem apenas alguns centímetros a mais do que eu nos meus tênis, mas transmite a impressão de ser muito maior. – Por mim, está ótimo. A Sra. Finch me conduz por um tour minucioso da casa, a ponto de eu temer ter lido o anúncio errado, talvez ela fosse uma corretora presumindo que eu estivesse pronta para comprar um imóvel. De todo modo, é uma casa belíssima. Se eu tivesse quatro ou cinco milhões de dólares, eu a compraria. Além do térreo, que contém a gigantesca sala de estar e uma cozinha que parece recém-reformada, no segundo andar fica o quarto principal dos Finch, o escritório do Sr. Finch e um quarto de hóspedes que caberia todo o meu apartamento dentro. Ela faz uma pausa diante da porta seguinte. — E aqui é… Abre bem a porta. — Nosso cinema! É um cinema de verdade dentro da casa deles, além da televisão gigantesca no térreo. A sala possui diversas fileiras de poltronas, voltadas para uma tela que vai do chão ao teto. Há até mesmo uma máquina de pipoca no canto. — Não é perfeito? Ela quase estremece de alegria. — E nós temos uma biblioteca completa de filmes para escolher. Claro, também temos todos os canais básicos e os serviços de streaming. — Claro. Depois que saímos da sala de cinema, chegamos a uma última porta no final do corredor. Susie faz uma pausa, com a mão na maçaneta. — Este é o meu quarto? Pergunto. — Não, estou apenas mostrando toda a casa para que você fique familiarizada… Ela gira a maçaneta, que range ruidosamente. Não posso deixar de notar que a madeira desta porta é muito mais pesada do que a das outras. Atrás dela, há um lance de escadas mergulhado na escuridão. — Seu quarto fica na porta ao lado. Próximo à entrada do sótão. Ele foi recém-reformado. Mas não vamos subir até lá. Ela abre a porta ao lado, revelando uma escada escura e estreita, um contraste ínfimo diante do restante da casa. Custaria tão caro assim colocar uma lâmpada ali? Mas, é claro, eu sou a empregada. Não posso esperar que gastem comigo o mesmo que investiram na sala de cinema. Ao chegar no topo da escada, observo que há um corredor estreito. Ao contrário do primeiro andar, o teto aqui é baixo.
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